poesia

A caça da baleia, por Frei Manuel de Santa Itaparica

baleia

neste fim do dia 20 de novembro, da consciência negra, em vez da celebração alegre que ocorreu em tantas partes, optei por uma dolorosa representação do escravo negro caçando baleia no séc. XVIII, porque a tomada de consciência é também reviver os modos de descrição/enquadramento/representação do negro na cultura brasileira ainda em desenvolvimento. por isso, a imagem tão distante historicamente apresenta ainda tantos negros: os espaços sociais mudam pouco, embora o sistema econômico tenha variado bastante — no fundo a foto celebratória reencarna a celebração heroica da ilha de itaparica pela descrição da violência/sobrevivência desses negros que se expõem ao risco & à caça.

no poema e na imagem: ela, um monstro ao olhar dos homens, foi caçada pelo que os homens insistiam/insistem em tornar monstros.

uma tristeza sem heróis. ou, como disse reynaldo damazio, um heroísmo inútil.

guilherme gontijo flores

ps: vale a pena ainda conferir este post do pádua fernandes, também dedicado ao racismo nos anos da ditadura.

* * *

Descrição da Ilha de Itaparica, Termo da Cidade da Bahia (primeira edição de 1796)

de Frei Manuel de Santa Rita Itaparica

Canto Heróico

XVI

Também pertence aqui dizer ousado
Daquele peixe, que entre a fauce escura
O Profeta tragou Jonas sagrado,
Fazendo-lhe no ventre a sepultura;
Porém sendo do Altíssimo mandado,
O tornou a lançar são sem lesura
(Conforme nos afirma a Antigüidade)
Em as praias de Nínive Cidade.

XVII

Monstro do mar, Gigante do profundo,
Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Co’a barbatana às vezes levantada,
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roncos.

XVIII

Baleia vulgarmente lhe chamamos,
Que como só a esta Ilha se Sujeita,
Por isso de direito a não deixamos,
Por ser em tudo a descrição perfeita;
E que para bem claro percebamos
O como a pescaria dela é feita,
Quero dar com estudo não ocioso
Esta breve notícia ao curioso.

XIX

Tanto que chega o tempo decretado,
Que este peixe do vento Austro é movido,
Estando à vista de Terra já chegado,
Cujos sinais Netuno dá ferido,
Em um porto desta Ilha assinalado,
E de todo o preciso prevenido,
Estão umas lanchas leves e veleiras,
Que fazem c’os remos mais ligeiras.

XX

Os Nautas são Etíopes robustos,
E outros mais do sangue misturado,
Alguns Mestiços em a cor adustos,
Cada qual pelo esforço assinalado:
Outro ali vai também, que sem ter sustos
Leva o arpão da corda pendurado,
Também um, que no ofício a Glauco ofusca,
E para isto Brásilo se busca.

XXI

Assim partem intrépidos sulcando
Os palácios da linda Panopéia,
Com cuidado solícito vigiando
Onde ressurge a sólida Baleia.
Ó gente, que furor tão execrando
A um perigo tal se sentenceia?
Como, pequeno bicho, és atrevido
Contra o monstro do mar mais destemido?

XXII

Como não temes ser despedaçado
De um animal tão feio e tão imundo?
Por que queres ir ser precipitado
Nas íntimas entranhas do profundo?
Não temes, se é que vives em pecado,
Que o Criador do Céu e deste Mundo,
Que tem dos mares todos o governo,
Desse lago te mande ao lago Averno?

XXIII

Lá intentaram fortes os Gigantes
Subir soberbos ao Olimpo puro,
Acometeram outros de ignorantes
O Reino de Plutão horrendo e escuro;
E se estes atrevidos e arrogantes
O castigo tiveram grave e duro,
Como não temes tu ser castigado
Pelos monstros também do mar salgado?

XXIV

Mas enquanto com isto me detenho,
O temerário risco admoestando,
Eles de cima do ligeiro lenho
Vão a Baleia horrível avistando:
Pegam nos remos com forçoso empenho,
E todos juntos com furor remando
A seguem por detrás com tal cautela,
Que imperceptíveis chegam junto dela.

XXV

O arpão farpado tem nas mãos suspenso
Um, que da proa o vai arremessando,
Todos os mais deixando o remo extenso
Se vão na lancha súbito deitando;
E depois que ferido o peixe imenso
O veloz curso vai continuando,
Surge cad’um com fúria e força tanta,
Que como um Anteu forte se levanta.

XXVI

Corre o monstro com tal ferocidade,
Que vai partindo o úmido Elemento,
E lá do pego na concavidade
Parece mostrar Tétis sentimento:
Leva a lancha com tal velocidade,
E com tão apressado movimento,
Que cá de longe apenas aparece,
Sem que em alguma parte se escondesse.

