crítica, poesia, tradução

A invocação dos Orixás na poesia de Audre Lorde, por Thamires Zabotto

audre-lorde

Nascida em Nova York em 1934, a poeta, ensaísta e ativista Audre Lorde é reconhecida como uma das figuras mais importantes do feminismo e da luta contra o racismo e a homofobia/lesbofobia nos EUA. Após suas primeiras publicações na revista New Negro Poets, USA, de Langston Hughes ao longo dos anos de 1960, seu livro de estreia na poesia, The First Cities, foi lançado em 1968. O poeta e crítico negro Dudley Randall o descreveu como um “livro quieto, introspectivo”, concentrado sobre a temática de sentimentos e relacionamentos, um comentário que parece se adequar também ao segundo volume Cables to Rage, de 1970, publicado inicialmente fora do país. É a partir do terceiro livro, From a Land Where Other People Live (1972), indicado ao National Book Award, que a temática da opressão parece surgir com mais vigor, trazendo à tona um tipo de tom furioso que se torna a marca pela qual sua poesia seria reconhecida pela crítica, a ponto de, por exemplo, um autor como Jerome Brooks afirmar em Black Women Writers (1950 – 1980): A Critical Evaluation: “Lorde’s poetry of anger is perhaps her best-known work”. Seus livros subsequentes se desenvolvem nesse mesmo registro, como New York Head Shot and Museum (1974), Coal (1976, a primeira de suas publicações a ser lançada por uma grande editora) e The Black Unicorn (1978), considerado por muitos o ponto mais alto de sua trajetória poética. No mesmo ano de lançamento de The Black Unicorn, Lorde foi diagnosticada com câncer de mama, e da sua luta contra a doença saiu o livro de prosa de não-ficção The Cancer Journals, de 1980. Suas outras obras em prosa incluem dois livros sobre relações entre mãe e filha, A Burst of Light (1981) e Sister Outsider: Essays and Speeches (1984), além da autobiografia (descrita pela autora como uma biomitografia) Zami: A New Spelling of My Name (1982). Ela também foi professora entre o final da década de 70 e começo da década de 80 na John Jay College of Criminal Justice e na Hunter College of The City University of New York, e entre 84 e 92 desenvolveu um trabalho de ativismo em Berlim com mulheres negras alemãs. Infelizmente, apesar de ter superado o câncer de mama, Lorde desenvolveu câncer de fígado, que levou à sua morte em 1992. Em sua poesia e sua luta contra a opressão, porém, ela deixou um legado muitíssimo vivo.

Quem quiser, pode ler mais sobre Lorde nesta postagem do Blogueiras Feministas, que traduz o texto-homenagem “La hermana outsider Audre Lorde”, onde lemos citações bastante interessantes da autora como sobre o porquê de ela preferir escrever poesia à prosa (sempre uma questão delicada quando o assunto é a relação entre lutas sociais e a experiência estética/estetização oferecida pela arte). Há uma postagem ainda no blogue da revista Modo de Usar sobre a poeta, com poemas traduzidos por Ricardo Domeneck (clique aqui).

Abaixo seguem dois poemas traduzidos, “The Winds of Orisha” e “From the House of Yemanjá”, que, além de lidarem com questões de negritude, feminismo e homossexualidade feminina, o fazem ainda pelo viés mítico da cultura religiosa Iorubá, com a qual estamos familiarizados no Brasil através do contato com o Candomblé e a Umbanda, mas a cultura norte-americana não. A tradução é de autoria de Thamires Zabotto e acompanha um comentário crítico detalhado sobre os dois poemas. A Thamires é formada em tradução e interpretação pela Universidade Metodista de São Paulo. Além de traduzir, ela trabalha também com ilustração e animação. Recomendo ainda a leitura de um outro texto online de autoria dela intitulado “Feminismo nos quadrinhos: breve história dos zines, comix, webcomics e sua literatura” (clique aqui).

