poesia, tradução

O Divan de Goethe, por Daniel Martineschen

"Goethe na Campânia Romana", 1786, por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein.

“Goethe na Campânia Romana”, 1786, por Johann Heinrich Wilhelm Tischbein.

hoje é aniversário do velho goethe,
por isso este post-homenagem
com um dos que tentam
mantê-lo vivo, jovem.
mantê-lo em viço
na nossa língua.

guilherme gontijo flores

* * *

West-östlicher Divan

O West-östlicher Divan é uma das obras mais controversas e de recepção mais complicada de Goethe. Não bastasse o título de cara misteriosa – que usa um quase-neologismo um tanto quanto modernoso (“west-östlich”) e um termo que chama todo o imaginário europeu da época sobre o Oriente (“Divan”) –, os poemas se valem de um temário e uma imagética que, mesmo que ele diga que não, apelam para o “exótico” relativo ao Oriente, em especial o Oriente muçulmano e das “Mil e uma noites”. Além disso, a posição autoral é difusa, por motivos que vou abordar a seguir. Para finalizar, o Divan tem duas partes: uma primeira, composta de 12 livros de poemas, e uma segunda, em prosa, intitulada “Notas e reflexões para melhor compreensão”. Tudo isso ajuda a tornar o Divan, nas palavras do crítico Hendrik Birus, “um livro sob sete selos”.

Goethe começou a escrever o Divan em 1814, após ler a primeira tradução integral para o alemão do poeta persa Hafez de Shiraz (~1320-~1389), feita pelo orientalista austríaco Joseph von Hammer. Dessa leitura – feita na viagem de coche a termas próximas a Weimar – surgiu a inspiração para que, nas palavras do próprio Goethe, ele “encontrasse motivo para tomar sua própria posição”. Mais do que seguir a mania tradutória da época, Goethe quis dar a sua contribuição por meio da sua própria obra, que teve sua primeira edição em 1819 e uma segunda em 1827. O Divan de Goethe é, portanto, um convite para uma viagem poética ao Oriente.

Essa viagem já se anuncia no primeiro poema, “Hégira”, do “Livro do Cantor”, que como que resume o Divan inteiro e remete tanto à fuga de Maomé para Medina quanto à própria fuga de Goethe – do mundo burocrático e bélico napoleônico do início do XIX para a terra da poesia. A viagem se prolonga por todos os doze livros – que levam à Pérsia de Hafez à sabedoria corânica, da sabedoria proverbial à contemplação religiosa, do amor carnal à bebedeira – e não termina no último livro, “Livro do Paraíso”: a seção de “Notas” é epigrafada por um poema que convida à terra da poesia todo aquele que quiser entendê-la. As “Notas”, então, não são um apêndice bibliográfico, mas a continuação da viagem iniciada pelos poemas.

A autoria do Divan é complexa: se a maioria esmagadora dos poemas é da pena de Goethe, alguns são da de Marianne von Willemer, um dos muitos amores do poeta e que, num jogo poético de máscaras, é representada por Zuleica, a amada de Hatem. Muitos dos poemas são traduções ou apropriações, tanto de poemas inteiros de Hafez ou outros poetas persas, quanto de versos do Corão, quanto também de verbetes enciclopédicos (como é o caso do “Inverno e Timur” abaixo). Essa difusão torna o Divan uma obra claramente mista: poesia persa travestida de alemã, mas sem poder ser chamada de “tradução propriamente dita” – pelo menos na sua maior parte. Por outro lado, é uma obra de tradução, no sentido em que dá testemunho da convivência de um poeta com outro.

Essa convivência não é neutra nem acidental. Goethe aborda o Oriente segundo seus padrões de religião, cultura, língua e literatura; de maneira seletiva, valoriza o Islã por ser uma Offenbarungsreligion, uma religião de revelação, e rejeita a “idolatria” indiana. Sua imagem do “árabe” é também uma construção, pois jamais esteve perto de qualquer país do Oriente. Para ele, o “árabe” é honrado, tem honra tribal, espírito de pertença, respeita tradições, mas é ávido por guerra, vingativo e irascível. Uma posição um tanto quanto questionável se tentarmos enxergar o Divan como obra de intercâmbio cultural.

O Divan também é tido por boa parte da crítica como uma obra exemplar da Weltliteratur como concebida por Goethe (a literatura que surge no entrelugar, a partir do intercâmbio entre os literatos), tanto por congregar em si a Weltpoesie, a poesia mundial, quanto por manifestá-la via tradução, um dos modos de realização da Weltliteratur segundo o próprio Goethe.

