poesia, tradução

Alaíde Foppa (1914 – ?1980), por Luciano R. Mendes

alaíde foppa

Alaíde Foppa foi poeta, crítica de arte, professora, tradutora & ativista feminista, nasceu 1914, em Barcelona, porém tinha ascendência guatemalteca por parte de mãe e argentina por parte de pai. Ela também viveu na Argentina e na Itália, antes de se radicar na Guatemala (onde teve um caso com o então presidente Juan José Arévalo, donde nasceu seu primeiro filho) e depois seguir para o México, ainda nos anos 1940. Passou boa parte de sua vida exilada no México, com sérios problemas com a política da Guatemala, no México também se casou com o guatemalteca Alfonso Solorzano,  teve mais dois filhos e escreveu a maior parte da sua obra. Foi nesse período que ela fundou a revista FEM. Publicou as poesias de: Las palabras y el tiempoLa sin ventura, Elogio de mi cuerpoLos dedos de mi manoAuque es de noche Guirnalda de primavera.

No dia 19 de dezembro de 1980, quando estava na Guatemala renovando seu visto, foi sequestrada & desapareceu sem deixar rastros. É provável que, pelas suas posições políticas, ela tenha sido assassinada a mando do governo do general Fernando Romeo Lucas Garcia, então presidente da Guatemala.

Agradecemos a Ricardo Domeneck, que nos apresentou esse ciclo impressionante de poemas & a Luciano R. Mendes, que de pronto o traduziu.

escamandro

Elogio ao meu corpo

1. Os olhos

Mínimos lagos tranquilos
onde tremula o fulgor
de minhas pupilas
e cabe todo
o esplendor do dia.
Espelhos límpidos
que acendem a alegria
das cores.
Janelas abertas
frente a lenta passagem
do tempo.
Lagos por lágrimas alimentados
e por naufrágios remotos.
Lagos noturnos adormecidos
habitados pelos sonhos
ainda brilhantes
sob as pálpebras fechadas.

2. As sobrancelhas

Asas curtas
estendidas sobre minhas pálpebras
apenas guardam
o escasso espaço
em que flutua
uma interrogação latente,
ao que assoma
assombro permanente.

3. O nariz

Quase um apéndice
na serena geometria
de meu rosto,
única reta
na gama de curvas suaves
o instrumento sutil
que me une ao ar.
Odores cândidos
aromas acres
fragrâncias densas
de flores e especiarias
– desde o anís até o jasmín-
inala trêmulo
meu nariz.

4. A boca

Entre lábio e lábio
quanta doçura guarda
minha boca aberta ao beijo
estojo em que os dentes
mordem frutos vívidos
bacia que se enche
de sucos intensos
de vinhos ágeis
de água fresca
onde a língua
leve serpente de delícias
ondula com brandura
e se aninha o milagre
da palavra.

5. As orelhas

Como duas folhas
de árvore alheia
nascem dos lados
da minha cabeça.
Pelo tronco escondido
desliza
a opulência
dos sons
me alcançam
as vozes vivas
que me chamam.

6. O cabelo

Doce serpentina de trepadeira
única vegetação
na terra terna de meu corpo
erva fina
que segue crescendo
sensível à primavera
sombria asa
contra minha têmpora
suave abrigo sobre a nuca.
Para minha nostalgia de ave
meu penacho de plumas.

7. As mãos

As mãos
débeis, incertas
parecem
objetos vãos
para o brilho dos anéis,
só as preenche
o que foi perdido,
se esticam para a árvore
que não alcançam
mas me dão a água
da manhã
e até o rosado
contorno das minhas unhas
chega o batimento.

8. Os pés

Já que não tenho asas
bastam-me
meus pés que dançam
e que não cessam
de correr pelo mundo.
Pelos campos floridos
correu meu pé ligeiro
deixou seu rastro
na areia úmida
buscou caminhos esquecidos,
trilhou as duras calçadas
das cidades
e sobe pelas escadas
que não sabe onde chegam.

9. Os seios

São duas plácidas colinas
que apenas
são dois frutos delicados
de pálidas enervações
foram duas taças cheias
providentes e nutritivas
em plena estação
e seguem alimentando
duas flores em botão.

10. A cintura

É a ponte vibrante
que reúne
duas metades diferentes,
é o caule flexível
que mantém
o torso erguido
inclina meu peito
cansado
e governa o macio
balanço dos quadris.
Agradecida
adorno minha cintura
com um laço de seda.

11. O sexo

Oculta rosa palpitante
no sulco escuro,
poço de estremecida alegria
que incendeia em um instante
o turvo curso de minha vida,
secreto, sempre inviolado,
ferida fecunda.

12. A pele

É tão frágil a trama
que um espinho a rompe,
tão vulnerável,
que o Sol a queima,
tão suscetível
que o frio a arrepia.
Mas também percebe,
minha pele fina,
a doce gama
das carícias
e meu corpo sem ela
seria nua ferida.

13. Os ossos

Louvo
a roupagem débil
a aparência
o semblante fugidio.
E quase que esqueço
a obediente armação
que me sustenta,
O engenhoso manequim,
o ágil esqueleto
que me carrega.

14. O coração

Dizem que é do tamanho
de meu punho fechado.
Pequeno, então,
mas basta
para por em movimento
tudo isso.
É um operário
que trabalha bem,
ainda que anseie descansar,
e é um prisioneiro
que espera vagamente
escapar.

15. As veias

A floração azulada
das veias
desenha labirintos
misteriosos
sob a cera de minha pele.
Suave hidrografia
apenas visível,
ágeis vias que levam
desejos e venenos
e íntimo alimento.

16. O sangue

Flui em segredo a corrente
de meu sangue veloz.
Imenso é o rio
que em subterrâneos meandros
amadurece
e alimenta o âmbito
de minha vida profunda.
A corrente cálida
que me inunda
na flor da ferida
se derrama.

17. O sonho

Em ninho tão suave
meu coração descansa,
não o assombram
os fantasmas perdidos
que assomam.
Passa por meu sonho
a calma onda
de meu hálito.
Em meio ao esquecimento
o tempo do amanhã
se prepara,
enquanto vivo
efêmera morte.

18. O fôlego

Não sei de onde vem
o vento que me leva,
o suspiro que me consola,
o ar que compassadamente
move meu peito
e alenta
meu voo invisível.
Eu sou apenas
a planta que estremece
com a brisa,
submisso instrumento
a flauta graciosa
que ressoa
com um sopro de vento.

(trad. Luciano R. Mendes)

Elogio de mi cuerpo

1. Los ojos

Mínimos lagos tranquilos 
donde tiembla la chispa 
de mis pupilas 
y cabe todo 
el esplendor del día. 
Límpidos espejos 
que enciende la alegría 
de los colores. 
Ventanas abiertas 
ante el lento paisaje 
del tiempo. 
Lagos de lágrimas nutridos 
y de remotos naufragios. 
Nocturnos lagos dormidos 
habitados por los sueños, 
aún fulgurantes 
bajo los párpados cerrados.

2. Las cejas

Las breves alas 
tendidas sobre mis párpados 
sólo abrigan 
el espacio escaso 
en el que flota 
una interrogación latente, 
al que asoma 
un permanente asombro.

3. La nariz

Casi un apéndice 
en la serena geometría 
de mi rostro, 
única recta 
en la gama de curvas suaves, 
el sutil instrumento 
que me une al aire. 
Cándidos olores 
acres aromas 
densas fragancias 
de flores y de especias 
-desde el anís hasta el jazmín- 
aspira trepidante 
mi nariz.

4. La boca

Entre labio y labio 
cuánta dulzura guarda 
mi boca abierta al beso, 
estuche en que los dientes 
muerden vívidos frutos, 
cuenca que se llena 
de jugos intensos 
de ágiles vinos 
de agua fresca, 
donde la lengua 
leve serpiente de delicias 
blandamente ondula, 
y se anida el milagro 
de la palabra.

5. Las orejas

Como dos hojas 
de un árbol ajeno 
nacen a los lados 
de mi cabeza. 
Por el tallo escondido 
se desliza 
la opulencia 
de los sonidos, 
me alcanzan 
las vivas voces 
que me llaman.

