poesia, tradução

george oppen (1908-1984)

george-oppen

george oppen é uma figura sui generis na poesia norte-americana. nascido de uma família judia (oppenheimer, que o pai viria a mudar para oppen em 1927) de new rochelle, no estado de nova iorque, ele penou o suicídio da mãe quando tinha apenas 4 anos, o que certamente foi um trauma que o levou ao álcool & a muitas brigas: em 1925, ele bateu o carro num acidente que matou um jovem; no ano seguinte, depois de uma série de viagens solitárias pela europa & de retornar aos eua, ele conheceu & se juntou com mary colby, então saíram viajando pelo país, entre caronas & bicos.

1930 ele se juntou ainda ao jovem grupo dos objetivistas, como louis zukofsky, william carlos williams & charles reznikoff, dentre outros. em 1934 lançou pela objectivist press seu primeiro livro de poemas, discrete series, prefaciado por ezra pound. no entanto, pouco depois disso, em 1936 oppen se filiou ao partido comunista & passou praticamente 25 anos sem escrever. em 1942, voluntariou-se para combater na segunda guerra mundial, onde sofreu um ferimento seríssimo, que lhe rendeu condecorações. depois da guerra, a perseguição americana aos comunistas forçou os oppen a um exílio no méxico, que durou até 1958. foi então que voltaram a nova iorque & george voltou à poesia, para lançar em 1962 (29 anos depois!) seu segundo livro, the materials.

a partir de então, sua produção foi mais constante: em 1965 lançou this in which, em 1968 of being numeorous (vencedor do pulitzer de 1969), em 1972 seascape: needle’s eye, em 1975 myth of the blaze (anexo aos collected poems organizados pelo poeta), & em 1978 primitive. depois disso, george oppen foi vítima de alzheimer até sua morte, em 1984.

estou roendo a obra de oppen há algum tempo, na edição dos new collected poems de 2002, organizada por michael davidson & acompanhada por notas & por um CD com leituras do poeta. uma pérola, em resumo. optei por traduzir alguns trechos dos 40 segmentos que constituem o poema “of being numerous”, do livro homônimo, porque é considerado por muitos como a obra-prima de oppen. como na maior parte da sua poesia, a fragmentação tem papel proeminente; ao mesmo tempo, o eu do poema está praticamente desaparecido, apesar de tratar de seu processe de “exílio de retorno” a nova iorque: no meio disso tudo, temos flashes da segunda guerra, da guerra do vietnam, de problemas ecológicos, econômicos & existenciais: “ser numeroso” & testemunhar o “naufrágio do singular” não é um processo fácil ou unívoco: para oppen, o humano pende entre sua existência coletiva (não há outro modo de estar no mundo) & seu destino singular, incompartilhável: de algum modo, a escolha de um dos polos parece um fracasso, é nesse meio indeterminado que aparece a “assustadora e estreita luz / antes da aurora”.

por fim, aconselho aos interessados a leitura deste artigo preciso  & precioso de marjorie perloff — the shipwreck of the singular: george oppen’s “of being numerous”. desconheço edições lusófones da sua poesia, porém há algumas traduções de oppen disponíveis na internet:

“five poems  about poetry”, por ruy vasconcelos
dois poemas citados um estudo de ruy vasconcelos
“the forms of love”, por rubens akira kuana

guilherme gontijo flores

* * *

De ser numeroso

1

Há coisas
Entre as quais vivemos “e vê-las
É sabermo-nos”.

Ocorrência, parte
Duma série infinita,

As tristes maravilhas;

Disso se disse
A estória da nossa maldade.
Não é nossa maldade.

“Você lembra daquela velha cidade que visitamos e sentamos na janela em ruínas e tentamos imaginar que pertencíamos àqueles tempos — Está morta e não está morta e você nem consegue conceber sua vida ou sua morte; a terra fala e a salamandra fala, a primavera vem e só a obscurece —”

2

E falou da existência das coisas
Um panteão incontrolável

Absoluto, mas dizem
Árido.

Uma cidade de corporações
Vidrada
Em sonhos

E imagens —

E a alegria pura
Do fato mineral

Embora impenetrável

Como o mundo, se for matéria,
É impenetrável.

3

As emoções se engajam
Ao entrar na cidade
Como em qualquer cidade.

Não somos coevos
De um lugar
Mas achamos que os outros são,

E os encontramos. Na verdade
Uma multidão flui
Pela cidade.

Essa é uma língua, afinal, de Nova Iorque.

5

A grande pedra
Sobre o rio
No poste da ponte

‘1875’

Congelada ao luar
No ar congelado da vereda, consciência

Que nada tem a perder, que nada espera
Que ama a si mesma.

