poesia, tradução

Poetas e Poemas Tang a partir de William Carlos Williams (pt. 4), por Danilo Augusto

1 - li po

Li Po

 

este é o quarto & último texto da série preparada por danilo augusto para o escamandro, com um ensaio sobre a sua visão & experiência pessoais diante das traduções de poetas da dinastia tang feitas pelo poeta norte-americano william carlos williams em parceria com o sinólogo david rafael wang. a meu ver (aliás bem diverso do de danilo augusto), a grande importância de um projeto como esses é a possibilidade de ampliarmos nossa visão das visões sobre a poesia chinesa. para o leitor que chega até aqui, não se trata de criticar se o que chega até nós pelas traduções do danilo é fiel ou não, se realmente mostra os chineses “tal como eles escreveram”: isso certamente é um delírio de verdade, no campo da poesia. mais interessante é ver como diferentes lentes se adaptam ao texto chinês para a recriarem na língua inglesa: WCW & david r. wang são uma parte dessa história de tradução, aclimatação, recriação, reinvenção, transcriação, ou como quiserem chamar. mas a história é muito mais longa; por isso, danilo augusto ainda apresenta, no fim deste post, três traduções retraduzidas de um mesmo poema de li po: uma de ezra pound, uma de WCW/DRW & outra de david hinton. ao retraduzir, o que temos é a prova prática de que aquele corolário tradutório de walter benjamin (a saber, que traduções não merecem ser, por sua vez, traduzidas) não vale nada. traduções poderosas, que conseguem se estabelecer como novos textos (tenho certeza que as de pound e de WCW já são assim consideradas em língua inglesa), pelo contrário, pedem para ser traduzidas, porque interferem de tal modo na história do texto original, que se tornaram textos importantes por si próprias, agora nós temos uma nova lente que as traduz ao português, não como mera muleta por falta de conhecimento do chinês, mas pelo interesse que a leitura de WCW é capaz de produzir, o que sugere um jogo de espelhos & retraduções potencialmente infinito.

guilherme gontijo flores

* * *

Ensaio sobre a poesia e poetas da Dinastia Tang

Danilo Augusto

I

Em sua seleção e recriação dos poemas da Dinastia Tang, William Carlos Williams, com parco conhecimento do idioma, contou com a colaboração de David Wang, orientalista e poeta sino-americano, que lhe forneceu amplos comentários, notas e traduções a partir do original. A intenção do poeta, mais que uma “tradução propriamente dita”, era a de fazer uma adaptação destes poemas ao “idioma americano” – princípio que norteou boa parte da sua escrita – porém, mesmo com este objetivo, ele escreve para seu colega após alguns meses de trabalho em conjunto:

Tenho lutado com os poemas, porém falhei em obter uma réplica da língua antiga. Certamente, o que você me passou não corresponde a isso. (…) É uma poesia arcaica, cujo verdadeiro sentimento está muito distante de nós para ser por nós capturado. Mesmo se eu me imergisse – supondo que pudesse – na língua, seria um tarefa exaustiva que levaria toda a vida para se realizar. A única coisa que resta é retornar-lhe os poemas.

Ainda assim, Wang continuou remetendo seu trabalho para WCW, que se encarregou de “adaptá-los”, concedendo-lhes uma sintaxe americana e sintagmática, com o intuito de torná-los mais próximos de seu leitor.

O resultado desta empreitada foi apresentado em  The Complete Poems of William Carlos Williams, Vol. II, pela editora New Directions, que, chegando-me às mãos, me provocou grande impressão. A sensação, que primeiro adveio, de estranhamento daquela poesia e poetas tão distantes e diversos de mim se mesclou a uma segunda; a de sentir ler um poema liso e sem rugas, algo como a fluidez de uma boa fala em sua língua original.