6. El pelo

Dulce enredadera serpentina, 
única vegetación 
en la tierra tierna de mi cuerpo, 
hierba fina 
que sigue creciendo 
sensible a la primavera, 
ala de sombra 
contra mi sien, 
leve abrigo sobre la nuca. 
Para mi nostalgia de ave 
mi penacho de plumas.

7. Las manos

Las manos 
débiles, inciertas, 
parecen 
vanos objetos 
para el brillo de los anillos, 
sólo las llena 
lo perdido, 
se tienden al árbol 
que no alcanzan, 
pero me dan el agua 
de la mañana, 
y hasta el rosado 
retoño de mis uñas 
llega el latido.

8. Los pies

Ya que no tengo alas, 
me bastan 
mis pies que danzan 
y que no acaban 
de recorrer el mundo. 
Por praderas en flor 
corrió mi pie ligero, 
dejó su huella 
en la húmeda arena, 
buscó perdidos senderos, 
holló las duras aceras 
de las ciudades 
y sube por escaleras 
que no sabe a donde llegan.

9. Los senos

Son dos plácidas colinas 
que apenas mece mi aliento, 
son dos frutos delicados 
de pálidas venaduras, 
fueron dos copas llenas 
próvidas y nutricias 
en la plena estación 
y siguen alimentando 
dos flores en botón.

10. La cintura

Es el puente cimbreante 
que reune 
dos mitades diferentes, 
es el tallo flexible 
que mantiene 
el torso erguido, 
inclina mi pecho 
rendido 
y gobierna el muelle 
oscilar de la cadera. 
Agradecida 
adorno mi cintura 
con un lazo de seda.

11. El sexo

Oculta rosa palpitante 
en el oscuro surco, 
pozo de estremecida alegría 
que incendia en un instante 
el turbio curso de mi vida, 
secreto siempre inviolado, 
fecunda herida.

12. La piel

Es tan frágil la trama 
que la rasga una espina, 
tan vulnerable 
que la quema el sol, 
tan susceptible 
que la eriza el frío. 
Pero también percibe 
mi piel delgada 
la dulce gama 
de las caricias, 
y mi cuerpo sin ella 
sería una llaga desnuda.

13. Los huesos

Alabo 
el tibio ropaje 
la apariencia 
el fugitivo semblante. 
Y casi olvido 
la obediente armazón 
que me sostiene, 
el maniquí ingenioso, 
el ágil esqueleto 
que me lleva.

14. El corazón

Dicen que es del tamaño 
de mi puño cerrado. 
Pequeño, entonces, 
pero basta 
para poner en marcha 
todo esto. 
Es un obrero 
que trabaja bien, 
aunque anhele el descanso, 
y es un prisionero 
que espera vagamente 
escaparse.

15. Las venas

La floración azulada 
de las venas 
dibuja laberintos 
misteriosos 
bajo la cera de mi piel. 
Tenue hidrografía 
apenas aparente, 
ágiles cauces que conducen 
deseos y venenos 
y entrañable alimento.

16. La sangre

Secreto corre el torrente 
de mi sangre rápida. 
Inmenso es el río 
que en subterráneos meandros 
madura 
y nutre el ámbito 
de mi vida profunda. 
La cálida corriente 
que me inunda 
en la flor de la herida 
se derrama.

17. El sueño

En tan blando nido 
mi corazón descansa, 
ni lo asombran 
los perdidos fantasmas 
que se asoman. 
Pasa por mi sueño 
la ola calma 
de mi respiro. 
En tanto olvido 
el tiempo de mañana 
se prepara, 
mientras estoy viviendo 
efímera muerte.

18. El aliento

No se de donde viene 
el viento que me lleva, 
el suspiro que me consuela, 
el aire que acompasadamente 
mueve mi pecho 
y alienta 
mi invisible vuelo. 
Yo soy apenas 
la planta que se estremece 
por la brisa, 
el sumiso instrumento, 
la grácil flauta 
que resuena 
por un soplo de viento.

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poesia, tradução

Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin (1799-1837)

Aleksandr Pushkin por Vasily Tropinin

Aleksandr Pushkin por Vasily Tropinin

Alexandr Serguêievitch Pushkin, ou também grafado Aleksandr Púchkin (1799 -1837), é daquelas figuras fundadoras de um povo pelo encontro da língua. é o poeta-romancista moderno, romântico, insano da rússia pré-futurista; foi a figura que conseguiu fazer o vernáculo russo entrar no escalão da literatura de elite, com um gosto pela sátira, a ironia &, por que não?, o sentimentalismo. &, como quase todo tipo de romântico insano & moderno, ele anda em baixa aos olhos dos leitores contemporâneos. aqui no escamandro, temos tentado revigorar esse olhar sobre poetas como goethe, heine, shelley, byron, keats, wordsworth, coleridge, victor hugo, &c.

Pushkin nasceu em Moscou, em 26 de maio de 1799, numa família abastada & com um pé bem posicionado na aristocracia russa, com ascendência materna que dava no czar Pedro, o Grande. Graças a isso, o jovem Alexandr foi estudar no estrangeiro, o que certamente afetou sua visão literária de modo irreversível: a literatura francesa já invadia a biblioteca de seu pai antes mesmo de seu nascimento, & sabemos que o garoto aprendeu a língua francesa ainda muito novo, já que a nobreza russa, no início do séc. XIX, costumava utilizar essa língua & reservar o russo para o contato com os servos da casa. Quando passou a estudar no Liceu imperial, Pushkin passou pela invasão napoleônica (aquele tremendo fracasso bélico!) sobre a Rússia, & também começou a dedicar-se mais ao verso, & é dessa fase que surgem poemas já notáveis como “A janela”, ou “Aspiração”, ambos de 1816 (o poeta tinha 17 anos), com o gosto óbvio pelo romantismo francês, mais sentimental & diluído do que o que encontramos entre os alemães & ingleses. Depois de se formar no Liceu, Pushkin passa a trabalhar como tradutor do francês no Departamento de Assuntos Estrangeiros, em Petersburgo, & a frequentar – com sucesso literário – os salões da nobreza, com essa poesia mais sentimental. No entanto, na mesma época, já surge a verve satírica & o peso da crítica social, que acabam criando uma indisposição do czar contra o jovem, que quase foi exilado na Sibéria. Resultado, partiu para o sul do país, Ekaterinoslav. É nesse período que começa, de fato, sua vida boêmia, no ambiente provinciano, o que também revelará uma influência grande da poesia de Byron em poemas como “Os ciganos” & “Os irmãos salteadores”. É também nesse período, a partir de 1823, que ele começa a escrever Евгений Онегин (Eugênio Oneguin ou Eugene Oneguin), que é considerada por muitos a sua obra mais importante & lhe tomaria cerca de 8 anos, para só ter sua primeira versão completa em 1833: aqui a fusão entre gosto sentimentalista, inversões byronianas e cuidado realista forjam um processo literário impressionante, numa escrita marcada pelo uso do soneto como estrofe. A grande artimanha narrativa do poema é a figura de um narrador irônico, capaz de longos devaneios & intervenções inesperadas (algo de do Tristam Shandy de Sterne com a condensação da poesia), de sugerir sua falta de onisciência ao mesmo tempo em que parece – por assumir a figura pública do próprio Pushkin — identificar-se com o herói Oneguin. Tal como seu herói, Pushkin também teve de ir para Odessa; lá, por ter tido um caso com a esposa do general-governador Vorontsov, acabou sendo novamente afastado tanto da cidade como do funcionalismo público, além de ser proibido de receber visitas; exilado em Mikháilovskoie, ele escreve a tragédia Bóris Godunov.

