crítica de tradução, poesia, tradução

A canção de amor de Šu-Sin, um poema sumério

Ur-Nammu diante do deus do sol, Utu/Shamash

Ur-Nammu diante do deus do sol, Utu/Shamash

Aproveitando o embalo do tema da escrita cuneiforme e línguas e poesia do Oriente Próximo e Médio da minha postagem do começo do mês sobre um poema do ugarítico, gostaria agora de tratar daquele que, desde seu descobrimento no século passado, tem sido frequentemente chamado de “o poema de amor mais antigo de mundo”. Aliás, recomendo seriamente que, para a leitura desta postagem, vocês ouçam as reconstruções feitas por Stef Conner de antigas canções sumérias clicando aqui. A cantora estudou e aprendeu a língua (na medida do possível, claro, porque ninguém sabe exatamente como se falava o sumério) e as notações musicais das tabuletas dos hinos hurritas encontradas em Ugarit. Até mesmo uma lira especial foi construída, por Andy Lowings, visando se aproximar ao máximo de como se imagina que seriam os instrumentos da mesopotâmia. Apesar de ser impossível sabermos ao certo como soavam as músicas da época, os resultados são maravilhosos e altamente evocativos das imagens de zigurates e ritos antigos.

Šu-Sin, também escrito Shu-Suen, foi um rei sumério da terceira dinastia de Ur (Ur III), filho de Šulgi, que, na chamada cronologia curta, reinou entre 2029 e 1982 a.C., sucedendo seu pai Ur-Nammu, que assumiu o império neossumério após os cerca de 100 anos de dominação sob o povo bárbaro dos gúteos, dos quais quase nada se sabe. Šu-Sin governou após Šulgi e Amar-Sin, e seu filho Ibbi-Sin foi o último governante dessa dinastia, reinando até meados do século 20 a.C., quando uma combinação de catástrofes, desde problemas com o clima a invasões dos amoritas e elamitas, levou seu império a ruir. A cidade de Ur (localizada à época no encontro do rio Eufrates e o Golfo Pérsico), então centro do império, que em seu auge chegou a ter uma população de 65.000 habitantes, foi parcialmente despovoada e saqueada por nômades, e a dinastia Ur III teve fim. O período subsequente é descrito como pós-sumério ou paleobabilônico, e, como comentam os assiriólogos, por volta desse período o sumério já havia sido extinto como língua viva, sobrevivendo só como língua escrita para propósitos burocráticos, litúrgicos e literários, um processo que já havia sido iniciado em Ur III.

Estela funerária suméria com imagem erótica (1800 a.C.). Notem que a figura feminina bebe cerveja durante o ato

Estela funerária suméria com imagem erótica (1800 a.C.). Notem que a figura feminina bebe cerveja durante o ato

Agora que sabemos quem foi Šu-Sin e quais as condições históricas de seu período, podemos falar do poema em si. A tabuleta contendo “A canção de amor de Šu-Sin” faz parte da biblioteca do rei assírio Assurbanípal (668 – 627 a.C.) descoberta nas escavações arqueológicas da cidade de Níneve no final do século XIX de nossa era. Seu texto foi publicado por Edward Chiera (1885 – 1933) em 1924 e depois traduzido pelos famosos pesquisadores da área Adam Falkenstein (1906 – 1966) e Samuel Noah Kramer (1897 – 1990), em 1947 e 1951, respectivamente. Como ocorre com o Cântico dos Cânticos, que é também chamado de Cântico de Salomão, nem Salomão, nem Šu-Sin são o eu-lírico dos poemas, de autoria anônima, que levam seu nome no título, mas seu interlocutor, a quem a canção é destinada. Esse também não é o único elo que fica sugerido entre os dois textos, que fazem parte do que parece ser uma mesma tradição de canto matrimonial sagrado em voz feminina (apesar de que não podemos saber ao certo se o autor era homem ou mulher), da qual “A canção de amor de Šu-Sin” é até hoje o exemplar mais antigo de que temos notícia, tendo sido composto por volta dos anos 2000 a.C., ao passo que o Cântico dos Cânticos seria uma composição posterior, entre os séculos 3-6 a.C., detendo por muito tempo o título de poema amoroso mais antigo do mundo, até este poema ter sido descoberto e traduzido. Na Suméria, era costume que a cada ano, como parte do festival de ano novo, o rei se casasse simbolicamente com Inanna, deusa do amor e da guerra (equivalente a Ištar entre os acádios), um matrimônio que, apesar de simbólico, era consumado de fato através de uma sacerdotisa da deusa, que, até onde se sabe (o que não é muita coisa) seria quem recitaria esses versos. Talvez ela os compusesse também, visto que temos registro de cantos femininos ainda mais antigos do que “A canção de Šu-Sin”, como “A exaltação de Inanna” e os Hinos Templários, compostos pela sacerdotisa, princesa e poeta En Hedu’anna, mas, neste caso especifíco aqui, em que a autoria não é clara, é difícil afirmar. Em termos de mito, nesse ritual de matrimônio, o rei assumiria o papel temporário do consorte de Inanna, Dumuzid (que dá o Tammuz das tradições posteriores, também o nome de um mês de verão nos calendários babilônio e judaico), deus primaveril cuja morte e renascimento, refletindo ao mesmo tempo os mitos gregos (posteriores, creio) de Dioniso e de Perséfone, também estão relacionados a temas de vegetação e fertilidade.

