crítica, poesia, tradução

Villiers de l’Isle-Adam (1838 – 1889)

Auguste_de_Villers_de_L'Isle-AdamFoi uma figura excêntrica a de Jean-Marie-Mathias-Philippe-Auguste, conde de Villiers de l’Isle-Adam (1838 – 1889). Como o personagem Des Esseintes do romance Às Avessas, de Joris-Karl Huysmans, Villiers descendia de uma aristocracia francesa decadente, cujo “sangue havia se degenerado em linfa”, como diria o narrador de Huysmans. Acho que já explica muita coisa sobre as influências a que ele esteve submetido durante sua criação que o seu pai tivesse “investido” muito do seu dinheiro para tentar salvar a fortuna dos l’Isle-Adam ao procurar pelo tesouro perdido dos Cavaleiros de Malta que teria sido enterrado pelos seus antepassados – o que acabou, por ironia, só piorando as condições financeiras da família por ele ter fracassado nessa empreitada que para todo mundo (menos ele) deveria ser claramente quixotesca. Sustentado pela tia, Villiers frequentou a cena boêmia de Paris, onde ganhou uma pequena reputação nos círculos literários. No famoso café/cabaré/teatro Brasserie des Martyrs (ativo até hoje, por sinal, e rebatizado Le Divan du Monde), Villiers conheceu seu mestre Baudelaire, que lhe apresentou à obra de Edgar Allan Poe – dois nomes que foram uma grande influência sobre o seu estilo poético. Seu primeiro volume de poemas, Premieres Poésies, sai em 1859. Fez tanto sucesso quanto a gente pode imaginar que tivesse feito.

Em 1871, porém, morre a tia de Villiers, e ele se vê, como poderíamos dizer em mau francês decalcado, dans la rue de l’amertume. Sem o sustento financeiro da família e sem uma carreira que pudesse lhe render dinheiro, ele sobrevive fazendo bicos, e ao que parece chega até a sugerir cobrar pelo espetáculo de recitar os seus poemas para a plateia dentro de uma gaiola de tigres – uma informação que, tudo bem, eu não pude bem confirmar e que até agora me parece difícil de julgar se se tratava ou não de uma piada (Villiers era um poe-baudelairiano, afinal de contas, e muitos de seus contos são críticas irônicas ao estilo de vida moderno). Sua fama literária cresce – ele ganha entre seus admiradores nomes como Stéphane Mallarmé e J. K. Huysmans, que o elogia no supracitado Às Avessas, publicado em 1884, e tem poemas seus inclusos também no volume dos Poètes Maudits publicado por Verlaine no mesmo ano. Nada disso melhora a sua situação financeira, no entanto, e ele morre na miséria, de câncer de estômago, em 1889, deixando uma obra que consiste de poemas, contos (dos quais se destacam os seus Contos Cruéis, que tem tradução para o português) e romances (como A Eva Futura, que também temos em tradução) e peças de teatro, a mais famosa sendo o seu Axël.

Axël, ao qual Villiers dedicou 20 anos de sua vida, é provavelmente também a sua obra mais representativa – é dela que parte a famosa fala “Viver? Os criados farão isso por nós”, que parece resumir muito bem o seu tom geral. A princípio, notavelmente, uma peça de teatro (no sentido de que você folheia as páginas e vê as marcações de falas de personagens), o crítico Edmund Wilson define Axël como um “longo poema dramático em prosa”, uma definição que parece absurda, mas que se revela bastante precisa quando você pensa na peça dentro do seu contexto. O século XIX foi rico em poemas dramáticos, especialmente os chamados dramas líricos ou dramas “de armário” – obras que se valem da estrutura dramática, mas com propósitos não tanto narrativos quanto líricos, mais transmitindo e sugerindo sensações, ideias e emoções do que preocupados em contar uma história coesa. Muitas dessas peças não foram feitas para serem encenadas, ainda que potencialmente encenáveis (ou de fato encenadas) atualmente, como é o caso do Fausto de Goethe (sobretudo a completa viagem que é a segunda parte), o Prometeu Desacorrentado de Shelley e o Manfred de Byron. Ao mesmo tempo, as tendências do teatro estavam tomando outros rumos, tendendo para a comédia e o melodrama (em prosa), o que fazia desse tipo de poesia algo que poderíamos enxergar como deliberadamente anacrônico. No caso de Axël, no entanto, eu diria que o seu uso da prosa em vez do verso deriva mais de uma apropriação do gênero poema em prosa promovido por Baudelaire do que de uma vontade de adequação ao palco – o que fica muito claro pelo tipo de linguagem carregada, causadora de estranhamento, empregada aqui por Villiers. Somando as duas coisas – o drama lírico com o poema em prosa – tem-se, então, acredito, o tal longo poema dramático em prosa sem maiores dificuldades.