(Adriano Scandolara)

*

A invocação dos Orixás na poesia de Audre Lorde

 

poster de Audre Lorde. créditos: Beeswax Goatskull

poster de Audre Lorde. créditos: Beeswax Goatskull (flickr)

Audre Lorde (1934 – 1992) foi uma escritora, poeta e ativista norte-americana de ascendência caribenha. Referia-se a si mesma como “negra, lésbica, mãe, guerreira, poeta” e isto é, portanto, condizente sobre o que consiste suas obras: questões lésbicas, raciais, de gênero e de identidade.

Inspiração para as mulheres de todo o mundo, sua identidade como negra e lésbica deu à sua obra uma nova perspectiva e a colocou em uma posição única para falar sobre questões que envolvem direitos civis, feminismo e opressão. Seu trabalho foi muito aclamado pela crítica devido aos elementos de liberalismo social e sexualidade e sua ênfase em revolução e mudança.

Junto com esta postura (negra, lésbica, mãe, guerreira e poeta) veio um desejo intenso de aprender sobre os antigos mitos matriarcais da África para entender sobre sua própria identidade.

Dois de seus poemas abaixo traduzidos, “The Winds of Orisha” (Os ventos dos Orixás) e “From the House of Yemanjá” (Da Casa de Iemanjá), lidam especificamente com a cultura Iorubá, que foi muito atraente para Lorde. Orixás são ancestrais divinos africanos e Iemanjá é o orixá mãe de todos os deuses e deusas no sistema de crença Iorubá.

Também faço uma análise crítica dos poemas, explorando como Lorde trata especificamente dos orixás e como estes dois poemas específicos navegam entre o espaço mítico da cultura e da crença Iorubá.

The Winds of Orisha

I
This land will not always be foreign.
How many of its women ache to bear their stories
robust and screaming like the earth erupting grain
or thrash in padded chains mute as bottles
hands fluttering traces of resistance
on the backs of once lovers
half the truth
knocking in the brain like an angry steam pipe
how many
long to work or split open
so bodies venting into silence
can plan the next move?

Tiresias took 500 years they say to progress into woman
growing smaller and darker and more powerful
until nut-like, she went to sleep in a bottle
Tiresias took 500 years to grow into woman
so do not despair of your sons.

II

Impatient legends speak through my flesh
changing this earths formation
spreading
I will become myself
an incantation
dark raucous many-shaped characters
leaping back and forth across bland pages
and Mother Yemonja raises her breasts to begin my labour
near water
the beautiful Oshun and I lie down together
in the heat of her body truth my voice comes stronger
Shango will be my brother roaring out of the sea
earth shakes our darkness swelling into each other
warning winds will announce us living
as Oya, Oya my sister my daughter
destroys the crust of the tidy beaches
and Eshu’s black laughter turns up the neat
sleeping sand.

III

The heart of this country’s tradition is its wheat men
dying for money
dying for water for markets for power
over all people’s children
they sit in their chains on their dry earth
before nightfall
telling tales as they wait for their time
of completion
hoping the young ones can hear them
earth-shaking fears wreath their blank weary faces
most of them have spent their lives and their wives
in labour
most of them have never seen beaches
but as Oya my sister moves out of the mouths
of their sons and daughters against them
I will swell up from the pages of their daily heralds
leaping out of the almanacs
instead of an answer to their search for rain
they will read me
the dark cloud
meaning something entire
and different.

When the winds of Orisha blow
even the roots of grass
quicken.

 

Os ventos dos Orixás

I

Esta terra nem sempre será estrangeira.
Quantas de suas mulheres se doem ao suportar suas histórias
robustas e gritando como o grão da terra em erupção
ou castigadas em correntes almofadadas, mudas como garrafas
mãos esvoaçando vestígios de resistência
nas costas daqueles que um dia foram amantes
meia verdade
apitando no cérebro como uma chaminé furiosa
quantas
anseiam trabalhar ou se abrir
para que corpos desafogando no silêncio
possam planejar o próximo passo?