Em 1825 houve a famos sublevação dos dezembristas, que tentou em vão derrubar o czar; Pushkin, exilado, apoiava mas não participada do movimento; por isso, acabou sendo perdoado por Nicolau I, enquanto vários outros foram para a forca. Ainda nesse ano sai sua primeira grande antologia de poemas (Bóris Godunov demoraria mais cinco anos, por censura do czar), que teve sucesso imediato. Mas a vida do poeta continuou atribulada: no período subsequente ele faz poemas para os dezembristas,  viaja a Petrogrado, é inquirido pela polícia a respeito do poema “André Chenier” (que, apesar de ter trechos censurados, circulou em versão completa com o título de “Ao 14 de dezembro”, a data da sublevação fracassada), passa por Petersburgo, pede a mão de uma jovem em casamento (mão recusada pelo pai da moça, já que o poeta andava com problemas políticos recorrentes), volta a Moscou, escreve a epopeia Poltav, dentre várias outras coisas, ruma para o Cáucaso, Malínniki, Petersburgo, para enfim voltar a Moscou & pedir, com sucesso, a mão de Natália Gontcharova (ou Goncharova, a quem ele dedica o soneto “Madona” & com quem teve 4 filhos), em 1831, mesmo ano que que encerra seu Oneguin. Depois disso ainda vai escrever muito, como Novelas do finado Ivan Petróvitch Bélkin, ou a série das Cenas dramáticas. De volta a uma vida de corte, agora casado com uma mulher belíssima & cortejada, Pushkin então faz dívidas exorbitantes para manter um padrão de vida além de suas capacidade, além de pedir mais & mais empréstimos. Escreve A história da rebelião de Pugachov, que foi um fiasco entre os leitores, além de lhe render uma acusação de subversivo. Em seguida, por bater de frente com o czar (recusou um cargo oferecido exatamente para humilhá-lo), Pushkin quase foi novamente exilado, porém voltou atrás. Na falta de dinheiro, voltou sozinho para Mikháilovskoie & deixou Natália na corte. Na ausência do marido, o oficial francês George Dantès, então membro da guarda czarista, passou a tentar seduzir a jovem; ao saber que o caso era de conhecimento geral, Pushkin o desafiou para um duelo; esse primeiro duelo foi cancelado com o anúncio de que Dantès se casaria com uma irmã de Natália; porém o assédio continuou; Pushkin fez graves acusações; & dessa vez foi Dantès que o desafiou. Em 8 de fevereiro de 1837, tal como o poeta Lensky do seu Oneguin, Pushkin sofreu um tiro que lhe pegou no estômago, embora ainda tenha feito um disparo que atingiu seu adversário na mão, para então agonizar ao longo de dois dias. Como não poderia deixar de ser, seu funeral foi vigiado pela polícia, que receava algum tipo de insurreição vinculada às posições políticas de Pushkin; tudo foi feito com razoável sigilo; o enterro foi noturno; uma peça sua que estava em cartaz foi encerrada; apenas Turguiêniev pôde participar do ritual.

Para este post, escolhi dois trechos de Eugênio Oneguin: uma passagem do capítulo 5, com o sonho de Tatiana (também apelidada Tânia), que anuncia simbolicamente todo o horror do duelo entre amigos, que resultará na morte de Lensky pelas mãos de Oneguin no capítulo 6; outra do capítulo 8, em que vemos o herói depois de ler a recusa de Tatiana, quando depois de dois anos ele se apaixona por ela, agora já casada, até que ele decide sair para vê-la pessoalmente.

guilherme gontijo flores

ps: eis as duas traduções brasileiras que conheço para a poesia de Pushkin

PÚCHKIN, Aleksandr Sergueievitch. Poesias escolhidas. Organização e tradução de José Casado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

PUSHKIN, Alexandr. Eugênio Oneguin: romance em versos. tradução do russo para o português por Dário Moreira de Castro Alves. Moscou: Azbooka-Atticus, 2008.

* * *

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898.

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898.

Capítulo 5

XI

Tânia tem sonho atormentado.
Sonha que está a percorrer
Um campo frígido, nevado,
Que a escuridão vem envolver.
E na nevasca, logo à frente,
Em fúria aturde uma torrente
Túrbida, crespa, enegrecida,
Pelo inverno não contida;
Eis que dois paus, que o gelo prende
(Qual perigosa pontezinha),
Cruzam o rio que ao fundo vinha;
E ao ver o abismo que se estende,
Perplexidade a dominou,
E foi então que ela estacou.

XII

Como em separação sofrida,
Vem Tânia ao rio a murmurar:
Não vê uma só mão estendida
Que lhe auxilie a atravessar.
Em meio à neve algo mexeu,
E o que de novo apareceu?
Um urso, o pelo arrepiado;
Com medo Tânia solta um brado!
Urrando, a fera as garras tende.
Tânia tremeu mas dominou-se,
Contra o animal ela apoiou-se
E a passo trépido, se entende,
Que o ribeirão atravessou;
E agora? O urso a não largou.

XIII

Olhando só para diante
Estuga o tímido pisar;
Mas do peludo acompanhante
Não pode Tânia se esquivar;
Camba e já grunhe o bicho odioso.
O pinheiral silencioso,
De uma beleza tão sombria,
Deixa pender a ramaria
Que a neve fez ficar pesada;
Ao choupo, à bétula e à tília
Clareiam astros em vigília;
Sem rumo tudo é a derrocada
Ante o nevão que desabou
E muita coisa soterrou.

XIV

Ei-la no bosque, o urso ao lado;
Ao seu joelho a neve alcança;
Pelo pescoço entrelaçado,
Um galho longo que balança
De um golpe arranca-lhe um brinquinho;
Na neve o esplêndido pezinho
Perde o sapato lá metido;
Vendo o seu lenço ao chão caído,
Não quer pegá-lo, por temer
O grande urso que está perto,
Treme-lhe a mão, pudor de certo
Tem, pois, de a saia suspender;
Corre; o animal mantém o passo;
E ela então vence o cansaço.

XV

Na neve Tânia lá tombou;
Com jeito o urso a vai levar;
Inerte, dócil ela se achou,
Sem se mover nem respirar;
Com ela vai por um caminho;
Até que chega a um ranchozinho,
Em denso bosque inabitado,
Todo de neve acobertado,
Tendo à janela luz brilhante;
Dentro, conversa está em curso,
“É meu compadre” — diz o urso,
“Entra e aquece-te um instante!”
E porta adentro vai passando
E Tânia ao chão já vai deixando.

XVI

Tânia recobra; e procurando
Urso, não o vê; ouve do umbral
Gritos e copos tilintando
Como em grandioso funeral
Sem perceber o que escutou,
Por uma fresta ela enxergou,
Estranhos monstros lá sentados
Em torno à mesa e congraçados:
Tem chifre um, fuça de cão;
Crista de galo outros, porém;
Barba caprina uma bruxa tem;
Com cauda à vista eis um anão;
Cá, esqueleto sem ornato,
Lá, meio grou e meio gato.

XVII

Ainda mais tira o bom descanso:
Crustáceo aranha vê montar,
Crânio em pescoço nu dum ganso
Com rubro gorro voltas dar;
Moinho a vento que dançando
As velas faz tremer, guinchando;
Latidos, cantos, risos, chascos,
Humanos sons, bater de cascos![31]
Mas que haverá pensado ela
Quando entre o bando divisou
O homem que teme, e a quem amou —
Ele, o herói dessa novela!
Eugênio à mesa está sentado,
E a porta espreita disfarçado.

XVIII

E a sinal seu — tudo a agitar;
Se ele beber — já beberão;
Se ele sorrir — vão gargalhar;
Se franze o cenho — calarão;
La manda ele, com certeza;
Tânia, passada a sua surpresa,
E mais curiosa se sentindo
Um tanto a porta vai abrindo…
Soprava o vento e em instantes
Já os tocheiros se apagaram;
Então os monstros recuaram,
Eugênio, os olhos chamejantes,
Com estridor já faz que sai;
Todos de pé, e à porta vai.

XIX

Tânia tem medo; e prontamente
Tudo ela faz por escapar;
Mas sem poder, já impaciente
Ela se agita e quer gritar;
Não pode; Eugênio a porta abriu
E o olhar da malta recaiu
Sobre Tatiana; e ela escutou
Um feroz riso que atroou;
A ela, olhares se voltaram —
Cascos, e trombas recurvadas,
Línguas em sangue, mãos secadas,
Caudas e presas se mostraram,
E cornos; veem a mocinha
E forte gritam: “É minha! É minha!”

XX

“É minha!” — Irado, Eugênio brada,
E logo os monstros se sumiram;
Na noite escura e enregelada,
A sós os dois então se viram.
A Tânia, Oneguin gentilmente
Coloca em frágil banco à frente,[32]
Deixa a cabeça mergulhar
No ombro dela, a repousar.
Eis Olga entra num instante,
Lenski também; há um clarão,
Recua Eugênio e eleva a mão,
Com o fero olhar, um tanto errante,
Critica quem não esperava;
Quase a morrer Tatiana estava.

