poesia

Hugo Langone (1987)

José de Arimateia

Se houve quem
Incompreendesse
O momento

Foi este
De que pouco se sabe

Cujo peito
Na noite sentiu o esplendor
Dum morto
Seu amigo

E ouviu
Segredar no silêncio
Da terra, dos anjos

Uma palavra só,
Incessante

*

Poema

É belo o poema que traz
Nomes de flores
E une a arte do Deus
À solidão de um só homem.
O poema que tem o olor
Das violetas, que transforma n’algo
O lírio e recorda quão delicada
É a criação.

*
Qual um historiador
 

Não se sabe que é cruel o mar
Até que se prostrem Penélope
Dido, Mônica, às suas margens
Até que se prostrem onde o mar toca a costa
E azul nenhum vale a terra firme
Que talvez florirá hoje, amanhã

Em mil anos.

*

Ao sacristão da Santa Maria Maggiore de Florença

Quando perguntarem por que mancas,
guarda para ti, contrito:
não diz que é o olhar de Francisco
e o linho roxo,
que um anjo te pesa ao pé a cada passo;
não diz, nem diz também que tem sorte, que
“é leve o peso da cruz
em meus ombros –
rígido como essa madeira, hoje
sou firme como o lenho!”
Deixa tudo de fora, sim,
nem diz que é só hoje,
que a cada manhã
todo peso se renova sempre,
imprevisível.

Hugo Langone é carioca, mestre e doutorando em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aos 27 anos, traduziu autores como São João da Cruz, Bernard Lonergan, Roger Scruton, Lionel Trilling, Marshall McLuhan, Leo Strauss (no prelo), entre muitos outros. Sua poesia, eminentemente católica, é uma poesia de resgate da dimensão sobrenatural, do anseio pelo transcendente, na esfera do cotidiano. Os poemas que o Escamandro agora publica são de seu primeiro livro, recém-concluído.

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