poesia, tradução

Julián Axat (1976) por Pádua Fernandes

Julián-AxatJulián Axat (La Plata, 1976) é um dos nomes mais notáveis da poesia argentina contemporânea. Publicou os livros de poesia Peso formidable (Buenos Aires: Zama, 2003), Servarios (Buenos Aires: Zama, 2005), Médium (Poética belli) (Buenos Aires: Paradiso, 2006), Ylumynarya (City Bell: Libros de la talita dorada, 2008), Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado, 2013) e Musulmán o biopoética (City Bell: Libros de La Talita dorada, 2013). Organizou a antologia de poesia argentina contemporânea Si Hamet duda lo daremos muerte (City Bell: 2010) e edita a coleção Los detectives salvajes, na editora Libros de la talita dorada, que recupera os escritos dos mortos e desaparecidos pelo terror de Estado e publica autores contemporâneos atentos a essas práticas autoritárias.

Axat é membro da organização HIJOS, criada por filhos desses desaparecidos e mortos. Seus pais foram sequestrados pelos agentes da repressão quanto ele tinha seis meses, e jamais seus corpos foram encontrados. Como jurista, era Defensor Judicial para menores em Plata; agora atua como coordenador do programa Agencia Territorial de Acceso a La Justicia (ATAJO), de acesso comunitário à justiça, do Ministério Público argentino.

O livro musulmán o biopoética refere-se, desde o título, à biopolítica (a que a “biopoética”, nome criado por Axar, faz contraponto) e à figura do “muçulmano” segundo Agamben: não se trata de um islâmico, e sim do preso, nos campos de concentração, que já não mais falava, que estava apartado de tudo. Essa figura, no livro, é o menor em conflito com a lei e as instituições, ou o menor apanhado por instituições em conflito com os direitos humanos, empregando práticas autoritárias que remontam aos tempos da última ditadura.

No poema escolhido, há uma referência à ESMA, Escola Superior de Mecânica da Armada, que serviu de centro de tortura e execução, e foi transformada em um memorial dos crimes da última ditadura. Axat lida com o material de seus processos como defensor na primeira parte, “Mal sobre ruínas del bien”, e expõe na segunda parte do livro, “Pasajes em espejo”, os materiais (jornalísticos e jurídicos) que usou nos poemas da primeira. Trata-se de uma possibilidade de forma poética benjaminiana a partir do Livro das Passagens (que recebeu um texto aqui no escamandro como “extensa obra de colagem deixada inacabada”).

Neo alude ao filme Matrix e seus jogos entre planos de realidades. O poema escolhido alude ao imaginário de Bolaño e sua busca pela poesia e/ou pelos poetas, em um futuro após 2666 (esse ano deu o título do monumental romance do autor chileno publicado postumamente). Andrew Wylie é o agente literário que editou Bolaño em inglês.

O terceiro poema foi retirado de um dos blogues de Axat, El niño rizoma; seu outro é Detectives por la Memoria. Embora o primeiro se concentre em temas jurídicos e o segundo, em assuntos editoriais, em ambos se encontra poesia, e creio que esse é o fundo comum a todas as atividades de Axat.

(Pádua Fernandes)

 

Pádua Fernandes (Rio de Janeiro, 1971) é autor dos livros de poesia O palco e o mundo (Lisboa: &etc, 2002), Cinco lugares da fúria (São Paulo: Hedra, 2008), Cálcio (Lisboa: Averno, 2012 e, na tradução para o espanhol de Anibal Cristobo, City Bell: Libros de la Talita Dorada, 2013) e Código negro (Desterro: Cultura e Barbárie, 2013). Organizou a única antologia da poesia de Alberto Pimenta publicada no Brasil, A encomenda do silêncio (São Paulo: Odradek, 2004). Escreve no blogue O palco e o mundo.

