poesia, tradução

Murder ballad em 2 casos

Frankie and Albert

a murder ballad é um tipo de balada tradicional, em geral de origem não letrada, com tema de assassinato; sua tradição remonta à era pré-moderna, sobretudo nas regiões da escandinávia, irlanda & inglaterra, para depois serem mais divulgadas a partir do séc. xvii, graças à circulação de textos musicais impressos por toda a europa; por fim, a partir do séc. xviii começamos a ver essa tradição europeia renovada em ambiente americano. no entanto, como sua origem está na poesia oral cantada, as obras mais antigas são anônimas e apresentam muitíssimas variantes, mudanças de enfoque, ou mesmo de espaço, de modo que seria até pouco interessante fixar um texto original. muitas delas tratam de crimes reais, tais como “pearl bryan” (jovem decapitada, em 1896, por scott jackson & alonso walling, porque estava grávida de jackson), ou apenas fantasiosos, com estruturas narrativas; essas estruturas apresentam também uma variedade de pontos de vista, que aceita ser narrada por um narrador externo, por um personagem não envolvido, ou mesmo pelo assassino, pelo assassinado, pelo detetive, etc.

o que importa, de fato, é que a fascinação pela violência — sobretudo pela violência ligada a outros afetos, tais como amor ou desejo sexual — essa fascinação permanece como um combustível para recriação & inovação do gênero, ou seja, trata-se de algo vivo, muito vivo (pensem até num processo paródico clássico, como “rocky racoon”, dos beatles, uma murder ballad anunciada, porém sem morte). por isso, comento e traduzo duas versões razoavelmente famosas, gravadas no século xx.

1. “frankie and albert”, segundo jonathan goodman (no livro bloody versicles), teria mais de cem versões diferentes, em algumas com a mudança do nome  para “frankie and johnny”; goodman ainda sugere que talvez a canção tenha se originado pelo assassinato de allen brit (jovem negro norte-americano, de 18 anos) por frankie baker (uma morena com quem ele vivia), em 1899; no entanto, é possível que tenha se originado antes, até porque sua organização temática é bastante genérica para dar conta de um fato tão específico: sabemos, por exemplo, que uma certa frankie silver (mulher branca norte-americana) assassinou o próprio marido em 1831, como esse haverá certamente vários outros casos similares com nomes que poderiam originar a letra. interessante é notar que o nome johnny (provável cristianização tardia) só vai aparecer numa gravação de 1911, do leighton brothers. na minha versão, optei pelo texto editado no livro de goodman & na coletânea killer verse, poems of murder and mayhem, por serem de um período pré-johnny, mas apresento a gravação de mississipi john hurt, de 1928, com letras um tanto diferentes (o bom ouvinte pode se divertir com esses processos). ainda decidi transformar os nomes, de modo que na tradução frankie vira chica, & albert vira alberto.

2. “henry lee” ganhou bastante fama na gravação de nick cave em parceria com p.j. harvey, em 1996. trata-se de uma canção do album murder ballads inteiramente dedicado à recriação do gênero tradicional. o que nem tantos sabem é que algumas letras do disco são, na verdade, tradicionais. “henry lee” é uma versão norte-americana mais recente do original escocês, em geral intitulado “young hunting”, que é provavelmente do séc. xviii. nas versões mais antigas, temos a história de uma mulher grávida abandonada pelo amante, que agora já deseja outra; assim, ela o assassina (simulando um beijo, ou levando-o para a cama) e depois joga seu corpo no rio, mas depois é assombrada por um pássaro; por fim, o corpo do jovem é achado, & a assassina assume a culpa. a versão de cave é bem mais breve, mantém-se na cena do assassinato, com uma alusão recorrente ao pássaro, além de apenas sugerir qualquer contexto mais complexo de culpa ou prisão. por isso, além da versão de cave, apresento também a gravação de dick justice, de 1929, por sua letra ser mais longa & ainda apresentar o diálogo com o pássaro. na verdade, o ouvinte mais atento vai reparar que a melodia de cave se aproxima bastante da utilizada por justice, embora a interpretação do canto seja absolutamente diversa.

guilherme gontijo flores

* * *

Frankie and Albert (Anônimo)

Frankie was a good girl,
Everybody knows,
She paid half a hundred
For Albert a suit of clothes,
He is my man, but he won’t come home.

Way down in some dark alley
I heard a bulldog bark,
I believe to my soul my honey
Is lost out in the dark,
He is my man, but he won’t come home.

Frankie went uptown this morning,
She did not go for fun,
Under her apron she carried
Albert’s forty-one,
He is my man, but he won’t come home.

Frankie went to the bartender,
Called for a bottle of beer
Asked him, my loving Albert,
Has he been here?
He is my man, but he won’t come home.

Bartender said to Frankie,
I can’te tell you a lie,
He left here about a hour ago,
With a girl called Alice Bly,
He is your man, but he’s doing you wrong.

Frankie went up Fourth Street,
Come back down on Main,
Lokking up on the second floor,
Saw Albert in another girl’s arms,
Saying he’s my man, but he’s doing me wrong.

Frankie says to Albert,
Baby, don’t you run!
If you don’t come to the one you love
I’ll shoot you with your own gun,
You are my man, but you’re doing me wrong.