Tirésias levou 500 anos, dizem, para evoluir em uma mulher
cada vez menor e mais escura e mais poderosa
até que, do tamanho de uma noz, foi dormir numa garrafa.
Tirésias levou 500 anos para se transformar numa mulher
então não se desanimem de seus filhos.

II

Lendas impacientes falam através de meu corpo
mudando esta formação da terra
propagando
Irei me tornar eu mesma
uma encantação
negros ruidosos personagens de formas ásperas
pulando de um lado para o outro em páginas brandas
e Mãe Iemanjá levanta seus seios para começar meu parto
próximo à água
a bela Oxum e eu deitaremos juntas
no calor da verdade de seu corpo minha voz vem mais forte
Xangô será meu irmão rugindo para fora do mar
a terra treme nossa escuridão inchando uma na outra
ventos de alerta nos anunciarão vivos
enquanto Oyá, Oyá minha irmã minha filha
destrói as crostas das praias bem dispostas
e a risada negra de Exu revira a pura
areia adormecida.

III

O coração da tradição deste país são os homens-trigo
morrendo por dinheiro
morrendo por água por mercado por poder
sobre as crianças de todos
eles se sentam em suas correntes sobre a terra seca
antes do anoitecer
contando lendas enquanto esperam sua vez
de conclusão
esperando que os jovens possam ouvi-los
medos que abalam a terra coroam seus pálidos rostos cansados
a maioria deles passam suas vidas e de suas esposas
trabalhando
a maioria deles nunca viram praias
mas enquanto Oyá minha irmã move a boca
de seus filhos e filhas contra eles
irei imergir a partir das páginas de seus jornais
pulando fora dos almanaques
ao invés de uma resposta para a sua busca por chuva
eles me lerão
a negra nuvem
significando algo inteiro
e diferente.

Quanto os ventos dos Orixás sopram
até a raiz da grama
desperta.

Oxum de Carybé

Oxum, por Carybé (1911 – 1997) [Série Iconografia dos Deuses Africanos]

A primeira menção explícita às crenças africanas na obra de Lorde aconteceu em 1970, com a publicação deste poema. O eu-lírico abre com uma declaração forte, dizendo que esta terra nem sempre será estrangeira (“this land will not always be foreign”). Sempre existiu uma forte relação entre a terra e o ser humano em várias culturas.

Nos próximos dez versos, o eu-lírico enfatiza o desejo/ necessidade que a mulher tem de se expressar, de suportar as suas histórias (“to bear their stories”), desejo este que se revela no físico, com as palavras dor (“ache”), gritando (“screaming”), castigando (“thrash”), esvoaçando (“fluttering”). O eu-lírico relaciona as mulheres com a terra, retornando a um plano mais mítico, em que as mulheres foram, durante milênios, associadas à terra por causa da fertilidade; pela capacidade de produzir/trazer vida. Estas figuras trabalham para levar adiante suas histórias e ainda não podem, porque ficaram “mudas” (“mute as bottles”). Para isso, é feito o uso de verbos violentos (“screaming” – gritando; “thrashing” – castigando, “fluttering” – esvoaçando).

Também vemos isso no quinto e no sexto versos, em que encontramos “mãos esvoaçando vestígios de resistência / nas costas daqueles que um dia foram amantes” (“hands fluttering traces of resistance/on the back of once lovers”). Não há implicação de um ato que, outrora íntimo, agora se tornou um ato de força onde duas pessoas que um dia compartilharam amor estão no meio de uma poderosa luta em que se perde os “vestígios de resistência”.

Na segunda estrofe da primeira parte do poema, o eu-lírico fala da figura do profeta grego Tirésias, que foi punido pelos deuses, ficando cego. Hera, deusa do casamento, da maternidade e das mulheres e esposa de Zeus, transforma o profeta em mulher. A figura de Tirésias é, portanto, sexualmente ambígua. Tanto homem quanto mulher, Tirésias pode ser considerado a personificação entre os elementos masculinos e femininos. Aqui, pela primeira vez, ouvimos no poema um tom de desafio: ele passou 500 anos se tornando cada vez menor, mais escuro e mais poderoso (“Tiresias took 500 years they say to progress into woman/growing smaller and darker and more powerful”), diz o eu-lírico, concluindo a estrofe com um comentário sarcástico: então não se desanimem de seus filhos (“so do not despair of your son”). Com isso, afirma-se que ainda há esperança se o sexo masculino escolher aprender algo com o sexo feminino; se o filho escolher aprender com suas mães, em vez de vê-las como objetos dignos de conquista, como no mito de Édipo.

