poesia, tradução

Poetas e poemas Tang a partir de William Carlos Williams (pt. 2), por Danilo Augusto

2 - Liu-Zongyuan

II – Liu Chung-Yuan e Ho Chin-Chang
Trad. para o Inglês: William Carlos Williams (com David Rafael Wang) /Trad. para o português: Danilo Augusto

III
LIU CHUNG-YUAN, 723-819

Os passarinhos voaram pra longe das montanhas,
A marca do homem sumiu de todos os caminhos,
Mas sob uma vela solitária um velho se agacha,
Pescando em meio à tempestade de neve.

The birds have flown away from the mountains,
The sign of men has gone from all the paths,
But under a lone sail stoops an old fisherman,
Angling in the down-pouring snow.

IV
HO CHIH-CHANG, 659-744

Retornando após ter deixado meu lar na infância,
Mantive meu sotaque mas não a cor dos meus cabelos.
Confrontando as crianças sorridentes que me cercam,
Sou inquirido de onde vim.

Returning after I left my home in childhood,
I have kept my native accent but not the color of my hair.
Facing the smiling children who shyly approach me,
I am asked from where I come.

2 Ho Chih-Chang (simbolo taoista)

* * *

Liu Chung-Yuan, também conhecido como Liu Zongyuan , nasceu em 773 na, hoje, Yongji, província Shanxi. Foi um dos fundadores do Movimento de Prosa Clássica e é lembrado como um dos grandes mestres da prosa da Dinastia Tang e Song. Exilado devido à suas pretensões reformistas contra o império, deu inicio à sua atividade literária longe da sua terra natal. Escreveu famosos poemas, fábulas, ensaios e relatos de viagem que sintetizaram e sincretizaram aspectos do budismo, confucionismo e taoismo da época. Algumas de suas peculiaridades são o forte pessimismo presente na maior parte de seus escritos assim como um caráter teórico que o distancia dos poetas anteriores.

 

Ho Chih-Chang, nasceu em 659 na atual Jinhua, província de Zhejiang. Foi um poeta da Dinastia Tang e servidor do império Su Tsung que – apesar de ter poemas de Li Po dedicado a ele – obteve reconhecimento tardiamente. Após se aposentar, Ho Chih-Chang se formou como sacerdote taoista e passou a vagar em reclusão e despender tardes em uma “pesca sem isca”, tendo o próprio barco como moradia. Sobre ele há pouquíssimas informações online. Fora a edição “The Making of an Immortal: The Exaltation of Ho Chih-chang” de Russel Kirkland (indisponível para acesso), parece que seu percurso nas letras ocidentais foi diminuto. Em uma das suas enxutas biografias consta que uma vez seu amigo ofereceu a própria casa para que Ho Chin-Chang abandonasse sua pobre morada em um bote, mas que ele, famosamente, respondeu: “prefiro passar com as gaivotas em suas casas de nuvens do que enterrar meu eu etéreo sob o pó”.

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Poetas e Poemas Tang a partir de William Carlos Williams (pt. 1), por Danilo Augusto

1 - Meng Hao

I – Meng Hao-Jan e Li Po

Trad. para o Inglês: William Carlos Williams (com colaboração de David Rafael Wang) /Trad. para o português: Danilo Augusto

I

MENG HAO-JAN, 689-740

Na primavera você dorme e não sabe quando amanhecerá,
Por toda a parte se ouve o canto dos passarinhos,
Mas na noite o som do vento aos da chuva se mistura,
E você se pergunta quantas flores caíram.

In spring you sleep and never know when the morn comes,
Everywhere you hear the songs of the birds,
But at night the sound of the wind mingles with the rain’s
And you wonder how many flowers have fallen.

II

LI PO, 701-762

Avistando o luar junto a minha cama
Me pergunto se é neve cobrindo o chão.
Levanto minha cabeça para olhar a lua brilhante,
Depois a abaixo para pensar no meu antigo país.

Spotting the moonlight at my bedside,
I wonder if it is frost on the ground.
After raising my head to look at the bright moon,
I lower it to think of my old country.

1 - li po

 * * *

Meng Hao-Jan, também referido como Meng Haoram, nasceu entre 689 e 691 em Xiangyang (hoje parte da província Hubei) e foi um dos primeiros e mais influentes poetas da dinastia Tang. Contemporâneo mais velho de Li Po, Wang Wei e outros importantes poetas do período, Meng Hao-Jan foi uma das influências mais próximas destes, particularmente pelo uso da natureza como assunto principal de seus poemas. Sua amizade e longa colaboração com Wang Wei é largamente famosa nas letras chinesas, ambos escreveram cartas e poemas entre si – especialmente no caso de sua separação. Meng Hao-Jan, junto a outros poetas Tang, exerceu grande influência na poesia chinesa posterior e, também, na poesia japonesa. No ocidente, sua importância foi firmada com sua vasta presença na edição em língua inglesa The Jade Mountain: The Three Hundred Tang Poems – que também traz os demais poetas desta seleção.

