poesia, tradução

poesia flarf, por danilo augusto

flarf

INTRODUÇÃO À POESIA FLARF

O poeta Gary Sullivan ligou para saber da saúde do seu avô, dias antes de sua morte, e recebeu a notícia orgulhosa que ele, o avô, havia ganhado um concurso de poesia promovido pelo poetry.com. Este site lembra o nosso recantodasletras.com.br, onde uma base gigantesca de escritores tem seu perfil pessoal e onde trocam mútuos elogios; com este diferencial de fazer concursos por encomenda onde os “ganhadores” devem pagar por seu prêmio.

Consternado, Gary resolveu fazer sua inscrição no site e enviar-lhes “o poema mais ofensivo que pudesse”. Ele escreveu este primeiro poema que consta na tradução, sem nome, onde o primeiro verso se constituía, apenas, por: mm-hmm. E foi assim que, três semanas depois, ele recebeu em casa uma carta com seu poema impresso, informando que, entre milhões de envios, mm-hmm havia sido selecionado para integrar um grande projeto de publicação em “couro aristocrático e inscrições douradas”, pois apresentava uma “visão única da vida” e “acendia a imaginação”.

Mm-hmm foi o primeiro poema flarf.

Gary convidou outros poetas e amigos a enviarem obras para poetry.com e os textos que surgiram foram depois batizados com este neologismo meio difícil de traduzir, mas fácil de intuir. Flarf aglutinaria, primeiramente, noções como “tosco”, “gordurento”, “equivocado”, mas também algo como “fofo” e “porra-loca”. Um termo que marcaria bem a intenção de borrar qualquer separação entre o que pode e não pode entrar em um poema.

A primeira “técnica” que veio caracterizar a poesia flarf foi a escrita baseada em buscas na internet. Talvez, fazendo parte de um ethos de uma escrita “não-original”, de “segunda mão”, onde o “recortar-copiar-e-colar” abre margens pra duas consequências majoritárias. A primeira, e mais óbvia, é o sem-sentido, a arbitrariedade e uma negação da subjetividade. Mas a segunda é um jogo com algo que, talvez, possamos chamar de uma “superestrutura do senso comum”. Os sofisticados e gigantescos logaritmos do Google permitem ao poeta acessar uma teia de milhões de bilhões de entradas e sair com denominadores da maioria. No meio da miríade rizomática da internet, o mecanismo de busca fornece uma amostra por contabilidade e presunções numéricas. Uma resposta maquinal com base em um grande escopo de entradas pessoais. Como um grande fornecedor do senso comum social.

O uso do Google não foi exclusivo nem pioneirismo dos poetas flarfs, e remonta a uma semelhança, por exemplo, com a prática de Angélica Freitas. Ela, em alguns momentos, faz algo que poderíamos chamar, pelo menos, de “mais ordenado” quando direciona perguntas ao Google e o deixa responder. Assim, a poeta ganha acesso a certo zeitgeist e incorpora ele próprio, o zeitgeist, como matéria de seus poemas. Outras medidas flarfs, mais dadaístas, consistiam em fazer entradas aleatórias no Google e escrever a partir destes resultados. Assim se dá, por exemplo, o Three Poems on Demand, de Jordan Davis, (que se encontra nestas traduções). Outra característica do Flarf seria idiossincrasias bastante arbitrárias de grafia de palavras e disposição tipográfica do poema como, por exemplo, vemos em Steve Roggenbuck, poeta mais novo do que os outros dois. Às vezes a grafia, em Roggenbuck, parece se assemelhar à pratica de uma digitação informal, porém em outros casos, os “erros” parecem não ter nenhuma ligação com alguma prática de escrita e serem puramente estranhos e arbitrários à norma padrão.

Os poetas flarfs transformaram em um movimento, em uma vertente poética de língua inglesa, algo que, desde o surgimento dos grandes mecanismos de pesquisa, vem sendo apropriado de diferentes formas por escritores, profissionais ou não, do mundo todo. Hoje, existe, por exemplo, alguns sites e blogs destinados somente a prints de entradas e sugestões do Google, sendo que cada print constitui um poema. Um exemplo é o poesiadogoogle.com, porém há diversos outros.