Se a mulher que Tirésias se tornou era “pequena, escura e mais poderosa”, então, aqui, claro, o eu-lírico define “poder” de uma nova forma, refutando a ideia que dita o poder como algo caracterizado por um grande tamanho físico, em vez disso, ela oferece “poder” como sinônimo de força, algo que cresce exponencialmente, como a semente que germina e se torna uma árvore. A representação da mulher mudou desde a primeira estrofe para a segunda: de impotente, muda e inarticulada para pequena, escura e poderosa.

Apesar de “pequeno” e “escuro” serem significantes de fraqueza em uma cultura patriarcal supremacista branca, o eu-lírico infunde estas palavras com um novo significado, de modo que eles não são mais periféricos. Lorde faz isso ao longo de sua obra, a fim de combater o racismo, o sexismo e a homofobia. Pela conclusão da primeira seção do poema, então, temos uma fórmula para a cura das fraturas descritas na primeira estrofe: o equilibro entre os elementos masculinos e femininos deve ser alcançado.

É na segunda parte do poema, quando passa da terceira pessoa para a primeira pessoa, que o eu-lírico menciona as entidades, incorporando os mitos de outrora, onde lendas impacientes falam através de seu corpo (“impatient legends speak through my flesh”).

Nesta formulação o eu-lírico tem capacidade de falar por si mesma, de articular mistérios. Ela continua a se justapor com a palavra escrita e como ela se torna um “encantamento”, um cântico, uma oração para a música. O eu-lírico, então, passa a nomear cinco das entidades espirituais que se sabe terem sobrevivido à Rota dos Escravos, já que cada uma delas continua sendo adorada pelos praticantes das religiões Iorubá e suas vertentes em ambos os lados do Atlântico.

Estes entidades são os orixás, manifestações exclusivas de axé, “a força que faz-as-coisas-acontecerem”[1]. O eu-lírico invoca todos esses seres, chamando suas energias como um meio pelo qual vá mudar a formação da Terra. Novamente, o objetivo de Lorde nesta seção é a reestruturação fundamental: por meio da invocação dos orixás, espera-se reestabelecer o equilíbrio. Assim, ela convida os antigos espíritos a remediarem a fragmentação do mundo moderno; um mundo que não é centrado na mulher que não quer ter filhos, mas sim em sua angústia, sua dor, como é dito na primeira estrofe da primeira seção. Estes são corpos que carregam e suportam a dor e angústia e devem, então, “se abrir” (“split open”), de modo a liberar a dor e a tristeza do progresso, trazendo a cura e a libertação.

Esta libertação começa a ser descrita pela invocação de Iemanjá, que “levanta seus seios para começar o parto” do eu-lírico (“raises her breasts to begin my labor”). Este gesto – de levantar os seios – é uma generosidade: Iemanjá, a divindade identificada como mãe, se oferece para alimentar e nutrir o “eu” do eu-lírico.

Iansan-Oya de Carybé

 

Em seguida, ela invoca a “bela Oxum”, de quem usa a voz e com quem aprendeu a confiar em si mesma. Mais uma vez vemos esta reunificação: “no calor da verdade de seu corpo minha voz vem mais forte” (“in the heart of her body’s truth my voice becomes stronger”); Apesar do eu-lírico começar a primeira estrofe falando que essas lendas falam através da carne (“impatient legends speak through my flesh”), aqui ela já demonstra que carrega todos os orixás com ela, em seu sangue.