 

de musulmán o biopoética (City Bell: De la talita dorada, 2013)

Mal sobre ruínas do bem

33.
o futuro não / um ossário cheio de vermes

Nadando no extermínio encontrarás / a palavra
“extermínio” /
novamente submersa a encontrarás / e assim / em todas as
camadas do extermínio /
seguirás como possesso / até dar com o último verme /
a gota não exterminada que / levarás a tua garganta
em um gole /
para procurar / um novo dizer

 

Mal sobre ruinas del bien

33.
el futuro no / un osario agusanado

Nadando en el exterminio hallarás / la palabra
“exterminio” /
debajo otra vez la hallarás / y así / en todas las
capas del exterminio /
seguirás como poseso / hasta dar con el último gusano /
la perla no exterminada que / llevarás a tu garganta
de un sorbo /
para procurar / un nuevo decir

 

Passagens em espelho (Bitácora)

33. o futuro não é um ossário cheio de vermes

… cadáveres … / cemitérios de carros afogados no vazio / a memória dos crimes do passado / todo o tempo / a memória dos crimes do presente / como na poesia / escrever Direito depois da ESMA / encontrar “a palavra justa” / escrita / nos expedientes judiciais do porvir…

(Diagonales, “cambios y continuidades de la violencia institucional”, 1/1/2013)

 

Pasajes en espejo

33. el futuro no es un osario agusanado

… cadáveres … / cementerios de fojas ahogados en vacio / la memoria de los crímenes del pasado / todo el tiempo / la memoria de los crímenes del presente / como en la poesía / escribir Derecho después de la ESMA / encontrar “la palabra justa” / escrita / en los expedientes judiciales del porvenir…

(Diagonales, “cambios y continuidades de la violencia institucional”, 1/1/2013)

 

de Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado Ediciones, 2013)

Bolaño & co.

a Dani Krupa

na noite passada sonhei
com nossa fuga
visitávamos poetas
menores
perdidos
tomávamos vinho
com um poeta prestes a morrer
no ano 2745
nos dizia
já não têm retorno
nesta bolha do tempo
ou buraco ou terceiro olho
as portas da percepção
se se abriram
não se fecham
para vocês
e essa será sua felicidade
a viagem
até o último verso
de mãos dadas
o verso final
escrito com fogo
o verão apagar-se
e dizer
fumarão as cinzas
acharão a saída
para voltar a fugir

Despertei
com um manuscrito do meu lado
chamei Andrew Wylie
o negro literário era eu

Agora tomo daiquiris
e filmo o Ulisses de minha vida
dê-me um filho
que farei dele um criminoso ou um santo

 

Bolaño & co.

a Dani Krupa

anoche soñé
en nuestra fuga
visitábamos poetas
menores
perdidos
tomábamos vino
con un poeta a punto de morir
en el año 2745
nos decía
ya no tienen retorno
en esta burbuja del tiempo
o el agujero o tercer ojo
las puertas de la percepción
si se abrieron
no se cierran
para ustedes
y esa será su felicidad
el viaje
hasta el último verso
agarrados de la mano/
el verso final
escrito con fuego
lo verán apagarse
y decir
se tragarán las cenizas
hallarán la salida
para volverse a fugar

Desperté
con un manuscrito a mi lado
llamé a Andrew Wylie
el negro literario era yo

Ahora tomo daikiris
y filmo el Ulises de mi vida
dadme un niño
que yo haré de él un criminal o un santo

 

Antologia de maus poetas

(retirado do blogue El niño rizoma)

Quero montar una antologia de maus poetas mas ninguém se inclui

eu me incluiria sem falsa modéstia quem mais

os maus poetas buscam a lua e tropeçam no sol

se autoeditam pedem licença ou subornam para figurar em antologias

e na maior parte do tempo / como são maus / ferem o silêncio

até que um dia escrevem de passagem o verso da eternidade mas depois

continuam sendo maus

os maus poetas assaltam bancos perseguem moinhos se disfarçam de funcionários públicos buscam a palavra justa em lixeiras de que não saem senão injustos

por isso os maus poetas de minha futura antologia dão tudo o que têm

por um punhado de sonhos de absolutos escritos malformes segundo os bons poetas

esses que são bons e ponto

Antología de malos poetas

Quiero armar una antología de poetas malos pero nadie se anota

yo me anotaría sin falsa modestia quién más

los malos poetas buscan la luna y tropiezan con el sol

se autoeditan piden permiso o coimean para figurar en antologías

y la mayor parte del tiempo / como son malos / hieren el silencio

hasta que un día escriben al pasar el verso de la eternidad pero después

siguen siendo malos

los malos poetas asaltan bancos persiguen molinos se disfrazan de empleados públicos buscan la palabra justa en basurales de los que no salen sino injustos

por eso los malos poetas de mi futura antología se juegan todo lo que tienen a mano

por un puñado de sueños de absolutos escritos malformes a la vista de los buenos poetas

esos que son buenos y punto

 

(poemas de Julián Axat, tradução de Pádua Fernandes)

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