Li Po, também conhecido como Li Bai ou Li Bo, nasceu em 701, ao redor do atual Quirguistão, e é, hoje, referenciado como o maior poeta da Dinastia Tang (a “era de ouro” da poesia chinesa). Comumente carregando epítetos como “o imortal” ou “o transcendente”, Li Po tem sua vida e escrita rodeadas por lendas e idealizações. O poeta compôs cerca de mil poemas, sendo que muitos têm até hoje sua autoria contestada; esta obra exerceu uma influencia larguíssima em todo Oriente e, mais tarde, no Ocidente, por vias de autores e figuras canônicas como Ezra Pound e Gustav Mahler (no ABC da Literatura, Pound usará Li Po como o maior exemplo do uso da imagem em poesia) e, também, por vastas e múltiplas traduções e retraduções a partir de outras línguas (no Brasil, temos algumas traduções de Cecília Meireles). Sua realização é considerada, por muito, como de perfeição formal e, embora não tenha desenvolvido novos metros ou temas, é referenciado como o grande mestre e retomador das tradições da poesia chinesa anterior, sempre lembrado pelo seu virtuosismo singular. Li Po comumente assumia variados pontos de vistas ou “personas”, incluindo o de mulheres e crianças, e uma das características mais citadas em sua escrita é de uma profunda nostalgia aliada a um olhar infantil ou inocente, tendendo a personalizar e dialogar com elementos da natureza e, também, uma grande permeabilidade do Taoismo que, com suas noções de imutabilidade e reclusão, é bastante visível em seus poemas. Um dos temas mais recorrentes e característicos de Li Po, e que perfaz alguns de seus poemas mais populares, são o vinho e a embriaguez –   o poeta é considerado o fundador do estilo de Kung Fu “Os Oito Imortais”, que consistia, primariamente, na falta de linearidade aliado à extravagância e imprevisibilidades em seus movimentos, um “lutar bêbado” mais tarde popularizado por Jackie Chan no cinema.

 * * *

OUTROS POEMAS DE LI PO

Uma carta

Meu Amor,
Quando você estava aqui havia
um salão de flores.
Você partiu e agora há
um leito vazio.
Sob esta colcha bordada
eu viro e reviro.
Após três anos ainda
sinto o cheiro do seu perfume.
Seu perfume nunca vai embora,
Mas você nunca retorna.
Penso em você, as flores amarelas se foram
E o branco orvalho umedece o musgo verde.

A Letter

My love,
When you were here there was
a hall of flowers.
When you are gone there is
an empty bed.
Under the embroidered coverlet
I toss and turn.
After three years I
smell your fragrance.
Your fragrance never leaves,
But you never return.
I think of you, the yellow leaves are ended
And the white dew dampens the green moss.

Canção de Primavera

Uma donzela
Colhe folhas de amoreira junto ao rio

Sua mão branca
Se estende sobre o verde

Suas bochechas coradas
Brilham sob o sol

Os bichos-da-seda
Aguardam famintos

Oh, jovem cavaleiro,
Não se detenha. Vá indo.

Spring Song

A young lass
Plucks mulberry leaves by the river 

Her white hand
Reaches among the green 

Her flushed cheeks
Shine under the sun 

The hungry silkworms
Are waiting

Oh, young horseman
Why do you tarry. Get going.

Canção de Verão

O Lago dos Espelhos
(trezentas milhas)

Onde os botões estouram
Em flores de Lótus.

A costa escorregadia
Está atolada de admiradores,

Enquanto a bela da aldeia
Colhe as flores abertas.

Antes que as velas dos barcos
Ocultem a lua crescente

Ela é levada para longe
Até o harém do rei.

Summer Song

The Mirror Lake
(Three hundred miles),

Where lotus buds
Burst into flowers.

The slippery shore
Is jammed with admirers,

While the village beauty
Picks the blossoms.

Before the sails
Breast the rising moon,

She’s shipped away
To the King’s harem.

 (trad. & apresentação de danilo augusto)

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3 poemas inéditos de Luciano R. Mendes

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Luciano R. Mendes (Curitiba, 1986) é formado em medicina e divide seu tempo entre o trabalho como médico e a faculdade de letras polonesas na UFPR. Estuda e traduz uma série de idiomas do leste europeu e recentemente foi para Varsóvia estudar ídiche. Por um breve período editou a revista-blog Sinuosa. Atualmente, além de pesquisar a poesia do Holocausto, escreve poesia – em português e ídiche.

