poesia, tradução

roque dalton por ernesto von artixzffski

roque dalton

Ahhh, o Roque Dalton, talvez um dos mais importantes, apesar de pouco conhecido, escritores da chamada Geração Comprometida. Junto com Salarrué (1899) e Jacinta Escudos (1961), ele integra a Trindade da literatura salvadorenha. Com um traço comum que os une: as variações da noção de morte.

El Salvador, o menor e mais denso país da Mesoamérica, possui uma vasta história de violência. Durante a guerra civil, por exemplo, estima-se que o número de mortos seja algo em torno de 40 mil. Superando, às vezes, o número de 100 mortos/dia. Após isso, El Pulgarcito viu o surgimento das chamadas Maras (a Salvatrucha 13 – MS13 – e a 18), que, segundo ONU, foram classificadas como os grupos organizados mais perigosos e violentos do mundo. Deixando pra trás o Talibã et cætera. Você pode ver mais sobre eles neste documentário: http://youtu.be/z8MMrUpzZYE . Mas agucem o espanhol & brace yourselves.

Enfim, Roque nasceu na capital San Salvador, em 1935, três anos após ser instaurada a ditadura militar no país (1932-79), filho do imigrante estadunidense Winnall Dalton e da enfermeira salvadorenha María Josefa García. Foi educado com de jesuítas no Colégio Externado de São José. Disso reflete o intenso diálogo bíblico dos seus poemas, como em Profecia sobre profetas, poema destinado àqueles que monopolizavam os veículos de mídia salvadorenhos. Aos dezoito anos, rumou ao Chile pra estudar Direito. Lá, encontrou o pintor Diego Rivera que, após receber um pedido para conceder uma entrevista, disparou:

– Quantos anos você tem?
– Dezoito.
– E já leu algum livro do Marx?
– Não.
– Então, você tem dezoito anos de ser um imbecil.

Isso, sem dúvida, alterou o jovencito Roque. Em 57, viaja com alguns amigos salvadorenhos para a URSS. Na volta para El Salvador, junta-se, clandestinamente, ao Partido Comunista e começa a escrever seus primeiros poemas políticos. Em 60, é preso por incitar revolta contra o governo e condenado à morte. Porém – ah, porém – consegue se safar devido à derrocada do presidente José María Lemus apenas um dia antes de ser cumprida a sentença.

Então, em 61, Roque parte para o exílio no México e lá escreve La Ventana en el rostro (1961) e El turno del ofendido (1962). Mas a vida, ah, a vida é uma caixinha de surpresas: para Joseph Klimber e Roque Dalton. No verão de 64, ao voltar pra El Salvador ele é preso e torturado e novamente sentenciado à morte. E então, como descreve o escritor nicaragüense Ernesto Cardenal, “naquela noite, ainda que não tivesse fé em deus, ele orou, ajoelhou-se em sua cela e orou. A ‘sorte louca’ – dizia ele – fez com que naquela noite houvesse um terremoto e as paredes da cela caíssem e ele pudesse escapar”.

Depois de escapar mais uma vez da morte, ele novamente se exila e viaja pra Cuba. De lá é enviado, pelo Partido Comunista, a Praga. Lá ele escreve Taberna y otros lugares, livro que ganhou o Prêmio de Poesia da Casa das Américas em 69.

Andou, também, pela Coréia e Vietnã, antes de, em 72, voltar clandestinamente pra El Salvador. Envolvido com o Ejército Revolucionario Del Pueblo (ERP), grupo que ajudou a fundar junto com Joaquín Villalobos. Com isso, a luta contra a ditadura se intensifica, o número de mortos cresce assustadoramente e Roque escreve o poema Todos. Talvez seu mais importante poema, sua mais fina representação da noção de morte. Vivo porque biologicamente respiro, morro porque não sou um indivíduo.