Frédéric Brou - Ébauche d'un monument à la mémoire de Villiers de L'Isle-Adam

Frédéric Brou – Ébauche d’un monument à la mémoire de Villiers de l’Isle-Adam

O enredo de Axël diz respeito ao personagem que dá nome à peça, Conde Axël de Auërsperg, um nobre rosacruciano de uns vinte e poucos anos, morador de um castelo “meio wagneriano, meio gótico” na Floresta Negra, que se dedicava ao estudo da alquimia e do hermetismo. Seu guia nas doutrinas ocultas, o Mestre Janus, estava prestes a revelar-lhe os mistérios da filosofia hermética, quando ocorre que um homem desagradável chamado o Comendador Kaspar, primo de Axël, chega até ele com o intuito de procurar pelo tesouro que teria sido escondido décadas antes no terreno do castelo pelo pai de Axël (qualquer semelhança com a vida do próprio Villiers…). Quando o Comendador encontra o que procura, Axël o confronta, revela o seu desdém pelo seu estilo burguês de vida e o desafia para um duelo de espadas, em que o Comendador termina morto. Num enredo paralelo a esse, uma francesa chamada Sara de Maupers, uma órfã criada em convento a vida inteira, abandona a igreja na hora fatídica de ter de assumir o véu e, em sua fuga vem parar também no castelo, onde pede abrigo. Só que ela, ainda no convento, havia tido contato com um livro, escrito pela esposa do falecido Conde de Axël, a única pessoa que sabia do segredo do castelo, e Sara, na calada da noite, desce até a cripta para encontrar o tal tesouro. Axël a surpreende, no entanto, e há novamente um confronto, mas que termina com os dois subitamente se apaixonando um pelo outro: “pela primeira vez, esses dois espíritos castos e altivos encontram um objeto digno de sua paixão”. Os dois fazem planos do que poderão fazer com todo aquele ouro e joias, todo o luxo, todos os lugares aos quais poderiam viajar… planos que eles prontamente descartam, porque a realidade não poderia jamais dar conta da expectativa criada pela imaginação, uma conclusão que parece ecoar em espírito a do poema em prosa baudelairiano “N’importe où hors du monde”, ou o capítulo de Às Avessas em que Des Esseintes, inspirado por Dickens e Poe, decide ir a Londres, vai até a estação de trem, janta e observa os ingleses, se lembra de uma outra viagem anterior frustrada à Holanda, e de repente desiste de viajar, porque novamente a expectativa não poderá ser cumprida pela realidade.

Por fim, remetendo a um Liebestod wagneriano (Villiers era um grande fã do compositor alemão, a quem chegou a prestar uma visita em 1869), a peça se conclui com a morte dos dois protagonistas, que decidem se suicidar enquanto raia a alvorada – e Liebestod aqui é uma palavra das mais pertinentes porque, lembremos, a canção de Isolda em Wagner é um canto de morte (fatalmente ferida, ela morre logo depois), mas também é um êxtase e do tipo sexual (muitas vezes, aliás, descrita como um, ou mais de um, orgasmo), com a culminação de todo o desejo sublimado e jamais concretizado carnalmente na reunião enfim os dois amantes na morte. Poderíamos falar inclusive numa inversão dos recursos wagnerianos, já que Tristão e Isolda encontram  o amor por acaso via o efeito de uma poção do amor (um filtro ou amavio, para usar os termos arcaicos) que os dois tomam juntos pensando ser veneno.  Em Äxel, porém, os protagonistas encontram o amor e por isso tomam o veneno – prescindindo, portanto, dos desenvolvimentos dos atos 2 e 3 da ópera de Wagner que postergam a reunião do amor-na-morte. Há uma renúncia à concretização amorosa: o ápice da experiência de Axël e Sara foi a fagulha do encontro fortuito, e levar o relacionamento a cabo só poderá trazer o esgotamento e o embotamento dessa experiência transformadora (pois “Amor?… – chama, e, depois, fumaça”, já disse o Manuel Bandeira). A única solução “lógica” para eles, então, (muitas aspas, claro, nesse “lógica”) seria o suicídio.