Ao desvincular suas pretensões de qualquer impossível fidelidade formal, os poemas não deixam transparecer algum tropeço ou espaço vazio que, tantas vezes, nos vemos adivinhando em traduções de poesia. Se há algum jogo de compensação daquilo que entra ou sai do poema, daquilo que se renomeia ou simplesmente se modifica, isto não transparece ao leitor. Não há marcas dos processos de soma e subtração que visam a um encaixe em uma métrica e sistema tonal estabelecido – algo que permanece tão presente em nossos projetos de traduções, mesmo quando já abandonado qualquer intuito de fidelidade quanto ao “que o poeta quis dizer”. Com a aparência de ser reduzido às suas enunciações de conteúdo e contraste de contemplações, o poema nos chega como imagem completa e sem dívidas, eficaz naquilo que nos deixa a intuir.

A sensação é que WCW quis se ater firmemente àquilo que o poema diz em seu sentido mais material, imagem e enunciação, esperando que possamos encontrar na faceta substantiva das palavras norte-americanas o resíduo concreto de algo que nos foi remetido há quase dois milênios, em uma terra e cultura estrangeira. Era de se esperar que nos deparássemos com um trágico busto de Ozimândias, destruído, semienterrado, incompleto e tomado pelo amplo deserto; porém, esta não foi a sensação que me tomou ao primeiro ler os poemas recriados pelos dois.

 

II

Com grande ignorância da língua chinesa – fora um mero conteúdo de introdução formal e teórica – me deparei, como tradutor, com esta contingência exuberante: a de ser o terceiro elo desta corrente que me liga a uma literatura ininteligível para mim. Este é um fato que, embora enorme e incontestável, teve que ser posto em perspectiva daquilo que pretendi fazer em minha tradução: comunicar este sentimento material que senti.

Ao cotejar os resultados alcançados por WCW e Wang com outros (por vezes, com vastas anotações e exemplificações literais) confirmei que o intuito de conceder o “idioma americano” aos poemas foi tarefa bastante notável e que moldou profundamente o resultado, tornando-o distante das demais traduções disponíveis. Os poemas ganharam maior linearidade, centramento no enunciador e ordenação de enunciações, fatores que não vemos em outras traduções e que diferem da ideia de simultaneidade e heterogeneidade expostas nos comentários da poesia chinesa e que podemos ler ou intuir em seus exemplos em prosa e notas de tradução literal. A organização sintática dos versos, a firmeza do lugar e tom do enunciador, são características bastante ocidentais que podemos ver nos trabalho de WCW e que, portanto, são mantidas nestas traduções.

No entanto, vale frisar, estas são decorrências de uma opção tomada em frente a uma completa impossibilidade de intenções de “fidelidade” ou mesmo recriação de uma estrutura métrica e tonal com o original. Com diferenças fundamentais que nos trazem as línguas analíticas e sua correspondência na escrita logogramática, sem representação alfabética direta com a nossa língua (mais abstrata, próxima em sua referencia som-escrita), o chinês é uma língua evocativa em que as palavras simbolizam as coisas antes em sua forma (desenho) do que em sua transcrição fonética. Majoritariamente monossilábico, o chinês diferencia seus fonemas compostos por silabas idênticas em diversos tons musicais, sendo, assim, uma língua extremamente compacta. Cada fonema, isolado, é uma mônada sonora de sentido semântico. Essa composição do poema chinês é puramente intransponível para seu suporte no português; a diferença se estende para além de um plano de adaptação e conformação – ou melhor, o jogo de compensação que se dá, por exemplo, quando o tradutor se depara com a maior gama de vogais no idioma inglês e tem que transportar o poema para seu ambiente tonal reduzido, no português – e se depara com a irredutibilidade de dois suportes distintos em suas ferramentas primeiras de representação.

Assim, podemos dizer que os resultados fornecidos por WCW e Wang abrem mão do lado melódico do original[1] na busca por um sentido poético da enunciação, daquilo que o poeta está a nós declarar de forma mais objetiva: “há neve no chão”; “meus cabelos estão brancos”; “as árvores estão sem folhas” etc. Porém, o elencar e, principalmente, o contrastar dessas enunciações se mostram como suficientes para comunicar um sentido e/ou imagem poética que reconhecemos como potente e bela e, ainda, como não sendo própria de William Carlos Williams, mas vinda até nós de poetas outros, e que podemos começar a conhecer e vivenciar seus sentimentos, mesmo que as palavras que eles tenham usado para transmiti-los nos sejam irreconhecíveis.

