poesia, tradução

christian prigent (1945 – )

Vanda Benes, 2013

Vanda Benes, 2013

Christian Prigent nasceu em Saint-Brieuc, na Bretanha, França, em 1945. Foi professor de literatura no ensino médio francês de 1967 a 2005, e fez uma tese de doutorado sobre a obra de Francis Ponge (sob a orientação de Roland Barthes, em 1977). Fundou em 1969, com Jean-Luc Steimetz, a revista TXT, e que dirigiu até 1993. Uma das últimas a reivindicar-se como vanguardista, crítica em relação aos movimentos de “restauração” das Belas-Letras que então se multiplicavam na França, a TXT abriu espaço para escritores e artistas de diferentes gerações e nacionalidades, e que trabalhavam entre diversos gêneros e linguagens artísticas. Durante as décadas de 1970-1980, Prigent passou temporadas ensinando em Roma e em Berlim, antes de retornar para a Bretanha, onde vive atualmente. Publicou seu primeiro livro em 1969, e desde então foram mais de 40 títulos entre a poesia, a prosa, o ensaio, a crônica e a tradução (do alemão, do italiano, do latim, do inglês). No campo da reflexão teórica e crítica, Prigent não temeu as grandes questões, retomando, por exemplo, em livro de 1996, a pergunta de Hölderlin: “Para que ainda poetas?” [À quoi bon encore des poètes?]. Tem realizado cada vez mais regularmente leituras públicas de sua obra, na França e em outros países, privilegiando o que define em seus ensaios como “a voz-do-escrito”. Em 2014, teve um colóquio internacional dedicado a sua obra, realizado no Centro Cultural Internacional de Cerisy-La-Salle, na França. No Brasil, há ainda poucas traduções de sua obra, dispersas em revistas literárias.

* * *

Un Os

On a un os
c’est le dernier

on le voit quand on chie
gratte
et déblatère le baratté
le nappe papa
le bon pipeau

et qu’on dit “bis” car on y cloue
ses trous

en sauce viatique et con mouillé
en bonne parlote
en touche minou

*

et c’est comme je te pousse
le trop-su que je sue
l’appris qui pue

pour les corps assis
oui
dans du oui qui jouit
oui
d’être si
rassis

alphabéti-sé
philosophi-sé
idéologi-sé

*

car c’est tout ça figé au sale temps mili

ça fait taire les limes
les crimes
les épidydimes
le chié le tombé
l’abouché bébé
le pourri
le cadavré

non

ce qu’on
sent au fond
c’est la mare moche
l’os
la défense en croc
le brou du broc
qui noie

*

entre coccyx et trou
il y a une peau
ultime pot
grain à bout et c’est
entre os et mou
clou du dos
souqué du sinciput
et député au cul
qui tire
tape
et tue
musique et claque muscle
en dé cloqué
en chauve-souris
les omoplates plantées
le plan des pieds pité
au nœud que tient vissé
la nuque

*

et c’est ce “cric”
dans l’écrit
qui crisse

courbature
fracture
tempo tac

c’est l’axe qui saque
le sexe souqué

le son de ça c’est sourd :
un glas de glotte
trachées tuyaux
ça serre en haut
la clé du cule
la clavicule

*

en bas ça cloue
la puanteur le sac de peau
le pack sauté
le décimé qui tousse
et pousse
plantant tac et tapant
d’l’axe anus à la
nuque
et d’l’anuque à la
nusse
la toux
l’ultime coup
qui tue
tout

le foutu
trou

Um Osso

Tem-se um osso
é o último

se vê quando se caga
roça
e deblatera o besuntado
cobre-o papai
o bom de papo

e quando se diz “bis” pois pregam-se
as pregas

em molho viático e buceta molhada
em bom cavaco
em toque xota

*
e é como eu te empurro
o sabido que suo
o auferido que fede

para os corpos sentados
sim
em sim que goza enfim
sim
ressentado
assim

alfabeti-zado
filosofi-zado
ideologi-zado

*

e tudo isso imóvel no imundo tempo mili
faz calar os limos
os crimes
os epidídimos
o cagado o tombado
o bebê abocado
o apodrecido
o cadaverado

não

cê tá
cheirando lá
a poça suja
a osso
a defesa em croque
a broa da broca
que afoga