Estruturalmente, Axël se divide em 4 partes. Na primeira, “O Mundo Religioso”, temos a introdução da personagem de Sara e a sua renúncia. No momento em que o Arcediago pergunta “Tu aceitas a Luz, a Esperança e a Vida?”, Sara responde com um não enfático. A segunda parte, “O Mundo Trágico”, é quando a ação se volta para o castelo de Axël propriamente dito, e se completa o arco narrativo do subenredo do Comendador (por isso é o trecho “trágico”, com esse desfecho que parece remeter, talvez, a Hamlet). A terceira parte, “O Mundo Oculto”, espelha a primeira: o Mestre Janus faz a Axël a mesma pergunta que o Arcediago fez a Sara, e ele responde que não, igualmente. Sara surge no final desse trecho, e a quarta e última parte, “O Mundo Passional”, é onde temos o encontro noturno dos dois e a cena do suicídio, sorvendo veneno de uma taça. Axël nunca encontrou uma versão definitiva enquanto Villiers ainda estava vivo, e, apesar de trechos terem sido publicados em revistas literárias, ao que tudo indica, ele ainda estaria fazendo revisões nela à época de sua morte, e a primeira edição completa só veio a ser publicada em 1890. O título do influente ensaio de Edmund Wilson, O Castelo de Axël (1931), que trata da literatura moderna partindo de uma discussão sobre o simbolismo francês, se refere à peça, que recebe a atenção do autor no capítulo final do livro.

Eu gostaria, então, de compartilhar com vocês aqui no escamandro um trecho da seção final dessa peça assombrosa. Ouvir ao trecho do Liebestod “Mild und leise” do Tristão e Isolda durante a leitura é opcional, porém recomendado.

A tradução foi feita pela professora Sandra Stroparo, da UFPR – especialista em simbolismo francês e que recentemente completou um trabalho de doutorado impressionante sobre as cartas de Mallarmé – , e publicada em 2005 pela Editora da UFPR. Ela também já traduziu um dos contos de Villiers na edição H da revista Arte & Letra: Estórias (2009-2010). O texto original integral de Axël pode ser baixado em .pdf clicando aqui (o trecho reproduzido abaixo começa na página 261).

(Adriano Scandolara)

 

AXËL
Vês o mundo exterior através de tua alma: ele te ofusca! Mas ele não pode nos dar uma só hora comparável, em intensidades de existência, a um segundo destas que acabamos de viver. A completude real, absoluta, perfeita, é o momento interior que nós experimentamos um do outro, no esplendor fúnebre deste túmulo. Este momento ideal, nós o degustamos: ei-lo portanto irrevogável, com qualquer nome que o nomeies! Tentar revivê-lo, modelando, cada dia, a sua imagem, um grão de poeira, sempre decepcionante, de aparências exteriores, seria apenas arriscar desnaturá-lo, diminuir sua impressão divina, anulá-lo no mais profundo de nós mesmos. Estejamos atentos para não sabermos morrer enquanto ainda haja tempo para isso.
Oh! o mundo exterior! Não sejamos os tolos do velho escravo, acorrentado a nossos pés, na luz, e que nos promete as chaves de um palácio de encantamentos, enquanto só esconde, em sua negra mão fechada, um punhado de cinzas! Há pouco falavas de Bagdá, de Palmira, que sei eu? de Jerusalém. Se soubesses que amontado de pedras inabitáveis, que solo estéril e ardente, que ninhos de bestas imundas são, na realidade, estas pobres vilas, que te aparecem, resplendentes de lembranças, no fundo deste Oriente que levas em ti mesma! E que tediosa tristeza te causaria meu aspecto!… Vai, tu as imaginaste? É suficiente: não as olhes. A terra, eu te digo, é inflada como uma bolha brilhante, de miséria e de mentiras e, filha do nada original, estoura ao menor sopro, Sara, daqueles que se aproximam dela! Distanciemo-nos dela, completamente! em um sobressalto sagrado!… Tu o queres? Isto não é uma loucura: todos os deuses que a Humanidade adorou o realizaram antes de nós, certos de um Céu, do céu dos seus seres!… E eu concluo, por seus exemplos, que nós não temos mais nada a fazer aqui.