Se, por um lado, tanto se perde, e se é permitido perder, nestas traduções – que, mesmo ainda no plano da linguagem escrita, mostram-se como verdadeiramente intersemióticas em seus movimentos irredutíveis de transposição chinês antigo > inglês > português –, gostaria de acreditar que muito também fica (transformado ou recomunicado) em possibilidades de leitura e de reconhecimento de um sentido poético arcaico e originalmente heterogêneo ao nosso modo de inteligir o mundo e a própria interioridade.

 

III

Nestes 10 poemas de 6 poetas apresentados[2], encontramos uma poesia de contemplação e constatação que pode nos comunicar sentidos poéticos ao simples elencar de duas imagens que se contrastam. O motivo destes contrastes, por vezes, parece ser pouco evidente, mais intuível do que simplesmente demonstrável, e, de fato, não captável “pelo entendimento”. O poeta está sempre nos mostrando coisas, sejam elas um movimento do seu interior ou acontecimento natural, jamais nos demonstrando como ou por que de algo; não há considerações ou mesmo comparações entre duas coisas, as duas imagens são elencadas em uma ordem que parecem se interpenetrar, completando-se, ou se divergirem em um contraste que, ao intuirmos, nos faz sentir seu sentido poético.

Os passarinhos voaram pra longe das montanhas,
A marca do homem sumiu de todos os caminhos,
Mas sob uma vela solitária um velho se agacha,
Pescando em meio à tempestade de neve.
(Liu Chung-Yuan)

Mesmo a metáfora não é, aqui, utilizada. Parece não haver sobreposições invisíveis nas palavras elencadas, mas sim nas relações maiores das imagens escolhidas. Neste exemplo acima, e em diversos outros, podemos perceber o centro do poema se estruturar a partir da partícula adversativa “mas”; talvez esta partícula tenha sido incluída por WCW para evidenciar este contraste que, aqui, se mostra bastante claro. Neste outro exemplo, o “mas” é ainda evidente, porém parece sugerir um contraste um tanto mais vago, que nos exige maiores poderes de intuição:

Retornando após ter deixado meu lar na infância,
Mantive meu sotaque mas não a cor dos meus cabelos.
Confrontando as crianças sorridentes que me cercam,
Sou inquirido de onde vim.
(Ho Chin-Chang)

“Mantive meu sotaque mas não a cor dos meus cabelos”, duas enunciações que, primeiramente, parecem conflitar por uma razão misteriosa, porém que, depois, nos comunicam um sentido poético que não conseguimos especificar exatamente onde se encontra (embora seja sentido de forma direta), mas que passeia junto ao tema do forasteiro que retorna, o lar abandonado na infância e essas novas crianças que não o reconhecem e, também, não são por ele conhecidas; embora uma parte dele permaneça idêntica – seu sotaque – como elo entre o presente e o passado, como marca de seu pertencimento, agora apagado pela idade.

Em alguns outros poemas este “mas” não chega a ser anunciado porém, ainda, pode ser intuído, mesmo embora, agora, pareça não sugerir a força de um contraste, e sim, talvez, algo mais fluido, como uma incompatibilidade que o poeta quer nos fazer vislumbrar a fim de que alcancemos o sentido de sua contemplação.

 

 

IV

Embora escritos em uma ordenação sintática bastante familiar, os poemas selecionados e, primeiro apresentados por WCW e, agora, por mim retraduzidos, nos comunicam uma sentimento poético único e autônomo. A primeira sensação que me adveio ao lê-los em conjunto foi a de constatar uma completa falta de subjetividade exposta. Quando os poetas dizem do seu interior, eles o fazem com o mesmo sentimento em que anunciam eventos naturais; eles antes contemplam a si mesmos, do que consideram ou entendem.

Guiando minha canoa a uma ilha nebulosa,
Assisto ao sol enquanto minhas dores se erguem;
(…)
(Meng Hao-Jan)

O interior e o exterior é ordenado em uma enunciação, porém não há julgamentos sobre o que se diz e, muito menos, explicações. O poeta nos concede uma imagem para que olhemos para ela, e não para que busquemos seu entendimento final.

