poesia, tradução

charles bukowski por fabiano calixto

Buk And Linda

A sua voz na minha boca Ou duas doses de conhaque vagabundo com Bukowski

Sempre curti muito ler o velho Buk. Desde muito jovem. Primeiro a prosa, depois a poesia. O primeiro livro que li, quando trabalhava numa biblioteca pública no ABC paulista e lá pegara emprestado um exemplar do maldito cujo, foi Crônica de um amor louco – o primeiro volume da obra Ereções, ejaculações e exibicionismos. Tudo naquela prosa me encantava e, muito mais importante, me divertia – o que no final deve dar no mesmíssimo mesmo. Ria alto lendo aquilo, seja no velho suburbano lotado dos finais de expediente, seja nos botecos pé-de-rato onde parava para molhar a goela nos dias quentes daquele verão. Os personagens dele sempre me cativaram, talvez por sermos todos da mesma laia. Ainda bem. A vida é curta pra ser pequena. São os desvalidos, os vagabundos, os poetas fracassados, os pirados, levando a solidão pra passear sob a chuva, dormindo em espeluncas de quinta categoria, entornando copos e copos em bares escuros e sujos, gente doida fazendo sexo adoidadadamente com a vida. O fracasso do teatro conhecido por american dream encenado em todos os lugares onde há alguém com um livro do velho Buk em mãos, num fim de tarde de sábado, tomando rabo-de-galo e cerveja, ouvindo a chuva dar conselhos à solidão geral e irrestrita.

As traduções dos poemas que ora seguem foram feitas por conta de encontros totalmente ao acaso. Livro neste país sempre foi muito caro. Poeta, se não é herdeiro, é um completo pé-rapado. Então, com o advento da internet, tudo se modifica, tudo se socializa, se compartilha, se abre a quem quiser. Livros, obras completas, tudo em pdf, tudo livre, tudo no-vasco. Daí, lendo, aqui e ali, seus poemas, alguns me chamaram muito a atenção, outros me deixaram completamente apaixonado. Acho que, como no caso de Bolaño, a poesia e a prosa de Bukowski se entreperfumam. São poucos os poemas que traduzi, e por puro prazer mesmo. De boa na lagoa, sussa na montanha-russa. Ou só por sacanagem. No Brasil, quem traduz muito bem a lírica de Bukowski é o poeta paranaense Fernando Koproski, que publicou as antologias Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém (7Letras, 2005) e Amor é tudo que nós dissemos que não era (7Letras, 2012) – ambos imperdíveis. Aqui, apenas mais uns exercícios de estilhaço e de afeto. Uma maneira de dizer: Bukowski, seu filho da puta, tou contigo, velho! a conta tu coloca na do Abreu, se ele não pagar, nem eu! valeu!

* * *

faz algum tempo

era quase manhã
melros no fio do telefone
esperando
enquanto eu comia
um sanduíche de ontem
às 6 da matina
dum calmo domingo.

um sapato no canto
de pé
o outro ao
lado

sim, algumas vidas foram feitas para ser
perdidas.

it was just a little while ago

almost dawn
blackbirds on the telephone wire
waiting
as I eat yesterday’s
forgotten sandwich
at 6 a.m.
an a quiet Sunday morning.

one shoe in the corner
standing upright
the other laying on it’s
side.

yes, some lives were made to be
wasted.

