poesia

Índio(s) num poema de Jorge de Lima (1895-1953)

Índios exterminados — imagem de De Bry que ilustra livro de Bartolomeu de las Casas, "Brevisima Relacion De La Destruycion De Las Indias", 1598 (edição latina)

Índios exterminados, por  De Bry em ilustração do livro de Bartolomeu de las Casas, Brevisima Relacion De La Destruycion De Las Indias, 1598 (edição latina)

em tempos continuamente violentos contra os índios, um trabalho coletivo como o Índio é Nós tem um valor importantíssimo, porque dá voz(es) para as possibilidades do índio numa sociedade brasileira que busca calá-lo em cultura, terra, vida.

relendo a Invenção de Orfeu de jorge de lima, esse poema-tudo da poesia brasileira, me flagrei pasmo com o poder do poema 31, canto 1. j. de lima teve a capacidade – creio que até então inédita, na poesia brasileira – de promover uma crítica histórica, social & literária da figura do índio, tantas vezes morto em corpo, mas ainda mais morto & remorto nos mitos racionais do homem branco: contra essa morte pela ideia, o poeta não apresenta uma contra-ideia revolucionária, uma nova versão do que é (ou deveria ser) o índio. contra os mitos sobre o índio catalogado no saber ocidental (“Agora finalmente somos listas”), a poesia nos dá um índio plural, com pontos de vista vários: ora estamos na primeira pessoa no branco (“nós os bastos / nós os complexos, nós os pioneiros, / nós os devastadores e assassinos”), ora numa terceira pessoal que não podemos identificar com clareza (“nós também sabemos coisas”), ora como índio (“nós indígenas”) que logo se entrega como um outro (“vós indígenas”).

Família de ameríndios do BRasil, por Jean de Léry, 1611.

Família de ameríndios do Brasil, por Jean de Léry, 1611.

lendo & relendo me peguei pensando naquela frase-bomba de viveiros de castro, “No Brasil todo mundo é índio, exceto quem não é”, para atualizar trechos como “Mas como foi esse índio? Todos sabem. / Ele mora no vosso olhar já verde, / na vossa louridão, no vosso passo […] dessas coisas anciãs ficou um pouco / de tudo, esses anzóis pescando taras”. me peguei pensando mesmo na importância atual do Índio é Nós, a começar pelo nome do projeto.

j. de lima, lá nos anos 50, tinha percebido que a revisão do índio era revisão primária nossa que não poderia se dar sem um processo de re-identificação & multiplicação, sem entendermo-nos ao mesmo tempo como índios & incapazes de determinar o que é o índio que somos.

guilherme gontijo flores

Índios escravizados, por Debret, c. 1816-1831

Índios escravizados, por Debret, c. 1816-1831

 * * *

Invenção de Orfeu, Canto I, poema 31

Esquecidos dos donos, nós os bastos,
nós os complexos, nós os pioneiros,
nós os devastadores e assassinos,
vamos agora fabricar o índio
com a tristeza da mata e a fuga da
maloca, com a alegria de caçar.

Vamos dar-lhe paciências de amansar
os bichos, de juntar as belas penas
raízes, frutos; vamos abalar
com ele o chão da maloca, batucando.
Essa terra dançada, D. Manuel,
de ponta a ponta é toda de arvoredos.

É toda de arvoredos e de ar bom,
como o ar bom de Entre-Douro-e-Minho, e as águas
são muitas, infinitas, tudo dando,
dando peixe, lavando a carne nua,
lambendo os pés da selva embaraçosa,
a feição o ser parda, bons narizes.

Boas vergonhas nuas, boas caras,
e bons Jeans de Léry contando as coisas.
Ausentamos recalques e pudores
e colares de dentes e de contas
para atrair as musas e as mães-d’água,
e adornos para os sexos merecidos.

Nenhuma ideia exata possuímos
sobre origens de carnes e de sangues,
mas de mortes somente, mesmas caras
que vós, mesmos desejos, nós indígenas,
vós indígenas, nós madeiras mesmas,
decadentes, corroídas, não pacíficas.

O nosso cão doméstico aprendeu
a latir. Nós também sabemos coisas,
tatuamos índios para que os maus gênios
de nós não se apoderem. Canibales,
canibais, upupiaras, cães e peixes,
homens fluviais, nós índios, curiqueãs.

