poesia

4 experiências extraordinárias de rodrigo garcia lopes

rodrigo garcia lopes 2

rodrigo garcia lopes (londrina, 1965) é poeta, compositor, jornalista & tradutor, que já postamos aqui. em sua obra, constam os livros de poemas, solarium, visibilia, polivox, nômada estúdio realidade; lançou no ano passado um romance policial, o trovador. é autor de dois CD’s (polivox & canções do estúdio realidade) & de uma antologia de entrevistas com diversos poetas (vozes e visões). publicou traduções do seafarer anônimo, de whitman, rimbaud, laura riding & outros. coedita, desde 2002, a revista coyote, que, a meu ver, é sem dúvida uma das mais importantes do país. seu site é http://www.rgarcialopes.wix.com/site.

no finzinho do ano passado saiu seu sexto livro de poemas, experiências extraordinárias, editora kan. seguem abaixo quatro poemas.

guilherme gontijo flores

g1_rodrigo_capa_1

* * *

Second life

Na foto os olhos jovens, a praia, a mente fresca:
o tempo inteiro numa tela.
Grandes expectativas.
Agora a voz mais muda, a cicatriz:
isto o jogo não capta. Instantes são falsas iscas
que nos iluminam quando mudam
de lugar, um céu se desdobrando,
origami branco e blue, uma toalha.
A velha fúria dos instantes em uma
pilha de nuvens-pratos no horizonte.
Os discos voadores deixaram
esta música desconhecida, desde ontem.
Em vez de ontem, um totem de eterno quando.
Cubos, pirâmides, esferas. No céu.
A areia neste antigo caderno.
Tanto se viveu, tanta coisa percebida:
no meio do caminho
até parece uma segunda vida.
Ilhas, residentes e avatares
mirando o mar como se meditassem.
As ondas paralelas dão a você as boas-vindas.
Não é humana, como a voragem.
Não é humana, por mais que elas contem
histórias de mimetismos, istmos, mistérios
e no fim se dissolvam superlentas: isso são espumas.
As dunas bizantinas, a névoa sutil lambendo a costa
e o mar atemporal sob um aguaceiro
desafiam a foto daquele instante, tirada neste mesmo lugar, na mesma duna.
Aquela é e não é: você.
Esta é a “vida real”.
“Estamos em assembleia permanente.”
Não se vê duas vezes a mesma paisagem.
Não se entra duas vezes na mesma mente.
Nossas horas acabaram, o aroma salino e forte penetra as narinas.

§

minha mulher
molha as mãos na bacia
lua de verão

§

Trilha Sonora

A cada palma de espaço
a alma ganha amplidão
E como num lento passo
aparente rumo ao nada
Apanha no ar uma canção
na música das palavras
Em cada naco de nuvem,
cada ritmo de frase ou rio,
Pausa, mistério, passagem,
toada, à toa, estrondo de onda,
Em cada grilo, grito de pássaro,
a paisagem se faz som.

§

Outro Outono

Uma nuvem fina fia o horizonte,
paira no rosa de seus últimos
instantes, praia de pensamento.

A fragata flutua no crepúsculo
sem motivo, sem canto nem sentido.
Afirma apenas: seguimos vivos.

As ilhas também não nos perguntam
nada. Nem nos acusam. O vento sul
há três dias está se consumindo, sendo
Só o que é, e não o que será.

Incline a cabeça em direção ao céu.
Confira este espaço, a nuvem fina
que já se foi, e a ideia da noite
ganhando volume e expectativa.

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s