poesia, tradução

rené depestre (1926), por ernesto von artixzffski

rené depestre.  foto de oswaldo salas d.r.

rené depestre.
foto de oswaldo salas d.r.

O Depestre é um daqueles caras que nunca vamos entender como pudemos passar tanto tempo sem conhecer. Eu mesmo o descobri assim, por acaso. Nascido em Jacmel, Haiti (1926), foi, por conta de seu idealismo comunista, um exilado constante. Por aqui passou na metade da década de cinquenta (1954-56), hospedando-se em Copacabana, perto do apê do Jorge Amado (que ele conheceu em Praga, junto com Neruda). Conheceu Vinícius de Moraes, por quem se apaixonou. Conheceu também Idelma Ribeiro de Faria, tradutora que organizou uma pequena antologia bilíngue, para a Editora Hucitec, do Depestre, da Dickson e do Eliot. Assim ela descreve o encontro: “Em uma longínqua tarde do ano de 1954 ou 55 (não consigo recordar-me exatamente) conheci René Depestre [..] Esguio, quase frágil, belo, de expressão e voz extremamente suaves, ninguém o julgaria membro de um movimento internacional de esquerda, em atividade no Brasil…”

Em 1958 tentou retornar ao seu país, mas desistiu e partiu pra Cuba onde Che Guevara lhe propôs integrar-se à revolução. Lecionou nas universidades de Havana e Jamaica. Mas quando seu livro Poète a Cuba não recebeu autorização pra ser publicado por conter críticas baseadas em considerações sobre o socialismo autêntico, partiu novamente pra França. Lá, juntou-se à Unesco e em 1982 recebeu a Bourse Goncourt de la Nouvelle, por conta de sua coletânea Alléluia pour une femme-jardin.

Em 1986 deixa Paris e a Unesco e muda-se para Lézignan-Corbière (cidadezinha no sul da França) onde vive até hoje.

Entre seus principais títulos estão, os livros de poesia: Enticelles (1945), Végétations de Clarté (1951), Minerai Noir (1956), Journal d’un animal Marin (1967), Poète a Cuba (1976) e En état de poésie (1980). E os de prosa: Alléluia pour une femme jardin (1981) e Hadriana dans Tous mes Rêves (1988).

Ernesto von Artixzffski  [conferir poemas dele no escamandro]

* * *

Minerai noir
(de Minerai Noir, 1952)

Quand la sueur se trouva brusquement
…………tarie para le soleil
quand la frénésie de l’or draîna au marché la dernière
…………goutte de sang indien
de sorte qu’il ne resta plus un seul Indien
…………aux alentours des mines d’or
on se tourna vers le fleuve musculaire de l’Afrique
…………pour assurer la relève du désespoir
alors commença la ruée vers l’inépuisable trésorerie
…………de la chair noire
alors commença la bousculade échevelée vers le
…………rayonnant midi du corps noir
et toute la terre retentit du vacarme des pioches
…………dans l’épaisseur du minerai noir
et tout juste si des chimistes ne pensèrent aux
…………moyens d’obtenir quelque alliage précieux
avec le métal noir
tout juste si des dames ne rêvèrent d’une batterie
………….de cuisine en nègre du Sénégal d’un service
………….à thé en massif négrillon des Antilles
tout juste si quelque audacieux curé ne promit à sa
…………..paroisse
une cloche coulée
…………dans la sonorité
……………………du sang noir
ou si quelque vaillant capitaine
……………………ne tailla son épée
………………………………dans l’ébène minéral
ou encore si un brave Père Noël
………….ne songea à des petits soldats
………………………………de plomb noir
…………pour sa vie annuelle.
Toute la terre retentit de la secousse des foreuses
…………dans les entrailles de ma race dans
……………………le gisement musculaire
…………………………………………de
………………………………l’homme noir.
Voilà de nombreux siècles
………………………………que dure l’extraction
…………………………………………des merveilles
…………………………………………de cette race.
Ô couches métalliques de mon peuple
minerai inépuisable de rosée humaine
combien de pirates ont exploré de leurs armes
les profondeurs obscures de ta chair
combien de flibustiers se sont frayé leur chemin
à travers la riche végétation de
…………………………………………clartés de ton corps
jonchant tes années de tiges mortes
…………………………………………et de flaques de larmes
Peuple dévalisé peuple de fond en comble retourné
……………………comme une terre
…………………………………………en labours
peuple défriché pour l’enrichissement des grandes foires
……………………………………………………du monde
Mûris ton grisou dans le secret de ta nuit corporelle
…………nul n’osera plus couler des canons
…………et des pièces d’or dans le noir métal de ta colère en crues!