Goiazis, matuins, encantada Índia,
sempre Índia ocidental, oriental Índia,
povoada de cardumes mitológicos,
minhas proas cortando os tenebrosos
mares, de duendes lusos e outras nuvens,
promontórios, gigantes e grandezas.

E eu menino pequeno, todo penas,
com essas flechas sem leis e esses colares
prefaciando viagens, aventuras,
narradores de petas europeias,
eu sem ouros, com apenas maracás,
bondades naturais, recém-nascidas.

Eu índio diferente, mau selvagem,
bom selvagem nascido para o humanismo,
à lei da natureza me despindo
com pilotos e epístolas, cabrais,
navegações e viagens e ramúsios,
santas-cruzes, vespúcios, paus-brasis.

E eu palavreando com esses papagaios,
completamente apócrifo do mundo,
cosmogonia nua, áspero clima,
sem moeda e comércio, muito bem,
liberdade social, perfeitamente
com tacapes ferindo mas sem guerras.

Sobretudo eu escravo do homem branco,
ó cunhas, inocências e pobrezas,
curiosidades sobre meus amores,
visões de missionários, flor de peles,
narrativas de naus e manuscritos,
madeiras de Colombos e de Espanhas.

Vivo estranho em Lisboas babeladas
entre chins e japões pelas ruelas,
os domínios distantes me afogando,
cotovelando pelo Rei das quinas,
resgatando com fardos e tonéis,
descoberto de trajes e de galas.

Ou então em bororo me chamando.
— Que venha o peixe ocogue! e o peixe veio
e outros peixes gerados com ixegui.
Quero dois paus para acender meu fogo,
a morada das almas me chamou,
bororo forte, linguagem de bororo.

Dentro dos jenipapos o ser grávido
subiu na árvore, fruto, irmã menor,
para flechar morada de assovios,
as águas se alargaram, a anta veio,
então chegou a terra e se embebeu,
formou um vale, o vale se fendeu.

Conheço plantas pra grudar memórias,
boas embiras amarrando os cantos,
resinas, cascas para funerais,
para caçadas, cantos de pescar,
ó filas de antas, taquarais, canastras,
ruídos tristes, largados, desabados.

O fogo na penugem da montanha,
o fogo sobre o rio, sobre a mata,
nos limites da mata, roda as onças,
urro em fogo das onças, onças indo
com a montanha de fogo, mata em fogo,
antas indo com o fogo, e o fogo indo.

Cortar caminho, vendo com os dois pés,
tirar ouro pra os outros pagar dízimos,
zona de ipecacuanha, de mezinhas,
não se liga matar os emboabas,
quero posse de bispos e caciques,
abolir o limite meridiano.

Tomar salsaparrilhas para o sangue.
Predomínios de matas e de rios,
solos salinos, pastos suculentos,
eclesiásticos ambulantes, contas,
e a viagem para o Norte, sol e sol,
a fronteira não tem parido légua.

Comer, nós não comemos nenhum bispo,
o branco mente muito, o corrompido,
embaraça essa vida, o branco é assim.
Comer nós não comemos nenhum branco,
nem fumamos mentiras, fumo nosso,
fumo de paz ou guerra, mas valente.

Vistosos os adornos do homem branco
pras bodas do Delfim com a Infanta Espanha
eu peça pra pinturas e anarquias,
pra trovadores, angos, gafaréis,
eu mico de Nassau, topinambou,
Sorô-bebé de insurreição, o nu.

Cravado de premissas e de olhares,
de holofotes e cines, eis teu índio,
grudado de tucanos e de araras,
operário sem lei e sem Rousseau,
incluído em dicionário filosófico;
metáfora, gravura, ópera, símbolo.

Utopia de santo e de sem-Deus,
teu índio, teu avô, teu deserdado
Adão, perfeito Adão sem teus pudores
falsos, consciências, dúvidas, receios,
Emílio bronco, pai de que Rousseau?
De que Montaigne? De que outra convivência?

Índio que te contém como moldura
guardando personagens obrigadas,
umas em redes, outras em gavetas,
em redomas de prata, umas vestidas,
outras despidas, umas tantas mortas,
retratos desbotados, faces idas.

Caveiras em museus; Pedro Segundo
vendo estantes, fantásticos barbaças!
E ao lado as prateleiras com uma fauna
de peixes empalhados, irmãos gêmeos
de teu anfíbio índio mergulhado,
dissolvido nos rios e nas febres.