A palavra “contemplação”, embora sempre utilizada ao se referir vagamente a uma grande “estética oriental”, ainda parece bastante adequada para pensarmos sobre esta poesia. A poesia chinesa foi base pra muitas outras tradições, como a da poesia antiga japonesa e suas formas popularizadas no Ocidente (como o waka e o haikai), onde melhor aprendemos a reconhecer este seu caráter contemplativo.

O andarilho, o lago, a folha de cerejeira que cai e o pássaro que anuncia cada uma das 4 estações foram temas que comunicaram ao Ocidente este modo de sentir deslocados de um eu interior supercentrado e sempre superior ao mundo externo e sensível. Porém, herdando parte de sua forma e temas da poesia chinesa, principalmente em seu centro canônico da Dinastia Tang, os mestres japoneses deram continuidade e modificaram uma tradição bastante anterior.

Esta tradição, visível e sensível nestes poemas apresentados, faz-nos perceber um legado gigantesco que eu, pelo menos, ainda mal comecei a vivenciar. Podemos sentir nesta seleção de poemas[3], que começa em 689 d.c com Meng Hao-Jan, um princípio e sensibilidade irmanando àquele expresso pelo mestre Hattori Tohō (1657 – 1730), um dos discípulos mais ilustres do poeta Bashō, quando o cita:

Aprenda sobre o pinheiro com o pinheiro, aprenda acerca do bambu a partir do bambu.} este dito do nosso instrutor significa que tu deves abandonar a subjetividade. Se interpretares {aprenderes} da tua maneira, acabarás por não aprender. {Aprender}, aqui, significa penetrar no objeto; então se sua essência se revelar e te comover, tu poderás talvez ter a inspiração para um verso. Mesmo quando parece que descreveste o objeto, o objeto e teu eu permanecerão separados, e a emoção que tiveres descrito não atingirá a sinceridade, porquanto esta terá sido de alguma maneira construída pela tua subjetividade.[4]

 

V

Porém, esta contemplação pode levar-nos a perspectivas poéticas e ontológicas bastante diversas. Com os andarilhos, budistas e sábios da poesia japonesa nos, percebemos constantemente um mundo em perpétuo movimento e mudança, onde o poeta busca (como o excerto anterior já nos diz) através de sua contemplação e exercício da arte, uma iluminação momentânea da verdade. No entanto, estes princípios ainda estão nascendo e se disseminando na China da Era da Dinastia Tang. Mudança e movimento, aqui, se embatem com uma forma anterior de inteligir o mundo e que pode se mostrar como sua verdadeira antítese: o confucionismo.

Para o confucionismo, o destino da terra e sua vida está invariavelmente traçado nos Céus imutáveis. O homem não evolui junto com o universo, mas sim sempre com ele se ajusta a fim de manter uma harmonia eterna. O estudioso Nissin Cohen nos diz sobre esta filosofia, que:

No coração de toda a especulação confuciana está a doutrina que afirma que o universo é um todo harmônico, no qual homem e natureza constantemente interagem um sobre o outro em todos os aspectos da vida. Dessa doutrina concluiu-se que as ações do homens afetam a ordem natural, que é sensível, acima de tudo, à qualidade ética dos seus atos. Se o homem falha em preencher sua própria função, a natureza age ou opera de modo a restaurar o equilíbrio total ou a harmonia.

A interação entre as ações e julgamentos éticos e o mundo exterior é completa e sempre age a fim de assegurar a permanência e a harmonia de um estado anterior. E, talvez, esta noção nos faça entender um pouco como poetas como Li Po, às vezes, parecem ver indiferenciadamente os movimentos do seu sentimento e pensamento interior e a neve que se deposita no chão, ou a lua que, enfim, se mostra sobre sua cabeceira.

O poeta parece sempre avistar algo total – talvez o mundo e a realidade como verdadeiramente são – por isso raramente percebemos alguma angústia por uma revelação oculta ou um por passo em caminho à evolução espiritual. Declarar aquilo que acontece no mundo e aquilo que acontece dentro de si é declarar estas relações que permitem a harmonia; e estas relações, em seus conflitos insolúveis ou inesperadamente complementares, nos comunicam a beleza de seu sentimento poético.