Em 75, devido a brigas internas, surge a RN (Las Fuerzas Armadas de la Resistencia Nacional), uma subdivisão do ERP, liderada por José Eduardo Sancho Castañeda, conhecido como Fermán Cienfuegos. No mesmo ano, apenas 4 dias antes de completar 40 anos, Roque Dalton é assassinado pelos próprios companheiros, junto com outras lideranças da ERP, acusado de ser um agente secreto a serviço da CIA. Anos mais tarde a própria CIA assumiu ter mantido contato com o poeta, porém negou tê-lo usado como agente duplo.

Não se sabe até hoje quem disparou a arma. Muitos menos o local exato de sua morte. Há duas versões: uma, a mais provável, é de que tenha sido no Bairro Santa Anita (lado sul da capital); a outra é de que tenha sido em El Palyón.

Em 80, a RN foi uma das 5 organizações marxistas a integrarem a Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional. A guerra civil durou 12 anos (1980-92), quando foi firmado o acordo de paz.

Sobre o Dalton, há dois documentários: um chamado Entre los muertos e é dirigido pelo seu filho, Jorge Dalton. O outro, Roque Dalton: fusilemos la noche, é dirigido pela Tina Leisch. E seu poema “Todos”  foi musicado por Luiz Lopez, o “monsenhor do rock”, como é conhecido em El Salvador:

Ernesto von Artixzffski

* * *

TODOS

Todos nacimos medio muertos en 1932
sobrevivimos pero medio vivos
cada uno con una cuenta de treinta mil muertos enteros
que se puso a engordar sus intereses
sus réditos
y que hoy alcanza para untar de muerte a los que siguen
……………..naciendo
medio muertos
medio vivos

Todos nacimos medio muertos en 1932

Ser salvadoreño es ser medio muerto
eso que se mueve
es la mitad de la vida que nos dejaron

Y como todos somos medio muertos
los asesinos presumen no solamente de estar totalmente
………………vivos
sino también de ser inmortales

Pero ellos también están medio muertos
y sólo vivos a medias

Unámonos medio muertos que somos la patria
para hijos suyos podernos llamar
en nombre de los asesinados
unámonos contra los asesinos de todos
contra los asesinos de los muertos y los mediomuertos.

Todos juntos
tenemos más muerte que aquellos
pero todos juntos
tenemos más vida que ellos

La todopoderosa unión de nuestras medias vidas
de las medias vidas de todos los que nacimos medio
…………………….muertos
en 1932

(Las historias prohibidas del Pulgarcito – 1974)

TODOS

Todos nascemos meio mortos em 1932
sobrevivemos porém meio vivos
cada um com uma soma de trinta mil mortos inteiros
que se pôs a engordar seus interesses
seus lucros
e que hoje alcança para ungir de morte os que seguem
……………………nascendo
meio mortos
meio vivos

Todos nascemos meio mortos em 1932

Ser salvadorenho é ser meio morto
isso que se move
é a metade da vida que nos deixaram

E como somos todos meio mortos
os assassinos presumem não somente estarem totalmente
……………………vivos
como também serem imortais

Mas eles também estão meio mortos
e apenas vivos às meias

Unamo-nos meio mortos que somos a pátria
para de filhos seus poder nos chamar
em nome dos assassinados
unamo-nos contra os assassinos de todos
contra os assassinos dos mortos e dos meiomortos

Todos juntos
temos mais morte que aqueles
porém todos juntos
temos mais vida que eles

A toda poderosa união de nossas meias vidas
das meias vidas de todos que nascemos meio
………………..mortos
em 1932

(As histórias proibidas do pequeno polegar)

ALTA HORA DE LA NOCHE

Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre
porque se detendrá la muerte y el reposo.

Tu voz, que es la campana de los cinco sentidos,
sería el tenue faro buscado por mi niebla.

Cuando sepas que he muerto di sílabas extrañas.
Pronuncia flor, abeja, lágrima, pan, tormenta.

No dejes que tus labios hallen mis once letras.
Tengo sueño, he amado, he ganado el silencio.

No pronuncies mi nombre cuando sepas que he muerto
desde la oscura tierra vendría por tu voz.