O texto está disponível online, no original transcrito e em tradução inglesa, no The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature, um importante projeto da universidade de Oxford, organizado por Jeremy Black, Graham Cunningham, Esther Flückiger-Hawker, Eleanor Robson, Jon Taylor & Gábor Zólyomi, que tem como objetivo reunir num único local o corpus textual disponível da literatura clássica suméria. Tal como podemos ver no site, temos 3 partes da canção, a parte A (kug-ga-am3 in-tu-ud), dedicada à deusa Bau, e a parte B (mu-ti-in cag4-ja2…) e C (siki-ju10 hi-iz…), dedicados à Inanna. Quando as páginas por aí na internet se referem popularmente ao “poema de amor mas antigo do mundo”, os autores costumam ter em mente ou a parte A ou a parte B (pouca coisa sobrou da C, fragmentada demais para ser lida), mas, ao que tudo indica, eles integram a mesma série de textos (o que faz com que o poema de amor mais antigo do mundo seja, na verdade, 3).

Temos já uma tradução desse poema (partes A e B) para o português feita por Jorge Luis Gutiérrez, publicada na edição de outubro de 2011 da Revista Pandora (clique aqui), que se baseia, ao que tudo indica, na tradução de Kramer. Eu achei por bem, porém, propor uma nova tradução minha para a parte A do poema com base na tradução e no texto original disponíveis no Electronic Text Corpus of Sumerian Literature – só que não se trata desta vez de uma tradução indireta pautada só pela tradução inglesa. Em vez disso, a tradução inglesa me serviu aqui de orientação para tentar lidar com o sumério original – e nisso o The Pennsylvania Sumerian Dictionary (ePSD) e a gramática de The Sumerian Language de Marie-Louise Thomsen me foram inestimáveis –, de modo a melhor representar a estrutura do poema e evitar desviar tanto do sentido. A tradução de Gutiérrez, por exemplo, fala em “bebida” e, mais especificamente, “vinho”, mas ocorre que o termo original é kaš, que, apesar de poder também se referir genericamente a qualquer bebida alcóolica (que é o sentido 2 do dicionário), costuma ser traduzido atualmente por “cerveja”, enquanto a kašbir (a “bebida misturada”) seria uma cerveja mais leve, diluída em água – e, sem brincadeira, os sumérios tinham trocentas palavras, todas dotadas de diversas pequenas nuances de sentido, para falar de cerveja: ebla, imĝaĝa, kašsig, kašsura, kiraši, kurun,  niĝsur, siraš, ulušin… Em outro momento, a tradução de Gutiérrez alude aos “alegres cânticos allari” (no original: a-al-la-ri bi2-dug4-ga-ke4-eš), ao passo que o ePSD e o ETCSL registram “a’allari” somente como “uma exclamação” ou “uma exclamação de alegria” e não me pareceu possível encontrar nenhuma outra informação sobre o que seriam esses tais cânticos allari, exceto no livro do próprio Kramer (History Begins at Sumer), o que nos leva a crer que essa deva ter sido a interpretação dele à época – o que é bastante compreensível, já que se trata de um livro lançado em 1956, que, apesar de importantíssimo, vai naturalmente demonstrar sinais de estar datado, considerando os avanços feitos na área desde então.

pedra com inscrição de Shu-Sin no Louvre

Pedra com inscrições contendo o nome de Shu-Suen, que, pelo pouco que eu entendo do cuneiforme, pode ser lido na segunda linha (segunda fileira da direita para a esquerda… é preciso, porém, pôr a pedra de pé para poder ler direito). Procure pelos símbolos para ŠU e “suen” (EN.ZU) no ETCSL. Os outros símbolos nessa linha são o de AN/DINGIR, geralmente usado antes do nome de deuses. O caractere que se repete no começo das três últimas lihas, LUGAL, significa “rei”.