a geração perdida

tava lendo um livro sobre uma literata rica
dos anos vinte e seu marido
beberam, comeram e curtiram por toda a
Europa
encontrando-se com Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway e muitos
outros.
as celebridades eram como brinquedinhos para
eles
e pelo que li
as celebridades curtiram a ideia de ser
brinquedinhos.
durante todo o livro
esperei que ao menos uma das celebridades
dissesse para a literata rica e seu
rico literato marido
que caíssem fora
mas, pelo jeito, nenhum deles
o fez.
Em vez disso, deixaram-se fotografar com a senhora
e seu marido
em várias praias
com cara de inteligente
como se tudo isso fizesse parte
da Arte.
talvez o fato de a mulher e seu marido
serem donos de uma grande mídia
tivesse algo a ver
com isso.
e foram todos fotografados juntos
em festas
ou na calçada da livraria de Sylvia Beach.
é verdade que muitos deles eram
artistas ótimos e/ou originais
mas tudo parecia tão esnobe e
afetado,
e o marido finalmente cometeu
seu tão anunciado suicídio
e a senhora publicou um dos meus
primeiros contos
nos anos 40 e agora
está morta, mas
não consigo perdoar nenhum dos dois
por suas vidas ricas e imbecis
também não consigo perdoar seus brinquedinhos
por se sujeitarem
a isso.

the lost generation

have been reading a book about a rich literary lady
of the twenties and her husband who
drank, ate and partied their way through
Europe
meeting Pound, Picasso, A. Huxley, Lawrence, Joyce,
F. Scott, Hemingway, many
others;
the famous were like precious toys to
them
and the way it reads
the famous allowed themselves to become
precious toys.
all through the book
I waited for just one of the famous
to tell this rich literary lady and her
rich literary husband to
get off and out
but, apparantly, none of them ever
did.
Instead they were photographed with the lady
and her husband
at various seasides
looking intelligent
as if all this was part of the act
of Art.
perhaps because the wife and the husband
fronted a lush press that
had something to do
with it.
and they were all photographed together
at parties
or outside of Sylvia Beach’s bookshop.
its true that many of them were
great and/or original artists,
but it all seems such a snobby precious
affair,
and the husband finally committed his
threatened suicide
and the lady published one of my first
short stories in the
40′s and is now
dead, yet
I can’t forgive either of them
for their rich dumb lives
and I can’t forgive their precious toys
either
for being
that.

definindo a mágica

um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está na fissura
um bom poema é como um delicioso
sanduíche quando você está
faminto
um bom poema é uma arma quando
a bandidagem te cerca
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas da
morte
um bom poema faz a morte derreter como
manteiga
um bom poema emoldura a agonia e
a pendura na parede
um bom poema faz seus pés tocarem
a China
um bom poema faz a mente estilhaçada
voar
um bom poema torna possível cumprimentar
Mozart
um bom poema possibilita que você jogue dados
com o diabo
e vença
um bom poema pode quase tudo
e o mais importante
um bom poema sabe quando
parar

defining the magic

a good poem is like a cold beer
when you need it,
a good poem is a hot turkey
sandwich when you’re
hungry,
a good poem is a gun when
the mob corners you,
a good poem is something that
allows you to walk through the streets of
death,
a good poem can make death melt like
hot butter,
a good poem can frame agony and
hang it on a wall,
a good poem can let your feet touch
China,
a good poem can make a broken mind
fly,
a good poem can let you shake hands
with Mozart,
a good poem can let you shoot craps
with the devil
and win,
a good poem can do almost anything,
and most important
a good poem knows when to
stop.

sim

há coisas piores que
estar só
mas nos custam décadas
até que percebamos
e geralmente
quando conseguimos
é tarde demais
e não há nada pior
que
ser tarde demais

oh yes

there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it’s too late
and there’s nothing worse
than
too late.

estar sozinho

quando a gente pensa no tanto
que deu errado
de novo e novamente
a gente começa a olhar pras paredes
e fica por lá
porque as ruas são aquele
mesmo velho filme
e todos os heróis acabam como
heróis de velhos filmes:
bunda gorda, cara gorda e o cérebro
de uma lagartixa.

não é de se admirar que
um homem sábio escalará
uma montanha de 3 mil metros
e sentará lá esperando
vivendo de frutinhas selvagens
em vez de confiar no bagaço dos joelhos
que certamente não durarão a vida toda
e em duas de cada três vezes
não sobreviverá uma noite sequer.