XXI

Na altercação que sucedeu,
Com faca Eugênio, num instante,
A Lenski pronto ele abateu;
No escuro, grito lancinante,
Tânia em terror já despertava…
O quarto dela claro estava;
Pela janela inda embaçada
Vê o carmesim da madrugada;
Abriu-se a porta. Olga assomou,
Leve andorinha era ela agora
Mais rósea que a boreal aurora;
A Tânia, Olga perguntou:
“Uma questão eu te proponho,
A quem tu viste no teu sonho?”

XII

Tânia, na irmã não atentando,
Fica na cama, livro à mão,
Folha após folha vai passando,
E nada diz, nem mesmo um não.
Embora o livro não mostrasse
Um só poema, o mais fugace,
Nem preleções de doce idílio,
Ou de Racine, ou de Virgílio,
Nem Byron, Sêneca ou Scott;
Nada de moda ou de gravura,
Presa ela estava à sua leitura:
Era isso, amigos, que se anote,
Martin Zadeck, mago caldeu,[33]
A interpretar o sonho seu.

§

Capítulo 8

XXXV

E assim ele releu, sem escolher,
Obras de Gibbon e Rousseau,
Manzoni, Herder, por prazer,
Leu Staël, Bichat, Tissot,
A Bayle, o cético, já leu,
A Fontenelle não temeu,
E a Chamfort; russos reviu
Certo é que nada ele excluiu —
Nem almanaques nem jornais
Onde sermões são repisados
Em que hoje estou entre os visados,
Mas vejo às vezes madrigais,
Feitos a mim, talvez certeiros,
E sempre bene, cavalheiros.

XXXVI

E eis que seus olhos então liam,
Mas longe iam os pensamentos;
No cavo d’alma revolviam
Sonhos desejos e tormentos.
Por entre as linhas lá riscadas
Sua alma via as não traçadas.
Mas era nestas tão-somente
Que se engolfava sua mente:
Eram arcanas tradições,
Espectros que a nada são ligados:
Medos, rumores, predições;
Ou banais lendas de novela,
Ou mesmo cartas de donzela.

XXXVII

E aos poucos cai em letargia,
Quer no sentir, quer no pensar,
No sonho então, do faro via
Cartas diversas, ao azar.
Vê sobre a neve já desfeita,
Um moço ao qual de longe espreita,
Deitado em abrigo adormecido,
E ouve uma voz “— Foi abatido!”
Ou vê rivais ora olvidados,
Caluniadores e poltrões,
Traidoras jovens aos montões,
Círculos que são despudorados,
Ou uma quinta, em que à janela
Se senta ela… e sempre ela!…

XXXVIII

E tanto disso se ocupou,
Que quase perde a sua mente,
Ou quase poeta se tornou
(Seria uma bênção, francamente!).
Mas em verdade: o magnetismo
Do verso russo — o mecanismo
Inda não tinha em sua mão
O meu aluno um falastrão.
Como ao poeta semelhava
Quando, num canto se encolhia,
Frente à lareira que fulgia,
A Benedetta trauteava
Ou Idol mio, deitando nela
Ora revista, ora chinela.

XXXIX

Os dias vão. Com a tepidez
Do ar, o inverno está por pouco;
Poeta, Eugênio não se fez
E não morreu, não ficou louco.
Na primavera se animou;
Dos aposentos que lacrou,
Onde hibernou como marmota,
Sai ele agora em alva rota,
Com seu trenó vai deslizando
Pelo Neva, por vez primeira.
Brincando ao sol, no gelo à beira,
Blocos azuis vai escavando.
Nas ruas sulcos sobre a neve;
Mas para onde, em passo breve

XL

Avança Oneguin?

§

Notas do Autor

[31] Comentaristas condenaram as palavras blop (chascos), molv (sons) e top (bater) como neologismos indiferentes. Essas palavras são fundamentalmente russas. “Bova saiu da tenda para apanhar algum ar fresco e ouviu em campo aberto os sons do homem e o bater do corcel” (O conto de Bova, o príncipe). Hlop é usado na fala simples do povo em vez de blópanie (batição), como ship no lugar de shipénie (chiar):
Ele emitiu um chiado como um silvo de uma cobra
(Antigos poemas russos)
Não se deve interferir com a liberdade da nossa rica e bela língua.
[32] Um dos nossos críticos, assim parece, encontra nessas linhas uma indecência incompreensível a nós.
[33] Livros divinatórios em nosso país saem com a impressão de Martin Zadeck — uma pessoa de valor que nunca escreveu livros divinatórios, como observa B. M. Fiodorov.

(trad. de Dário Moreira de Castro Alves)

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poesia

“A coroa de João”, de Leonardo Antunes

11088274_10152855063457861_4761602841431150782_n C. Leonardo B. Antunes (Sâo Paulo, 1983) trabalha como professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. É poeta, tradutor e crítico. Fez sua formação acadêmica (bacharelado, mestrado e doutorado) na USP. Publicou, em 2011, o livro Ritmo e Sonoridade na Poesia Grega Antiga: Uma tradução comentada de 23 poemas, fruto de seu mestrado, em que fez reconstruções rítmicas da lírica grega. Tem se dedicado à tradução integral de Anacreonte, das Anacreônticas e dos Hinos Homéricos. Suas traduções (e criações próprias) podem ser vistas em seu blog e ouvidas em seu canal do youtube nas versões musicadas.

* * *

A coroa de João

Ninguém soube o motivo ou a razão
No dia em que João chegou cansado,
Depois de um turno duplo e um baseado,
Trazendo um trinta-e-oito em sua mão.

Não era o que esperassem de João,
Um moço sempre tão bem-comportado,
Avesso aos maus costumes e ao pecado,
Assim como se espera de um cristão.

Entrando em casa, foi de sala em sala,
A fim de despedir-se dos parentes –
Da mãe, da avó e da irmã recém-nascida.

Então, depois dos beijos, veio a bala:
Cravou-a à própria testa, penitente,
João com seu revólver suicida.

§

I

Ninguém soube o motivo ou a razão:
Por mais que investigassem sua vida,
Nenhuma das pessoas envolvidas
Sabia o que ocorrera com João.

Os jornais transmitiram a questão –
Por noite e dia, muito foi ouvida.
A gente toda, toda entristecida,
Lamentava o destino de João.

Existe alguma coisa que se abala,
Alguma coisa fundamentalmente
Humana posta à luz num desgraçado,

Que grita mesmo quando a boca cala.
Nenhum silêncio assim se fez presente
No dia em que João chegou cansado.

§

II

No dia em que João chegou cansado,
Segundo consta em laudo oficial,
Não lhe notaram nada especial
Exceto porventura ter fumado

E segurar na mão, já carregado,
O trinta-e-oito que ele, por final,
Disparou contra o lobo temporal
Às dez horas, conforme registrado.

A análise post-mortem simplesmente
Confirmou a suspeita da família
De tudo estar correto, nada errado,

Com o jovem João de Sá Clemente,
Que aos vinte e dois findou sua vigília
Depois de um turno duplo e um baseado.

§

III

Depois de um turno duplo e um baseado,
João chegou em casa do serviço
Mais tarde que o normal, pois antes disso
O jovem nunca tinha se atrasado.

Às vezes, na iminência de um feriado,
Voltava, sim, mais tarde, mas por isso
A todos avisava, que de omisso
João não poderia ser culpado.

Porém, o que chocou a todos mais
Do que esse atraso fora da rotina,
Foi ver chegar em casa o bom João

Drogado, tropeçando nas vogais,
Mas pleno de certeza e de endorfina,
Trazendo um trinta-e-oito em sua mão.

§

IV

Trazendo um trinta-e-oito em sua mão,
Desde a boca em que foi para comprá-lo,
João foi caminhando com regalo,
Oculto pela imensa solidão.

À noite, ali, naquela escuridão,
Era impossível de outro alguém notá-lo
Senão pela fumaça que, num halo,
Marcava a apoteose de João.

