poesia

3 poemas inéditos de andré caramuru aubert (1961-)

André_Caramuru_Aubert

aquelas caminhadas sem fim

o melhor daquelas caminhadas sem fim e sem vontade de chegar a
……………………………………………………………………..[parte alguma
naqueles caminhos antigos em meio a montanhas antigas
por estradas antigas nas quais já se apagaram há muito os rastros
………………………………………………………………………………[antigos
e aqui e ali, espalhados, cavalos e vacas sem memória e
as pequenas e delicadas flores do cerrado, às vezes muito azuis,
………………………………………………[outras vezes muito amarelas e
em busca da transcendência que havia em cada passo, que deve
………………………………………………………………[haver em cada linha
em busca da transcendência que há na concisão, e que há também
……………………………………………………………………….[na explicação,
que há na métrica, e na quebra da métrica, no ritmo e na respiração
o melhor daquelas caminhadas tendo o céu azul como proteção e
o sol forte a castigar a pele mas pelo menos tínhamos óculos escuros
…………………………………………………………………………………………..[e
cães latindo ao longe e moscas e vespas e sabíamos que
em algum lugar teria que haver cerveja gelada
porque sabíamos que melhoraram muito os esquemas de
…………………………………………………[distribuição dos fabricantes e
sabíamos de alguma coisa mas da maior parte não sabíamos nada e
[nem sabemos ainda e víamos outras flores muito roxas, ou muito
…………………………………………………………………………..[vermelhas
em busca da transcendência dos caminhos entre as montanhas
como no poema de Liu Ch’ang Ch’ing, que diz:
“Pôr do sol. Picos azuis se desfazem no lusco-fusco /
Sob as estrelas do inverno.”

§

sonho

para o Nica, em memória

às vezes um amigo morre, nós vamos ao enterro, nós
lamentamos                          nós choramos
(porque isso é uma merda indescritível), e
depois prosseguimos
com a vida, com as coisas, porque isso é natural e inevitável. E
numa noite dessas eu sonhei com um amigo que morreu e
no sonho ele estava vivo, quer dizer, ele não tinha morrido,
ele tinha passado anos em coma, e depois acordou
ele estava cabeludo, mas era bem ele, mas
estava difícil de conversar porque
havia outras pessoas na sala, e tanto tempo tinha
se passado, tanta coisa acontecido, e
ele não conheceu nossos filhos (por exemplo), e
aí eu acordei, e por segundos eu acreditei que ele estava vivo, mas
não, não                 enquanto eu me virava para fora da cama e
………………….[procurava pelos chinelos no chão do quarto ainda
na penumbra eu me dei conta, porque
tanto tempo se passou, tanta coisa aconteceu.

§

gesso

em memória de minha tia Stellinha

o gesso cobria toda a perna (esquerda?) dela
quebrada quando Tupã, o cavalo, que tinha fama de arisco, a
…………………………………………………………………….[derrubou
as amigas iam até lá em casa e falavam e riam
e desenhavam e escreviam no gesso
deviam ser bobagens, coisas de menina, todas elas eram novinhas,
meninas de colégio de freiras do começo dos anos sessenta
mas para mim elas pareciam muito grandes e lindas
e eu só olhava, de pé, meio de perto, meio de longe, um pouco
…………………………………………………………………….[envergonhado
como eu ia saber que aquela seria a última lembrança que eu teria
…………………………………………………………………………………..[dela?

* * *

André Caramuru Aubert nasceu em São Paulo no longínquo ano de 1961. É historiador, editor e escritor. Já colaborou com publicações como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Trip e colaborador do jornal Rascunho, para o qual mensalmente seleciona e traduz, entre seus preferidos, algum poeta estrangeiro. Publicou os romances A Vida nas Montanhas, A Cultura dos Sambaquis e Cemitérios. Há pouco tempo decidiu que já estava mais do que na hora de tirar seus poemas da gaveta e espalhá-los por aí.

 

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