crítica, poesia, tradução

Michael Robbins, por Mavericco

Robbins_Michael

Michael Robbins (1972 – ) é um poeta e crítico norte-americano contemporâneo. Já publicou poemas em revistas como New Yorker, Poetry, Harper’s e Boston Review, bem como também comentários críticos na Harper’s, London Review of Books, The New York Observer, the Chicago Tribune, Spin, etc. É responsável por publicar o livro de poemas Alien vs. Predator (Penguin, 2012) e tem também no prelo um novo volume chamado The Second Sex (Penguin, 2014) e um livro de crítica Equipment for Living (ed. Simon & Schuster). Seu blog, onde há mais informações sobre ele e resenhas e tal, pode ser lido clicando aqui.

O Mavericco, que nos trouxe as traduções de Elizabeth Barrett “Belinha Barreto” Browning, que postamos aqui no começo deste mês, traduziu também dois poemas do Alien vs. Predator e elaborou um ensaio muito interessante sobre Robbins e poesia contemporânea que eu posto aqui na sequência.

(Adriano Scandolara)

***

Alien vs. Predator, de 2012, é um dos livros mais interessantes de poesia que já tive contato. Ele consegue uma coisa muito interessante: sabe aquele monte de tralha que povoa nossa vidinha pós-moderna? Michael Robbins consegue fazer com que isso se tudo se torne algo novo graças a alguns procedimentos que, no mínimo, calam a boca de todo crítico que não consegue enxergar um objeto cotidiano dentro do poema sem torcer o nariz e apontar pra crise como saída de emergência.

Como vocês sabem, a poesia meio que distorce, adiciona ruídos dentro do código que tendem a fazer com que a função ordenadora principal desse mesmo código mais ou menos sucumba e nós estejamos cada vez mais próximos da situação entrópica da informação enquanto fonte. É o que o Umberto Eco estuda em livros como Obra Aberta e A Estrutura Ausente. Quer dizer que a poesia meio que distorce a língua, sem, contudo, subvertê-la, e isso gera um caos pois deixa as estruturas linguísticas mais “frágeis”. Assim, as coisas se tornam consideravelmente mais ambíguas pois o número de fontes semânticas aumenta, e, por exemplo, aquilo que poderia ser simplesmente uma rima casual que vez outra pipoca na nossa fala de todos os dias; isso pode ser uma fonte de significado, do mesmo modo que a substituição de um i por um y, que em contexto normal seria erro de digitação, virou fonte semântica para os Simbolistas. E isso, conforme nos explica Eco calcado nos princípios da Teoria da Informação, explica o fato de que a leitura de uma obra literária requer um esforço considerável, pois envolve mais “bits” vez que, frente a um texto poético, nós, que em tese somos alfabetizados e sabemos ler muito bem, obrigado, temos nossa competência linguística questionada.

Não vou, contudo, muito longe. Quem quiser, pode ler o livro do Eco que tá tudo bem explicado lá.

Aí vejam só. Vocês vão ver no segundo poema que traduzo um “Nokia”. Todos sabem o que é um Nokia, correto? Todos já tiveram um ou sabem o que aquele pedaço de meteorito representa. Logo, seria apenas mais um lixo cultural que criamos e logo jogamos fora, à maneira dos detritos que povoam as margens. É algo que nos sufoca. A tecnologia nos sufoca. De modo que, em tese, deveríamos conhecê-la muito bem. A tecnologia não deveria nos surpreender, e isso explica o fato de que muitos críticos olhem de forma meio ruim para a inclusão de trambolhos tecnológicos na esfera do poema, pois isso não teria a mesma universalidade conceitual de uma árvore, ou a mesma correspondência arquetípica, ou simplesmente mostraria uma falta de imaginação ou coisa parecida.

Né bem assim não, ô chefia. Primeiro pois, se formos pensar simplesmente em termos de acesso ou “descartabilidade”, é triste mas uma árvore, o ar, o fogo e nossas mãos dadas, tudo isso está sendo consumindo, tudo isso está acabando. Logo, querer dizer que são materiais poéticos inclusos num poema apenas por falta de criatividade ou por necessidade premente de comunicação (“ficar mais moderninho”, “querer mais leitores”) é sem dúvidas uma avaliação crítica muito questionável, tanto pelo fato de que não importa muito se o poeta quis ou não isso (devemos ler primeiro a obra e só depois a intenção do autor, para além do fato de que: e daí se ele realmente quis mais leitores?) quanto pelo fato de que um celular pode ter correlações arquetípicas, e aqui creio que bastará nós nos lembrarmos dos modos arquetípicos dentro do pensamento de um Northrop Frye que não excluem necessariamente o prosaico de nossas vidas (na verdade, as coordenadas geográficas disso estariam dentro do que Frye chama de modo temático-irônico). Podemos ter acesso a ele tanto duma perspectiva derivacional quanto duma perspectiva literal mesmo, visto que a tecnologia não é simplesmente adorno, mas, dizia muito bem Marshall McLuhan, o meio é a mensagem, o meio é uma fonte semântica, e tenho a convicção de que o poeta prosaico, que vai de Catulo a Donne e de Donne ao primeiro Drummond ou a poetas como Angélica Freitas ou Michael Robbins; tenho a convicção de que o poeta prosaico é dos poucos que realmente nos falam com consistência deste aspecto tão interessante dentro da pós-modernidade que é a (in)comunicação humana.