Que se sentisse quase sobre-humano
Apenas por saber-se inteiramente
Humano em seu destino ao rés do chão,

Que quisesse voar sobre o oceano,
Viver, amar, gritar como um demente,
Não era o que esperassem de João.

§

V

Não era o que esperassem de João,
Que sempre fora calmo e benfazejo,
Sem nunca demonstrar algum lampejo
De gênio destrutivo ou de paixão.

Em tudo era tão tímido que não
Lhe vinha voz exceto num gaguejo
Apesar das promessas e desejos
Da mãe devota a São Sebastião.

Por isso e pelo tanto que se havia,
Durante a vida toda do menino,
Lhe dispensado todos os cuidados,

A todos era inclaro o que teria
Levado a cometer tal desatino
Um moço sempre tão bem-comportado.

§

VI

Um moço sempre tão bem-comportado
Faria o que João se havia feito?
Que falta de temor ou de respeito
A Deus motivaria tal pecado?

Os líderes da igreja, consternados,
Apontavam inúmeros preceitos
Segundo os quais não há nenhum direito
De um homem se furtar ao tempo dado.

À luz da sacrossanta liturgia,
Alguém que se mostrasse tão descrente
Devia ser chorado ou condenado?

Assim se questionava noite e dia:
“João havia sido realmente
Avesso aos maus costumes e ao pecado?”

§

VII

Avesso aos maus costumes e ao pecado,
O povo se ocupava, com intento,
De definir um fim ao julgamento
De quem morrera sem se ter julgado.

Havia os mais modestos, por um lado,
Que criam no mais nobre fundamento
De serem todos, desde o nascimento,
Em tudo que falharem, perdoados.

Outros, mais moderados, sustentavam
Que falha involuntária se difere
Daquilo que em que falhara o vil João.

Por fim, havia os que se limitavam
A repetir tementes “miserere”,
Assim como se espera de um cristão.

§

VIII

Assim como se espera de um cristão,
João teve a memória de seus atos
Julgada no concílio dos beatos,
Que iria averiguar-lhe a salvação.

Por sete dias, dentro do salão,
Foi sopesado fato sobre fato,
Mas igualaram-se, por fim, os pratos
Na balança dos feitos de João.

Sem outra alternativa, o Vaticano,
Enviou, após múltiplos atrasos,
Um emissário idoso, de bengala,

A fim de investigar o crime arcano.
Determinado a resolver o caso,
Entrando em casa, foi de sala em sala.

§

IX

Entrando em casa, foi de sala em sala
O augusto inquiridor beneditino,
Analisando os passos do assassino,
Que recriava ao toque da bengala.

Depois, principiou, com branda fala,
Porém sonora e clara como um sino,
A interrogar acerca do menino
Com notas que trouxera em sua mala.

Desejava saber com precisão
Que tipo de pessoa João era,
Se tinha algum amigo ou confidente,

Se trazia Jesus no coração,
E o que naquele dia então dissera
A fim de despedir-se dos parentes.

§

X

“A fim de despedir-se dos parentes”,
A mãe lhe respondeu, amargurada,
“João, naquela noite malfadada,
Disse que nos amava eternamente.

Falou-nos isso e isso tão somente.
Em seu olhar, contudo, eu vi, marcada,
Alguma dor secreta, de que nada
Havia percebido anteriormente.

Depois, beijou-me a testa com ternura,
Da avó também, também da irmã pequena,
E súbito privou-se então da vida –

Horrífica visão! Pior tortura!
Assim agiu e assim falou, sem pena
Da mãe, da avó e da irmã recém-nascida.”

§

XI

“Da mãe, da avó e da irmã recém-nascida,
João se despediu tal qual te expus.
Quão caro lhe era ao coração Jesus
Irei contar-te às claras em seguida.

Peregrinava para Aparecida
Desde pequeno e para Santa Cruz
Dos Milagres, que enfim fizesse jus
De receber a dádiva pedida.

Assim eu lhe ensinei e assim fazia
Com súplicas sinceras para Deus
Firmar-lhe a boca e endireitar-lhe a fala.

Mesmo no dia em que se mataria,
Beijou-nos sob a cruz os beijos seus.
Então, depois dos beijos, veio a bala.”

§

XII

“Então, depois dos beijos, veio a bala:
Inútil descrever-te tal castigo,
Mas, como perguntaste dos amigos
De João, não irei negar-te a fala

Ainda que vivesse ele a negá-la –
Por gaguejar ao mínimo perigo,
João passava o tempo só consigo,
Como um potro que à torto se encurrala.

Não tinha amigos minha pobre cria.
Ninguém lhe ouvia os torpes pensamentos,
Que a si guardava e para si somente.”

Chorando sobre uma fotografia
Do filho, após o seu depoimento,
Cravou-a à própria testa, penitente.

§

XIII

Cravou-a à própria testa, penitente,
Qual coroa de mêmores espinhos,
Lembrando de seu filho, tão sozinho,
A mãe, que prosseguiu depois, gemente:

“Se queres, por final, ficar ciente
De que caráter tinha o meu filhinho,
Anota que acordava bem cedinho
A fim de trabalhar zelosamente

Seis dias por semana em dois trabalhos,
Que trabalhando um homem se agracia.
Com a carteira às vezes assinada,

Limpava pias, vasos e assoalhos
Até chegar em casa aquele dia
João com seu revólver suicida.”

§

XIV

João com seu revólver suicida,
Ao término do inquérito papal,
Julgou-se um homem santo, sem igual,
Por ter se dedicado em sua vida –

Tão curta, tão tristonha e tão sofrida –
A Deus e aos seus, renunciando o mal,
E tendo perecido por final
Perante a cruz do lar, envelhecida.

Tornou-se assim um símbolo de tudo
Que em vida lhe configurara a morte,
Ainda que morresse por opção.

De seu inesperado fim, contudo,
Por mais que lhe julgassem sua sorte,
Ninguém soube o motivo ou a razão.

§§§

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poesia

um poema inédito de Ernesto von Artixzffski

ernesto-von-artixzffski

O Ernesto teve seu début aqui no escamandro há pouco mais de um ano (clique aqui) com alguns poemas próprios, e desde então com frequência tem contribuído com traduções de poetas como René Depestre, Roque Dalton, Salvatore Quasimodo e Ungaretti, enquanto desenvolve um projeto, mais a longo prazo, de traduzir o francês Paul Valéry. Deu as caras também em revistas como Mallarmargens, Germina Literatura e Enfermaria 6 (tanto em edição online, quanto impressa). Abaixo segue um poema inédito:

*

                                    why you wanna fly Blackbird?
                                    you ain’t ever gonna fly
                                    Nina Simone

por uma brecha brilha a agonia:
às carnes aradas atado o mundo
de espalhados pastos sem espaços

por uma brecha brilha a agonia:
à noite se bebe se bebe a terra
pelos sulcos escorrem assovios

por uma brecha brilha a agonia:
covas se cavam às cobras sem uso
por uma brecha brilha a agonia

toda dança seu ritmo mantém
no breu dos bosques esconsos
toda dança seu ritmo mantém

e a agonia brilha pela brecha:
se digna opacando-se escurece
por uma brecha brilha a agonia

por uma brecha brilha a agonia:
à noite se come se come a terra
para estralos ouvir o fim da fome:

onde terão curtos bichos sossego
onde será segura a curta vida
onde se deita com folga se deita

por uma brecha brilha a agonia:
tão pequena à noite à terra acolhida
se brinca com ferro com bronze brinca

por uma brecha brilha a agonia:
e num ciclo curto e quase inotável
em calma e clara forma se apresenta

o detalhado desastre da dor
no irreversível instante entreaberto
da natureza mítica das coisas

por uma brecha brilha a agonia:
por uma brecha brilha a agonia

*

O “por uma brecha brilha a agonia” é um poema de seu livro-em-progresso chamado ratzara. O título estranho se explica pela citação do escritor ucraniano Shmuel Yosef “Shai” Agnon (1888 – 1970) escolhida como uma das epígrafes que abre o volume, sobre anagramas em hebraico, retirada de seu livro Até Agora: “Depois peguei as palavras prazer (oneg), abundância (shefa), beleza (shefer) e desejo (ratza), que trocando as letras ficam praga (nega), lodo (refesh), dejeto (feresh), crime (fesha) e aflição (tzara)”. Vale lembrar que esse tipo de anagrama só é possível porque o álef-bet hebraico, sendo algo como um meio de caminho entre um silabário e um alfabeto dito real, não marca as vogais (exceto no texto bíblico massorético, que o faz por meio de diacríticos chamados niqud), o que permite que oneg (ענג) se torne nega (נגע) com um simples deslocamento da letra ayin. Esse tipo de método é comum na produção literária judaica desde a antiguidade (como mostra a Jewish Encyclopedia, há vários exemplos na própria Bíblia), mas foi intensificado a partir do desenvolvimento da Cabala durante o período medieval, muitas vezes como parte de um esforço por uma busca pelo sentido “real” que haveria por trás dos nomes. O neologismo ratzara criado pelo poeta seria uma mescla de desejo (רצה) e aflição (צרה), portanto.

