poesia, tradução

Um tombeau a Walter Benjamin

“O futuro parece certo
certo
que prosseguirá
sem nós.
O futuro parece certo
que prosseguirá
prosseguirá
O futuro parece
que prosseguirá
o futuro certo
parece certo
prosseguirá
sem nós.”

– últimas palavras do personagem de Walter Benjamin na ópera Shadowtime, de Brian Ferneyhough, com libreto de Charles Bernstein (tradução minha).

walter-benjaminAgora, ao pôr-do-sol de 26 de setembro, terminam as festividades do Rosh Hashanah, o ano novo judaico, anunciando o começo do ano 5775. Há 74 anos, nessa mesma data, no entanto, Benjamin estava chegando à estalagem em Portbou, na Espanha e, ao achar que lhe seria negada a passagem e que sua tentativa de fuga da França colaboracionista terminaria aí, Benjamin tirou a própria vida com uma overdose de morfina. Seus companheiros de viagem, porém, puderam prosseguir no dia seguinte. Parece que nos últimos anos surgiram suspeitas sobre a autenticidade do seu suicídio e que ele poderia ter sido assassinado por agentes stalinistas, e a situação toda é misteriosa (uma mala que Benjamin portava consigo, por exemplo, parece ter desaparecido, e Henny Gurland, sua companheira de viagem, destruiu os bilhetes que ele deixou). O que quer que tenha acontecido, é inegável, desde antes, o caráter melancólico que tinge o pensamento e a vida de Benjamin, que, em todo caso, já havia considerado em pelo menos uma outra ocasião a possibilidade do suicídio – uma ideia também já contemplada, mas felizmente não levada a cabo, por outro contemporâneo seu, o filósofo também judeu Ludwig Wittgenstein.

O poeta alemão Bertolt Brecht, com quem Benjamin passou as tardes do verão de 1934 na Dinamarca jogando xadrez, o homenageou com quatro poemas em 1941, ao descobrir o destino do amigo. Um desses poemas se chama “An Walter Benjamin, der sich auf der Flucht vor Hitler entleibte” [A Walter Benjamin, que se matou em fuga de Hitler] e consiste de um breve epitáfio de um quarteto, que eu traduzo aqui:

Ermattungstaktik war’s, was dir behagte
Am Schachtisch sitzend in des Birnbaums Schatten.
Der Feind, der dich von deinen Büchern jagte,
läßt sich von unsereinem nicht ermatten.

Usavas táticas de guerra de desgaste
No tabuleiro, sob a pereira sentado.
Vindo o inimigo, dos teus livros te afastaste,
Que não será por nossa laia derrotado.

brecht-benjamin

Creio que esteja já bem estabelecido que Benjamin não é um autor dos mais fáceis de se ler. Qualquer tradutor que tenha lido o seu “A Tarefa do Tradutor” provavelmente saiu com mais dúvidas do que respostas. Seu trabalho de habilitação A origem do drama trágico alemão, foi condenada por sua banca na Universidade de Frankfurt por ser “opaca” e “incompreensível”, o que pôs um fim à sua carreira acadêmica. Seu colega, o poeta, crítico e tradutor Hans Sahl, por exemplo, ficou igualmente confuso quanto ao seu famoso ensaio sobre a reprodução mecânica e achou “tudo muito místico, apesar de sua atitude anti-mística” (fonte), e à época ninguém sabia direito o que fazer do seu Livro das Passagens, uma extensa obra de colagem deixada inacabada (e possivelmente, por sua própria natureza, inacabável), que, por isso, foi criticado duramente por autores como Theodor Adorno. Apesar de eu não ser nenhum especialista em Benjamin, se me permitem um pitaco, eu diria que os seus escritos talvez fossem melhor vistos não tanto como uma obra fechada quanto uma obra tentativa, um esforço, em diversas frentes, de tentar entender um mundo num momento de virada que parece só fazer algum sentido a partir deste nosso viés narrativo, de retrospecto. E isso é ainda mais complicado quando se lembra que Benjamin era um judeu para quem a identidade judaica retinha bastante importância, diferente do que ocorre com Wittgenstein ou Husserl ou mesmo Derrida, na geração seguinte, que eram judeus para quem a assimilação, num sentido mais interno, como estado de espírito, parece ter sido mais completa. Grande amigo do cabalista Gershom Scholem, Benjamin nunca foi um judeu tradicional, praticante, mas seu interesse pelas tradições místicas é evidente em seu pensamento, para qual o messianismo era um aspecto especialmente relevante – a contraparte metafísica, poderíamos dizer, para o seu materialismo marxista.