A escrita de poemas em ambiente de rede é algo que já remonta há, pelo menos, três décadas; porém que só veio a ganhar maior relevo e estudos iniciais há poucos anos. Mesmo os recursos fornecidos pelas plataformas da internet ainda parecem ser timidamente explorados. Uma escrita em ambiente digital poderia incorporar aspectos verdadeiramente múltiplos e com grandes inovações formais, onde a utilização de buscadores ou formatadores de textos se constituem como apenas alguns dos exemplos. Um novo caminho, ainda apenas iniciado, seria o prosseguimento do desejo concretista por uma “melodia de timbres”, onde a palavra, já em sua natureza verbovocovisual, se alinhasse à tipografia digital, imagem, vídeo, som e a essas duas características mais próprias e, talvez, menos exploradas na escrita digital: o hiperlink e a atualização em tempo real. E que o ambiente virtual, enfim, presenteasse a literatura com toda esta potência imanente em sua natureza mais referenciada: a velocidade e a multiplicidade.

Este post se faz como uma rápida introdução à poesia flarf e uma pequena amostra do que nela foi escrito. E, também, como uma brevíssima introdução ao que de novo tem sido feito e ao que se pode fazer na junção entre internet e escrita, principalmente a escrita de poemas. Por isso, a tradução que apresento brinca com certa noção intersemiótica, que retirei das aulas de graduação que venho tendo. Pensando a própria tradução como a arte de chegada, uma recriação desta técnica comum ao flarf (a escrita com auxílio de buscadores) foi fácil e direta. Os poemas foram escritos e reelaborados a partir de resultados e opções providos pelo Google Tradutor e por dicionários de colaboração aberta como o urbandictionary.com.

Danilo Augusto

* * *

 POESIA FLARF TRADUZIDA A PARTIR DE RESULTADOS DO GOOGLE TRADUTOR

 

GARY SULLIVAN

Mm-uuhhmm
Sim, uumm-huhmm, é verdade
grandes pássaros fazem
grande caca! Tenho fogo no rabo
meu cara(lho) de macaco
vai ser agressivo, vai ser gorduroso aêê sim deus
quer Cáaa! Caaaaa!
Pffffffffffffffffffffffffft! Etcha!
oooh assim baby vai tremer e cozer e então receber
AÊÊÊSS Tá Cá seu dinnndiin, meu pudim (hiii hiiii)
bela-bosta-boa-bunda-buga-buga
ei ei! seu gringo retardado! cai
fora da gringolândia e me sai
com um todinho carai
bota Gil pra rodar e mexe té vomitar
rola-fula-fura-bunda-DING DONG
porra! merda! mijo! oh é tão triste
está síndrome chamada Tourette
me faz ÊÊÊPAA! gritar bem alto
Pq te amo. Obrigado, meu Deus, por escutar!

Mm-hmm
Yeah, mm-hmm, it’s true
big birds make
big doo! I got fire inside
my “huppa”-chimpTM
gonna be agreessive, greasy aw yeah god
wanna DOOT! DOOT!
Pffffffffffffffffffffffffft! hey!
oooh yeah baby gonna shake & bake then take
AWWWWWL your monee, honee (tee hee)
uggah duggah buggah biggah buggah muggah
hey! hey! you stoopid Mick! get
off the paddy field and git
me some chocolate Quik
put a Q-tip in it and stir it up sick
pocka-mocka-chocka-locka-DING DONG
fuck! shit! piss! oh it’s so sad that
syndrome what’s it called tourette’s
make me HAI-EE! shout out loud
Cuz I love thee. Thank you God, for listening!

JORDAN DAVIS

Canapés

Sinto falta do quebra-quebra ao lado da cama.
As regras duras e ligeiras, o negócio,
Andando pela cidade as mãos do meu bem nas minhas
Dão-me angústia mal amadurecida Rosado

Quem não adora ouvir alguma angústia.
Você não estaria tão equivocada para acordar
De um sonho em uma reclusa de um parque em Rioja
Pós-Auden deu água obrigado ao burburinho do Timex

Esses sentimentos estão em sua boa sorte.
Sequer preciso da bolacha duma hóstia
Para precisar transmitir maldições
Sumir como um docente enquanto a bolsa cai

Amuse-Bouche

I miss the moshpit pushed to the side of the bed.
The hard and fast rules, the business,
Walking across town the baby’s hand in mine
Gave me anxiety Rosado barely mellowed.

Who doesn’t love to hear about anxiety.
You wouldn’t be too wrong to wake from dreaming
Into an amusement park sluice of Rioja
Eau de post-Auden thanks a lot Timex hubbub.