Tendo tido a chance de acompanhar o desenvolvimento do volume e da dicção do Ernesto, posso dizer algumas coisas sobre as mudanças pelas quais passou sua voz poética desde que ele começou a publicar, mudanças observáveis tanto neste poema quanto nos publicados mais recentemente na Enfermaria 6 – e que, salvo alguma mudança brusca sobre seu projeto, prevê-se que devam continuar até que o livro veja a luz do dia. A primeira é que um certo subjetivismo, uma presença do eu que se via de forma mais explícita nos primeiros poemas, vem dando lugar a uma observação do mundo onde essa figura do eu-lírico como observador parece se fundir ao pano de fundo das cenas observadas. Ao mesmo tempo, a dicção mais fluida desses primeiros poemas (como “Sobre minha casa arde a chama da possibilidade” e “dentro de cada máquina”, publicados aqui no escamandro) agora tende a aparecer quebrada, obstruída em versos fragmentários, com construções inusitadas (“se digna opacando-se”, “para estralos ouvir o fim da fome”) e onde as imagens, apesar de ser uma poesia ainda bastante fanopeica com foco na estranheza, emergem enviesadas (contraste um verso como “covas se cavam às cobras sem uso” com o mais direto “dentro de cada máquina, há o choro das lâminas”) – o que aponta para um deslocamento das influências, do surrealismo à moda francesa para figuras como Ungaretti, que ele traduziu, e Paul Celan, que aparece citado de maneira levemente velada.

O tema do poema é a agonia, como fica claro pela repetição do verso de abertura – mas não no sentido lato, só de “dor” ou “sofrimento”, mas etimológico, do ágon grego, a vida como luta, o que imagino que abriria uma brecha para uma possível interpretação do poema pelo viés nietzschiano da vontade de poder e tudo o mais. No entanto, essa luta agônica emerge a partir de um universo de referências que, entre Agnon e Celan, é claramente filossemítico. Não por acaso, o poema, composto em pseudo-terça-rima à moda de Drummond (outra imensa influência sobre Ernesto), tem 32 versos, número literalmente cabalístico, que é resultado da soma das 22 letras do alfabeto com as 10 emanações do divino chamadas sefirót, como diz o Sefer Yetzirá, um dos livros fundamentais da tradição do misticismo judaico. Talvez seja superinterpretação da minha parte, mas, como o verso inicial se repete 10 vezes, é possível enxergar em cada repetição a passagem de uma séfira para outra – não de cima para baixo (Kéter para Malkut), porém, como é a ordem da criação, mas de baixo para cima, a partir das “carnes aradas atado o mundo” (Malkut, significando “reino”, é considerada a séfira mais próxima do mundo material) rumo à revelação da “natureza mítica das coisas” – sendo a própria Cabala precisamente isso, como afirma Scholem, o enquadramento da experiência histórica dos judeus, na forma de um drama cósmico (de novo, o ágon), dentro de sua concepção de mundo. Nesse sentido, a epígrafe do poema acaba sendo irônica: toda a ideia do misticismo se baseia sobre uma noção de possibilidade de transcendência. No entanto, a frase de Nina Simone, da música “Blackbird”, aqui ressignificada pelo contexto, acaba negando isso antes mesmo de o poema começar: why you wanna fly Blackbird? you ain’t ever gonna fly.

(comentário de Adriano Scandolara, poema de Ernesto von Artixzffski)

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poesia, tradução

momtchílo nastassíevitch (1894-1938)

MomciloNastasijevic1a

momtchílo nastassíevitch (no original, Момчило Настасијевић, nascido em gornji milanovac, 1894 – morto em belgrado, 1938), foi um importante poeta, ensaísta, dramaturgo & contista de vanguarda sérvio. trabalhou a vida inteira como professor de de francês no ensino médio, na cidade de belgrado; mas também se dedicou à música como amador. apesar da sua importância, hoje, sobretudo pela influência na obra de vasko popa, nastássievitch permaneceu isolado, sem reconhecimento público para além de um pequeno grupo de admiradores; como aidna por cima viveu pouco, publicou apenas três obras em vida, & foi só apenas após a sua morte que o baú foi aberto.

segundo aleksandar javanovic, “Montchílo é autor de uma obra única, uma espécie de não-língua, minimalista, ainda não valorizada à altura pela crítica”. o que se pode notar nos poemas abaixo é uma concisão aliada a uma imagética inusitada, uma espécie de uso muito apropriativo da linguagem comum, que parece recrudescer ao silêncio, algo que também pode apontar para o hermetismo italiano, bem como para a poesia de paul celan, contemporâneo de vasko popa.

só encontrei dois poemas traduzidos para a língua portuguesa: “mágoa de pedra”, em tradução poética de aleksandar jovanović, presente na coletânea céu vazio: 63 poetas eslavos, que saiu nos anos 90 pela editora hucitec; e “enterro”, em trad. de josé alberto de oliveira, que encontrei num blog. assim, me aventurei a traduzir mais dois poemas: “ideia”, a partir de uma tradução francesa, e “pedinte, a partir do inglês.

peço encarecidamente aos falantes de sérvio que vertam mais dessa figura impressionante para o português. nós merecemos.

guilherme gontijo flores

* * *

Mágoa em pedra

1

Nem verbo, nem verso, nem ruído
narram minha mágoa;

e arco-íris fátuo
céu e terra
o arco ata e ata.

2

Parto e a fortuna
fundo me arraiga.

E grito
e no peito feito faca
um grito se finca.

3

Aqui com sangue aqui
com a mãe em volta.

Desperto auroras
e no triste entardecer
sumo além-serras.

4

Da matéria mudo
triste amigo emerge.

E triste ave pia
e o bosque verdeja.

5

E machado irado
carvalho corta;

e lobo ao cordeiro — ossos que o dente mói;
mudo é tudo mudo
amigo fiel da mágoa.

6

Liberdade ao escravo — fujo longe
e mais fundo aqui.

E bênção ao túmulo
ao berço e maldição —
dívida prorrogada.

7

Tudo chama —
e fico.

Raiz na pedra,
tranco o arco da mágoa.

8

Ao sofredor de coração manso
o estrondo da aurora soa estranho.

no próprio ombro,
seu vulto luzido fixa.

9

Nem verbo, nem verso, nem ruído
narram minha mágoa;

e arco-íris fátuo
céu e terra
o arco ata e ata.

Туга у камену

1

Ни реч, ни стих, ни звук
тугу моју не каза;

А дуге свеудиљ неке
небо и земљу
спаја и спаја лук.

2

И кренем, и родна коб
све дубље ме корени.

И крикнем,
и у срце као нож рођени зарије се крик.

3

И крвљу ту па ту
матером у круг.

А свићем са зорама,
а с вечери сетно
нестаје ме за горама.

4

И немо из твари тугом
објави се друг.

И тугом зацвркуће тица
и зазелени луг.

5

И секира кад љуто
засече дуб;

и јагњету вук, – кости кад млави зуб;
немо све свему тугом
верни остане друг.

6

Слобода робу, – одбегнем далеко,
а све дубље ту.

И благослов што гробу
колевци проклетство неко, –
одужити дуг.

7

Све зове, –
остајем.

Кореном у камену
тузи затварам круг.

8

Патнику из тиха срца
то чудно пукне зоре цик.

И чудно,
на рамену себи,
светли свој сагледа лик.

