poesia

emílio moura (1902-1971)

emílio moura

emílio moura é o poeta modernista mineiro mais importante que quase ninguém lê. dito isso, aos fatos: nascido em 1902, em dores do indaiá (que diabo de nome lindo para uma cidade), ele teve sua educação inicial em algumas cidades pequenas de minas, dentre elas bom despacho, terra da minha família materna, porque o mundo é deveras pequeno. depois ele foi para belo horizonte, onde formou o famigerado grupo d’a revista, junto com drummond, martins de almeida & gregoriano canedo, dentre outros.

o fato é que emílio não saiu de bh, & essa é talvez a causa de ter sido pouco lido: faltou-lhe a vida literária de capital. há outra coisa, sua poesia, ao contrária da de seu amigo drummond, caminhou para uma metafísica do amor & da poética. sua pequena obra consta dos seguintes livros: ingenuidade (1931), canto da hora amarga (1936), cancioneiro (1945), o espelho e a musa (1949), o instante e o eterno (1953), a casa (1961), 50 poemas escolhidos pelo autor (ainda de 1961) & itinerário poético (1969), que reúne toda sua obra anterior, uma espécie de obra completa em vida, que lhe rendeu o prêmio do instituto nacional do livro, em 1970. o poeta morreu em 1971, em belo horizonte.

os 10 poemas, pra dar uma amostra do poder de certos ápices de e.m., foram retirados da antologia poesia de emílio moura, com introdução e seleção de fábio lucas (art editora, 1991).

guilherme gontijo flores

* * *
Encantamento

Se eu algum dia regressar (oh! as impossíveis viagens em que meu
……………………………………………[corpo não estará presente!)
eu bem sei que só há de ser com o propósito de partir de novo.

Agora, por exemplo:

Tudo me traz, agora, esta ânsia virgem de mar alto.

Partir, partir, de novo…

Prestígio das ruas mal entrevistas, eu vos evoco;
eu vos evoco, sim, figuras sem nome, estradas esquecidas,
corpos de jamais, eu vos evoco.
Olhai: à sombra das coisas visíveis e invisíveis,
tudo se revelará, um dia, como no momento mesmo da criação.

§

Matinal

Sobre as ondas mansas brincam os barcos.
Diante de meus olhos matinais,
as coisas se ordenam simples e perfeitas:
o céu, o mar, teu corpo.

Ah, o teu corpo!

Meus olhos brincam sobre o teu corpo.
Nenhuma nuvem na minha alma.

§

Libertação

Quando a multidão, que há de chegar, estiver toda, toda, nas ruas,
ninguém mais se preocupará com o fio inquieto ou torturado de
…………………………………………………….[meus pensamentos.
O meu vulto não projetará nenhuma sombra ao redor de mim.
Ninguém procurará compreender, ninguém!
Certamente o sentido da minha derrota há de pairar como um signo
………………………………….[trágico sobre a cabeça de cada um deles,
mas será também como um signo inútil em que ninguém atenta.
Ah, então serei livre, livre,
e, antes de mim, como depois de mim, todos os mistérios poderão
…………………………………………………[permanecer invioláveis.

§

Canção

Não quero ver esta rosa,
nem saber por que floriu.
A cor mais bela do Arco-Íris
foi a cor que ninguém viu.

Não quero ouvir este canto,
nem saber de seu sentido.
Quem é que me conta
o que foi perdido?

§

Canção do náufrago

Entre estas margens e aquelas,
que abismos de solidão.
Quem me diz, nesta voragem,
se as águas vêm ou se vão?
Ó noite, dá-me o sentido
do que há de ser o Outro Lado
que meus olhos não verão.

§

Poema

Quantas vezes te destruí em mim para te criar de novo?
Quantas vezes te considerei mito, estrela desterrada de sua
…………………………………..[constelação, símbolo e chama?
De onde tirei a tua forma?
Dos mitos que sustentaram antes de tua vinda, ou de minha própria
……………………………………………………….[sede de poesia?
Mito! Eras mito e eu te esperava.
Estrela desgarrada, e meus olhos te reintegraram em tua
……………………………………………….[constelação mágica.

§

Bucólica

Olha este azul, Eliana!

Que importa o que não fui,
se o que não sou te embala?

§

Tarde

Aura da tarde, essa quietude de ermo
lenta, lenta, refaz o já perdido.
Asas soltas no céu planam, de leve,
ou se apagam no espaço? A tarde se recolhe,
concha abstrata no ar, como se fora
a alma mesma do tempo que, serena,
se fechasse em si mesma. Para sempre.

§

Poema

Duro caminho é o de saber que não há caminho.
O que há são fragmento de rota que o tecido do acaso
une ou desune. Estar, andar. Identificar-se com as coisas,
com o tempo. Estar aqui, ali. Estar antigamente, estar futuro,
ou buscar-se no espelho onde não há espelho.
Isso é tudo.
Mesmo assim nos sonhamos, e sonhamos
um roteiro, um destino.
Não no espaço, ou no tempo,
mas na parte de nós, ah, tão frágil, que se devora
e, perdida, se salva.

§

Naufrágio

Meu grito não chega nunca
lá onde a aurora é possível.
A vida que nunca tive
me sustenta sobre as águas.

(poemas de emílio moura)

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Um comentário sobre “emílio moura (1902-1971)

  1. Daniel disse:

    Muito boa sua descrição de Emílio Moura. O poeta que, infelizmente, ninguém lê. Eu leio e releio o Itinerário Poético.
    Congratulações,
    Daniel Pina

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