Cada entidade revela um aspecto diferente da persona do poema: com Oxum é o seu próprio corpo que fortalece sua voz; com Xangô – entidade que representa a justiça divina; ela o nomeia como seu irmão para que venha em sua defesa. Xangô é força física em forma de entidade, conhecida como personificação da energia masculina. Também ajudada por Oyá, quem ela nomeia sua “irmã, [sua] filha”, o eu-lírico a usa para indicar transformação. O símbolo de Oyá é o tornado e ela trabalha ao lado de Xangô, ambos amantes e guerreiros. O eu-lírico afirma que Oyá destrói as crostas das praias bem dispostas (“destroys the crust of the tidy beaches”); de fato, Oyá destrói para que uma nova vida possa surgir. Esta segunda parte do poema se fecha, enfim, com a invocação de Exu e sua risada. Amplamente caracterizado como a figura do malandro, Exú é invocado no começo e no final das cerimônias religiosas; ele é, portanto, o princípio e o fim. Tem sido historicamente caracterizado como o equivalente de um diabo, um ser malicioso, brincalhão e malandro. Sendo personificação da possibilidade, Exu encarna tudo o que poderia ser. Exu, portanto, não se limita a transmitir o mal, mas também a restituição: nesta cosmologia, a característica mais importante da vida é harmonia e paz, qualidades alcançadas através do equilíbrio. Assim, o eu-lírico termina esta seção invocando Exu, aquele que indica se os caminhos podem ser abertos ou fechados e, de fato, tem a capacidade de abrir ou fechar essas estradas. Aqui ouvimos sua risada negra (“black laughter”), algo que indica – talvez com sucesso – o que o eu-lírico se propôs a fazer no que ela se tornou de si mesma.

Na terceira e última parte do poema, o eu-lírico novamente traça um contraste gritante entre a tradição do “país” e quem ela é agora. Embora Lorde não especifique o nome deste país, acredita-se que seja os Estados Unidos: a referência a trigo (“wheat men”: homens-trigo) recorda o leitor do grão na primeira estrofe da primeira seção; e o trigo simboliza um alimento básico do país. Nesta seção o eu-lírico identifica o capitalismo como a doença que atinge seus homens que estão a morrer por dinheiro, por água, por mercado e por poder (“dying for money/dying for water for markets for power”). Ao contrário da primeira parte do poema, em que o eu-lírico descreve apenas o desespero da falta de poder, nesta parte ela se insere, se propondo como uma visão alternativa, algo que vai resolver a sua ânsia de “conclusão complemento”. Com sua última estrofe, ela implica que essa mudança, sua transformação, essa cura é inevitável. A única exigência é que a pessoa deve ter é olhar para dentro, em seu/sua própria carne, como ela faz.

From the House of Yemanjá

My mother had two faces and a frying pot   
where she cooked up her daughters
into girls
before she fixed our dinner.
My mother had two faces
and a broken pot
where she hid out a perfect daughter   
who was not me
I am the sun and moon and forever hungry   
for her eyes.

I bear two women upon my back
one dark and rich and hidden
in the ivory hungers of the other mother
pale as a witch
yet steady and familiar
brings me bread and terror
in my sleep
her breasts are huge exciting anchors   
in the midnight storm.
All this has been
before
in my mother’s bed
time has no sense
I have no brothers
and my sisters are cruel.
Mother I need
mother I need
mother I need your blackness now   
as the august earth needs rain.   
I am
the sun and moon and forever hungry   
the sharpened edge
where day and night shall meet
and not be
one.

 

Da casa de Iemanjá

Minha mãe tinha duas faces e uma frigideira
onde ela cozinhava suas filhas
para serem garotas
antes de fazer nossa janta.
Minha mãe tinha duas faces
e uma panela quebrada
onde escondeu a filha perfeita
que não era eu
Eu sou o sol e a lua e para sempre faminta
de seus olhos.

Carrego duas mulheres nas minhas costas
uma negra e rica e escondida
nas fomes ebúrneas da outra
mãe
pálida como uma bruxa
mas estável e familiar
me traz pão e terror
no meu sono
seus seios são enormes fascinantes âncoras
na tempestade da meia-noite.

