poesia, tradução

Elise Cowen (1933 – 1962)

Elise-Cowen

Tem uma anedota famosa, registrada por Stephen Scobie em seu relato do tributo a Allen Ginsberg feito pelo Naropa Institute em julho de 1994, que conta o seguinte:

Uma mulher da plateia pergunta: “Por que tem tão poucas mulheres nesta mesa redonda? Por que tem tão poucas mulheres na programação da semana? Por que tinha tão poucas mulheres entre os escritores Beat?” e o [Gregory] Corso, ficando de repente completamente sério, se inclina para frente e diz: “Tinha mulheres sim, eu conheci elas, suas famílias puseram elas em hospícios, foram parar no eletrochoque. Nos anos 50, se você fosse homem, dava para ser rebelde, mas se fosse mulher, a família te interditava. Teve casos, pessoas que eu conheci, e alguém algum dia vai escrever sobre elas”.

A nova-iorquina Elise Nada Cowen (1933 – 1962) foi infelizmente um desses casos. De família judaica de classe média alta, ela frequentou o Barnard College no começo dos anos 50 (ao que parece, por vontade dos pais, que desejavam o mesmo grau de prestígio das outras famílias, brancas, da vizinhança), onde conheceu a também escritora Joyce Johnson (à época Joyce Glassman), que foi sua porta de entrada para o círculo social dos beats, junto de Leo Skir. Se não me engano (as informações são meio escassas), seria Joyce quem mais tarde apresentaria Elise ao mundo, em Minor Characters (1987), seu livro de memórias sobre Jack Kerouac, com quem ela teve um caso à época, e sobre a Geração Beat como um todo, mas com um enfoque, como o título sugere, nas figuras mais marginalizadas, como Cowen, Edie Parker e Diane Di Prima.

Allen_Ginsberg_e_Elise_CowenNa Barnard, Cowen se envolveu com um professor da faculdade antes de conhecer Allen Ginsberg (1926 – 1997), com quem teve um relacionamento marcado, ao que tudo indica, por uma verdadeira devoção ao poeta – e, como põe Megan Keeling, num artigo para a revista The Toast (clique aqui), ela acabaria sendo vista como “uma nota de rodapé na biografia do poeta”, o “experimento de Ginsberg com a heterossexualidade”. À época, porém, ela já era uma grande leitora de poesia, sobretudo de Emily Dickinson, T. S. Eliot, Ezra Pound e Dylan Thomas. Ginsberg a apresentou à literatura mística do budismo e do misticismo judaico, influências gritantes sobre a sua própria poesia (mas que é difícil dizer se chegaram a ter alguma influência mais profunda sobre Cowen, fora um ou outro poema da época como “Teacher – your body my Kabbalah”), e foi ela, inclusive, quem datilografou o seu famoso poema “Kaddish”. O relacionamento não durou muito tempo, no entanto, e logo Ginsberg viria a conhecer Peter Orlovsky, que o acompanharia até o final da vida. Elise então começou a namorar uma moça chamada Sheila (pseudônimo), e os dois casais chegaram a dividir um apartamento em 1956.

Quando Ginsberg foi para San Francisco, Elise voltou para a casa dos pais e arranjou um emprego como datilógrafa, mas acabou demitida e foi retirada do escritório com violência pela polícia quando se recusaram a lhe dar um motivo pela demissão. Depois desse episódio, ela foi para San Francisco também, onde passou sérias dificuldades, chegando a ter que fazer um aborto, seguido de histerectomia. Sua condição piorou, ela voltou para a casa dos pais mais uma vez, que quiseram interná-la no Bellevue Hospital. Não querendo ser internada, em fevereiro de 1962 ela se atirou de uma janela fechada do sétimo andar.

Após a morte de Elise, seus poemas, até então inéditos, foram queimados pelos vizinhos, como um “favor” à família, dada a temática “escandalosa” de morte, loucura, sexo e drogas da maioria da produção de Elise. Seu amigo próximo Leo Skir, porém, conseguiu resgatar alguns deles, que foram publicados em revistas literárias da década de 1960, mas só muito mais tarde viriam a ser reunidos e editados em livro, com a publicação de antologias e biografias como Women of the Beat Generation: Writers, Artists and Muses at the Heart of a Revolution, de Brenda Knight, e A Different Beat: Writings by Women of the Beat Generation, de Richard Peabody. O único volume de poemas exclusivamente dela, Elise Cowen: Poems and Fragments, editado por Tony Trigilio, reunindo todos esses poemas que foram resgatados, saiu no ano passado.