SARA
Não! É impossível!… Isto não é mais verossímil! É antes inumano que sobre-humano! Meu amante! perdoa! Eu tenho medo! Tu me dás vertigem. Oh! eu defenderei a vida! Imagina! morrer – assim? Nós, jovens e plenos de amor, senhores de uma opulência soberana! belos e intrépidos! radiosos de inteligência, de nobreza e de espíritos! O quê! nesse momento? Sem ver o sol, ainda uma vez – e dizer-lhe adeus! Imagina! É tão terrível!… Queres – amanhã? Talvez, amanhã, eu estarei mais forte, não me pertencendo mais!

AXËL
Ó minha bem-amada! Ó Sara! Amanhã eu serei prisioneiro de teu corpo esplêndido! Suas delícias terão acorrentado a casta energia que me anima neste instante! Mas logo, já que é uma lei dos seres, se nossos transportes forem apagar-se, e se alguma hora maldita deverá soar, onde nosso amor, empalidecendo, dissipado em suas próprias chamas…
Oh! não esperemos essa hora triste. Não é tão sublime nossa resolução que não faz necessário deixar a nossos espíritos o tempo de despertar dela? (Um profundo silêncio)

SARA (pensativa)
Eu hesito: mas é talvez por orgulho, também!… Certamente, se persistes, obedecer-te-ei! Eu te seguirei na noite desconhecida. Entretanto, lembra-te da raça humana!

AXËL
O exemplo que eu lhe deixo vale bem o que ela me deu.

SARA
Aqueles que lutam pela Justiça dizem que – matar-se é desertar.

AXËL
Sentença de mendicantes para quem Deus é apenas um ganha-pão.

SARA
Talvez fosse mais belo sonhar o bem de todos.

AXËL
O universo se entre-devora; este é o preço do bem… de todos.

SARA (um pouco perdida)
O quê? Renunciar a tantas alegrias?… Abandonar este tesouro a estas trevas! Não é cruel?

AXËL
O homem só leva na morte o que ele renunciou a possuir na vida. Na verdade – nós só deixamos aqui uma casca vazia. O que faz o valor deste tesouro está em nós mesmos.

SARA (com uma voz mais surda)
Nós sabemos o que deixamos: não o que vamos encontrar.

AXËL
Nós voltamos, puros e fortes, para o que nos inspira o heroísmo vertiginoso de afrontá-lo.

SARA
Ouves o riso do gênero humano, se em algum momento ele descobrisse a tenebrosa história, a loucura sobre-humana de nossa morte?

AXËL
Deixemos os apóstolos do Riso na rudeza. A vida, todos os dias, se encarrega de lhes fustigar com seu castigo.

(Os primeiros raios da aurora atravessam o vitral)

SARA (pensativa, depois de um silêncio)
Morrer!

AXËL (sorrindo)
Ó bem-amada! eu não te proponho sobreviver-me, tanto estou persuadido de que já não te preocupas mais, em tua consciência, com esta armadilha miserável que chamamos “viver”. (Ele olha em torno, como procurando o punhal com os olhos)

SARA (levantando a cabeça, agora com uma palidez de cera)
Não. Eu tenho neste anel, sob a esmeralda, um veneno fulminante: procuremos uma taça entre as mais belas, entre estas ourivesarias… e que seja feito segundo tua vontade.

AXËL (enlaçando-a nos seus braços e considerando-a em um êxtase sombrio)
Ó flor do mundo! (Depois de um momento, ela a deixa e se dirige para os montes faiscantes do subterrâneo. Sara, enquanto ele remexe as joias e os objetos de ouro, retomou, sobre as tumbas, os grandes colares de diamantes e enfeitou-se em silêncio)

SARA (docemente, para os vitrais)
Que belo sol!

AXËL (voltando e segurando na mão uma taça magnífica incrustada de pedrarias, olha Sara, depois observando-a, e com uma voz doce)
Queres passear na planície, colhendo flores desta primavera? Que alegria sentir o vento da manhã nos nossos cabelos! Vem! nossos lábios se tocarão sobre a mesma primavera!…

SARA (que adivinhou o melancólico pensamento de Axël)
Não. Eu te amo mais que a visão do sol: nossos lábios tocarão suas marcas sobre a borda radiosa desta taça! Eis meu anel… de noiva, também! (Ela tira seu anel familial, aperta a saliência da esmeralda e verte no fundo da taça de Axël os poucos grãos de pó marrom que se encontram no engaste de ouro)

AXËL
O orvalho ainda cai; algumas destas lágrimas claras serão suficientes para dissolver este veneno neste cálice sagrado. (Ele sobe em um sepulcro, perto do respiradouro; e enquanto Sara acaricia, distraidamente, um galgo de mármore, elevando sua mão direita na direção de onde irradia seu cálice trágico, ele passa o braço para fora, através das barras) Assim o céu estará em cumplicidade com nosso suicídio!