* * *

insônia

Tento em vão
dormir-
me assombram
coisas
que nunca vivi:
arame farpado
pão racionado
veneno de piolho.

Pesadelos babélicos
em que sangram
minhas mãos cansadas
do cheiro amargo
de amêndoas e de meus irmãos
vestidos de fumaça.

No escuro
abro os olhos
cegos de noite
um gosto seco
nos dedos trêmulos
acordo
coberto de cinzas.

§

meia-vida

depois de meia-vida
metade de tudo
foi perdido
mas o resto
persiste
como todo.
depois de meia-vida
meia-morte
é a vida inteira.

§

reminiscência

minhas mãos
recusam o toque
as pernas
recuam dos passos
mesmo que eu tente
lembrar
que uma memória é uma memória
e isso apenas
que uma palavra é uma palavra
e isso apenas
um cinto um quarto
não guardam os mortos
e nas sombras não se esconde
o que quero
não ver

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yi sáng (1910 – 1937)

Yi Sáng, em 1929

Yi Sáng, em 1929

pretendo fazer dois posts contrastivos sobre poesia coreana moderna. o mote veio da recente viagem de tarso de melo para a coreia, num festival de poesia, porque ele fez um post aqui lembrando da bela coletânea feita por yun jung jim, O pássaro que comeu o sol — Poesia moderna da Coréia (1993, ed. arte pau-brasil), com prefácio de paulo leminski e 4a capa de haroldo de campos. naquele momento, tanto leminski como haroldo não hesitaram em dizer que yi sáng era o poeta que mais lhes chamava a atenção na coletânea, “um grande poeta, a revelação do livro para mim, desde já meu poeta coreano moderno, o boêmio e surrealista Yi sáng, com poemas experimentais surpreendentes” (leminski dixit). por isso, poucos anos depois, yun jung im lançou Olho-de-corvo e outras obras de Yi Sáng (1999, ed. perspectiva), com toda série de poemas publicados com o título de “Olho-de-corvo”, além de alguns outros poucos poemas & uma antologia da sua prosa também notável.

o poeta (1910, seul — 1937, tóquio) foi certamente o coreano mais radical & rebelde, ao longo dos anos 20/30, nas suas experimentações. trata-se de uma escrita do mínimo, com repetições, construções aparentemente simples que, ao nosso olhar ocidental, lembram a poética dadaísta ou mesmo a obra de um schwitters. na prosa, há algo de kafkiano, uma claustrofobia narrativa que tende a implodir o desenvolvimento do texto, que se fecha sobre si, porém muitas vezes na figura de uma personagem dominada por uma indolência extraordinária, como no caso do conto “Asas”. o próprio nome poético do autor, nascido kim hé-kyón (que significa algo como “vastidão do mar”), adotado aos 23 anos, é uma recusa à tradição lírica coreana, já que quer dizer algo como “caixa da silva”. é em 1933 também que o poeta se demite do trabalho como projetista & passa a viver numa miséria crescente (com crises de hemoptise) aliada a uma produção escrita também intensa; ao longos dos próximos anos, viria a fazer algumas viagens improvisadas, abrir alguns cafés, todos falidos, & sofrer alguma desilusões amorosas. em dezembro de 1936, o poeta abandona a esposa & viaja para tóquio para conhecer o poeta kim kirim; mas morreu poucos meses depois, em abril, numa crise agravada pelo inverno & pela violência da polícia (que o prendeu & espancou sob a acusação de “ideologia subversiva”).

é nesse contexto que os poemas de “Olho-de-corvo” têm uma história peculiar: com o apoio do escritor bak te-wón & do editor sáng-hó, o projeto de 1934 previa a publicação de 30 poemas ao longo de 30 dias, no jornal Jo-Són-Jung-Ang, o principal do país, porém a série foi cancelada após 15 poemas, por causar frisson na sociedade, com acusações de serem os “delírios de um demente”, ou uma “aberração”. para terem uma ideia do incômodo gerado por essas publicações, basta dizer que o editor sáng-hó perdeu o emprego, pois teve que se demitir no dia do 15o poema. dessa série que sobreviveu (os outros 15 poemas nunca chegaram), seleciono 5 textos desse “coreano de vanguarda” que foi yi sáng.

guilherme gontijo flores

* * *

Poema n. 1

13criançascorrempelaestrada.
(Quantoàruaéapropriadaumasemsaída.)