Minério negro

Quando seco pelo sol o suor do índio
…………esgotou-se
quando a febre d’ouro drenou a derradeira
…………gota de sangue índio
varrendo do entorno das minas d’ouro todo Índio
…………nos voltamos ao veio muscular d’África
…………para garantir a emersão da miséria
então começou o assalto à infinda riqueza
…………da carne negra
então começou o desordenado ataque ao
…………radiante esplendor do corpo negro
e toda a terra retumbou ao retinir do alvião
…………na densidade do minério negro
e tudo bem se químicos não pensassem em meios
…………de obter uma preciosa liga
do metal negro
tudo bem se as damas não sonhassem com batedeiras
…………de cozinha em negra do Senegal serviços de chá
…………em maciço negrinho das Antilhas
tudo bem se um pároco audacioso não prometesse à sua
…………paróquia
um sino soldado
…………na sonoridade
……………………do sangue negro
ou se algum valente capitão
……………………não talhasse sua espada
………………………………no ébano mineral
ou ainda se algum bravo Papai Noel
……………………não sonhasse soldadinhos
………………………………em chumbo negro
……………………para sua anual visita.
Toda a terra retiniu ao abalo das brocas
…………na entranhas de minha raça na
……………………jazida muscular
………………………………do
……………………homem negro.
Eis os numerosos séculos que
……………………duram a extração
……………………das maravilhas
……………………desta raça.
Ó tálamos metálicos do meu povo
minério inesgotável do rocio humano
quantos piratas exploraram suas armas
as profundezas obscuras de tua carne
quantos flibusteiros abriram caminhos
pela rica vegetação
……………………de clarezas de teu corpo
espalhando teus anos de troncos mortos
………………………………e poças de pranto
Povo despojado povo todo assim revirado
……………………como a terra
………………………………lavorada
povo devastado para o enriquecimento das grandes feiras
……………………………………………………do mundo
Amadureces teu grisu no segredo de tua noite corporal
…………ninguém mais ousará lançar canhões
…………e moedas de ouro no negro metal de tua cólera em cheia!

Une définition de poésie
(de Poète a Cuba, 1976)
(de Minerai Noir, 1952)A Jorge Amado

La poésie, c’est notre père qui arrive un soir
Sous une pluie torrentielle, et qui nous chante
Une complainte qu’il a composée pour une petite
Cuillère en argent.
Notre père voulait arrêter la pluie de septembre avec une
………..petite cuillère, et la pluie a retourné son esprit comme un
………..vieux pantalon.
La poésie, c’est :
………..Un père haïtien qui perd la raison
………..Pour une petite cuillère mise en chanson
………..Sous une pluie qui pousse avec rage
………..Tout près de notre enfance !

Uma definição de poesia
………..………..………..A Jorge Amado

A poesia é nosso pai que chega à noite,
Sob uma chuva torrencial, e que nos canta
Uma lastimosa canção composta para uma
Colherzinha de prata.
Nosso pai queria cessar a chuva de setembro com uma
………..colherzinha, e a chuva revirou seu espírito como
………..uma calça velha.
A poesia é:
………..Um pai haitiano que perde a razão
………..Por uma colherzinha na canção
………..Sob uma chuva que cresce com raiva
………..Ao pé de nossa infância!

Laissez ma joie sortir dans les rues 
(de Journal d’un animal marin, 1964)

Laissez ma joie sortir dans les rues
Avec ses mille mains tendres
Pour caresser vos jours et vos nuits
Avec ses pluies d’été, ses danses d’Afrique
Ses cris venus tout droit de la forêt
Ses bonnes tempêtes, ses arbres musiciens
Ses lances de guerrier noir
Et ses mille mains tendres dans la soie
……….de vos nuits au goût de jeune fille.

Ma joie est lâchée dans vos rues
Avec ses mille lions bleus
Elle a quitté son lit d’Afrique
Ma joie est un fleuve en rut

Familles blanches gens de bien
Rentrez vos jeunes lionnes
Ma joie est contagieuse !

Deixe minha alegria sair pelas ruas

Deixe minha alegria sair pelas ruas
Com suas mil mãos ternas
Para acarinhar teus dias e tuas noites
Com suas chuvas estivais, suas danças da África
Seus gritos vindo diretamente da mata
Suas boas tempestades, suas árvores musicais
Suas lanças de guerreiro negro
E suas mil mãos ternas nas sedas
……….das tuas noites com gosto de meninas.

Minha alegria está solta em tuas ruas
Com seus mil leões azuis
Ela deixou seu leito na África
Minha alegria é um rio no cio.

Famílias brancas gente de bem
Prendam tuas jovens leoas:
Minha alegria é contagiosa!

 (rené depestre, trad. de ernesto von artixzffski)

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