9

Ни реч, ни стих, ни звук
тугу моју не каза.

А дуге свеудиљ неке
небо и земљу
спаја и спаја лук.

(trad. de aleksandar jovanović)

§

Enterro

1.

O toque é para ele:
deitado num caixão –
com a cara amarela.

Os seus companheiros da tropa –
a roupa rude que vestem,
e os dedos tamborilam.

E o céu azul –
e as sombras
tornam a estrada bela.

2.

Enterraram-no com decoro.
Pregaram uma cruz de madeira,
depois um nome: Subotic Stano,
escrito legivelmente

para que a mãe ou a esposa
o possam encontrar
e quem quer que o ame.

3.

O toque é para ele:
deitado num caixão –
com a cara amarela.

E o céu azul –
e as sombras
tornam a estrada bela.

ПогреБ

1

Зàпева му труба,
у ковчегу опружен он,
и жут.

И другара војника
чохом по кожи рука груба
добује лагано.

А небо плаво,
и сенке шарају пут.

2

И погребли га ваљано:
Крстачу поболи,
па име, Суботић Станко,
читко по њој—

мајка да га нађе
или љуба,
или ко га воли.

3

Зàпева му труба.
у ковчегу опружен он,
и жут.

А небо плаво,
и сенке шарају пут.

(Tradução de José Alberto Oliveira)

Ideia

1

Silente, estranhamente,
súbito deslumbra, —
e alada me busca, ela.

Auroras nonatas
que o galo me canta;
o fundo do mar arcaico
escuto o sino que interpela.

2

Alegre-se,
o que você atrela
vive mundano.

E a alma
ainda gela;

e o vazio
que costura os dias, —
quem te visita é ela.

3

E por milagre
me deslindo em matas
a endireitar veredas.

E lágrima de alegria
me orvalha a sobrancelha.

4

E pela terra estéril, súbito,
sinto a lufada de abril.

Nesta solidão
não vou sozinho.

Em meio a meus refúgios sei
seus passos mil.

5

E inquietação,
ao fim tudo se anima.

Com o abismo, com a fonte,
água sagrada.

E voa de peito a peito
aliviada.
6

A teia e a aranha
que sinistra a tece
velam pela seda.

E na alma,
luz em seu voo,
cresce uma asa leda.

7

Silente, estranhamente,
súbito deslumbra, —
e alada me busca, ela.

Auroras nonatas
o galo me canta;
o fundo do mar arcaico
escuto o sino que interpela.

Мисао

1

Tишином чудно
све ми засветли —
крилата походи ме она.

Нерођених зора
запоју ми петли;
са дна искон-мора
потонула, чујем, брује звона.

2

Радуј се,
свему си спона,
покоји у теби сви живе.

И душа
тузи што склона;
и празнином што
дани засиве —
у походе то спрема ти се она.

3

И чудом,
у непроход ме сплету,

путање исправе се криве;
и радосница суза
ороси ме кам.

4

И кроз голет ме, у маху,
дах заструји априла.

У самоћи то
не остадох сам:
тајно је кроз потаје моје, знам,
нога њена била.

5

И неспокоји
у покој сви оживе.

Са бездан са извора
потеку воде свете.
Благе од срца срцу
вести полете.

6

Мрежи то, и пауку,
злослуто што је плете,
приснива се свила.

Души то,
светли за лет,
тајно израстају крила.

7

Тишином чудно

све ми засветли —
крилата походи ме она.

Нерођених зора
запоју ми петли;
са дна искон-мора
потонула, чујем, брује звона.

(trad. guilherme gontijo flores, com consulta da versão francesa de jean-marc bordier)

§

Pedinte

É recuperação,
que empesta a noite.
Terra meu corpo,
caminha.
O horror assola
umbrais de deus onde ficaram.

Muito te afligi, mãe,
pela recuperação tranquila.
Ah, é pouco
para dor do teu ventre.

Assim, pedinte
sem filhos gerados
neste horror primevo,
quando caminha.

Pois não há luz
ao brilho da pupila.
nem canto de consol,
o horror inato que não venço é a peste.

Me oferecem doença, mãe,
pra cada sussurro de Deus,
meu presente pra eles,
eu, pedinte, cantante.

Божјак

Пребол је.
Кужи ова ноћ.
Земља ми тело.
Ходи он.
Залапи гроза
на стопе Богу где остале.

Много те, мајко, болело
рад ово тиха пребола.
О, мало ли је
за муку твоје утробе.

То божјак
да не родим сина
у овој грози од искони,
кад ходи он.

Јер нема зоре,
на зенице ил не заплави,
ни блага поја не,
радну ли ову грозу не прекужим.

Обол ми пруже, мајко,
по дрхтај Бога
ја њима на дар,
божјак ја распевани.

(trad. guilherme gontijo flores, a partir da versão inglesa de edward goy)

 

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poesia, tradução

dois poemas de william blake, por matheus mavericco

blake_01

A primeira vez que tive contato com “Auguries of Innocence” foi lendo o prefácio de Otto Maria Carpeaux para o notável Apresentação da Poesia Brasileira, de Manuel Bandeira. Lá, Carpeaux comenta o fato de que Bandeira, por uma questão de humildade simples, não havia incluso a si mesmo, no que o mestre austríaco buscara tentar mitigar o mal. Pois é em certo momento que Carpeaux diz que os versos iniciais do “Auguries of Innocence” poderiam servir como descrição da poesia de Bandeira como um todo, o que me intrigou na época pela misteriosa beleza dos versos e hoje me intriga pela leitura, pelo menos a princípio me pareceu, parcial de Carpeaux.

Seria assim mesmo? Vejamos. “Auguries of Innocence” pode ser lido como uma espécie de fusão das canções da inocência e as canções da experiência, só que num todo poético que consegue manter uma altíssima voltagem por um tempo notadamente prolongado. Poucos poemas, creio, conseguem o feito de Blake… (Penso, por exemplo, no “Howl” de Ginsberg.) Só que o choque é constante, e se na fenda criada pelo paralelo entre o Cordeiro e o Tygre tínhamos um livro que literalmente os apartava, é comum que em “Auguries” tenhamos não só a fusão, como o contato entre uma esfera e outra quase que de maneira concomitante. Pense-se, a esse respeito, nos versos em que Blake nos diz que o Cordeiro é capaz de gerar a discórdia entre as pessoas e, ao mesmo tempo, a misericórdia para com a faca do açougueiro (em minha tradução, esta faca literalmente desapareceu). Ou então quando diz que o bebê que teme o castigo escreve o nome da morte nos reinos da morte. O “Auguries”, é, basicamente, um poema escrito de maneira aforismática que reúne paradoxos acerca da inocência, como que pra provar que, se não nos encasularmos nessa mesma inocência, nós vamos perder o siso. O mundo é brutal demais. O choque entre as duas esferas antitéticas que Blake havia delineado em suas canções gera esse clima surreal e impactante que o poema apresenta.
Mas onde entraria Bandeira?
Difícil dizer. Se seguirmos a lógica do prolongamento da tensão poética, me parece que só “Vou-me embora pra Pasárgada” apresentaria algo parelho, em especial pelo recurso às enumerações, às espécies de tiras poéticas convivendo juntas, fazendo com que a máxima de Edgar Allan Poe, de que um poema longo é uma contradição de termos, visto existirem apenas poemas curtos como que colados num todo maior, se valide graças ao fato de que temos poemas pequeninos dentro de uma estrutura maior. Mas ainda assim, reconheço, estaria forçando a barra. Bandeira não apresenta nem de longe a intrincada teia simbólica de Blake. Muito mais direto no trato poético, ou então muito mais esfumaçado em suas fases primeiras, o universo poético de Bandeira ou é o do Amor como chama e depois fumaça, ou então o daquela lúgubre maçã meio murcha num hotel. O máximo de simbólico que pode ser rastreado estaria num poema como “Aerisphinx”, que, de resto, acaba aparecendo como um algo à parte na obra, sem aquela pertença e posicionamento num universo simbólico.
Mas aqui eis que me lembro dos versos de “Ubiquidade”:
Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Não seria isto? É só comparar tal estrofe com o começo de Blake. Não seria isto?
Tentador dizer que sim. Mas é de se perguntar se o contraponto entre o céu, o horizonte, o universo, as estrelas etc etc e o grão pequenino não seria um lugar comum. Pode realmente ser. Mas nos aponta para a principal ligação entre Blake e Bandeira, o que acaba nos levando, por linhas tortas, à afirmação de Carpeaux: um e outro sempre deram importância crucial à infância. À inocência. A uma visão de mundo mais pura, sem implicar com isso que voltemos ao tema da deificação da infância, como em Wordsworth. É, antes, o reconhecimento da importância de que se lance um olhar mais lúcido a tudo o que nos cerca, o que não quer dizer que por conseguinte o poeta se expresse de maneira clara e direta, mais ou menos como boa parte da obra bandeiriana ou no caso do Blake de “Spring”. Para fecharmos o arco com mais uma citação de Bandeira que se aproxima sobremaneira de Blake, é o caso do poema “Céu”:
A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.
Matheus Mavericco

§§§

AUGÚRIOS DE INOCÊNCIA.