No pronuncies mi nombre, no pronuncies mi nombre,
Cuando sepas que he muerto no pronuncies mi nombre.

(Taberna y otros lugares – 1969)

ALTA HORA DA NOITE

Quando souberes que morri não pronuncies meu nome
porque se deterá a morte e o repouso.

Tua voz, que é o sino dos cinco sentidos,
seria o tênue farol buscado pela minha névoa.

Quando souberes que morri digas sílabas estranhas.
Pronuncies flor, abelha, lágrima, pão, tormenta.

Não deixes que teus lábios achem minhas onze letras.
Tenho sono, amei, ganhei o silêncio.

Não pronuncies meu nome quando souberes que morri
que da escura terra viria por tua voz.

Não pronuncies meu nome, não pronuncies meu nome,
Quando souberes que morri não pronuncies meu nome.

(Taberna e outros lugares)

DE NUEVO ACERCA DE LAS CONTRADICCIONES EN EL SENO DE LA POESÍA

Nuestra poesía es más puta que nuestra democracia
con sus párpados puede corromper a la juventud
trompeta de burdel sonada hacia el horizonte
a lomos de una vaca a punto de desintegrarse
pero ducha en el póker de los siglos.

Cristo con bello chaleco de jazzista
clavado químicamente a su propio milagro
el poeta simulará una espléndida mudez
pensando que tan sólo la ciudad es náufraga.

Rezo a tu tempestad imploro
suplico cara a cara por tu tempestad
gozne justo de goce flete de oro
hacia el desierto que clama por la sal.

Crema de lástima emboscada flagrante
todo esto es sólo una erizante broma
cuando no lloras eres espantoso
como un payaso de caucho descolorido por la corriente.

La poesía es el cubo de la leche de burra
donde cayó la estrella por quienes todos preguntan.

Otra jugarreta de la locura
y perdería mi puesto de centinela formidable
cayendo como la lengua de un ahorcado
hasta una jaula llena de lobos frágiles.

Una erizante broma nada más
emboscada flagrante
puta poesía para simular.

(Un libro levemente odioso – 1988)

DE NOVO ACERCA DAS CONTRADIÇÕES NO SEIO DA POESIA

Nossa poesia é mais puta que nossa democracia
com suas pálpebras pode corromper a juventude
trombeta de bordel tocada para horizonte
ao lombo de uma vaca a ponto de se desintegrar
porém perita no pôquer dos séculos.

Cristo com um belo colete de jazzista
pregado quimicamente a seu próprio milagre
o poeta simulará uma esplêndida mudez
pensando que apenas a cidade é náufraga.

Rezo à tua tempestade imploro
suplico cara a cara por tua tempestade
gonzo justo de gozo frete de ouro
para o deserto que clama pelo sal.

Creme de lástima emboscada flagrante
tudo isto é apenas uma estimulante piada
quando não choras és espantoso
como um palhaço de borracha descolorido pela corrente.

A poesia é o balde de leite da burra
onde caiu a estrela pela qual todos perguntam.

Outra rasteira da loucura
e perderia meu posto de sentinela formidável
caindo como a língua de um enforcado
numa jaula cheia de lobos frágeis.

Uma estimulante piada nada mais
emboscada flagrante
puta poesia para simular.

(Um livro levemente odioso – 1988)

PROFECIA SOBRE PROFETAS

A N.Altamirano y herederos,
a la familia Dutriz, a la familia Pinto.

Puesto que la palabra debería ser
como la mujer en el momento del amor
como lo que verdaderamente entregamos
en el momento de la muerte
(cuando se ilustra una manera de ser que es fuente de vida
el restablecimiento de la pureza
la gran construcción del descubrimiento )
los profetas tendrán que colocarse aquí
para ser juzgados
cada uno
esperando su turno de pasar al espejo
para apelar ante el gran coro de víctimas.