Porém, fossem só estes os sentimentos comunicados a nós pelos poetas, certamente, adviria um inescapável fatalismo. A harmonia confuciana é um fator (de grandíssimo peso, é verdade), no entanto, a ela se mesclam diversas outras doutrinas e modos de ver e sentir o mundo (o budismo em suas origens, o xintoísmo animista), compondo uma tradição que agrupa centenas de poetas por quase trezentos anos. Aqui me faltará conhecimento e capacidade para analisar estas facetas da poesia Tang em sua profundeza e amplitude.

Porém, acredito ter fornecido, com estes 6 poetas selecionados, uma oportunidade de conhecimento e introdução ao que é esta gigantesca e fascinante tradição da poesia chinesa a partir dos olhos criadores de WCW e Wang.

 

Notas

[1] Por exemplo, procure pelas declamações de poemas de Li Po, 李白, no youtube, e repare na cadência melódica composta pelos tons de cada fonema, ditos de forma modular e isolada.

[2] Este ensaio é seguido por 3 versões comparativas de um mesmo poema canônico de Li Po. Traduzidos do inglês, a partir de WCW, Pound e David Hinton, serão apresentadas, ao todos, 13 versões

[3] Onde a única metáfora só parece ocorrer de forma completa justamente no último verso do ultimo poema: “O sentimento da partida / Se agarra feito folha úmida ao meu coração”.

[4] Em Hiroaki Sato e Burton Watson. From the Country of Eight Islands: An Anthology of Japanese Poetry.

 * * *

A Esposa do Comerciante do Rio: Uma Carta

a partir de Ezra Pound

Na época em que ainda cortavam meu cabelo rente à testa
Eu brincava no portão da frente, colhendo flores,
Você veio sobre um pedaço de bambu, como um cavaleiro,
Você me cedeu um lugar ao seu lado, brincamos com as ameixas azuis.
E fomos viver na aldeia de Chokan:
Dois pequeninos livres de suspeitas ou antipatia.

Aos catorze me casei com você, meu Senhor.
Sendo acanhada, eu nunca ria.
Baixando minha cabeça, encarava a parede.
Mil vezes requerida, nunca olhei para trás.

Aos quinze deixei de cara feia,
Desejava que meu pó se misturasse ao seu.
Para sempre e sempre e sempre.
Para que precisaria de vigília?

Aos dezesseis você se foi,
Foi para o longínquo Ku-to-en, pelo rio dos redemoinhos,
Há cinco meses você se foi.
Os macacos fazem seus barulhos tristes lá em cima.

Você arrastou os pés quando partiu,
E agora no portão há musgos crescendo, diferentes,
Profundos demais para serem limpos!
As folhas caem mais cedo neste outono, pelo vento.
Os casais de borboletas já amarelaram com Agosto,
Ao longo da grama no Jardim Ocidental;
Eles me machucam. Eu envelheço.
Se você está retornando pelos estreitos do rio Kiang,
Por favor, me diga antes
E eu irei partir ao seu encontro
Até a longínqua Cho-Fu-Sa

The River-Merchant’s Wife: A Letter

While my hair was still cut straight across my forehead
I played about the front gate, pulling flowers.
You came by on bamboo stilts, playing horse,
You walked about my seat, playing with blue plums.
And we went on living in the village of Chokan:
Two small people, without dislike or suspicion.
At fourteen I married My Lord you.
I never laughed, being bashful.
Lowering my head, I looked at the wall.
Called to, a thousand times, I never looked back.

At fifteen I stopped scowling,
I desired my dust to be mingled with yours
Forever and forever and forever.
Why should I climb the look out?

At sixteen you departed,
You went into far Ku-to-en, by the river of swirling eddies,
And you have been gone five months.
The monkeys make sorrowful noise overhead.

You dragged your feet when you went out.
By the gate now, the moss is grown, the different mosses,
Too deep to clear them away!
The leaves fall early this autumn, in wind.
The paired butterflies are already yellow with August
Over the grass in the West garden;
They hurt me. I grow older.
If you are coming down through the narrows of the river Kiang,
Please let me know beforehand,
And I will come out to meet you
As far as Cho-fu-Sa.