Um de seus trechos mais famosos, presente em Teses sobre a filosofia da história, é um parágrafo em que Benjamin trata da pintura Angelus Novus (1920) de Paul Klee, descrevendo essa figura estranha, que parece estar em movimento, se afastando de algo que olha fixadamente, como a imagem de como deveria ser o anjo da história, contemplando impotente o progresso histórico, que ele vê como uma única catástrofe e não como uma cadeia de acontecimentos, enquanto um vendaval vindo do paraíso o impele irresistivelmente ao futuro. É uma imagem poderosa e, como muitas das ideias de Benjamin, dotada de um forte tom poético.

Klee - Angelus Novus

Klee – Angelus Novus

Por isso, é uma coincidência bastante feliz que o nosso colega e co-editor do escamandro, Guilherme Gontijo Flores, tenha recentemente concluído o seu projeto Tróiades, para lançá-lo agora em tempo para esta homenagem. As Tróiades são um trabalho poético online que, apesar de construído como apropriação e subversão de poemas do grego e do latim clássico, a saber, poemas dramáticos sobre os derrotados da guerra de Troia (vista aqui como uma espécie de antepassado mítico de todo os massacres) reserva, em vários sentidos, um papel central para Benjamin e sua noção da história. O site pode ser acessado clicando aqui.

Em alguma medida, o suicídio de Benjamin é também um problema teológico.  Para o judaísmo, como para todas as religiões monoteístas, o suicídio é um pecado grave, e aos suicidas tipicamente não é permitido enterro em cemitérios judaicos (Benjamin, porém, para somar mais um detalhe desviante para as circunstâncias de sua morte, apesar de não ter sido visto como suicida na ocasião, foi enterrado num cemitério católico). Acontece que o conceito judaico de inferno, o Gehinnom, é mais próximo do purgatório cristão do que qualquer outra coisa, e pouco se diz sobre a escatologia judaica, o HaOlam HaBa, o Mundo-por-vir. Além disso, as visões sobre o assunto têm mudado com os anos, e hoje muitos rabinos são da opinião de que os suicidas costumam estar sofrendo de algum mal psicológico/psiquiátrico (eis a persistente relação entre a melancolia clássica e a depressão moderna…), o que faz com que o ato seja derivado do desespero e não do livre arbítrio. É um eufemismo dizer que se trata de uma questão delicada e longe de ser resolvida. Em todo caso, parece que essa é uma das tarefas mais nobres que recaem sobre nós, os vivos, perpetuamente redimir os mortos, ou talvez redimir-nos diante dos mortos.

Da minha parte, encerro aqui esta homenagem com algo que não costumamos fazer mais aqui no escamandro que é postar poemas próprios. Desta vez, porém, acredito que seja por um bom motivo.

Poema de mote judaico (II)

Se te consola,
mensageiro caduco, alguns
dos mortos tiveram, pasto de aves,
o sono negado, ingênuo supor
que o homem sem cova,
o dos pulmões queimados, a filha violada, irão
levantar comovidos da vala
para revogar as ordens:

não vos esqueçais de mim,
meu sangue há de inundar o ar
que respirais, etc
                              como se
houvesse tempo sem memória e fosse
adiantar muita coisa também colar
esses cacos: é deitá-los no chão
                                             que outra vez em
72 outros pedaços se
partem,
               schlemiel
de um vaudeville barato, com vasos
quebrados e mal entendidos
                                             (e é talvez porque
não nos entendemos
que só pela pilha de destroços
se chegue ao céu).

(Adriano Scandolara)

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2 comentários sobre “Um tombeau a Walter Benjamin

  1. Patricia Rossi Msrcos disse:

    As reações mais ponderadas às condições são manifestações que podem ser declaradas segundo as satisfações que encontra o momento da vida.

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