Tudo isto foi
antes
na cama da minha mãe
o tempo não tem sentido
não tenho irmãos
e minhas irmãs são cruéis.

Mãe eu preciso
mãe eu preciso
mãe eu preciso de sua negritude agora
como a terra de agosto precisa de chuva.
Eu sou

o sol e a lua e para sempre faminta
a faca aguçada
onde dia e noite se encontrarão
e não serão
um.

 

Iemanjá de Carybé

Iemanjá, por Carybé

Lorde invoca entidades espirituais, ambos do Iorubá e dos povos Fons em The Black Unicorn (1978). Neste livro, Lorde oferece um glossário com as definições das entidades que cita, fornecendo aos seus leitores uma base para compreender o que ela, mais tarde, chama de “experiência arquetípica” das mulheres negras. Muitos críticos dizem que a utilização dessas entidades por Lorde é afirmação de sua negritude e sua feminilidade; eles também chamam atenção para o tema maternidade. Para Lorde, na verdade, estas entidades e suas mitologias fornecem uma sustentação para suas próprias experiências como uma mulher americano-caribenha. Em The Black Unicorn vemos a súplica para a cura vindo da África, na medida em que Lorde revela sua crença na capacidade curadora dessas entidades.

Uma dessas entidades aparece no poema “Da casa de Iemanjá” (“From the House of Iemanja”). Este título alerta o leitor de um tema consistente, o da mãe, pois Iemanjá é o orixá identificado com a maternidade. No glossário disponível no The Black Unicorn, Lorde descreve a Orixá como a mãe de todos os orixás[2].

Lorde aqui enfatiza não só a violência e a dificuldade dessas histórias, mas, mais importante, a capacidade de Iemanjá de transcender a dor, transformando-a no ato de criação. Chamando por ela, então, Lorde busca um objetivo semelhante para si e também para todas as mulheres. Sua ênfase não é, portanto, não no trágico e sim no sublime.

Na primeira estrofe, é a perspectiva da filha que o eu-lírico assume: uma filha prejudicada por ações de sua mãe. A primeira ação que lhe causa dor é a da socialização: em distinguir entre filhas e meninas, há uma sugestão de transformação a partir de uma reinvindicação da prole ao estatuto biológico independente de ser uma jovem. O quarto verso indica que a mãe faz isso antes de as meninas estarem prontas ou preparadas: elas não têm sustento para essa transição. Nos próximos quatro versos, o eu-lírico assume um tom mais pessoal, já que há a implicação de um tratamento preferencial, de proteção de uma companheira, uma menina-criança. Levando em conta o título do poema, essa voz reside na casa de sua mãe, e ainda continua uma constante nostalgia para com essa figura; o resultado é uma tentativa de autoconsolo, o eu-lírico tentando convencer-se do próprio valor.

Na segunda estrofe, há uma mudança de foco na mãe e suas ações. A menina cresceu – ao que parece –, agora é uma mulher que ainda não está confortável com a passagem do tempo. Em uma entrevista com Adrienne Rich, Lorde define a “mãe negra” como o poeta que cada um, homens e mulheres, carregamos dentro de nós e diz que esta figura é a metáfora para tudo que estamos sentindo.

Os seios da mãe negra são enormes, fascinantes âncoras (“her breasts are huge exciting anchors”). A outra mãe, que é pálida como uma bruxa (“pale as a witch”), e simbolicamente devorou a mãe negra, que agora está escondida nas fomes ebúrneas da outra (“hidden in the ivory hungers of the other”). Lorde mostra ao leitor uma perspectiva mais recente, apropriada à mulher negra: ela diz que o negro pode ser bom, que o branco não é necessariamente sempre melhor. No entanto, neste caso, parece que a mãe branca má ganhou, tendo, metaforicamente, engolindo a natureza da primeira.

