poesia, tradução

bill callahan (1966)

bill callahan gravando em austin, texas. foto de hanly banks, 2013.

bill callahan gravando em austin, texas. foto de hanly banks, 2013.

bill callahan é um compositor norte-americano nascido em silver spring, em 1966. sua carreira se funde ao nome de smog, banda-de-um-homem-só com que gravou seus primeiros discos entre 1990 e 2005, gravados de maneira artesanal num esquema low-fi. a partir de 2007, com woke on a whaleheart, ele passou a assinar os discos com o próprio nome.

como as composições de callahan tendem ao minimalismo de acordes & arranjos, tudo se volta para a interpretação vocal & a letra. mas ainda aí, a interpretação do canto é simples, muitas vezes beira o monocorde próximo da fala, o que por vezes deixa a impressão de que estamos diante de um poema entoado, mais até do que de uma canção propriamente dita (a ausência de refrão em muitas das músicas reforça essa impressão).

esse é o caso da canção abaixo, “palimpsest”, que abre o disco a river ain’t too much to love (2005), último gravado sob o nome de smog.  a letra brevíssima dá espaço para silêncios — verdadeiros vazios — na interpretação, com um violão discreto. mas são silêncios significativos num modelo não-cagiano, porque aqui eles pressagiam a especificidade de uma paisagem invernal que é recusada pelo sujeito em nome da primavera. a imagem logo  se revela numa fórmula clichê do desconcerto entre indivíduo & sociedade: o poeta é uma ave sulista que ficou tempo demais no norte. aqui, porém, temos jogo importante na inversão da geografia norte-americana, em que as aves fogem para o sul no inverno, mas não para o norte. o desnorteio social do poeta aparece aqui como um norteio geógrafico (restaria perguntar, como tento na tradução, se não seria esse o norte necessário, em alguns casos). por fim, quase uma imagem de haiku, o vento invernal revira o ninho: é necessário partir mais uma vez. não se trata, portanto, do velho dilema romântico do gênio contra a sociedade; mas de uma pergunta introvertida sobre o sentido da identidade: é nesse ponto que retornamos ao título. o que é, afinal, um “palimpsesto”? aqui, tudo sugere que seja a perpétua reescritura sobre o mesmo ser; o indivíduo que não estanca (geográfico-climático-existencialmente) é apagamento via escritura. sobreposição & troca de referências. o desencontro com o outro é, antes, desencontro de si.

guilherme gontijo flores

* * *

Palimpsest

Winter weather is not my soul
But the biding for spring…

Why’s everybody looking at me
Like there’s something fundamentally wrong
Like I’m a southern bird
That stayed north too long

Winter exposes the nest
Then I’m gone

Palimpsesto

Vento e inverno não são meu ser
mas a vida vernal

Por que não param de me encarar
como se houvesse um erro algum
e eu fosse ave do sul
que se norteou

O inverno inverte meu lar
e eu me vou

(trad. guilherme gontijo flores)

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s