crítica, poesia, tradução

Nova “Terra sem Mal”

nenhum gesto sem passado
nenhum rosto sem o outro

acabou de sair online o livro Terra sem Mal, uma parceira entre poemas de Josely Vianna Baptista & desenhos de Guilherme Zamoner: em resumo, primor. mas, ainda que breve, preciso dizer duas cositas sobre essa alegria — seria o livro uma terra sem mal neste remate de males que chamamos mundo? — & que justificam ainda mais sua leitura.

terra sem mal

1. não se trata do tradicional texto/imagem; não há mera ilustração, nem simplicidade de apresentações. o trabalho de ilustrador & designer feito por Zamoner mescla obra própria & recortes de obras alheias com um repertório que vai de mapas & desenhos botânicos a uma espécie de fotomontagens de imagens. algo como tradução de imagens, pelo poder transfigurador (aqui sem metáfora) dos deslocamentos & reorganizações.

2. a poesia de Josely funde deliberadamente tradução de canto guarani com criação própria — também numa espécie fotomontagem de poemas? — realizando mescla que também convida à intervenção sobre quanto da tradução é criação — alguém ainda duvida? — & quanto da criação está entregue à tradução, consciente ou inconsciente. mais ainda, os poemas acontecem simultaneamente: ao longo de páginas, pelo menos 4 poemas (um deles assumidamente tradutório & em apresentação bilíngue) se desenvolvem cercados por notas explicativas e outros poemas esparsos.

oh, o corolário disso tudo: não, não se trata de mudernage gratuita, ou pós-modernismo — no sentido pejorativo do termo (esse que explicita apenas muita confusão experimental sem maior rigor). pelo contrário a fusão & transbordamento de imagens, colagens, poemas, traduções, tudo em simultaneidade, cria um efeito de ambiente. o leitor, claro, pode seccionar tudo, ler ordenadamente quando & quanto quiser; mas aquele que se entregar (& é o que vos aconselho; meninos, eu vi) ao caos aparente, esse ressurge de uma experiência com um, digamos assim, convívio complexo (do latim complexus, que, como amplexus, também tem o sentido de “abraço”). um sonho de terra sem mal já noutra língua.

vejam lá:

em tempos de persistente massacre indígena no brasil, quando sentimos que nossa política insiste num fracasso ambiental, não haveria melhor alívio crítico.

guilherme gontijo flores

 

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