Assim, Michael Robbins consegue nos reapresentar toda esta parafernália tecnológica como que pela primeira vez, o que, não preciso nem dizer, é uma via extremamente arriscada e ao mesmo tempo titânica. Se é verdade que nem em todos os momentos o autor consegue um bom resultado (como, por exemplo, o dos melhores momentos da já citada Angélica Freitas ou o Icterofagia de Dirceu Villa, que é um correspondente nacional eu julgo até melhor que o caso de Robbins), não creio que para um crítico seja bom avaliar um autor apenas por seus momentos ruins, ainda mais sabendo que os bons momentos de Michael Robbins possuem uma constância considerável.

Além disso, cite-se o fato de que o poeta que trabalha com o prosaico consegue não só ressignificar o próprio prosaico, mas tudo o que lhe cerca (pois os poemas do autor dão a ideia de que tudo foi esparramado ou regurgitado no chão, e o leitor, por conseguinte, tem de tomar a posição de áugure-de-tênis). É quando, por exemplo, um número enorme de materiais compositivos são adicionados na estrutura do poema, processo este que Pound elevou ao “nível máximo” (entre aspas pois nunca dá pra falar em nível máximo). Assim, no primeiro poema de Robbins, o leitor há de ver que temos celulares Nokia ao lado de Confúcio e Elizabeth Bishop. É muito ecletismo pra uma só pessoa. O que explica o tom incerto, confuso, extremamente maleável ou, vá lá, “líquido” que se estampa com clareza em seus poemas.

Dessa maneira, creio que a estratégia geral dos poemas de Michael Robbins em seu Alien vs. Predator é o de, como aludido no título, tratar da relação extremamente ambígua que estas imagens representam: pare pra pensar o que é o Alien vs. Predator. Dois alienígenas numa caça Tom-e-Jerry enquanto o ser humano se encontra ali, acuado em meio aos dois. O ser humano como um alienígena, um deslocado em meio ao armamento de altíssimo grau que tanto um quanto outro representam. Ou, trocando em miúdos, a técnica de nos desfamiliarizar com o que já somos tão familiarizados até a náusea; esta técnica é a espinha dorsal de um projeto poético dos mais exitosos lá fora. E se os poemas são tidos como difíceis, isso de pronto aponta para o fato de que nós não conhecemos o que deveríamos conhecer tão bem (como naquele texto de David Foster Wallace, nós não nos perguntamos o que é água). Antes de pensarmos em alturas metafísicas ou coisa do tipo, antes de pensarmos a uma viagem ao desconhecido conforme Maiakóvski diz, pensemos o que deveria ser conhecido e não (o que Maiakóvski fez).

Para citar algo de Michael Robbins, gostaria de citar a entrevista ao Chicago Tribune, de 05 de junho de 2012, onde o autor diz:

“Rimbaud said, ‘One must be absolutely modern.’ I believe that. It doesn’t mean carbon dating poems with Britney Spears references. It means reflecting the moment, responding to the present — and this present just happens to be an extraordinarily vibrant and, completely (expletive)-up place. Haas seemed to willfully ignore that. There’s a sense in his work, in a lot of poetry, of a poet standing above the culture. If you see yourself above the culture, you’re not paying enough attention to it. You are the culture. Let’s engage it.”

Lembro-me muito bem do Ideologia da percepção, de Ricardo Domeneck, onde Domeneck nos convocava não ao MAKE IT NEW, mas ao MAKE IT NECESSARY de John Cage. É mais do que óbvio que Michael Robbins é um poeta lúcido, e qualquer tentativa de desmerecer seu trabalho das formas já apontadas (“querer ser moderninho”, “mais leitores” etc) certamente não estará entendendo a necessidade de seu trabalho. A questão da contemporaneidade é a questão principal que todo poeta deve enfrentar. É hora de aceitarmos o chamado de Michael Robbins.