Those feelings are in their way good luck.
I don’t even need a communion wafer
To feel the need to broadcast imprecations
Fade like a docent as the hedge fund falls.

Três poemas por encomenda

Tartarugas geram poemas

Nenhuma surpresa que se movam tão lentamente–
Alguém ali está
Tentando escrever.

Imagem de Pernalonga vestido como um vândalo

O que me levou a desenhar esta imagem
De Pernalonga vestido como um vândalo?

Diverso. Imagens. Nem uma vez sequer
Esbocei seu lustroso torso tatuado

Mas repetidamente, dia após dia
O Pernalonga pareceu malvado, não foi?

Quando oh quando acaba esta eleição
Pra eu explodir a vida de novo

Sem produzir sem querer estes objetos
Tão belos e misteriosos-pra-mim?

Poema para o sexto aniversário de casamento

Você sabe melhor do que eu
O que está fazendo

Three Poems on Demand

Turtle Generate Poems

No wonder they move so slowly—
Somebody in there is
Trying to write.

Pictures of Bugs Bunny Dressed Like a Tug

What drove me to draw this picture
Of Bugs Bunny dressed like a thug?

Plural. Pictures. Not once did I sketch
The buff tattooed torso of Thug Bugs

But many times, over several days.
He looks mean, doesn’t he? When O when

Will this election be over
So I can blow off life again

Without inadvertently producing objects
Of great and mysterious-to-me beauty.

Poem for a Sixth Wedding

You know a lot better than I do
What you’re doing

NOTA: “Três Poemas por encomenda” foi escrito em resposta a uma pesquisa na web que levou ao extinto blog de Jordan Davis (os termos das pesquisas tornaram-se o título dos poemas)”

STEVE ROGGENBUCK

De Gosto de outubro quando estou morto

não dou a mínima pra leitura de poemas
quem você acha que sou, robert frost?
nunca fui à floresta e odeio caminhar

(…)

você se foi
tive amendoins no almoço

(…)

tenho dois girassóis murchando na estante
é isto
apenas
cai fora do meu poema

(…)

aluguei um filme e gravei duas horas de mim mesmo por cima
grito elogios pra minha família no vídeo
queimo meu carro de propósito
é janeiro
saúdo a mim mesmo no início de uma grande carreira

I like october when I am dead

i dont care about reading a poem
who do you think i am, robert frost?
i have never been in the woods and i hate walking

(…)

you are gone
for lunch i had peanuts

(…)

i have two sunflowers wilting on my bookshelf
thats it
thats all
the poem is done, get out

(…)

i have two sunflowers wilting on my bookshelf
thats it
thats all
the poem is done, get out

(…)

i rented a movie and recorded over it with two hours of myself
on the video i am shouting compliments at my family
i burn my car on purpose
it is january
i greet myself at the beginning of a great career

de BAIXE HELVETICA EM FREE.COM

É ASSIM QUE VOCÊ
ESCREVE ISSO?
ATREYU

O CÉU É LINDO…
BOM TRABALHO
CAPTURÁ-LO
NA SUA
FOTO

DESTINO
FINAL 3
SAIU EM DVD

ESTOU COMENDO
TORTA DE PERA, HAHA
BIZARRO

BIZARRÃO

NA TV, ELES
MOSTRARAM COMO O ESTÔMAGO É
REALMENTE GRANDE
E EU ESTAVA TIPO UAU…
COMO É PEQUENO


ACABEI DE COLOCAR
ALGO NA
MINHA GAVETA DE CIMA
E VI
A FOTO
DE VOCÊ E DE MIM

from DOWNLOAD HELVETICA FOR FREE.COM

IS THIS HOW YOU
SPEEL THIS?
ATREYU

THE SKY IS BEAUTIFUL…
NICE WORK
CAPTURING IT
IN YOUR
PHOTOGRAPHY

FINAL
DESTINATION 3
IS OUT ON DVD

I AM EATING
PEAR PIE, HAHA
WEIRD

WEIRD INDEED

ON TV, THEY
SHOWED HOW BIG A STOMACH
ACTUALLY IS,
AND I WAS LIKE WOW…
THAT IS SMALL

I JUST PUT
SOMETHING IN
MY TOP DRAWER
AND SAW
THE PICTURE
OF YOU AND ME

 

it was dark music(traduções. de danilo augusto)

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