XXVII

Qual o ligeiro pássaro amarrado
Com um fio sutil, em cuja ponta
Vai um papel pequeno pendurado,
Voa veloz sentindo aquela afronta,
E apenas o papel, que vai atado,
Se vê pela presteza, com que monta,
Tal o peixe afrntado vai correndo
Em seus membros atada a lancha tendo.

XXVIII

Depois que com o curso dilatado
Algum tanto já vai desfalecendo,
Eles então com força e com cuidado
A corda pouco a pouco vão colhendo;
E tanto que se sente mais chegado,
Ainda com fúria os mares combatendo,
Nos membros moles lhe abre uma rotura
Um novo Aquiles c’uma lança dura.

XXIX

De golpe sai de sangue uma espadana,
Que vai tingindo o Oceano ambiente,
Com o qual se quebranta a fúria insana
Daquele horrível peixe, ou besta ingente;
E sem que pela plaga Americana
Passado tenha de Israel a gente,
A experiência e vista certifica
Que é o mar vermelho o mar de Itaparica.

XXX

Aos repetidos rasgos desta lança
A vital aura vai desamparando,
‘Té que fenece o monstro sem tardança,
Que antes andava os mares açoitando:
Eles puxando a corda com pujança
O vão da lancha mais perto arrastando,
Que se lhe fiou Cloto o longo fio,
Agora o colhe Láquesis com brio.

XXXI

Eis agora também no mar saltando
O que de Glauco tem a habilidade,
Com um agudo ferro vai furando
Dos queixos a voraz monstruosidade:
Com um cordel depois, grosso e não brando,
Da boca cerra-lhe a concavidade,
Que se o mar sorve no gasnate fundo
Busca logo as entranhas do profundo.

XXXII

Tanto que a presa tem bem subjugada
Um sinal branco lançam vitoriosos,
E outra lancha para isto decretada
Vem socorrer com cabos mais forçosos:
Uma e outra se parte emparelhada,
Indo à vela, ou c’os remos furiosos,
E pelo mar serenas navegando
Para terra se vão endireitando.

XXXIII

Cada um se mostra no remar constante,
Se lhe não tem o Zéfiro assoprado,
E com fadigas e suor bastante
Vem a tomar o porto desejado.
Deste em espaço não muito distante,
Em o terreno mais acomodado
Uma Trusátil máquina esta posta
Só para esta função aqui deposta.

XXXIV

O pé surge da terra para fora
Uma versátil roda sustentando,
Em cujo âmbito longo se encoscora
Uma amarra, que a vai arrodeando:
A esta mesma roda cá de fora
Homens dez vezes cinco estão virando,
E quanto mais a corda se repuxa,
Tanto mais para a terra o peixe puxa.

XXXV

Assim com esta indústria vão fazendo
Que se chegue ao lugar determinado,
E as enchentes Netuno recolhendo,
Vão subindo por um e outro lado:
Outros em borbotão já vêm trazendo
Facas luzidas e o braçal machado,
E cada qual ligeiro se aparelha
Para o que seu ofício lhe aconselha.

XXXVI

Assim dispostos uns, que África cria,
Dos membros nus, o couro denegrido,
Os quais queimou Faeton, quando descia
Do terrífico raio submergido,
Com algazarra muita e gritaria,
Fazendo os instrumentos grão ruído,
Uns aos outros em ordem vão seguindo,
E os adiposos lombos dividindo.

XXXVII

O povo que se ajunta é infinito,
E ali têm muitos sua dignidade,
Os outros vêm do Comarcão distrito,
E despovoam parte da Cidade:
Retumba o ar com o contínuo grito,
Soa das penhas a concavidade,
E entre eles todos tal furor se acende,
Que às vezes um ao outro não se entende.

XXXVIII

Qual em Babel o povo, que atrevido
Tentou subir ao Olimpo transparente,
Cujo idioma próprio pervertido
Foi uma confusão balbuciante,
Tal nesta torre, ou monstro desmedido,
Levanta as vozes a confusa gente,
Que seguindo cad’um diverso dogma
Falar parece então noutro idioma.

XXXIX

Desta maneira o peixe se reparte
Por toda aquela cobiçosa gente,
Cabendo a cada qual aquela parte,
Que lhe foi consignada do regente:
As banhas todas se depõem à parte,
Que juntas formam um acervo ingente,
Das quais se faz azeite em grande cópia,
Do que esta Terra não padece inópia.

XL

Em vasos de metal largos e fundos
O estão com fortes chamas derretendo
De uns pedaços pequenos e fecundos,
Que o fluido licor vão escorrendo:
São uns feios Etíopes e imundos,
Os que estão este ofício vil fazendo,
Cujos membros de azeite andam untados,
Daquelas cirandagens salpicados.

XLI

Este peixe, este monstro agigantado
Por ser tão grande tem valia tanta,
Que o valor a que chega costumado
Até quase mil áureos se levanta.
Quem de ouvir tanto não sai admirado?
Quem de um peixe tão grande não se espanta?
Mas enquanto o Leitor fica pasmando,
Eu vou diversas cousas relatando.

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