poesia, tradução

wallace stevens por danilo augusto

Wallace Stevens

wallace stevens (1879-1955) é uma figura importantíssima do modernismo norte-americano, embora tenha se mantido razoavelmente longe da vida literária & começado sua carreira de poeta bem tarde, com mais de 40 anos, com Harmonium (1923). à obra-prima do primeiro livro, seguiu-se um adendo em 1931, depois vieram os seguintes livros de poesia, Ideas of Order (1936), , The Man with the Blue Guitar (1937), Parts of a World (1942), Transport to Summer (1947) & The Auroras of Autumn (1950). após a sua morte, foram ainda lançados alguns livros: Opus Posthumous (1957) & The Palm at the End of the Mind (1972). por fim, foi encontrado em seu espólio um livro inteiro de 1936 Owl’s Clover, que nunca chegou a ser publicado. stevens ainda publicou 3 pequenas peças de teatro & um livro de ensaios, The Necessary Angel: Essays on Reality and the Imagination (1951), onde podemos perceber seu profundo interesse pela formulação mental da realidade, um tema central da sua poesia.

no brasil, além de traduções esparsas, temos uma antologia, Poemas, traduzida por paulo henriques britto (cia. das letras, 1987). logo abaixo, temos uma introdução feita por danilo augusto seguida pela tradução de três poemas (dois integrais & a primeira parte de um poema longo). danilo augusto (salvador, 1990) e é poeta, ensaísta e professor, é bacharel em humanidades pela UFBA e, atualmente cursa letras na mesma instituição. publicou os livros Poemas (2014), Canto para a morte de Mandela (2013, Ritmo Zero) & Zumbi (2014, Coisa Edições), já publicou poemas próprio aqui no escamandro.

guilherme gontijo flores

 * * *

Os Estados Unidos tem o costume de centralizar seu cânone literário nos espécimes mais disparatados. Penso em Leaves of Grass, pedra de toque da modernidade poética americana e na figura de Whitman, amplamente aclamado como O poeta dos alicerces da liberdade democrática; o que temos? São textos explosivos, carregados de um erotismo exarcebado, com descrições pansexuais detalhadas, posicionando-se contra as instituições e tradição, pregando uma religiosidade profanadora. É, no mínimo, curioso que uma sociedade como a estadunidense tenha centralizado uma figura como Whitman, poeta que passava tardes a assediar soldados feridos em seus leitos hospitalares, dizia querer substituir a bíblia pelo seu livro em eterno progresso e saia, ele mesmo, para vendê-lo de porta em porta.

Wallace Stevens não podia ser mais diferente. É célebre afirmar que não teve vida de poeta. Ele, um abastado corretor de seguros, modesto conservador e um velho, memoravelmente extrapolou uma vez, pelo menos, ao envolver-se numa briga mesquinha com Hemingway de onde saiu com um punho quebrado devido ao soco infelizmente acertado no maxilar do pugilista amador (podemos imaginar Whitman encorajando e lisonjeando Hemingway em um canto íntimo e exaltado). Porém, Whitman e Stevens se estranham no compartilhamento da afirmação canônica destinada àqueles convocados a ocuparem uma posição central em sua nação e era. Stevens é o poeta do cânone conservador americano, assim como Whitman, surrealmente, também o é. Esta posição, vislumbrada ainda em sua idade mais avançada – Stevens é um desses casos grotescos e interessantes do poeta tardio: começou na meia idade, consolidou sua forma depois dos sessenta –, guarda um misto de forças misteriosas e conflitantes, pois nos convida cada vez menos à leitura e nos facilita cada vez mais a antipatia. Mas eu acredito que os dois poetas compartilham intimidades devido a mais do que isso.

Stevens é o poeta do eu. Labor que não o resume nem o resumiu. Porém, vemos uma parte belíssima do seu fôlego poético destinado ao alargamento e talhe (como em pedra, concisa, brilhando negramente) daquilo que Whitman chamou “eu” e, também daquilo que ele chamou “eu mesmo”. Surpresa foi para mim, tardio leitor de Stevens, constatar uma sensualidade que, uma vez desvelada, passa a transbordar em uma autoafirmação e segurança que tanto mais se firma quanto mais parece não estar ali. A modéstia – palavra que aparentou caber tão bem para designar o sem-vida-de-poeta Wallace Stevens, assim como seu contido uso do verso – não coube na minha leitura de seus poemas. Verdade que a diferença é gigante. Stevens mesmo já nega aquela visão, legada por Whitman, do poeta “eternamente em contato com as coisas” transmutando-se em tudo que vê ou experimenta. Stevens não parece passear ou passar por entre as coisas. Há o si e a interioridade e, pelos deuses, isso deve bastar.

Experiência, talvez, seja esta a palavra central (para mim) aquela que me desperta e suspende a surpresa incrédula na leitura de seus poemas. Essa palavra parece dar uma ligadura ao emaranhado ou, talvez mesmo, desvanecimento desse cânone poético americano. Emily Dickinson, Walt Whitman, junto a Wallace Stevens – como faróis a iluminar barcos ou ilhas – às vezes gigantescas ilhas nas quais podíamos nos perder alegremente – e que mesmo assim, são faróis nunca facilmente não vistos. Eles falam da experiência e do eu e como essas duas coisas podem coexistir.