6

Sofremos pressão, pressão de um no outro,
Ouvimos dizer num segundo
O que quer que aconteça

E a descoberta do fato rebenta
Num paroxismo de emoção
Hoje e sempre. Crusoé,

Dizemos, foi
“Resgatado”.
Foi assim que escolhemos.

7

Obcecados, perplexos

Pelo naufrágio
Do singular

Escolhemos o sentido
De ser numerosos.

10

Ou, nessa luz, Novas artes! Ditirâmbica, público-como-artistas! Mas eu vou escutar um homem, vou escutar um homem, e quando eu falar vou falar, embora ele falhe e eu falhe. Mas vou escutar que fale. A mudança de um bando não é nada — bem, nada senão os muitos que somos, mas nada.

Arte urbana, arte das cidades, arte dos jovens nas cidades — O homem isolado está morto, o mundo a seu redor exausto

E ele falha! Falha, o homem meditativo! E de fato eles não “suportam” isso.

13

………………..incapaz de começar
Ao começo, o afortunado
Encontra tudo agora pronto. São compradores,
Seletores, juízes; . . . E agora o brutal não tem
problema, é beco sem saída.
Desenvolvem
Argumentos só para falar, tornam-se
irreais, irreais, a vida perde
solidez, perde extensão, baseball é seu jogo
porque baseball não é um jogo
mas argumento e a divergência de opiniões
faz corridas de cavalo. São fantasmas que arriscam

A alma alheia. Algo muda
No ar
E fede a mofo, eles já chegam ao fim
De uma era
Primeiros dos povos
E convém manter uma honrável
Distância
Se possível.

15

Coro (andrógino): “Me encontre
Pra que eu exista, encontre meu umbigo
Pra que ele exista, encontre meus mamilos
Pra que eles existam, encontre cada pelo
Desta barriga, eu sou do bem (ou do mal)
Me encontre.”

18

É o ar de atrocidade,
Um evento tão comum
Quanto um presidente.

Uma pluma de fumo, visível ao longe
Onde o povo queima.

22

Clareza

No sentido de transparência
Não digo que se possa explicar muita coisa.

Clareza no sentido de silêncio.

25

Estranho que os mais jovens que eu conheço
Morem nos prédios mais velhos
Esparsos pela cidade
Em quartos negros
Do passado — e os imigrantes

Os prédios
Pretos retangulares
Dos imigrantes.

Eles são filhos da classe média.

“Os puros produtos da América —”

Que investem
Os prédios antigos
Se acotovelam

No semiesquecido, negócio ponderoso
Essa Muralha da China

28

A luz
Das páginas cerradas, bem cerradas, umas contra as outras
Expõe o novo dia,
A assustadora e estreita luz
Antes da aurora.

32

Só que isso devia ser belo.
Só que isso devia ser belo.

Ó, belo

Verde azul carmim — lábios úmidos
rindo

Ou a curva da concha branca

E a beleza feminina, os tendões perfeitos
Sob a pele, a vida perfeita

Que se torce numa inundação
De desejo

Não verdade mas um ao outro

A pele clara, clara, as mãos dela vacilantes
Numa incrível necessidade

33

Que é nossa, que é nós,
É nosso júbilo
Exaltado e velho como a veracidade
Que ilumina a fala.

35

. . . ou definir
O homem além do resgate
do empobrecido, dissolver
cidades inteiras

antes de encararmos
de novo
selvas e prados . . .

38

Você vai ser
A última a conhecê-lo
Enfermeira.

Não conhecê-lo,
Ele está velho,
Um paciente,
Então como conhecê-lo?

Você vai ser
A última a vê-lo,
Ou tocá-lo,
Enfermeira.

39

Enquanto ocorre “nem por si
nem pela verdade”

As tristes maravilhas

Na última circunstância crível,
Tempestade ou bombardeio

Ou o leito de um homem muito velho.

40

Whitman: “19 de abril de 1864

O capitólio cresce sobre a gente a cada dia, sobretudo agora que puseram a grande estátua lá no topo e dá pra vê-la muito bem. É uma grande estátua de bronze, o Gênio da Liberdade, acho. É deslumbrante na hora do pôr-do-sol. Eu adoro ir lá vê-la. O sol, quando está bem baixo, brilha na cabeça e ela reluz e ofusca como uma estrela enorme: é bem

curioso . . .

 §§§

Of being numerous

1

There are things
We live among ‘and to see them
Is to know ourselves’.