Travessa do  Corrimão

a partir de William Carlos Williams

Na primeira vez que meu cabelo foi cortado rente à testa
Eu brinquei frente à minha porta, colhendo flores.
Você veio cavalgando um pedaço de bambu,
Dando voltas em meu jardim, brincando com as ameixas verdes.
Vivendo como vizinhos na Travessa do Corrimão
Tínhamos um grande carinho que ninguém suspeitava.

Aos quatorze virei sua esposa,
Com grande timidez, eu nunca sorria.
Baixava minha cabeça para uma parede escura,
E jamais atendia por mais que me chamassem.

Aos quinze passei a mostrar minha alegria,
Desejava ter meu pó misturado ao seu.
Com uma devoção inabalável,
Pra que procurar se tinha você?

Aos dezesseis você saiu de casa
Por vias íngremes e turbulentas rumo a uma terra longínqua
Que em maio era impossível alcançar,
E onde os macacos se queixavam tristemente para os céus.

As pegadas que deixou quando saiu pela porta
Foram cobertas pelo musgo verde,
Musgo novo e profundo demais pra ser varrido.
O vendo de outono chegou cedo e as folhas já começaram a cair.
As borboletas amarelaram em agosto,
Flutuam em pares no jardim ocidental,
Olhando pra elas sinto meu coração apertar
e quedo triste por minha juventude que desvanece.

Todo dia e toda noite eu espero seu retorno,
Espero sua carta que há de chegar ainda antes,
Para que eu possa partir e lhe encontrar no caminho
Até a longínqua Areia do Vento.

Long Banister Lane

When my hair was first trimmed across my forehead,
I played in front of my door, picking flowers.
You came riding a bamboo stilt for a horse,
Circling around my yard, playing with green plums.
Living as neighbors at Long Banister Lane
We had an affection for each other that none were suspicious of.

At fourteen I became your wife,
With lingering shyness, I never laughed.
Lowering my head towards a dark wall,
I never tamed, though called a thousand times.

At fifteen I began to show my happiness,
I desired to have my dust mingled with yours.
With a devotion ever unchanging,
Why should I look out when I had you?

At sixteen you left home
For a faraway land of steep pathways and eddies,
Which in May were impossible to traverse,
And where the monkeys whined sorrowfully towards the sky.

The footprints you made when you left the door
Have been covered by green moss,
New moss too deep to be swept away.
The autumn wind came early and the leaves started falling.
The butterflies, yellow with age in August,
Fluttered in pairs towards the western garden.
Looking at the scene, I felt a pang in my heart,
And I sat lamenting my fading youth.

Every day and night I wait for your return,
Expecting to receive your letter in advance,
So that I will come traveling to greet you
As far as Windy Sand.

Canção da vila Ch’ang Kan

a partir de David Hinton

Estas franjas ainda não atingiam meus olhos,
Eu brincava em nosso portão, colhendo flores,

E você veio sobre seu cavalo de bambu
Circulando o poço, arremessando ameixas.

Vivíamos juntos aqui em Ch’ang Kan
Dois pequeninos livres de suspeita.

Aos catorze, quando me tornei sua esposa,
Tão tímida e traída, jamais sorria,

Confrontei muros e sombras com olhos abatidos.
Milhares de apelos; a todos ignorei.

Aos quinze, minha careta passou a amolecer.
Queria-nos mesclados em cinzas e pó,

E você sempre em prontidão me respondia
Nenhuma sentinela aguardando seu retorno.

Aos dezesseis, você navegou para o distante
Rochedo de Yen-Yu no Desfiladeiro Ch’ü-tang,

Ferozes águas impossíveis de junho
Uivantes gibões clamando aos céus.

Em nosso portão, onde você hesitou,
Musgos sepultaram seus passos um a um.

Verdes e profundos, não posso livrar-me
E o outono se adianta. Folhas caem.

É setembro agora. Borboletas aparecem
no jardim oeste, voando em pares,

e isso me dói. Sento-me, coração aflito,
flor da juventude no meu antigo rosto.