A 1acriançadizqueestácommedo.
A 2acriançadizqueestácommedo.
A 3acriançadizqueestácommedo.
A 4acriançadizqueestácommedo.
A 5acriançadizqueestácommedo.
A 6acriançadizqueestácommedo.
A 7acriançadizqueestácommedo.
A 8acriançadizqueestácommedo.
A 9acriançadizqueestácommedo.
A10acriançadizqueestácommedo.

A11acriançadizqueestácommedo.
A12acriançadizqueestácommedo.
A13acriançadizqueestácommedo.
As13criançassãoumasomasódecriançasmedonhasecriançascommedo.
(Eraatépreferívelquenãohouvesseoutrosfatores.)

Tudobemse1destascriançasforumacriançamedonha.
Tudobemse2destascriançasforemcriançasmedonhas.
Tudobemse2destascriançasforemcriançascommedo.
Tudobemse1destascriançasforumacriançacommedo.

(Mesmoumaruaabertaseriatambémapropriada.)
Tudobemtambémseas13criançasnãocorrerempelaestrada.

§

Poema n. 2

Quan do o meu pai dor mi ta ao meu la do eu me tor no o pai do meu pai e tam bém me tor no o pai do pai do meu pai mas se o meu pai na con di ção de meu pai é a in da meu pai en tão por que mo ti vo eu me tor no o pai do pai….. do pai do pai do meu pai por que mo ti vo eu de vo sal tar por ci ma do meu pai e fi nal men te por que mo ti vo eu te nho de vi ver fa zen do o pa pel de mim do meu pai e do pai do meu pai e do pai do pai do meu pai?

§

Poema n. 7

Nesta terra de remoto exílio um ramo • no ramo floresce uma flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas • espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio, restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-me • até que desça a graça dos céus.

§

Poema n. 9

For te ven ta ni a to dos os di as e fi nal men te uma gran de mão as sen ta so bre a mi nha cin tu ra. As sim que o chei ro do meu su or al can çar o ma ra vi lho so va le da im pres sões di gi tais, a ti re! He de a ti rar! Sin to o pe so do ca no do re vól ver so bre o meu a pa re lho di ges ti vo e sin to a su per fí cie li sa de sua pon ta den tro da mi nha bo ca cer ra da. Pou co de pois, fe cho os o lhos co mo quem dá um ti ro, mas o que foi is to que cus pi pe la bo ca no lu gar de um pro jé til?

§

Poema n. 14

Há um gra ma do em fren te ao ve lho cas te lo e so bre es te gra ma do des can so o meu cha péu. Do to po do cas te lo a mar ro u ma pe dra bem pe sa da à mi nha me mó ria e a lan ço a té on de al can ça a dis tân cia da mi nha for ça. Ou ço o cho ro tris te da his tó ria que re tro ce de so bre su a tra je tó ria pa ra bó li ca. Num da do mo men to, ve jo a bai xo um men di go pos ta do ao la do do meu cha péu co mo um guar di ão de pe dra. A in da que lá em bai xo o men di go es tá a ci ma de mim. Ou se rá a al ma e xâ ni me do so ma tó rio da his tó ria? A fun du ra do meu cha péu a ber to em di re ção ao es pa ço in vo ca o céu i mi nen te. Su bi ta men te, o men di go en cur va o seu ar tre me tre men te e jo ga u ma pe dra pa ra den tro do meu cha péu. Eu já des mai ei. Ve jo um ma pa em que o co ra ção se trans la da pa ra den tro do crâ nio. U ma gé li da mão se en cos ta à mi nha tes ta. Na mi nha tes ta a gé li da mão dei xa su a mar ca que nun ca mais se a pa gou.

(poemas de yi sáng,, trad. de yun jung im com revisão poética de haroldo de campos)

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]Exclosures[ de Emily Abendroth

Emily-Abendroth

Emily Abendroth (1975 -) é professora, artista e poeta experimental da Filadélfia, além de ativista pelos direitos dos presidiários nesse país dotado da maior população carcerária do mundo que são os EUA (pau a pau, porém, com China, Rússia e Brasil, claro). Ela trabalha com o grupo Decarcerate PA, que visa pôr fim ao encarceramento em massa no estado da Pensilvânia, é co-fundadora do Address This!, um projeto de empoderamento e educação que fornece cursos por correspondência a indivíduos presos no estado, e foi coeditora do volume Instead of Prisons…, uma antologia de textos escritos por presos na região do meso-atlântico (no prelo, a ser publicada pela editora Thread Makes Blanket press). Não por acaso, questões de poder, controle e perda de liberdade são um tema que se encontra no cerne de sua obra, publicada geralmente por editoras pequenas e artesanais. Sua lista de livros publicados inclui NOTWITHSTANDING shoring, FLUMMOX (Little Red Leaves), Property : None (Taproot Editions) e Toward Eadward Forward (horse less press). Abendroth também tem desenvolvido dois projetos mais longos chamados Muzzle Blast Dander e ]Exclosures[, e este último será o nosso foco aqui.