E sua muda fala com os das águas
que o rei jamais entende, fala seca
conservada nos álcoois ou moquém
de sombra nas malocas devastadas
pelos filhos do rei. Catalogados
uns fiapos, umas tangas, uns chocalhos.

Cobre-lhe o asfalto a marca de seus passos
tão bêbedos que ignora se morreu,
sono de índio cansado destes séculos,
dessa malícia branca, desses ópios.
Teve lições de infância recordada;
como tu dóis, Timbira, nesses cantos!

Não obstante o transporto a outros misteres,
transformado em pretéritos de língua
geral fossilizada, moqueada, urna
de traças roendo mortos não chorados,
hoje encontrados secos igaçabas
como empolas do tempo latejando.

Mas como foi esse índio? Todos sabem.
Ele mora no vosso olhar já verde,
na vossa louridão, no vosso passo,
na vossa descendência, partos simples
como fumar, falar essas conversas,
ou dizer que não mente se mentindo.

Ou no riso cavado, na denúncia,
na carência, na flecha inda enfeitada,
no papeiro de louça, na moqueca,
no caju, no cabelo enxundiado,
dessas coisas anciãs ficou um pouco
de tudo, esses anzóis pescando taras.

Ficou um tanto de dentro disfarçado
em abelhas servis e aves-bonecas
e cobras papa-ovos para os ratos.
Ficou o abraço aberto para vós,
ficou o medo de coisas caiporadas,
de estrelas corredeiras, de cometas.

E esse grande Gonçalves, vosso neto
desapartado aos cinco, da mãe parda,
pra rouxinóis, choupais, capas, mondegos;
e a colina coimbrã e as travessias,
e o pão do exílio sem sabiás timbiras,
e Ana Amélia, meu Deus, tão impossível.

Vossa vagabundagem pelo mundo,
vossas mazelas, vossa volta à pátria,
para morrer na praia, sob um mastro,
sob uma quinta, sexta-feira ou sábado
em veleiro de proa carcomida,
sem vos curiosiarem nem sequer.

Sorte vossa, chifrados, como dói,
no silêncio parado, paranado,
sem nunca vos sarar, índio-mirim,
lambuzado de ideias estrangeiras,
passando de formigas jaquitáguas,
estrela da manhã sem vos clarear.

Nem matinado, sempre entardecido,
nossos pipios já não chamam ventos;
vossos enfaros, vossos borrachudos
alargando o silêncio maresiado,
abicado no escuro destes tempos,
sem pau-brasil, sem ouros, sem espadas.

Capital da República habitais
com chinelos, pensões, nomes de tudo,
carapanãs, estádios, urupemas,
pensamenteando ideias, feriados,
batalhas de confetes, constituintes,
eis de trabalho, vaga-lumes, fordes.

Pois vaga-lumes, sim relumeando
vossos caminhos, câmaras, senados,
com vossa proteção paragrafeada,
habitações de luz de quem cedestes
este cerrado bosque de brasis
com doces firmamentos e cruzeiros.

Vamos nos consolar nos coletivos,
sentar juntos, beber nossos orvalhos,
olhar mansas coxilhas, nos coçar,
gozar praias amenas, filas, bondes,
nomearmo-nos chefes-de-seções,
conseguir sinecuras, nossos índios.

Vossos índios ocultos, ranchos deles,
tecendo teias sobre vossos olhos,
e no pino do dia o calorão,
a tristeza do sol dormindo esperta,
tudo largado aí com os nossos índios,
com o pino do meidia, com as sezões.

Quem vos mandou inventar índios… Morus,
ilhas escritas, Morus, utopias,
Morus, revoluções, Morus, ó Morus?
Os índios se esconderam no homem branco,
nos seus assombros, ele se invadindo
de ocasionados índios, de outros índios.

E nós nessas salmouras ou pilando
ou comendo mixiras, tracajás,
temporizando fogos brandos, lenhas,
pirões precipitados, mandipubas;
e nossos columins sobressaltados
pelos iuruparis de importação.

E em nós os nossos índios federando
sabedorias íntimas, vontades,
caprichos devastados, confissões
contidas sob os pelos enroupados,
madornas de urucus, noites suadas,
coceiras de frieiras e desejos.

Padres-mestres vigiando redes fundas,
jiraus estremecendo, castidades
moles, as cunhatãs de sono leve,
os pecados voando pelo escuro,
mariposas paradas esperando,
por mariposas ou por lagartixas.