Mesmo com todas essas qualidades e complexidades, o Divan é um ilustre desconhecido fora da germanística. Para o inglês há várias traduções, mas para todas as demais línguas europeias em que há tradução existe somente uma, muitas delas em prosa (como a francesa) ou antigas e esgotadas. Por outro lado, o Divan tem uma larga recepção no mundo islâmico e oriental “como um todo”, tendo sido traduzido para o persa, árabe, turco, azerbaijano, turcomento, tadjique, japonês e mandarim – das que tenho notícia. Na nossa língua pátria, temos umas poucas traduções – Manuel Bandeira traduziu o poema “Selige Sehnsucht” como “Anelo”, e na coletânea apresentada recentemente pelo Adriano há alguns poucos poemas traduzidos. O capítulo “Traduções” das “Notas” é o trecho mais conhecido do Divan como um todo, por apresentar o momento de reflexão mais concentrada de Goethe sobre tradução (o que eu considero uma desproporção, pois esse capítulo só é o ápice, a ponta do iceberg tradutório que é movimentado pelo Divan como um todo).

Selecionei os poemas abaixo do “Livro do cantor”, como uma amostra do Divan. As quadrinhas “Vinte anos fiz fluir” e “É na terra do poema” epigrafam respectivamente o “Livro do cantor” e as “Notas”. Os poemas são “Hégira”, “Talismãs”, “Confissão” e “Anelo abençoado”. A edição consultada é a da editora Deutscher Klassiker Verlag, mas há edições de bolso baratas e, claro, o Projeto Gutenberg e o Zeno.org (tá tudo lá).

Por fim, o título. Como ainda não há tradução do West-östlicher Divan para o português, refere-se a ele normalmente como Divã ocidental-oriental ou Divã do Ocidente e do Oriente. Penso que West-östlich tem em si tanto um movimento do Ocidente em direção ao Oriente quanto um paralelismo, um balanceamento entre as duas regiões do globo. Penso que o título tem que corresponder a isso, sem abandonar o adjetivo como faz a versão francesa (“Le Divan”). Minhas propostas atuais são Divã ocidento-oriental e Divã ocidentoriental, esta última com um tom haroldiano, e que acho que gosto mais.

PS: Publiquei um pequeno ensaio na edição 79 da Revista Brasileira sobre problemas de tradução do Divã: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=16360&sid=31, seção “Pars Orientalis”.

Bônus: O maestro argentino Daniel Barenboim, juntamente com Edward Said, fundaram uma orquestra internacional, formada por músicos israelenses e palestinos, como manifestação contra o conflito na região. O nome da orquestra? West-eastern Divan (http://www.west-eastern-divan.org). Como diz um poema do espólio: “Quem a si e outros conhece/Há de aqui acreditar:/Oriente e ocidente/Não vão mais se separar” [“Wer sich und andere kennt/Wird auch hier erkennen:/Orient und Okzident/Sind nicht mehr zu trennen”].

Daniel Martineschen

* * *

Zwanzig Jahre ließ ich gehn
Und genoß was mir beschieden;
Eine Reihe völlig schön
Wie die Zeit der Barmekiden

Vinte anos fiz fluir
de uma vida bem vivida;
maravilhas a fruir
qual na era Barmecida.

§

Hegire

Nord und West und Süd zersplittern,
Throne bersten, Reiche zittern,
Flüchte du, im reinen Osten
Patriarchenluft zu kosten,
Unter Lieben, Trinken, Singen
Soll dich Chisers Quell verjüngen.

Dort, im Reinen und im Rechten,
Will ich menschlichen Geschlechten
In des Ursprungs Tiefe dringen,
Wo sie noch von Gott empfingen
Himmelslehr in Erdesprachen
Und sich nicht den Kopf zerbrachen.

Wo sie Väter hoch verehrten,
Jeden fremden Dienst verwehrten;
Will mich freun der Jugendschranke:
Glaube weit, eng der Gedanke,
Wie das Wort so wichtig dort war,
Weil es ein gesprochen Wort war.

Will mich unter Hirten mischen,
An Oasen mich erfrischen,
Wenn mit Karawanen wandle,
Schal, Kaffee und Moschus handle;
Jeden Pfad will ich betreten
Von der Wüste zu den Städten.