“Exclosure” é o termo usado em inglês para se referir a uma área de proteção de animais, geralmente perigosos, que, pelo que me parece (dada uma pesquisa rápida no google), pode ser traduzido pelo nosso “contenção”. As ]Contenções[, então, de Abendroth, são textos poéticos enumerados de natureza algo heterodoxa, que consistem de uma mescla de versos longos, que frequentemente se valem de recursos de jogos de palavras, justapostos com textos de fontes variadas. Acabei esbarrando nesse projeto no site do Eclipse Archive, um arquivo online dedicado a fac-símiles de obras experimentais publicadas por pequenas editoras ao longo do último quarto de século, que me foi apresentado por sugestão do grande Tazio Zambi, poeta alagoense. No Eclipse Archive, você pode baixar a edição das ]Exclosures[ de 1 a 8, publicadas pela Albion Books em 2012, numa tiragem de 100 exemplares, clicando aqui. Outras 3 ]Exclosures[ foram publicadas depois pela zumbar press, e algumas outras, como as de número 9, 11, 12, 15 e 17 podem ser lidas online na Apiary magazine, no blogue X-poetics e no Project Muse. Esses textos todos foram reunidos recentemente e publicados num só volume, pela Ahsahta Press . A descrição do livro diz o seguinte:

Há zonas militarizadas que ]Exclosures[ descreve, entre as vidas que vivemos e a lógica excludente que se exige de nós que as usemos para contê-la. Emily Abendroth nos diz que a sociedade com efeito criminaliza algumas das nossas características mais básicas — nossa juventude, nossa velhice, nossa pobreza, nossas necessidades de moradia ou de médicos, nossa fome — que então nos devolve como comportamentos perigosos e demandas insustentáveis. Mas ]Exclosures[ também visa mapear uma outra coisa — algo diversamente cambaleante, tenro, obstinado e extático —, a luta sempre renovada para resistir, rejeitar e impedir essa lógica.

Com isso em mente, eu traduzi 4 das 8 ]Contenções[ publicadas pela Albion Books, que compartilho com vocês abaixo. Como o layout das páginas é algo importante para esses textos, as traduções seguem cá na forma de imagens. O texto mesmo pode ser baixado em .pdf clicando aqui. Os originais podem ser conferidos no .pdf no link do Eclipse Archives acima.

(Adriano Scandolara)

 

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(poemas de Emily Abendroth, tradução de Adriano Scandolara)

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Quatro manhãs de Rimbaud

rimbaud-por-verlaine

Rimbaud, desenhado por Verlaine

 

Aproveitando o embalo da temática do poema em prosa da minha postagem anterior sobre o Gaspard de la Nuit, de Aloysius Bertrand, geralmente visto como o pai do gênero na França, agora voltaremos nossa atenção sobre Rimbaud. Como se sabe, a obra de Rimbaud inclui, além de poemas famosos em verso propriamente como “Vênus Anadiômene”, “Vogais”, “No Cabaré Verde”, “O adormecido do vale”, “Oração da tarde” e o “Barco bêbado”, dois voluminhos de poesia em prosa chamados Une Saison en Enfer (traduzido ou como “Uma temporada no inferno” ou “Uma estação” ou “Uma estadia”) e Les Illuminations (título dado por Verlaine que pode ser tanto “Iluminações” quanto “Iluminuras” e se refere às ilustrações das páginas de livros medievais). As Iluminações são um volume um pouco complicado, porque foi composto aos trancos e barrancos ao longo de um período maior de tempo (com poemas que seriam anteriores à Temporada ao lado de poemas que datariam de até dois anos após sua publicação) e em diferentes espaços, publicado por Verlaine em 1886, depois que Rimbaud já havia desistido da literatura e partido para a Abissínia.