Há outras tradições, certamente.

Tentei sua tradução mais por um exercício de leitura do que uma proposta de. Porém, ela me trouxe alguns resultados de compreensão e juntei, aqui, alguns poemas e passagens de Stevens que, talvez, mostrem esta face que quis expor.

Danilo Augusto

 * * *

Anedota do pote
(de Harmônio, 1923)

Eu dispus um pote sobre o morro,
Redondo, acima do Tennessee
Que fez o ermo maltrapilho
Se alastrar pelo morro.

O ermo emergiu diante dele,
E se esparramou, inerme.
O pote era redondo por cima da terra
Altivo como um porto no ar.

Seu domínio se alastrou.
O pote era cinza e desprovido,
Nada para pássaro ou arbusto,
Diferente de tudo no Tennessee.

Anecdote of the jar
(from Harmonium, 1923)

I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.

The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.

It took dominion every where.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.

Um coelho como rei dos fantasmas
(de Partes de um mundo, 1942)

A dificuldade de pensar ao tardar do dia,
Quando a sombra sem forma cobre o sol
E nada resta exceto luz em seus pelos-

Lá o gato derramava o seu leite o dia todo
Gato gordo, língua vermelha, mente verde,
Leite branco e Agosto o mais calmo dos meses.

Estar, na grama, na mais calmíssima estação
Sem este monumento de gato,
O gato esquecido na lua;

E sentir que a luz é uma luz-coelho,
Onde tudo foi destinado a você
E nada carece de explicação;

Já não há nada a se pensar. Vem-se de si;
E o leste vai ao oeste e o oeste vai abaixo
Não importa. A grama está repleta

Repleta de você. Estas árvores são suas,
O todo da vastidão da noite é seu,
Um eu que toca todas as margens,

Você é um eu que enche os quatro cantos da noite,
O gato vermelho se esconde na luz-pelo
E lá está você arqueando sobre, e mais;

Arqueando mais e mais, negro feito rocha –
Repousa com a cabeça como um talhe no espaço
E o gatinho verde é um besouro na grama.

A Rabbit As King Of The Ghosts
(from Parts of a world, 1942)

The difficulty to think at the end of day,
When the shapeless shadow covers the sun
And nothing is left except light on your fur—

There was the cat slopping its milk all day,
Fat cat, red tongue, green mind, white milk
And August the most peaceful month.

To be, in the grass, in the peacefullest time,
Without that monument of cat,
The cat forgotten in the moon;

And to feel that the light is a rabbit-light,
In which everything is meant for you
And nothing need be explained;

Then there is nothing to think of. It comes of itself;
And east rushes west and west rushes down,
No matter. The grass is full

And full of yourself. The trees around are for you,
The whole of the wideness of night is for you,
A self that touches all edges,

You become a self that fills the four corners of night.
The red cat hides away in the fur-light
And there you are humped high, humped up,

You are humped higher and higher, black as stone—
You sit with your head like a carving in space
And the little green cat is a bug in the grass.

 

As Auroras de Outono
(de Auroras de outono, 1950)

I

Isto é o lar da serpente, a incorpórea.
Sua cabeça é ar. Sob seu bico à noite
Olhos pregados sobre nós em todo o céu.

Ou será outra se esgueirando fora d’ovo,
Outra imagem no fundo da caverna,
Outra incorpórea ao despojo do corpo?

Isto é o lar da serpente. Isto é seu ninho,
Estes campos, morros, distâncias tingidas,
E os pinheiros acima, ao longo e ao lado do mar.

Isto é forma tragando segundo o disforme,
Pele luzindo desvanecimentos desejados,
E o corpo da serpente luzindo sem pele.

Isto é altura emergindo com sua base
Estas luzes podem enfim atracar-se ao polo
Em meio a meia noite e encontrar a serpente,

Em outro ninho, o dono dédalo
De corpo e ar e forma e imagens
Infatigavelmente em posse da felicidade.

Isto é seu veneno: que devemos descrer
Mesmo disso. Suas cismas sob samambaias,
Com movimentos tão finos para garantir o sol,

Fez-nos não menos garantidos. Vimos em sua cabeça,
Ornada negra na rocha, o animal tingido,
A grama movente, o índio em sua senda.

[…]

The Auroras of Autumn
(from Auroras of Autumn, 1950)

I

This is where the serpent lives, the bodiless.
His head is air. Beneath his tip at night
Eyes open and fix on us in every sky.

Or is this another wriggling out of the egg,
Another image at the end of the cave,
Another bodiless for the body’s slough?

This is where the serpent lives. This is his nest,
These fields, these hills, these tinted distances,
And the pines above and along and beside the sea.

This is form gulping after formlessness,
Skin flashing to wished-for disappearances
And the serpent body flashing without the skin.

This is the height emerging and its base
These lights may finally attain a pole
In the midmost midnight and find the serpent there,

In another nest, the master of the maze
Of body and air and forms and images,
Relentlessly in possession of happiness.

This is his poison: that we should disbelieve
Even that. His meditations in the ferns,
When he moved so slightly to make sure of sun,

Made us no less as sure. We saw in his head,
Black beaded on the rock, the flecked animal,
The moving grass, the Indian in his glade.

[…]

(poemas de wallace stevens, trad. de danilo augusto)

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s