Ainda em sua entrevista com Adrienne Rich, Lorde resiste à simples caracterização do poema como uma atribuição de valores com base na identificação racial, embora o leitor vê, claramente, como ela inverteu valores que atribuem tudo o que é bom para o branco e tudo o que é ruim para o negro. Notavelmente ela não usa cores. Ao invés disto, Lorde usa adjetivos, como “pálido” (“pale”) e “negritude” (“blackness”).

O eu-lírico continua a chamar pela mãe na penúltima estrofe. Na repetição, o leitor pode ver a urgência do pedido: não é só uma filha clamando pela sua mãe, mas uma voz feminina chamando a fonte de toda sua vida. Ela precisa da fonte para salvar o que restou. O “eu” assume mais ressonâncias globais; não é uma voz singular, mas sim inúmeras vozes pedindo ajuda, pedindo libertação da indisciplina. Ela conclui o poema voltando aos versos da primeira estrofe, mas o eu-lírico agora mudou. Já não precisa mais de sua mãe, mas permanece “para sempre faminta”, desenvolvendo uma resposta ao anseio interminável.

A primeira e última estrofes, então, são estruturadas para representar a progressão de um eu-lírico cheio de tensão para um eu-lírico não mais ameaçador. Diferente da fonte de medo do início, o eu-lírico torna-se outro na base da auto aceitação, ainda cantando a sua necessidade de para sempre faminta (“forever hungry”).

A mãe respondeu às súplicas do eu-lírico; o tom anterior de desânimo foi substituído por um tom de força e obstinação.

Lorde termina o poema falando sobre o sol e a lua, o dia e a noite, e estes conceitos de dia e noite e a impossibilidade de união entre os dois também sugere que a união das duas mães nunca será possível. A diferença é muito forte, e esta é a razão pelo qual o eu-lírico sente que carrega duas mulheres em suas costas (“I bear two women upon my back”).

Notas

[1] Foi assim definido por Robert Farris Thompson em seu livro Flash of the Spirit: African & Afro-American Art & Philosophy, de 1984.

[2] Do glossário em The Black Unicorn (1978): Mãe do outro Orixá, Iemanjá também é a deusa dos oceanos. Rios são ditos fluírem de seus seios. Uma lenda diz que um filho tentou estuprá-la. Ela fugiu até que caiu e, de seus seios, os rios fluíram. Outra lenda diz que seu marido insultou seus longos seios, e Iemanjá fugiu com suas panelas e as derrubou. De seus seios fluíam rios e de seu corpo brotaram todos os outros Orixás.

Referências bibliográficas

“Fon”. Encyclopedia Brittanica Online. 2014. Enciclopédia Britânica. Disponível em <http://global.britannica.com/EBchecked/topic/212396/Fon&gt;, acesso em 18 de dezembro de 2014.
BAILEY, Anne C. African Voices of the Atlantic Slave Trade: Beyond the Silence and the Shame. Beacon Press. Estados Unidos da América. 304p. 2006.
LORDE, Audre. “The Winds of Orisha”. Chosen Poems, Old and New. Nova Iorque: W. W. Norton & Company, Inc., 1982.
____________. “From the House of Yemanjá”. The Collected Poems of Audre Lorde. Charlotte Sheedy Literary Agency and W. W. Norton & Company, Inc. 1997.
____________.  The Black Unicorn. W. W. Norton & Company; Reissue edition. 1995.
MOORE, Lisa L. Sister Arts: On Adrienne Rich, Audre Lorde, and Others. Disponível em: <http://lareviewofbooks.org/essay/sister-arts-on-adrienne-rich-audre-lorde-and-others&gt;. Acesso em 04 de dezembro de 2014.
RAMEY, Lauri. BREMAN, Paul. Margaret Kissam Morris: Audre Lorde: The Voice of Multiple Consciousness. The Heritage Series of Black Poetry, 1962-1975: A Research Compendium. Inglaterra. Ashgate. 2008.
THOMPSON, Robert F. Flash of the Spirit: African & Afro-American Art & Philosophy. Estados Unidos da América. Vintage; 1st Vintage Books ed edition. 1984.

(poemas de Audre Lorde, tradução e comentário de Thamires Zabotto)

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