Já a Temporada no Inferno é uma obra mais coesa, composta sob circunstâncias já bem conhecidas. Em 1872 Verlaine chama Rimbaud de volta a Paris, abandonando a esposa e o filho pequeno (sejamos francos, Verlaine era bem canalha) em julho do mesmo ano para ir com seu amante para Londres. Como apontam críticos (como Niall McDevitt, nesta resenha da Wolf Magazine à data da publicação da tradução de John Ashbery das lluminações para o inglês), as paisagens londrinas, às quais Rimbaud retornaria mais tarde, ao lado do poeta Germain Noveau, tiveram uma influência considerável sobre as imagens mais cosmopolitas da cidade utilizadas em Iluminações, ao passo que a Temporada é uma obra mais notavelmente francesa – como se pode observar, por exemplo, quando Rimbaud reflete sobre sua própria ascendência gaulesa no poema “Sangue ruim”. Em abril de 1873, Rimbaud parte para Roche, de volta à região de Charleville, sua cidade natal, onde começa a escrever a Temporada. No mês seguinte, ele acompanha Verlaine de novo em viagem a Londres. Após muitas brigas, o casal se separa e se reencontra em Bruxelas em julho, onde se passa o episódio mais infame da biografia dos dois poetas, em que Rimbaud tenta mais uma vez romper laços com Verlaine, e Verlaine, ensandecido, atira em Rimbaud, ferindo-o na mão. No hospital, a causa do ferimento é descrita como um acidente (velha história dos relacionamentos abusivos…). No dia seguinte, enquanto caminham, Rimbaud teme que Verlaine fosse atirar nele outra vez e chama a atenção de um policial. Verlaine acaba detido e é condenado a dois anos de prisão, não tanto por agressão ou tentativa de homicídio (o próprio Rimbaud, ao que parece, não queria prestar queixas, nem levar adiante o processo), mas pelo crime de “sodomia”, após ser submetido a certos exames médico-legais escabrosos.

Une_saison_en_enfer_-_01

Enquanto Verlaine se convertia ao catolicismo na prisão, Rimbaud retornava à fazenda em Roche, onde termina de escrever a Temporada. Na sequência, ele pede à sua mãe para que banque a publicação do livro, que sai em outubro do mesmo ano em Bruxelas. E, assim, esse relacionamento tempestuoso com o poeta mais velho, regado a absinto e ópio, acaba marcando tanto o começo quanto o fim desse volume. Não por acaso, há algumas menções (muito pouco) veladas a ele, como no poema “Delírios I: a Virgem louca – o Esposo infernal”, em que a tal virgem louca é ninguém menos que o próprio Verlaine, com quem Rimbaud só viria a se reencontrar uma única vez após ele ter saído da cadeia em 1875 – e só para lhe entregar os manuscritos de Iluminações, para serem repassados a Germain Noveau, com quem Rimbaud viveu por três meses em Londres logo após a prisão de Verlaine, em 1874.

Uma Temporada no Inferno consiste de 9 poemas em prosa: uma introdução sem título, “Mauvais sang” (Sangue ruim), “Nuit de l’enfer” (Noite do inferno), “Délires I: Vierge folle – L’Époux infernal” (Delírios I: a Virgem louca – o Esposo infernal), Délires II: Alchimie du verbe (Delírios II: a Alquimia do verbo), “L’impossible” (O impossível), “L’éclair” (Relâmpago), “Matin” (Manhã) e “Adieu” (Adeus). Estruturalmente, diferente das Iluminações, em que os poemas não apresentam maiores relações evidentes entre si (e onde a própria ordem de sua apresentação no livro é motivo de discussão), ele revela uma certa unidade de ação, com uma narrativa básica, esquemática, subjacente. No caso, essa narrativa esquemática consiste da catábase do eu-lírico de Rimbaud, que começa a sua descida ao inferno em “Noite do inferno”, tomando veneno, e dele emerge, enfim, transformado, em “Manhã”. Em termos de jornada do herói campbelliana, por exemplo, esse trajeto equivaleria à parte chamada de “abismo”, o ponto mais baixo da jornada, anterior à morte e renascimento simbólicos do herói. Em termos textuais, o que Rimbaud faz vai muito além dos trabalhos de Baudelaire e Bertrand sobre a forma do poema em prosa, ao privar completamente o leitor de qualquer tipo de contexto. Há uma sensação muito peculiar de estarmos tateando no escuro quando lemos esses poemas em prosa de Rimbaud: não sabemos quem fala (é o próprio Rimbaud? um eu-lírico? quanta proximidade ele tem em relação ao Rimbaud real?), nem com quem ele fala, nem onde, quando ou em qual situação, motivo pelo qual essa narrativa que eu descrevi é isso apenas, esquemática. Como resultado, os textos adquirem um caráter enigmático que antecipa e influencia os desenvolvimentos posteriores da poesia moderna.