Ay entonces del grito
que no se emitió para dolerse de los hermanos
sino para corromper sus oídos al tiempo
que se loaba a su enemigo
ay entonces de la frivolidad
con que se apoyó la vigencia del becerro de oro
ay entonces de las mariposerías
con que se puso cortapisas
a la identificación y al ajusticiamiento del hambre
ay del traslado del crimen hacia los hombres de los débiles
ay de las complicidades ay de las delaciones
ay de los servilismos
ay de los soplos al oído del verdugo
ay de las tolerancias
ay de las mentiras matutinas y vespertinas

Porque toda esa miasma se derramó
sobre la inocencia del pueblo
sobre su blanco candor caído del cielo
del gran desalojado del paraíso
y no habrá rueda de molino suficientemente aplastante
para las cabezas de sus envenenadores
de quienes quemaron con perfume las pupilas de sus centinelas
de quienes rompieron sus tímpanos
de gritos de loras sobrevivientes de la experiencia de Jericó.

Ni de los vivos ni de los muertos
habrá perdón para ese uso de la palabra.
El inocente gigante justiciero
despertará de su ensordecimiento
abrirá sus profundos ojos anegados por los profetas
y los fulminará en sus propios asientos enraizados
a la derecha del Amo desenmascarado
por los siglos de los siglos
para nunca jamás.

(Poemas Clandestinos – 1975)

PROFECIA SOBRE PROFETAS

Para N. Altamirano e herdeiros,
para a família Dutriz, para a família Pinto.

Posto que a palavra deveria ser
como a mulher no momento do amor
como o que verdadeiramente entregamos
no momento da morte
(quando se aclara um modo de ser que é fonte de vida
o restabelecimento da pureza
a grande construção do descobrimento)
os profetas terão que se colocar aqui
em julgamento
cada um
esperando sua vez de passar ao espelho
para apelar ante o grande coro de vítimas.

Ai então do grito
que não se emitiu lamentar os irmãos
mas para corromper seus ouvidos ao tempo
em que se louvava o inimigo
ai então da frivolidade
em que se apoiou a vigência do bezerro de ouro
ai então das viadagens
com que puseram empecilhos
à identificação e à erradicação da fome
ai do traslado do crime que fazia homens dos fracos
ai das cumplicidades ai das delações
ai dos servilismos
ai dos sopros ao ouvido do carrasco
ai das tolerâncias
ai das mentiras matutinas e vespertinas.

Porque todo esse miasma se derramou
sobre a inocência do povo
sobre seu branco candor decaído do céu
do grande desalojado do paraíso
e não haverá roda de moinho suficientemente esmagadora
para a cabeça de seus envenenadores
daqueles que queimaram com perfume as pupilas de seus sentinelas
daqueles que romperam seu tímpanos
com gritos de cobras sobreviventes da experiência de Jericó.

Nem dos vivos nem dos mortos
haverá perdão para esse uso da palavra.
O inocente gigante justiceiro
despertará do seu ensurdecimento
abrirá seus profundos olhos inundados pelos profetas
e os fulminará em seus próprios assentos enraizados
à direita do Amo desmascarado
para todo o sempre
para nunca mais.

(Poemas clandestinos – 1975)

poemas de roque dalton, trad. de ernesto von artixzffski.

Padrão

Um comentário sobre “roque dalton por ernesto von artixzffski

  1. O comentário chega tarde, mas melhor tarde do que nunca.
    Só uma pequena correção: Salarrué é um dos escritores que iniciou o processo de inauguração da identidade cultural de El Salvador. Ele é importante por vários motivos estéticos e políticos, porém dificilmente diria que a sua obra é atravessada pela problematização ou uma estética ligada às “variações das noções da morte”. Falar de Salarrué é uma questão complicada, pois ele faz parte do grupo que silenciou o etnocídio de 1932.
    Acredito que Roque Dalton e Jacinta Escudos estão mais próximos da temática da morte. Embora a autora, ainda viva, afirme não ter um interesse específico sobre essa temática, mas apenas explorar diversos caminhos estéticos para refletir sobre a condição humana.
    Em relação às traduções me parece uma boa iniciativa para trazer à luz poetas que no contexto brasileiro são desconhecidos…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s