Antes de partir em retorno do além,
tantos desfiladeiros, envie uma carta.

Não entenda que irei mais distante
Que as Areias de Chan’g-feng

Ch’ang-Kan Village Song

These bangs not yet reaching my eyes,
I played at our gate, picking flowers,

and you came on your horse of bamboo,
circling the well, tossing green plums.

We lived together here in Ch’ang-kan,
two little people without suspicions.

At fourteen, when I became your wife,
so timid and betrayed I never smiled,

I faced wall and shadow, eyes downcast.
A thousand pleas: I ignored them all.

At fifteen, my scowl began to soften.
I wanted us mingled as dust and ash,

and you always stood fast here for me,
no tower vigils awaiting your return.

At sixteen, you sailed far off to distant
Yen-yü Rock in Ch’ü-t’ang Gorge, fierce

June waters impossible, and howling
gibbons called out into the heavens.

At our gate, where you lingered long,
moss buried your tracks one by one,

deep green moss I can’t sweep away.
And autumn’s come early. Leaves fall.

It’s September now. Butterflies appear
in the west garden. They fly in pairs,

and it hurts. I sit heart-stricken
at the bloom of youth in my old face.

Before you start back from out beyond
all those gorges, send a letter home.

I’m not saying I’d go far to meet you,
no further than Ch’ang-feng Sands.

* * *

Li Po (já apareceu aqui,  em trads. de Danilo Augusto) também conhecido como Li Bai ou Li Bo, nasceu em 701, ao redor do atual Quirguistão, e é, hoje, referenciado como o maior poeta da Dinastia Tang (a “era de ouro” da poesia chinesa). Comumente carregando epítetos como “o imortal” ou “o transcendente”, Li Po tem sua vida e escrita rodeadas por lendas e idealizações. O poeta compôs cerca de mil poemas, sendo que muitos têm até hoje sua autoria contestada; esta obra exerceu uma influencia larguíssima em todo Oriente e, mais tarde, no Ocidente, por vias de autores e figuras canônicas como Ezra Pound e Gustav Mahler (no ABC da Literatura, Pound usará Li Po como o maior exemplo do uso da imagem em poesia) e, também, por vastas e múltiplas traduções e retraduções a partir de outras línguas (no Brasil, temos algumas traduções de Cecília Meireles). Sua realização é considerada, por muito, como de perfeição formal e, embora não tenha desenvolvido novos metros ou temas, é referenciado como o grande mestre e retomador das tradições da poesia chinesa anterior, sempre lembrado pelo seu virtuosismo singular. Li Po comumente assumia variados pontos de vistas ou “personas”, incluindo o de mulheres e crianças, e uma das características mais citadas em sua escrita é de uma profunda nostalgia aliada a um olhar infantil ou inocente, tendendo a personalizar e dialogar com elementos da natureza e, também, uma grande permeabilidade do Taoismo que, com suas noções de imutabilidade e reclusão, é bastante visível em seus poemas. Um dos temas mais recorrentes e característicos de Li Po, e que perfaz alguns de seus poemas mais populares, são o vinho e a embriaguez –   o poeta é considerado o fundador do estilo de Kung Fu “Os Oito Imortais”, que consistia, primariamente, na falta de linearidade aliado à extravagância e imprevisibilidades em seus movimentos, um “lutar bêbado” mais tarde popularizado por Jackie Chan no cinema.

(traduções de Danilo Augusto, com base nas traduções inglesas de Ezra Pound, William Carlos Williams e David Hinton)

Padrão

Um comentário sobre “Poetas e Poemas Tang a partir de William Carlos Williams (pt. 4), por Danilo Augusto

  1. Esse curtinho do Li T’ai Po traduzido por Haroldo de Campos é bem “bonitinho” também::

    Improviso

    Nuvens
    são
    cambraias

    Pétalas
    tuas
    faces
    Brisa
    que farfalha
    nas varandas
    altas
    Cristaliza
    orvalho
    diamantes
    de água
    Se não posso
    vê-la
    nos píncaros
    de jade
    Sob a lua
    ei-la
    no pavilhão
    de jaspe

    Mas também já está no ABC da Literatura

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