poesia, tradução

Três poemas de Denise León, por Luciano R. Mendes

Foto de Antonio Ferroni

Foto de Antonio Ferroni

Denise León é uma poeta argentina, nascida em 1974 em Tucumán. Neta de imigrantes sefarditas, publica poesia bilíngue, em judesmo (judeu-espanhol, ladino) e castelhano. Também é pesquisadora, estudando a presença judaica na literatura argentina. Traduzo alguns poemas, dois da antologia Poemas de Estambul (2008) e o último de Templo de pescadores (2013).

Sua obra é um dos poucos exemplares contemporâneos de poesia em idioma judesmo, idioma que, assim como o ídiche, perdeu grande parte de seus falantes durante o holocausto e com a substituição pelo hebraico em Israel.

Luciano R. Mendes

*

La piedra minudika
del silencio.
La camaretta de mi madre.
La llavedura blanca
ke mira a la camaretta.
Los talones de mis pieses
ke desean
i no ayegan la ventana.
El empiezo de todas las kosas.
La palabra ke kita el miedo
i una boz
ke es la manyana.

A pedra miúda
do silêncio,
O quarto da minha mãe.
A fechadura branca
que perscruta o quarto.
Os calcanhares dos meus pés
que querem
e não alcançam a janela.
O começo de todas as coisas.
A palavra que afasta o medo
e uma voz
que é a manhã.

*

Una línea de pasharos se aleja
lacerada
d’esta sivdad ronka
donde tu nombre no arrelumbra.
Esta sivdad
ke keda leshos de tu sangre
i de la sombra de tu sangre
en mi korason.
Tiembla la memoria
ke te nombra
i me ispanto de olvidarte
kada noche
en esta sivdad.

Uma linha de pássaros se afasta
rompida
desta cidade rouca
em que seu nome não ilumina.
Essa cidade
que fica longe do teu sangue
e da sombra do teu sangue
no meu coração.
Treme a memória
que te dá nome
e me espanto de esquecer-te
a cada noite
nessa cidade.

*

Kal de pishkadores

A la manera de un pishkador
ke enhiebra una red
unikamente para reposar su descarinio
y en derredor de eya
quedan sus mientes
las tadres de enverano
hasta hartarla
de su esperanza
y su ansiedad,
todo
puede ser deperdido.
Fraguas de palicos
se alevantan
y,
más allá,
se abren y se cierran
las semyas.

Sinagoga de pescadores

Ao modo de um pescador
que arma uma rede
unicamente para descansar suas mágoas
e ao redor dela
ficam seus pensamentos
nas tardes de verão
até enchê-la
com sua esperança
e ansiedade,
tudo
pode ser perdido.
Palácios em pedaços
se erguem
e,
lá longe,
abrem e fecham,
as sementes.

* * *

Luciano R. Mendes nasceu em Curitiba em 1986 e, depois de se formar em medicina, decidiu estudar letras. Foi coeditor do blog-revista Sinuosa. Tem traduzido de alguns idiomas do leste europeu. Recentemente, vem se interessando especialmente pela poesia escrita nos idiomas ídiche e ladino.

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