Sobre as traduções, minha ideia inicial era a de radicalizar e adaptar os poemas de maneira que suas referências fossem abrasileiradas. Algo como traduzir o título para um Xuxa e Duendes, vai saber. Óbvio que me falta toda essa ousadia. Pois aí nem tradução seria mais. De modo que, aportado num verso de mais ou menos 8 sílabas e com rimas para dar e vender, segue passeio. Claro que nem sempre deu pra seguir letra a letra o original, e um bom exemplo está na primeira estrofe de Alien vs. Predator, onde realmente parafraseei o sentido do original, vale dizer, “Hell, if you slit monkeys / for a living, you’d pray me too.”, onde o autor vai de Rilke ao budismo para, de acordo com a análise no Poetry Genius, dizer que ter uma “mente de macaco” (isto é, calma) pode nos levar a aceitar de maneira concorde ideologias impostas. Outro exemplo estaria no final do poema, com “I’d eat your bra—point being—in a heartbeat”, onde, para alcançar o efeito, tive que suprimir uma frase do verso anterior, “I sleep on meat”. A rima em “ar” ficou bem chocha num poeta que no geral rima muito bem (e que me lembra, por isso, Tony Harrison). Mas preferi o modo-clichê, visto que, dentro da teia extremamente ampla de possibilidades sonoras de Michael Robbins, até um final assim pode dar certo.

(Matheus de Souza “Mavericco” Almeida)

 

ALIEN VS. PREDADOR

Louva este mundo, disse Rilke,
o trouxa. Bora lá. Todo anjo
é raiva. Mas fique claro: o ardil que
te preparam dá as caras…
Eu não esqueço. Sou cara a cara.

O alce é cuzão. Curte esqui
e até espuma, em ser quiroprático.
Já eu, no comando, mando
as sementes da ionosfera.
Traduzo a Bíblia em besta fera.

Frente ao Best Buy, ó os tibetanos!
Cadê a baleia e a estaca prometida?
Bato em cometas, lambo a lua
e pavimento as suas ruas.
O guindaste alivia (ou não) a vida.

Vou por nomes: Buju Banton,
Camel Light, o New York Times.
Exemplo: riquexós em Scranton.
Pernas não tenho. E, se brincar,
seu cé—exemplo—rebro eu vou devorar.

 

ALIEN VS. PREDATOR

Praise this world, Rilke says, the jerk.
We’d stay up all night. Every angel’s
berserk. Hell, if you slit monkeys
for a living, you’d pray to me, too.
I’m not so forgiving. I’m rubber, you’re glue.

That elk is such a dick. He’s a space tree
making a ski and a little foam chiropractor.
I set the controls, I pioneer
the seeding of the ionosphere.
I translate the Bible into velociraptor.

In front of Best Buy, the Tibetans are released,
but where’s the whale on stilts that we were promised?
I fight the comets, lick the moon,
pave its lonely streets.
The sandhill cranes make brains look easy.

I go by many names: Buju Banton,
Camel Light, the New York Times.
Point being, rickshaws in Scranton.
I have few legs. I sleep on meat.
I’d eat your bra—point being—in a heartbeat.

 

SER EU MESMO

Cato a noite. Arrancada
dos chineses, muitos
menores que eu.
Dois bilhões, e a crescer,
de mãos pra dar e vender
ou serem amputadas.

Cópias baratas em todo
lugar — Noquia e não Nokia
a tela do touchscreen informa.
Sr. Peng tem que manter a forma,
comer, diz Confúcio. Ou outro?
Cassius Clay? Não sei.

Em mim, um objeto de encontro
a resistentes forças. Não
trabalho desde o acidente
de nascer. Filho da mãe,
meu pai, desde bebê. Faça amor.
Depois, guerra. Vou pôr o carro ali.

Estes meninos em que cuspi
são imunes a meus conselhos.
Não terei a mim. Não é
(Escreve!) nada sério. Pentelho,
contenho platitudes.

 

BE MYSELF

I took back the night. Wrested it
from the Chinese, many of  whom
were shorter than me.
Two billion outstretched Chinese
hands, give or take a few
thousand amputees.

A cheap knockoff, the night
proved to be — Nokla
not Nokia on the touchscreen.
Well, even Old Peng gotta eat,
Confucius say. Or maybe that
was Cassius Clay.

In me, folks, a movable object
meets a resistible force. I haven’t
worked a day since the accident
of   birth. Born of  woman,
my father the same. Make love
then war. I’ll bring round the car.

These children that I spit on
are immune to my consultations.
I’ll have none myself. It isn’t
(Write it!) a fiasco. I am small,
I contain platitudes.

 

(poemas de Michael Robbins, tradução de Matheus “Mavericco” )

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “Michael Robbins, por Mavericco

  1. (sei que é tosco comentar o próprio post, mas não sei se ia fazer sentido comentar isso no corpo do texto… enfim) Eu só acrescentaria que o final do “Be myself” me parece ser uma referência paródica ao “I am large, I contain multitudes” da Song of Myself do Whitman. Mas é claro que seria um problema meio complicado manter essa alusão, já que o referencial é bem mais claro p/ um falante de inglês do que para o português. No mais, belo trabalho mais uma vez, Mavericco!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s