*

entre cóccix e rosca
tem pele exposta
último posto
baga tosca e é
entre osso e macio
crivo das costas
socado sinciput
e deputado ao cu
que puxa
bate
e mata
música e estalo músculo
qual dado empolado
todo manchado
as omoplatas plantadas
o plano dos pés pitado
ao nó que aparafusa
a nuca

*

e é o grito
no escrito
que se alça

curvatura
fratura
tempo tac

é o eixo que saca
o sexo socado

o som disso é surdo
um dobre de glote
traqueias tubos
aperta no topo
a clave do culo
a clavícula

*

embaixo inocula
a iaca o saco de pele
o pacote saltado
o dizimado que tosse
e pulsa
plantando tac e batendo
do eixo ânus à
nuca
e d’anuca ao
anusso
a tosse
o último toque
que mata
tudo

fodido
furo

“Un Os” [1979], em “Journal de l’Œuvide” [1980] (Presque tout, 2002, p.13-18)

Collages pour “Un Os” de Ch. Prigent (Ed. MURO TORTO, Villa Medici, Roma, 1979)

Collages pour “Un Os” de Christian Prigent — Ed. MURO TORTO, Villa Medici, Roma, 1979

§

Demains je meurs
géographie patéthique 

Survol toute bidure en piqué rase mottes. C’est la Chienne du Monde, la Bête des Misères, qui raconte la suite, donc cave canem : “In antiquis temporibus gens illa jam inter pluvias frigidas mugitusque boum vivebat ruri. Alter faber, alter agricola, pauperrimi vero, in eodem saltu omnes : mala sua recte noscebant. Par siecles apres, illoc emmi bues, gelines et chevalx a mesme campaygne vivoient, et poverté les encumbroit : molt unt oüd e peines e ahans. Si mais mult fierement receivent la lei de chrestiens ne nus est si tant povre qu’il mendie : l’âme peut maintenir aucune force dedans. Et cil est riches cui Deus aime. Par ainsi nul mal qui trop les tourmentast et fist sentir gueuserie de leur condition et sentoient peu qu’ils estoient fort à plaindre. Mais ils eurent fils bossus, sujets médiocres, morts jeunes. Et survivanciers pareils du même style : tous étoient chétives créatures parmi les pécores et, pour ce que servilement en cet état tenus, tous voués à peu commode ouvrage. Puis fut long cor en maoüdi temps, eu euzaut’ d’cé nous i font toujou les pêsans : caousant pataud, portant sabiots, les uns domestiques, d’aut’s labourous, quêqu’zuns bédaous. Vous pouvez relire les phrases à l’envers, entraver roman puis piger latin : le parler, ça change. La vie, elle, peu. L’histoire, on nous dit qu’elle file, qu’elle avance. Mais quasi rien bouge : c’est tout pareil au près qu’au loin.”

Amanhã eu morro
Geografia patétitca

Sobrevoo a toda em mergulho rasante. É a Cadela do Mundo, a Besta das Misérias, que conta o resto, portanto, cave canem : “In antiquis temporibus gens illa jam inter pluvias frigidas mugitusque boum vivebat ruri. Alter faber, alter agricola, pauperrimi vero, in eodem saltu omnes : mala sua recte noscebant. Enos seclos despoys, aca iunctos boys, gallineas y cauallos uiuiã ena medesma campya, y pobreza os estornaua: tiuerã muintas difficultades y trebolaçõs. Pero recebem co grã fermença ha ley dos christãaos e ninguẽ he pobre abastante pera mẽdigar: ha alma pode manter certo uiço interior. E he rico aquelle que he amado por Deus. Tanto que nom auia mizeria que os atormẽtasse demays e que os fizesse sentir ha extrema pobreza de sa condiçõ e elles pouco sentiã que eran bẽ dinos de pena. Pero tiuerõ fillos corcundas, gentes uulgares, que mãcebos morrerõ. E os descendentes destes foram do mesmo estilo: eraã todos creaturas miudas entre os homẽes, pero medesmo mantidos na condiçõ de ualetes, e todos destinados a despraziveis labores. Inda mui tempo correu e elles som uilanos: falam uolgar, usam piugas, hũus domesticos, outres lamegos, algũs bedelos. Você pode reler as frases ao inverso, embalar no românico e depois pegar o latim: o falar, isso muda. A vida, ela, pouco. A história, dizem que ela corre, avança. Mas quase nada mexe: é igualzinho de perto e de longe.”

(Demain je meurs, 2007, p.89-90)

[trad. de Marcelo Jacques de Moraes e Guilherme Gontijo Flores]

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s