Enfieira rés-a-rés de som pobrinho,
nós ilhéus engasgados com oficlides
esquecemos mandingas, pajelanças,
com esse canto planando para danças
pra Tupã e morenas se entregar.
Catimbó, Catimbó, na noite imensa.

Há piranhas aos cachos, hoje aéreas,
tingindo os arrebóis, de sangue humano;
é bem melhor babar ternuras que
violências, escutar qualquer cantiga,
que aturar esses bichos, onças pardas,
onças-pintadas, onças disfarçadas.

Assuntamos os cismas aninhados,
aprendendo, imitando os guaçus chefes,
para deles zombar, (os famanados!)
que as saudades arrulhem. Nós de novo,
queremos secundá-los, nos flecharmos,
nos clarinarmos com cauim dormindo.

Moremos esse doce papiri,
sem maliciando ações, sem cancerando,
sem desejar as terras dos vizinhos,
banhando-nos nas chuvas de janeiro,
sem desgastes no juízo memoriado,
sem preparos de flechas e de chumbos.

Graça da vida, e marca de horas boas,
caminho alumiado, arco de adventos,
carismas e outros dons mais compreendidos,
dilúvios de branduras, indolências,
preguiças planizadas, gozos quietos,
quereis a mão na mão, quereis sofias?

Conhecemos jesuítas, se os conhecemos!
Com eles andamos pelos megaís,
pelos jequitinhonhas, grãos-mogóis;
a corcova do padre ia na frente,
a batina em velame, pés descalços,
cantochão ponteirando esses mundões.

Criamos cascos, galopando, firmes.
Dromedários de Cristo com esses montes
nas costas calvarinas, navegamos
entre jaguatiricas, suçuaranas,
enrolados de cobras como cordas,
cascavéis chocalhando guizos fúnebres.

Recalcando saudades caducadas
pelo arrocho da vida mal-querida,
calcanhares mordidos de saúva,
existimos, fugindo de boiunas.
Mas, esquecemos muitas dores, muitas,
Faz-de-conta, Timbiras que esquecemos.

Tradição de indianada, tudo isso.
Timbira ausente entrando pelas testas
como um remorso bom, saudade leve,
pranto constante, sempre nos poemas.
Podeis frechar-nos índios atuais,
e mesmo detestar-nos, devorar-nos.

Já não estais, timbiras, já não sois.
É preciso andar sertões pra encontrar-vos,
verter íntimos sangues, correr matos,
braúnas, umbuzais para encontrar-vos.
Já não sois belos como nos Caminhas,
e sois enfermos e não sois tão nus.

Viveis presos, timbiras, nessas selvas
selvagens, das memórias recalcadas,
reclusos em varizes de libidos.
Nós choramos, timbiras, nós covardes,
nós nos comendo pra nos conhecer,
sofrendo os nossos dentes em nós mesmos.

Moquém rui, de carnes embricadas,
corrompido de terra e morticínios,
de aguardente, varíolas, vícios brancos,
nós nascidos libertos, nós cativos,
nós cedidos, cedidas nossas ocas,
dissolvidos nos sangues de outras gentes.

Sim, guardamos memórias que se adensam,
lhes damos importâncias afetadas
pra que elas nos assombrem com fantasmas,
com boiunas tiradas dos oito anos,
dos casimiros nossos traduzidos
em primaveras quentes e soluços.

Que sopranistas falas nesses índios!
Eles que jantam? Pratos? Pesadumes?
No momento que corre, deficiências,
comidas enfeitadas, que acalentam
escorbutos de fomes escondidas,
todavia saudades e suspiros.

Perdemos nossos rastros pelos barros
encruzilhados, cheios de almas frias
abandonadas nessas solidões,
riscados de cometas; céus nos cobrem
com as mortalhas rasgadas por corujas.
Enfim, nos figuramos nessas nuvens.

Temos sido Gargântuas bem imensos;
hoje não somos nem comemos muito.
Apenas uns gorjalas quase baixos,
levados das palmeiras para as serras
quase colinas, para os medos quase
sombras, para as memórias quase extintas.

Agora finalmente somos listas,
registros e folclores, todo-o-mundo,
papagaios em círculos concêntricos
ou círculos de Dantes orientais,
fábulas criamos asas, somos poemas,
outras vez papagaios, papagaios.

 

Índios_escravizados,_século_XIX

Índios escravizados, fotografia anônima, séc. XIX.

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