Bösen Felsweg auf und nieder
Trösten, Hafis, deine Lieder,
Wenn der Führer mit Entzücken
Von des Maultiers hohem Rücken
Singt, die Sterne zu erwecken
Und die Räuber zu erschrecken.

Will in Bädern und in Schenken,
Heil’ger Hafis, dein gedenken,
Wenn den Schleier Liebchen lüftet,
Schüttelnd Ambralocken düftet.
Ja, des Dichters Liebeflüstern
Mache selbst die Huris lüstern.

Wolltet ihr ihm dies beneiden
Oder etwa gar verleiden,
Wisset nur, daß Dichterworte
Um des Paradieses Pforte
Immer leise klopfend schweben,
Sich erbittend ew’ges Leben.

Hégira

Norte e oeste e sul se espalham,
tronos racham, reinos falham.
Foge à terra oriental,
sorve o ar patriarcal;
No amar, beber, cantar
Quíser vai te remoçar.

Onde tudo é justo e puro
Vou buscar com muito apuro
a raça humana, lá na origem,
quando ouvia – sem vertigem –
na sua língua o tom de Deus,
claro outrora para os seus.

Onde os pais ainda honrava,
e outros cultos rejeitava;
Vou gozar do desatino,
com fé ampla e pouco tino,
já que o forte era a palavra,
pois falada era a palavra.

Aos pastores vou mesclar-me,
num oásis saciar-me,
quando em caravana e a pé:
há xale, almíscar e café;
Quero andar pelas picadas
do deserto até as muradas.

Nos rochedos, pela trilha,
com sua mula vai o guia;
às estrelas canta alto –
medo assoma os maus de assalto.
Ó Hafez, sem teus poemas
esta terra tem problemas.

Pelas termas e tavernas
tuas honras canto eternas:
meu benzinho sopra o véu,
cachos d’âmbar solta ao léu
Sim, o poeta, sussurrando,
deixa as houris se corando.

Saibam todos que o invejam
ou que seu caminho pejam,
que as palavras do poeta
fazem súplica discreta
na portada do Eterno
por seu tempo sempiterno.

§

Talismane

Gottes ist der Orient!
Gottes ist der Okzident!
Nord- und südliches Gelände
Ruht im Frieden seiner Hände.

Er, der einzige Gerechte,
Will für jedermann das Rechte.
Sei von seinen hundert Namen
Dieser hochgelobet! Amen.

Mich verwirren will das Irren;
Doch du weißt mich zu entwirren.
Wenn ich handle, wenn ich dichte,
Gib du meinem Weg die Richte.

Ob ich Ird’sches denk und sinne,
Das gereicht zu höherem Gewinne.
Mit dem Staube nicht der Geist zerstoben,
Dringet, in sich selbst gedrängt, nach oben.

Im Atemholen sind zweierlei Gnaden:
Die Luft einziehen, sich ihrer entladen;
Jenes bedrängt, dieses erfrischt;
So wunderbar ist das Leben gemischt.
Du danke Gott, wenn er dich preßt,
Und dank ihm, wenn er dich wieder entläßt.

Talismãs

É de Deus o Oriente,
é de Deus o Ocidente!
Norte ou sul, todo torrão
jaz na paz da Sua mão.

Ele, o único que é Justo,
quer a todos só o justo.
De seus nomes, muitos, cem,
que louvemos este! Amém.

O Errado me confunde,
mas só tu me desconfundes.
Quando ajo ou poeto,
tu me dás caminho reto.

Quando penso no mundano,
realizo um alto plano.
A mente não dispersa pelo pó
se ergue à escuta por si só.

Existem duas graças no respirar:
sorver o ar, dele se liberar.
Um refresca, o outro oprime:
a vida é assim, mista e sublime.
Graça a Deus, se te aperta,
graça a Ele, se liberta.

§

Geständnis

Was ist schwer zu verbergen? Das Feuer!
Denn bei Tage verrät’s der Rauch,
Bei Nacht die Flamme, das Ungeheuer.
Ferner ist schwer zu verbergen auch
Die Liebe; noch so stille gehegt,
Sie doch gar leicht aus den Augen schlägt.
Am schwersten zu bergen ist ein Gedicht;
Man stellt es untern Scheffel nicht.
Hat es der Dichter frisch gesungen,
So ist er ganz davon durchdrungen.
Hat er es zierlich nett geschrieben,
Will er, die ganze Welt soll’s lieben.
Er liest es jedem froh und laut,
Ob es uns quält, ob es erbaut.