 

No tocante à estrutura dos versos, eu me esforcei para observar as repetições e a posição dos sintagmas, mas sem tentar reproduzir a ordem das palavras no original, já que, como se sabe, o sumério é, como o latim, uma língua SOV (sujeito-objeto-verbo), e quem quer que já tenha lido más traduções de latim sabe que esse não é um bom método a ser seguido. Por isso preferi propor desvios da ordem normal SVO do português só quando o original se desvia da sua ordem natural. Notem que o poema se repete com frequência, o que é uma característica do seu gênero, o balbale, baseado em repetições, variações e paralelismos. Isso é explicitado pelo último verso, que não é bem um verso, mas um colofão: “este é um balbale a Bau”.

O original sumério está disponível na ETCSL aqui. O site também tem uma explicação sobre como começar a ler esse diabo de língua (clique aqui) – os números que acompanham as palavras, como se vê, por exemplo, em gin7, indicam que se trata de uma das versões de uma palavra homofônica, de modo que gin7, uma partícula gramatical que significa “como” (“como um jovem leão…”, ur-nim-gin7), se distingue de gin6 (“estabelecer”), e assim por diante. Em muitos casos, duas palavras homofônicas com significados muito distantes também apresentam logogramas distintos (e.g.: a com sentido de “água” e a com sentido de “braço”). O ePSD pode ser consultado aqui. Antes de brincar no dicionário, porém, é bom se familiarizar com as convenções de representação digital do sumério. Para se procurar por, digamos, kaš no sistema de busca, não é preciso reproduzir esse caractere esquisito que é o š (que tem som de “sh”). Em vez disso, digita-se c: kac, e o mesmo vale para a letra ĝ (que representa o som de “ng” final do inglês), que é transcrito como j, de modo que diĝir (deus) se escreve dijir e šeĝ (chuva) se escreve cej, e assim por diante. Os textos do ETCSL e de qualquer outro site de natureza mais acadêmica na internet costumam já estar inseridos nesta convenção, o que facilita a pesquisa.

 

A canção de amor de Šu-Sin

ou: um balbale a Bau para Šu-Sin

 

ela deu a luz ao que é puro, deu a luz ao que é puro
a rainha deu a luz ao que é puro
Abi-Simti deu a luz ao que é puro
a rainha deu a luz ao que é puro
minha roca que tece o prazer, minha Abi-Simti
meu bastão de tecer, minha rainha Kubatum

digno de minha cabeleira, o admirável, o meu senhor Šu-Sin
em palavras (…) meu filho de Šulgi
porque suspirei, porque suspirei, presenteou-me o senhor
porque suspirei de alegria, presenteou-me o senhor
com um broche d’ouro, um selo em lápis-lazúli, presenteou-me o senhor
com um anel em ouro, um anel em prata, presenteou-me o senhor

senhor, teus presentes são (…) que teus olhos se desnudem a mim
senhor Šu-Sin, teus presentes são (…) que teus olhos se desnudem a mim
(…) senhor (…) senhor (…)
que suplique tua urbe como um aleijado, meu senhor Šu-Sin
que como um jovem leão repouse a teus pés, meu filho de Šulgi

minha deidade (…) a taverneira, gostosa sua cerveja
tal sua cerveja, gostoso seu sexo, gostosa sua cerveja
tal sua boca, gostoso seu sexo, gostosa sua cerveja
sua cerveja com água, gostosa sua cerveja
meu Šu-Sin que me fizeste tão bem
que me fizeste tão bem e tão feliz
meu Šu-Sin que me fizeste tão bem
querido por Enlil, meu Šu-Sin
meu rei, deus da nossa Terra

(este é um balbale a Bau)

 

(poema anônimo, tradução de Adriano Scandolara, com base no ETCSL)

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4 comentários sobre “A canção de amor de Šu-Sin, um poema sumério

  1. Marcelo De Angelis disse:

    arqueologia poética. trabalho bem sucedido. gostoso de ler em voz alta.

    (…) a taverneira, gostosa sua cerveja
    tal sua cerveja, gostoso seu sexo, gostosa sua cerveja
    tal sua boca, gostoso seu sexo, gostosa sua cerveja (…)

  2. Ouvi falar desse poema uma vez, justamente por ser um texto antigo que falava sobre a Cerveja, e fiquei bem surpreso pela tradução inglesa trocar essa bebida por vinho…

    • Pois é, eu fui até verificar, mas é isso mesmo. O Kramer diz “wine-maid” p/ traduzir “zabitum”, que hoje se entende como “taverneira”, mas que na época que ele publicou o livro provavelmente não devia ser conhecido o sentido (essa é a única ocorrência da palavra, aliás, em todo o corpus conhecido). O complicado é que depois ele diz “her drink” (ou seja, vinho) p/ traduzir “kash”, que é, de fato, cerveja…

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