(Ao longe, vozes, nas florestas, cantam um canto da manhã: eles ouvem)

CORO DOS LENHADORES (ao longe)
Alegria! alegria!
Sus às grandes árvores cuja morte nos dá o pão!
Ao chegar a manhã, sob as sombras do ouro,
Lenhador, despertador de pássaros, escuta!
O vento, as vozes, as folhas, as asas!
Tudo canta, no fundo dos bosques:
Glória a Deus!

SARA
Tu os escuta? Deus? eles dizem? Eles também, os matadores de florestas!

AXËL
Deixa uma última sílaba cair em paz na alma dos últimos bosques!

SARA (pensativa, como a si mesma)
Eu segurei o machado, também! mas – eu não bati!
(Nas planícies, apelos, fanfarras)

UKKO (ao longe)
Na encosta dos montes floridos
Eis a noiva!
O orvalho, na barra de sua roupa branca,
semeia um bordado de pérolas;
Felicidade eterna para meu jovem amor!
Abaixam-se frente às virgens,
Os olhos de um filho germânico!
Porque seus passos ressoarão sobre a terra.

AXËL
São as crianças que se casam! Pronuncia, para eles, uma palavra de felicidade: algum pensamento vindo de ti, Sara, vai fazê-los, sem dúvida, ainda mais atraentes um para o outro!

SARA (sorridente, virando-se para o respiradouro)
Ó vós, os despreocupados, que cantais, lá longe, na colina… sede benditos!

AXËL (descendo na direção dela)
As luzes desta lâmpada nupcial empalidecem frente aos raios do dia! Ela vai apagar-se. Nós também. (Levantando sua taça) Velha terra, eu não construirei o palácio dos meus sonhos sobre teu solo ingrato: não portarei a chama, não baterei inimigos.
Possa a raça humana, desenganada de suas vãs quimeras, de seus vãos desesperos, e de todas as mentiras que cegam os olhos feitos para se apagar – não consentindo mais no jogo deste enigma morno, sim, possa ela terminar, fugindo indiferente, a nosso exemplo, sem te endereçar nem mesmo um adeus.

SARA (toda faiscante de diamantes, inclinando a cabeça sobre o ombro de Axël e como perdida em um enlevo misterioso)
Agora, já que apenas o infinito não é uma mentira, elevemo-nos, esquecidos de outras palavras humanas, em nosso próprio Infinito!

(Axël leva aos lábios a taça mortal, bebe, estremece e vacila; Sara pega a taça, termina de beber o resto do veneno, depois fecha os olhos. Axël cai; Sara se inclina para ele, arrepia-se, e eis que estão jazendo, entrelaçados, sobre a areia do corredor funerário, trocando sobre os lábios o suspiro supremo. Depois, permanecem imóveis, inanimados. Agora, o sol amarela os mármores, as estátuas; o crepitar da lâmpada e da chama se dissolve em fumaça no raio luminoso que flui obliquamente do respiradouro. Uma peça de ouro cai, rola e ressoa contra um sepulcro como a hora. E perturbando o silêncio do lugar terrível onde dois seres humanos acabam assim de consagrar-si a si mesmos ao exílio do Céu – ouvem-se, de fora, os murmúrios distanciados do vento na vastidão das florestas, as vibrações ao acordar do espaço, a agitação das planícies, o alarido da Vida)

 

(poema em prosa de Villiers de l’Isle-Adam, tradução de Sandra Stroparo)

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4 comentários sobre “Villiers de l’Isle-Adam (1838 – 1889)

  1. Não, Isolda não morre ferida., ninguém a atingiu, nem ela se apunhala. Ela simplesmente morre transfigurada: “Isolde sinkt, wie verklärt, in Brangänes Armen sanft auf Tristans Leiche.”

  2. Adriano: vou deixar registrado aqui que gostei imensamente dessa sua postagem — e que foi só alguns meses atrás que finalmente dei conta da leitura do Axel, justamente na tradução da Sandra — ainda estou devendo uma audição da ópera, e mesmo do trecho aqui linkado. De qualquer forma, parabéns!

    • Valeu, Ivan! Pois é, eu também comprei o volume faz tempo e demorei para ler, mas me empolguei recentemente e a leitura foi numa sentada só. Acho que tenho alguma fascinação pelo decadentismo, ahaha. Um abraço!

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