Occurrence, a part
Of an infinite series,

The sad marvels;

Of this was told
A tale of our wickedness.
It is not our wickedness.

‘You remember that old town we went to, and we sat in the ruined window, and we tried to imagine that we belonged to those times—It is dead and it is not dead, and you cannot imagine either its life or its death; the earth speaks and the salamander speaks, the Spring comes and only obscures it—’

2

So spoke of the existence of things,
An unmanageable pantheon

Absolute, but they say
Arid.

A city of the corporations

Glassed
In dreams

And images—

And the pure joy
Of the mineral fact

Tho it is impenetrable

As the world, if it is matter,
Is impenetrable.

3

The emotions are engaged
Entering the city
As entering any city.

We are not coeval
With a locality
But we imagine others are,

We encounter them. Actually
A populace flows
Thru the city.

This is a language, therefore, of New York

5

The great stone
Above the river
In the pylon of the bridge

‘1875’

Frozen in the moonlight
In the frozen air over the footpath, consciousness

Which has nothing to gain, which awaits nothing,
Which loves itself

6

We are pressed, pressed on each other,
We will be told at once
Of anything that happens

And the discovery of fact bursts
In a paroxysm of emotion
Now as always. Crusoe

We say was
‘Rescued’.
So we have chosen.

7

Obsessed, bewildered

By the shipwreck
Of the singular

We have chosen the meaning
Of being numerous.

10

Or, in that light, New arts! Dithyrambic, audience-as-artists! But I will listen to a man, I will listen to a man, and when I speak I will speak, tho he will fail and I will fail. But I will listen to him speak. The shuffling of a crowd is nothing—well, nothing but the many that we are, but nothing.

Urban art, art of the cities, art of the young in the cities—The isolated man is dead, his world around him exhausted

And he fails! He fails, that meditative man! And indeed they cannot ‘bear’ it.

13

unable to begin
At the beginning, the fortunate
Find everything already here. They are shoppers,
Choosers, judges; . . . And here the brutal
is without issue, a dead end.
They develop
Argument in order to speak, they become
unreal, unreal, life loses
solidity, loses extent, baseball’s their game
because baseball is not a game
but an argument and difference of opinion
makes the horse races. They are ghosts that endanger

One’s soul. There is change
In an air
That smells stale, they will come to the end
Of an era
First of all peoples
And one may honorably keep

His distance
If he can.

15

Chorus (androgynous): ‘Find me
So that I will exist, find my navel
So that it will exist, find my nipples
So that they will exist, find every hair
Of my belly, I am good (or I am bad),
Find me.’

18

It is the air of atrocity,
An event as ordinary
As a President.

A plume of smoke, visible at a distance
In which people burn.

22

Clarity

In the sense of transparence,
I don’t mean that much can be explained

Clarity in the sense of silence.

25

Strange that the youngest people I know
Live in the oldest buildings
Scattered about the city
In the dark roomns
Of the past—and the immigrants,

The black
Rectangular buildings
Of the immigrants

They are the children of the middle class.

‘The pure products fo America—’

Investing
The ancient buildings
Jostle each other

In the half-forgotten, that ponderous busines
This Chinese Wall.

28

The light
Of the closed pages, tightly closed, packed against each other
Exposes the new day,
The narrow, frightening light
Before a sunrise.

32

Only that it should be beautiful,
Only that it should be beautiful,

O, beautiful

Red green blue—the wet lips
Laughing

Or the curl of the white shell

And the beauty of women, the perfect tendons
Under the skin, the perfect life

That can twist in a flood
Of desire

Not truth but each other

The bright, bright skin, her hands wavering
In her incredible need.

33

Which is ours, which is ouselves,
This is our jubilation
Exalted and as old as that truthfulness
Which illumines speech.

35

. . . or define
Man beyond rescue
of the impoverished, solve
whole cities

before we can face
again
forests and prairies . . .

38

You are the last
Who will know him
Nurse.

Not know him,
He is an old man,
A patient,
How could one know him?

You are the last
Who will see him
Or touch him,
Nurse.

39

Occurring ‘neither for self
Nor for truth’

The sad marvels
In the least credible circumstance,
Storm or bombardment

Or the room of a very old man

40

……………………………….Whitman: ‘April 19, 1864

The capitol grows upon one in time, especially as they have got the great figure on top of it now, and you can see it very well. It is a great bronze figure, the Genius of Liberty I suppose. It looks wonderful toward sundown. I love to go and look at it. The sun when it is nearly down shines on the headpiece and it dazzles and glistens like a big star: it looks quite

curious . . . ‘

(george oppe, trad. de guilherme gontijo flores)

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s