Frankie, she shot Albert,
He fell upon the floor,
Says, turn me over easy,
And turn me over slow,
I’m your man, but you shot me down.

Early next morning,
Just about half-past four,
Eightenn inches of black crêpe
Was hanging on Frankies door,
Saying he was my man, but he wouldn’t come home.

Frankie went over to Mis’ Moodie’s,
Fell upon her knees,
Says, forgive me, Mis’Moodie,
Forgive me, oh do, please.
How can I when he’s my only son?

Frankie went down to the graveyard,
Police by her side,
When she saw the one she loved,
She hollered and she cried,
He was my man, but he wouldn’t come home.

Police said to Frankie,
No use to holler and cry,
When you shot the one you loved,
You meant for him to die,
He’s your man, but he’s dead and gone.

Rubber-tyred buggy,
Silver-mounted hack
Took Albert to the graveyard
But couldn’t bring him back,
he was my man, but he wouldn’t come home.

Chica e Alberto

Chica era boa moça,
todo mundo sabe,
pagou quase cinquenta
em roupa pro Alberto,
ele é meu, mas não volta ao lar.

Nalguma via escura
ouvi ladrar um cão,
sinto aqui dentro: o meu amor
se vai na escuridão
ele é meu, mas não volta ao lar.

Hoje a Chica foi pro centro
e não brincava não,
debaixo do avental levava
o velho tresoitão,
ele é meu, mas não volta ao lar.

Chica chegou no balcão
pediu a parati
e perguntou, o meu Alberto
esteve aqui?
Ele é meu, mas não volta ao lar.

O balconista disse,
não pretendo mentir,
faz uma hora que saiu
junto da Alice Bri,
ele é teu, mas quer te enganar.

Chica subiu a Rua 4
desceu na Principal,
foi pro segundo andar
ver Alberto e a rival,
disse, ele é meu, mas quer me enganar.

Chica disse a Alberto,
não corra, meu bem!
Se não voltar pro teu amor
te mato com teu próprio bem,
Você é meu, mas quer me enganar.

Chica atirou no Alberto,
ele caiu no chão:
Por favor me vire
vire sem empurrão,
eu sou teu, você veio atirar.

Na manhã seguinte,
pouco após as quatro,
meio metro em crepom preto
‘stava à porta do seu quarto,
dizendo ele era meu, mas não voltava ao lar.

Chica foi à Dona Moda
e caiu no seu colo,
perdão, perdão, Dona Moda,
perdão, eu te imploro!
Se eu só tive ele, como perdoar?

Chica desceu pro cemitério,
vinha polícia ao seu lado,
e ao olhar pro seu amor
disse num pranto inconsolado,
ele era meu, mas não voltava ao lar.

Disse o polícia pra Chica,
não adianta sofrer,
se atirou no teu amor,
foi pra ele morrer,
ele é teu, mas não voltará.

A charrete com pneus
e prata nos beirais
leva Alberto ao cemitério
mas jamais o traz,
ele era meu, mas não voltava ao lar.

§

 Henry Lee (Nick Cave)

Get down, get down, little Henry Lee
And stay all night with me
You won’t find a girl in this damn world
That will compare with me
And the wind did howl and the wind did blow
A little bird lit down on Henry Lee

I can’t get down and I won’t get down
And stay all night with thee
For the girl I have in that merry green land
I love far better than thee
And the wind did howl and the wind did blow
A little bird lit down on Henry Lee

She leaned herself against a fence
Just for a kiss or two
And with a little pen-knife held in her hand
She plugged him through and through
And the wind did roar and the wind did moan
A little bird lit down on Henry Lee

Come take him by his lilly-white hands
Come take him by his feet
And throw him in this deep deep well
Which is more than one hundred feet
And the wind did howl and the wind did blow
A little bird lit down on Henry Lee

Lie there, lie there, little Henry Lee
Till the flesh drops from your bones
For the girl you have in that merry green land
Can wait forever for you to come home
And the wind did howl and the wind did moan
A little bird lit down on Henry Lee

Henry Lee

Venha descer, jovem Henry Lee
Pra gente então dormir
Você não vai ver nenhuma mulher
Que se compare a mim
E o vento uivou e o vento entrou
Pousou passarinho no Henry Lee

Não sei descer e não vou descer
Pra gente então dormir
Pois meu bem querer, e vou te dizer,
Eu amo bem mais do que a ti
E o vento uivou e o vento entrou
Pousou passarinho no Henry Lee

E ela subiu na cerca assim
Pra dar um beijo ou dois
E com leve punhal firme na mão
Furou-o feito a um boi
E o vento uivou e o vento entrou
Pousou passarinho no Henry Lee

Venham puxar a alvíssima mão
Venham puxar seus pés
Pra então jogar num longo breu
De um poço profundo e sem vez
E o vento uivou e o vento entrou
Pousou passarinho no Henry Lee

Pois jaz e jaz, jovem Henry Lee,
E a carne se desfaz
Pois teu bem querer, e vou te dizer,
Espera o retorno pro lar
E o vento uivou e o vento entrou
Pousou passarinho no Henry Lee

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