montanhas são difíceis de escalar.
as paredes são suas amigas.
aprenda com elas.

o que eles nos dão lá fora
nas ruas
é algo que mesmo as crianças
se encheram.

fique com suas paredes.
elas são o amor mais verdadeiro.

construa onde ninguém constrói.
é o último caminho que resta.

be alone

when you think about how often
it all goes wrong
again and again
you begin to look at the walls
and yearn to stay inside
because the streets are the
same old movie
and the heroes all end up like
old movie heroes:
fat ass, fat face and the brain
of a lizard.

it’s no wonder that
a wise man will
climb a 10,000 foot mountain
and sit there waiting
living off of berry bush leaves
rather than bet it all on two dimpled knees
that surely won’t last a lifetime
and 2 times out of 3
won’t remain even for one long night.

mountains are hard to climb.
thus the walls are your friends.
learn your walls.

what they have given us out there
in the streets
is something that even children
get tired of.

stay within your walls.
they are the truest love.

build where few others build.
it’s the last way left.

cometi um erro

me estiquei todo até a prateleira mais alta do armário
e puxei de lá um par de calcinhas azuis, minúsculas
e mostrei a ela
e perguntei: são suas?

ela olhou e disse:
não, devem ser da vadia

depois disso, ela se foi e não a vi
nunca mais. não está em sua casa.
continuo passando por lá, colocando bilhetes
por debaixo da porta. volto e os bilhetes
continuam lá. tiro a Nossa Senhora Aparecida
do retrovisor do meu carro e a amarro
em sua maçaneta com um cadarço, deixo
um livro de poemas.
na noite seguinte, quando retorno, tudo
continua no mesmo lugar.

continuo rondando as ruas à caça
daquele encouraçado roxo que ela dirige
sempre com a bateria fraca e as portas
penduradas, estropiadas.

dirijo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado com meu sentimentalismo e
possível amor.

um homem velho e confuso dirigindo na chuva
se perguntando onde é que a sorte
foi parar.

I made a mistake

I reached up into the top of the closet
and took out a pair of blue panties
and showed them to her and
asked “are these yours?”

and she looked and said,
“no, those belong to a dog.”

she left after that and I haven’t seen
her since. she’s not at her place.
I keep going there, leaving notes stuck
into the door. I go back and the notes
are still there. I take the Maltese cross
cut it down from my car mirror, tie it
to her doorknob with a shoelace, leave
a book of poems.
when I go back the next night everything
is still there.

I keep searching the streets for that
blood-wine battleship she drives
with a weak battery, and the doors
hanging from broken hinges.

I drive around the streets
an inch away from weeping,
ashamed of my sentimentality and
possible love.

a confused old man driving in the rain
wondering where the good luck
went.

Traduções & introdução: Fabiano Calixto

* * *

Fabiano Calixto nasceu em Garanhuns, PE, em 8 de junho de 1973. Vive em São Paulo. É doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, USP. Publicou os seguintes livros de poesia: Algum (edição do autor, 1998); Fábrica (Alpharrabio Edições, 2000); Um mundo só para cada par (Alpharrabio Edições, 2001) – com Kleber Mantovani e Tarso de Melo; Música possível (CosacNaify/ 7Letras, 2006); Sangüínea (Editora 34, 2007); A canção do vendedor de pipocas (7Letras, 2013); Para ninar o nosso naufrágio (Corsário-Satã, 2013); Equatorial (Edições Tinta-da-China, 2014) e Nominata morfina (Corsário-Satã/Córrego/Pitomba, 2014).

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Um comentário sobre “charles bukowski por fabiano calixto

  1. Orlando do Nascimento Costa Filho disse:

    Eu gosto tanto do velho Buk que quando escrevo meus poemas, ou propositadamente me deixo ser influenciado por seu estilo (o que não é tão ruim quanto parece), ou sou influenciado sem o perceber (e aí é que é preciso tomar cuidado).

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