De um ponto de vista crítico, Cowen nos confronta com um problema sério, considerando que a maioria da sua obra foi destruída e ela não publicou nada em vida, se recusando até mesmo a mostrar os seus poemas a amigas próximas como Joyce (imaginemos, para exemplificar, a vergonha que a maioria dos poetas hoje passaria se publicassem os seus rascunhos). Em todo caso, temos vários poemas dela que se destacam, e os poemas abaixo, que traduzi há pouco tempo, são um exemplo disso. Infelizmente não tive acesso ao livro (do contrário, é certo que eu teria incluído um poema como o “Enough of this flabby cock”, cujo conteúdo além do título, listado neste sumário aqui, desconheço, mas que parece promissor), por isso a minha seleção acaba sendo duplamente limitada, já que se reduz aos poemas disponíveis online. Esses poemas que selecionei foram “The body is a humble thing” (que se também pode encontrar online com o nome e primeiro verso de “The lady is a humble thing”, mas preferi utilizar a versão que consta no livro), que demonstra uma visível influência dickinsoniana, os psicodélicos “The first eye” e “Dear God of the bent trees of Fifth Avenue”, onde algo aparece de alguma referência judaica, e “Must I move to get away from killing you”, parte de uma série maior, aparentemente, de poemas sobre baratas.

Adriano Scandolara

Feito de morte & água
O corpo é uma coisa humilde
A moda é usá-lo básico
E que a mente o delimite

The body is a humble thing
Made of death & water
The fashion is to dress it plain
And use the mind for border

O primeiro olho

O primeiro olho se abre com o calor do sol
         para olhá-lo fixo
O segundo olho se abre rasgado por um
         boticário & segurado com palitinhos,
         sistemas & palavras
         e gosta de piscar em espelhos
Só sei que pode haver outros porque
um deles dói quando penso demais

O primeiro olho é cego
não tem nenhum outro

The first eye

The first eye opens by the sun’s warmth
         to stare at it
The second eye is ripped open by an
         apothecary & propped with toothpicks,
         systems & words
         and likes to blink in mirrors
I only know there may be more because
         one hurts when I think too much

The first eye is blind
there is no other

Será que vou ter que fugir de você para não te matar
Me mudar para Sutton Place nos confins da mente
                           de volta às formigas de San Francisco
Para fugir de você?
Já sei
         Vou esfaimar um gato faminto
         E dar-lhe o nome de Darwin

Anjos
         Se eu rastejasse pra dentro da rachadura em sua parede
         Quatro patas destrambelhadas, burra demais pra falar
         O que fariam você & sua dinastia?
         Me matariam de cócegas sob seus pés indiferentes
         Me ensinariam a ser uma barata improvisada
         Viveriam de minha carne & usariam meus ossos de muros de barata

Baratas
         Preparem-se
Que estou chegando

Must I move to get away from killing you
And carry to Sutton Place in the back of my mind
                           back to San Francisco ants
To get away from you?
I know —
         I’ll starve a hungry cat
         And name it Darwin

Angels
         If I crawled into your crack in the wall
         Four clumsy appendages, too dumb to talk
         What would you & your dynasty do?
         Tickle me to death under your indifferent feet
         Teach me to be a makeshift cockroach
         Live off my flesh & use the bones for cockroach walls

Cockroaches
         Prepare
I’m coming in

Deus amado dos troncos tortos da Fifth Avenue
Despeja em tuas veias meu pó voluntário
Que eu golpeio teu mundo de barriga seca
Em louvor das pequenas agonias
Chupo os monstros marinhos da Terra do Fogo
Trepo com seu único sonho cobalto
Pra filtrar áureos prazeres
No teu céu entupido de maçãs
Filtrando o pecado incircunciso em meu peito.

Dear God of the bent trees of Fifth Avenue
Only pour my willful dust up your veins
And I’ll pound your belly-flat world
In praise of small agonies
Suck sea monsters off Tierra del Fuego
Fuck your only begotten cobalt dream
To filter golden pleasure
through your apple glutted heaven
Filter the uncircumcized sin of my heart.

(poemas de Elise Cowen, tradução de Adriano Scandolara)

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Um comentário sobre “Elise Cowen (1933 – 1962)

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