Em português, que eu tenho notícia, temos 3 traduções desse livro. A primeira foi feita pelo poeta e tradutor Lêdo Ivo (1924 – 2012), com o título de Uma temporada no inferno, publicada em 1957 pela editora Civilização Brasileira, numa edição junto com Iluminações, republicada depois em 1985 pela Francisco Alves. Em 1997, Paulo Hecker Filho (1926 – 2005) publicou pela L&PM a sua tradução, também com o título de Uma temporada no inferno (sem as Iluminações, porém), e a mais recente é a de Ivo Barroso (1929), publicada logo no ano seguinte e ganhadora do prêmio Jabuti do seu ano (reeditada depois em 2007) pela Topbooks, que também já tinha publicado em 1994 a sua tradução da obra poética em verso. A edição de Barroso é a mais abrangente, com o título de Prosa poética: Estadia no inferno, Iluminações, Coração sob a sotaina, Os desertos do amor e Prosas evangélicas, incluindo, como fica claro, além dos dois livros célebres, alguns esboços e fragmentos anteriores. Em 2009, Barroso também publicaria a edição das Correspondência do poeta.

Como costumamos fazer no escamandro, segue abaixo um dos poemas de Uma Temporada/Estadia/Estação no Inferno, “Matin”, o último antes do encerramento do volume em “Adeus”, nas traduções dos três autores. A elas somamos ainda uma quarta tradução, inédita, feita pela jovem Lua Koepsel (1995), aluna de Letras da UFPR e promissora aprendiz de poeta e tradutora literária. A motivação por trás da tradução dela é a de propor uma atualização da linguagem de Rimbaud em português, ao identificar uma tendência arcaizante nas traduções já existentes, que, segundo ela, acaba por homogeneizar a produção de Rimbaud, fundindo a fase de sua produção mais livre em prosa com a sua fase anterior, ainda escrita sob o peso sufocante da versificação francesa – e, com isso, diluindo o impacto do caráter inovador da Temporada no Inferno e Iluminações. Em todo caso, esse tipo de iniciativa me soa como bastante produtiva (quantos tradutores já não começaram por sentir que as traduções já existentes de um poeta, por mais que competentes, seriam, de algum modo inadequadas?), e esperamos que ela dê continuidade ao trabalho.

Seguem as quatro traduções, então – que demonstram que, não é porque um poema (ou um texto em geral) assume a forma de prosa que ele deixa de abrir um leque de possibilidades diversas, nada automáticas ou “naturais”, quando se trata de traduzi-lo.

Adriano Scandolara

Claude Monet - Impressão, amanhecer (1872)

Claude Monet – Impressão, amanhecer (1872)

 

Matin

N’eus-je pas une fois une jeunesse aimable, héroïque, fabuleuse, à écrire sur des feuilles d’or, – trop de chance ! Par quel crime, par quelle erreur, ai-je mérité ma faiblesse actuelle ? Vous qui prétendez que des bêtes poussent des sanglots de chagrin, que des malades désespèrent, que des morts rêvent mal, tâchez de raconter ma chute et mon sommeil. Moi, je ne puis pas plus m’expliquer que le mendiant avec ses continuels Pater et Ave Maria. Je ne sais plus parler !

Pourtant, aujourd’hui, je crois avoir fini la relation de mon enfer. C’était bien l’enfer ; l’ancien, celui dont le fils de l’homme ouvrit les portes.

Du même désert, à la même nuit, toujours mes yeux las se réveillent à l’étoile d’argent, toujours, sans que s’émeuvent les Rois de la vie, les trois mages, le coeur l’âme, l’esprit. Quand irons-nous, par delà les grèves et les monts, saluer la naissance du travail nouveau, la sagesse nouvelle, la fuite des tyrans et des démons, la fin de la superstition, adorer – les premiers ! – Noël sur la terre !

Le chant des cieux, la marche des peuples ! Esclaves, ne maudissons pas la vie.

(Arthur Rimbaud)

 

Manhã

Não tive uma juventude amável, heróica, fabulosa, para ser escrita em folhas de ouro – Que sorte! Por qual crime, por qual erro, pago com minha fraqueza? Você que imagina os animais chorando com tristeza, doentes desesperados, mortos tendo pesadelos, tente narrar minha queda e meu sono. Eu, eu já não consigo me descrever como mais do que um mendigo com seus Pais-nossos e Ave Marias. Já não sei o que dizer!

Mas hoje creio ter terminado a narração do meu calvário. Calvário rumo ao inferno, aquele antigo, para o qual o filho do homem abriu as portas.

Neste mesmo deserto nesta mesma noite, sempre acordar com os olhos cansados à luz da estrela de prata, sempre, sem piedade dos Reis da vida, três magos, o coração, a alma e a mente. Quando iremos além das praias e dos montes saudar o nascimento do novo trabalho, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, e adorar – os primeiros! – o Natal na terra.

Canto dos céus, marcha dos povos! Escravos, chega de amaldiçoar a vida.

