poesia, tradução

6 carjas anônimas (séc. xi), seguidas de 4 poemas anônimos espanhóis

jarchas

a carja (ou kharja, ou  jarcha) é a estrofe final do moachaha, um tipo tradicional de poesia árabe; muitas vezes escrita em moçárabe (usado pelos cristãos da espanha moura.) ao fim de um poema todo escrito em árabe. no entanto, elas também poderiam aparecer como poema solitário, conciso, em que geralmente uma jovem mulher apaixonada revelaria seus sentimentos. apresento logo abaixo seis dessas carjas que foram traduzidas na abertura do livro Lírica espanhola de tipo tradicional, por josé bento (ed. assírio & alvim, 1995).

como é muito provável que esses poemas breves tenham suas origens ainda no séc. x ou xi, portanto antes do desenvolvimento do trovadorismo provençal & galego-português, penso que sejam de grande importância para pensarmos o desenvolvimento da poesia cantada ocidental. é nessa cultura popular anônima que vão se formando os lugares comuns em que a elite trovadoresca buscará fundar sua poesia. em resumo: melopeia amorosa. sobretudo aquela que veremos nas nossas cantigas de amigo, poemas em que a persona feminina ocupa o lugar do desejo & do dilema entre corpo & moral cristã. noutras palavras, entre o senhor divino & o senhor amoroso, por isso o amor pode ser uma doença (carja 2), por isso também encontramos uma comparação inusitada do amante a um filhinho (carja 4). é na fenda cristã entre corpo e alma que a poesia amorosa tem seu elã, porque não se resolve facilmente, ou pelo menos não até chegarmos a dante, que santifica sua beatriz (tratei do assunto aqui). por ora, o que mais teremos é a dor do desejo ou o arrependimento da realização, com poucos momentos daquela joi provençal.

a tradução, infelizmente, não é das mais felizes na melodia, pois em geral prefere o português escorreito – seja lá o que isso for — e retira o bilinguismo das construções. de qualquer modo, o trabalho de josé bento tem momentos felizes & já vale pela seleção tradutória.

além das 6 carjas, escolhi ainda 4 poemas breves anônimos (posteriores, certamente, talvez dos sécs. xiv ou xv, embora a datação não seja fácil), com  o amor feminino: 4 pérolas dessa poesia de ninguém.

guilherme gontijo flores

ps: desconfio que a carja 5, v. 3 tenha um problema de tradução; porém, como meu espanhol arcaico com influência moçárabe não existe, calo-me quanto a sugestões e deixo a mera impressão.

* * *

 ….¿Qué faré yo o qué será de mibi?
¡Habibi,
no te tolgas de mibi!

….Que farei eu ou que será de mim?
Amigo,
não te apartes de mim!

§

….¡Tanto amare, tanto amare,
habib, tanto amare!
Enfermeron olios nidios
e dolen tan male.

….Tanto amar, tanto amar,
amado, tanto amar!
Meus olhos adoeceram,
doem, de tanto mal.

§

….Vaise mio corachón de mib.
¡Ya Rab!, ¿si me tornarad?
Tan de mal me dóled li-l-habib:
enfermo yed, ¿cuánd sanarad?

….Vai-se o meu coração de mim.
Ai, Deus! Acaso voltará?
Tanto me dói por meu amado:
está doente, quando sarará?

§

….Como filyolo alieno,
no más adormes a meu seno.

….Como um filhinho alheio,
já não dormes em meu seio.

§

Meu sidi Ibrahim, ya nuemne dolche,
……..vent’a mib de nohte.
In non, si non queris, yereim’ a tib:
……..garme a ob legarte.

Meu senhor Ibrahim, oh doce nome,
……..vem até mim de noite.
Se não queres, vou ter contigo:
……..diz-me onde achar-te.

§

….Al-sabah bono,
garme d’on venis.
Ya lo sé que otri amas,
a mibi non queris.

….Alva formosa,
diz-me de onde vens.
Já sei que amas outras
e a mim não me queres.

* * *

….Las mis penas, madre
de amores son.
….Salid, mi señora,
de so’l naranjale,
que sois tan hermosa,
quemarvos ha el aire,
de amores sí.

….Minhas mágoas, mãe,
de amores são.
….Saí, senhora minha,
desse laranjal,
que sois tão formosa,
o ar vai queimar-vos,
de amores, sim.

§

.Recordad, mis ojuelos verdes,
que a la mañana dormiredes.

….Acordai, meus olhinhos verdes,
que de manhã vós dormireis.

§

….Malferida iba la garza
enamorada:
….sola va y gritos daba.
Donde la garza hace su nido,
ribericas de aquel río,
sola va y gritos daba.

….Muito ferida ia a garça
enamorada:
vai sozinha e gritos dava.
….Onde a garça faz o ninho,
na margem daquele rio,
vai sozinha e gritos dava.

§

….— Decid, hia garrida,
quién os manchó la camisa?
— Madre, las moras del zarzal.
— Mentir, hija, mas no tanto,
que no pica la zarza tal alto.

….— Dizei, filha, bonita,
quem vos manchou a camisa?
— Mãe, as amoras do silvado.
— Mentir, filha, mas não tanto,
que a silva não vai tão alto.

(poemas anônimos, trad. de José Bento)

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s