Confissão

O que é ruim de esconder? O fogo!
Pois de dia a fumaça o entrega,
E à noite a chama, o monstro, o ogro.
Pior de esconder (e que macega):
O amor; guardado em cura calma,
Pula ágil fora d’alma.
O pior mesmo: esconder um poema,
Pois cobri-lo dá o maior problema.
Se o poeta o recém-cantou,
De poesia ele se encharcou;
Se o poeta o escreveu com classe,
Quer que todo o mundo o abrace.
A todos lê, alegre e forte;
Azar de nós – ou será sorte?

§

Selige Sehnsucht

Sagt es niemand, nur den Weisen,
Weil die Menge gleich verhöhnet,
Das Lebend’ge will ich preisen,
Das nach Flammentod sich sehnet.

In der Liebesnächte Kühlung,
Die dich zeugte, wo du zeugtest,
Überfällt dich fremde Fühlung,
Wenn die stille Kerze leuchtet.

Nicht mehr bleibest du umfangen
In der Finsternis Beschattung,
Und dich reißet neu Verlangen
Auf zu höherer Begattung.

Keine Ferne macht dich schwierig,
Kommst geflogen und gebannt,
Und zuletzt, des Lichts begierig,
Bist du, Schmetterling, verbrannt.

Und solang du das nicht hast,
Dieses: Stirb und werde!
Bist du nur ein trüber Gast
Auf der dunklen Erde.

Tut ein Schilf sich doch hervor,
Welten zu versüßen!
Möge meinem Schreibe-Rohr
Liebliches entfließen!

Anelo abençoado

Conte só a quem é sábio,
pois o povo zomba logo:
louvarei o vivo, volátil,
que deseja a morte no fogo.

Na fresca da noite de amor,
que te gerou e onde geraste,
cai-te estranho dissabor
quando a chama a vela gaste.

Nunca mais quedas sofrido
sob a treva tão sombria.
E se renova em ti o pedido
por mais alta companhia.

Não te impedem as distâncias,
vens voando e encantada;
pela luz tens muitas ânsias.
Mariposa: és chamuscada.

“Morre e te transforma:” assim
que cumprires teu destino,
deixarás de ser, enfim,
nesta terra um peregrino.

Como o caldo vem da cana
e adoça a todo o mundo,
flua amor de minha pena
sem parar nem um segundo.

§

Wer das Dichten will verstehen,
Muß in’s Land der Dichtung gehen;
Wer den Dichter will verstehen,
Muß in Dichters Lande gehen.

É na terra do poema
que se entende o poema;
é na terra do poeta
que se entende o poeta.

 (Goethe, trads. de Daniel Martineschen)

 * * *

Daniel Martineschen (1981-) é tradutor literário, técnico e juramentado de língua alemã, e é doutorando em Estudos Literários na UFPR, traduzindo o Divã como centro da tese (tradução com previsão de publicação para 2016). Traduziu recentemente “Travessia” de Anna Seghers (2013, Ed. UFPR). Tem também formação em informática pela UFPR, joga truco e nada borboleta muito bem.

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4 comentários sobre “O Divan de Goethe, por Daniel Martineschen

  1. Jonas disse:

    o novo site está bonito, mas pessoalmente me dificulta a visualização. Acesso de um notebook, com iceweasel (Debian linux). A postagem fica muito grande e vira necessários estar abaixando a tela todo o tempo para ler.

    • Obrigado, Jonas! Você acha que o que dificulta a visualização é o tamanho da fonte? Vamos levar isso em consideração, se mais gente achar que está atrapalhando, talvez fosse bom repensar esse aspecto do layout novo. Agradecemos o comentário.

      • Jonas disse:

        olá Adriano,
        olha, pelo pouco que sei sobre internet, tenho impressão de que a questão vai no sentido de que este layout atual é mais voltado para o acesso por meio de tablets e aparelhos de touch-screen com telas verticais, costumam ser páginas feitas para acessos mais rápidos e corriqueiros, informação bem direta e “objetiva”. Esteticamente não é mal, inclusive gosto muito da nova imagem de abertura da página, mas ela ocupa mais do que toda minha tela quando entro no site. Não é apenas o tamanho da fonte, mas a organização dos espaços (a barra lateral fica escondida agora, etc). Enfim, é o ponto de vista de alguém que talvez já esteja ficando próximo da obsolecência, mas fica o meu comentário, quiçá haja mais leitores como eu. Um abraço e parabéns pelo site!

  2. Pingback: Pós-Graduação em Estudos da Tradução

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