(tradução de Lua Koepsel)

 

Manhã

Não tive eu uma vez uma juventude amável, heróica, fabulosa, para ser escrita em fôlhas de ouro, – sorte a valer! Por que crime, por que êrro, mereci a fraqueza atual? Vós que achais que animais dão soluços de dor, que doentes desesperam, que mortos tem pesadelos, tratai de narrar minha queda e meu sono. Quanto a mim, posso explicar-me tanto quanto o mendigo com os seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!

Contudo, creio ter terminado hoje a narração de minha temporada no inferno. Era realmente o inferno: o antigo aquêle cujas portas o filho do homem abriu.

No mesmo deserto, à mesma noite, meus olhos cansados sempre despertam sob a estrela de prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos demônios, o fim da superstição, adorar – os primeiros! – os primeiros! – o Natal sôbre a terra?

O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Lêdo Ivo)

 

Manhã

Não é verdade, que uma vez vivi uma juventude amável, heróica, fabulosa, digna de gravar-se em páginas de ouro? Incomparável ventura! Por que crime, por que erro vim a ser castigado com a fraqueza de hoje? vós que pretendeis que os animais solucem de dor, que os doentes desesperem, que os próprios mortos sofram pesadelos, procurai aclarar os motivos da minha queda e do meu sonho. Quando a mim, não posso melhor explicar-me do que um mendigo com seus monótonos Pater e Ave Maria. Eu não sei mais falar.

Todavia, agora, creio ter encerrado o relato de meu inferno. Era, não há negar, o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem descerrou.

Do mesmo deserto, na mesma noite, meus olhos sempre cansados se voltam para a estrela de prata, sempre, sem que os Reis da vida, se comovam, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos enfim, para além das praias e das montanhas, saudar o nascimento do trabalho novo, da sabedoria nova, a fuga dos tiranos e demônios, o desaparecimento da superstição; quando iremos adorar – os primeiros! – a Natividade sobre a terra?

O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Paulo Hecker Filho)

 

A manhã

Já não foi uma vez adorável, heróica, fabulosa a minha mocidade, dessas de se inscrever em páginas de ouro, – promissora demais! Qual o crime, que erro, me fez merecer a miséria de agora? Vós que admitis possam as bestas soluçar de dor, os doentes se desesperarem, terem os mortos sonhos maus, tentai descrever minha queda e meu sono. E por mim, já não me explico melhor do que um mendigo com seus constantes padre-nossos e ave marias. Não sei mais falar!

Hoje creio haver, no entanto, terminado a relação de meu inferno. E era bem o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem abriu.

Neste mesmo deserto, nesta mesma noite, meus olhos cansados despertam sempre à luz da estrela de prata, sempre, sem que se comovam os Reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos afinal, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, para adorar- os primeiros! – o Natal na terra!

O cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.

(tradução de Ivo Barroso)

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poesia

5 poemas de turnê a meio mastro, de Leandro Rafael Perez

turnê-a-meio-mastro

IV.

casto aroma
de roupagem

narinas desenhadas
para as curvas da nudez

um mindinho contra a coxa,
todos os encaixes possíveis

para um par nuca-pescoço,
anzol no meio da ração.

*

uma perspectiva cavalo
próstata em manutenção

anos de antagonia à realidade,
20 a precisão

nunca me pareceu muita coisa
o carteado dos músculos

– Agora sou pidão.

*

Me cerco de mulheres fortes e homens
tristes, me dizem que sou alegre

que estou fazendo merda com a minha vida,

fosse eu mais dono de mim e passava
todos os dias cantando a capella pra vocês.

*

picoto papéis observando objetos de cobre,
leio eau de toilette numa embalagem escura

um calendário 2009 Ibovespa me confunde
e mesmo de longe este cheiro de dentista

Cacaso me sorri numa edição colorida
e eu sigo — caneta à orelha, cartola na mão

*

6.

já ali três vezes,
demora a se repetir

fui eu que cuidei em registrar
em três lindas fotografias

como a bandeira da França.

onde se vê um país em
símbolo, não fiz muito mais da vida.

quando eu achar a quarta
vou provar que estão errados

*

*

LRP-2

Leandro Rafael Perez nasceu em 1987 e tem a altura da Carmen Miranda com um chapéu-coco. Mora na divisa com Diadema, em São Paulo, e é formado em português e linguística pela USP. Tem um livro perdido pela internet (Pálpebras Amarelas, 2008) e pela editora Patuá publicou dois: lança além do real só, 2011, e turnê a meio mastro, 2014. Um poema seu consta na terceira edição impressa da revista Modo de Usar & Co. e escreveu uma série inédita para a revista virtual Geni.

(mais dele aqui no escamandro, clicando aqui)

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