crítica, tradução

“As quatro idades da poesia”, de Thomas Love Peacock

Um poeta em nossos tempos é um semibárbaro numa comunidade civilizada. Ele vive nos dias do passado. Suas ideias, pensamentos, sentimentos e associações estão todos ligados aos modos bárbaros, costumes obsoletos e superstições refutadas. A marcha do seu intelecto é como a de um caranguejo, anda para trás. Quanto mais clara a luz que se difunde ao seu redor pelo progresso da razão, mais espessa é a escuridão da barbárie antiquada em que ele se enterra como uma toupeira, para arremessar os montes da terra infértil de seus labores cimérios.”

(Thomas Love Peacock)

A idade de ouro, de Lucas Cranach, o Velho

A idade de ouro, de Lucas Cranach, o Velho

Há textos que se tornam clássicos, que lemos e relemos, porque faziam sentido à época que foram escritos e continuam, ou pelo menos por um bom tempo, continuaram fazendo sentido aos seus leitores, que vão reconhecendo nele algo que poderíamos descrever como uma verdade – não a Verdade, obviamente, mas algo que, em certa medida, encontra ressonância no leitor. “As quatro idades da poesia”, de Thomas Love Peacock (1785 – 1866), porém, não é um desses textos.

Publicado numa revista literária inglesa de 1820, nesse breve ensaio Peacock descreve a história da poesia europeia segundo o esquema do mito grego das quatro idades do homem, com uma pequena inversão, de modo que a idade do ferro vem antes da do ouro. Assim, teríamos na Antiguidade, a idade do ferro na poesia dos aedos e vates pré-homéricos, que se refina na idade de ouro de Homero, Píndaro, Alceu, Ésquilo e Sófocles, sucedida pela idade de prata em Aristófanes, Menandro, Virgílio, Horácio e Juvenal, e a de bronze nos poetas posteriores, já no início da era cristã, dos quais Nono, o autor da extensa Dionisíaca, é o único exemplo que se destaca para Peacock. Na era moderna, em língua inglesa, o ciclo se repete com as tradições orais sendo a idade de ferro, Shakespeare localizado na idade de ouro, e Dryden, Pope, Goldsmith, Collins e Gray na de prata, com Milton no limiar entre as duas. A decadente idade de bronze, então, seria representada pelos poetas românticos, de Wordsworth em diante, para os quais Peacock reserva julgamentos bastante severos. O curioso é que o próprio Peacock havia escrito poesia anteriormente – sendo autor de alguns poemas de destaque como The Genius of the Thames (1805) e Rhododaphne (1818) –, mas parece que, com o tempo, ele passou a se dedicar mais à prosa, e no romance Nightmare Abbey já havia aproveitado para satirizar alguns poetas contemporâneos como Coleridge, Byron e Shelley, de quem foi amigo próximo (Mary Shelley chamava o grupo formado por ele e Thomas Hogg pelo espirituoso trocadilho de “o zoológico do Shelley”) e que achou bastante graça na caracterização. Shelley achou menos graça, no entanto, no ensaio das quatro idades da poesia, que previa, após essa idade de bronze do romantismo, que a poesia viria a ser extinta, suplantada pelas outras formas de conhecimento, como a filosofia e a ciência. Isso levou Shelley, que era já dado a reações meio exageradas, a respondê-lo, de forma desproporcional, com Uma defesa da poesia, que se tornou muito famoso, apesar de publicado apenas postumamente, depois de todo mundo ter esquecido do texto de Peacock, e um texto clássico, mas pelos bons motivos.

Em todo caso, ler o ensaio de Peacock é uma experiência muito interessante, não tanto pela validade dos seus argumentos, alguns bastante ignorantes, por sinal – ainda que formulados de maneira que não deixa de suscitar um risinho maldoso –, mas pelo que eles anunciam sem que ele mesmo o soubesse (um tipo de ironia, portanto, no sentido clássico do termo), que é o que vem sido chamado de a “crise da poesia”, sobre a qual se constrói a poética da modernidade – vide o que diz, por exemplo, Marcos Siscar nos ensaios do seu recente Poesia e Crise. Peacock publica seu ensaio um ano antes do infame nascimento de Baudelaire (Ah! que n’ai-je mis bas tout un noeud de vipères, / Plutôt que de nourrir cette dérision!, etc…) e algumas décadas antes que o seu “Albatroz” ou “A perda do halo” viessem a ver a luz do dia. É certo que ele erra a previsão – a poesia não foi extinta, continua sendo produzida e lida, ainda que obviamente em desvantagem de mercado em relação a outros tipos de textos que se provaram mais vendáveis com o desenvolvimento do capitalismo e das novas formas de mecenato –, mas de fato a poesia tal como ele a conhecia estava em vias de deixar de existir para se tornar uma outra coisa. E nisso a declaração de que “um poeta em nossos tempos é um semibárbaro numa comunidade civilizada” acaba sendo, senão genial, pelo menos muito sagaz, ainda que pelos motivos errados – justo o tipo de coisa que um poeta moderno poderia tomar como grito de guerra.  “I too am not a bit tamed, I too am untranslatable, / I sound my barbaric yawp over the roofs of the world” declararia Whitman, jubilante, 35 anos depois em “Song of Myself”.

“As quatro idades da poesia” foi publicado, então, em tradução minha, na última edição da Revista Rónai, da UFJF (meus agradecimentos à equipe da revista pela oportunidade de divulgar o que acredito que seja um texto importante), e pode ser lido clicando aqui. Uma revista de estudos clássicos e tradutórios, a Rónai já publicou nas edições anteriores também traduções de autores como Virgílio, Juvenal, Lucrécio, Catulo e Horácio, além de artigos sobre tradução, e é uma leitura recomendada a todos que se interessam sobre o assunto.

Adriano Scandolara

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