Ver o Mundo inteiro num Grão
Ver o Céu numa Flor Bravia
É ter o Infinito na mão
E a Eternidade num dia
Tordo preso numa Gaiola
E o Céu inteiro se Desola
Pombal com Rolinhas & Pombos
Leva todo o Inferno a escombros
Cão faminto às Portas de Casa
Prevê que o Estado se defasa
Cavalo largado na Pista
Quer Sangue & quer que o Céu o assista
Lebre que grita por ajuda
A nosso Cérebro desnuda
Rouxinol que no solo jaz
Querubim que não canta mais
Galo de Briga em pé de guerra
A todo Sol Nascente aterra
Todo Lobo & Leão uivando
Salvam do Inferno um Ser Humano
Este cervo que vaga ao léu
Leva o Ser Humano ao Céu
Cordeiro gera a Discórdia
Mas também a Misericórdia
Morcego plana no Poente
E larga o Cérebro Descrente
Coruja que convoca a Treva
Diz o que ao Incrédulo entreva
Ele que fere o Passarinho
Não saberá o que é o Carinho
Ele que o Touro trouxe à fúria
Só saberá o que é a Injúria
Moleque que mata um Mosquito
As Aranhas têm por maldito
Ele que atormenta o Besouro
Esconde do Escuro imorredouro
Larva-de-Inseto inda precoce
Te rediz que tua Mãe sofre
Não mate nunca a Borboleta
O Juízo Final se espreita
Ele aguerrido em Menoscabo
Não ultrapassará o Cabo
Gato de Velha & Cão de Pobre
Alimente-os & serás nobre
Inseto com Canções de Estio
No veneno do Ultraje caiu
Veneno de Lagarto & Cobra
Que do suor da Inveja sobra
Veneno vindo da Colmeia
É o que o Gozo Artístico ideia
Tesouro Imperial & Esmola
São Cogumelos na Sacola
Verdade dita como ofensa
Vence as Mentiras que se pensa
Ser assim é muito melhor
Só nos cabe Alegria & Dor
E tão logo sabemos disto
O Mundo é um lugar mais bem quisto
Alegria & Dor são tecidas
Vestes d’Almas enaltecidas
Sob cada pinheiro & desgraça
A sedosa alegria passa
Todo Bebê é mais que o Berço
Por todo este Humano Universo
Criadas mãos & Instrumentais
Cada Roceiro Entende mais
Cada Pranto de Cada Face
É um Bebê que no Eterno nasce
Isto é pego por Fêmeas rútilas
E torna de volta a seus júbilos
O Uivo o Balido & Rosnado
São Brisa no Celeste Prado
Bebê que teme o seu Castigo
Nutre Ódio e Massacre consigo
Andrajo adejando Ar afora
Age no Céu e o deteriora
Soldado armado com Baioneta
Assalta o Sol mesmo perneta
Trocados valem no total
Mais que todo Ouro oriental
Ácaro nas Mãos calejadas
Terras vendidas & compradas
Ou se acaso o alto o defenda
Faz que a Nação compre & revenda
Quem escarnece a Fé da Infância
A Morte trata co’ Arrogância
Quem ao Questionamento educa
Não sairá da Cova nunca
Quem respeita a Fé da Infância
Vence a Morte & sua Substância
Brincadeiras & Alegações
Frutos de duas Estações
Questionador que diz-se astuto
Não Discute nem um minuto
Quem contesta o Questionamento
Ganha o Dom do Discernimento
Veneno mais Eficiente
Vem do Soberano regente
Nada deforma a Raça Humana
Como a Armadura em Filigrana
Quando o Ouro adorna a Enxada
Faz-se às Artes Cara Fechada
Charada ou Chore o Gafanhoto
É boa Resposta ao Ignoto
Voo de Condor & Voo de Mosca
Distraem a Filosofia Tosca
Quem Questiona o que vê não Crê
Faça o que é melhor pra você
Se Sol & Lua Questionarem
Irão se Pôr sem aguardarem
Conter Paixão é sempre um Bem
Mas não se a Paixão te contém
O Estado ao Jogador & à Puta
Permita & a Nação é corrupta
Rua a Rua a Meretriz berra
Páginas de Velha Inglaterra
Vencedor que Ri de Quem Perde
Zomba Inglaterra estar inerte
Toda Noite & toda Manhã
A Existência de alguns é Vã
Toda Manhã & toda Noite
Alguns nasceram pro deleite
Alguns nasceram pro deleite
Outros pro Infinito da Noite
Tendemos a crer numa Farsa
Se só Olhar não Satisfaça
Quem nasce à Noite pra morrer na Noite
Dorme a Alma em Raios de Luz
Deus Aparece & Deus é Luz
Aos Pobres que moram na Noite
Na Forma Humana se anuncia
A quem Morar na Luz do Dia

*

AUGURIES OF INNOCENCE.

To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower
Hold Infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour
A Robin Red breast in a Cage
Puts all Heaven in a Rage
A Dove house filld with Doves & Pigeons
Shudders Hell thr’ all its regions
A dog starvd at his Masters Gate
Predicts the ruin of the State
A Horse misusd upon the Road
Calls to Heaven for Human blood
Each outcry of the hunted Hare
A fibre from the Brain does tear
A Skylark wounded in the wing
A Cherubim does cease to sing
The Game Cock clipd & armd for fight
Does the Rising Sun affright
Every Wolfs & Lions howl
Raises from Hell a Human Soul
The wild deer, wandring here & there
Keeps the Human Soul from Care
The Lamb misusd breeds Public Strife
And yet forgives the Butchers knife
The Bat that flits at close of Eve
Has left the Brain that wont Believe
The Owl that calls upon the Night
Speaks the Unbelievers fright
He who shall hurt the little Wren
Shall never be belovd by Men
He who the Ox to wrath has movd
Shall never be by Woman lovd
The wanton Boy that kills the Fly
Shall feel the Spiders enmity
He who torments the Chafers Sprite
Weaves a Bower in endless Night
The Catterpiller on the Leaf
Repeats to thee thy Mothers grief
Kill not the Moth nor Butterfly
For the Last Judgment draweth nigh
He who shall train the Horse to War
Shall never pass the Polar Bar
The Beggars Dog & Widows Cat
Feed them & thou wilt grow fat
The Gnat that sings his Summers Song
Poison gets from Slanders tongue
The poison of the Snake & Newt
Is the sweat of Envys Foot
The poison of the Honey Bee
Is the Artists Jealousy
The Princes Robes & Beggars Rags
Are Toadstools on the Misers Bags
A Truth thats told with bad intent
Beats all the Lies you can invent
It is right it should be so
Man was made for Joy & Woe
And when this we rightly know
Thro the World we safely go
Joy & Woe are woven fine
A Clothing for the soul divine
Under every grief & pine
Runs a joy with silken twine
The Babe is more than swadling Bands
Throughout all these Human Lands
Tools were made & Born were hands
Every Farmer Understands
Every Tear from Every Eye
Becomes a Babe in Eternity
This is caught by Females bright
And returnd to its own delight
The Bleat the Bark Bellow & Roar
Are Waves that Beat on Heavens Shore
The Babe that weeps the Rod beneath
Writes Revenge in realms of Death
The Beggars Rags fluttering in Air
Does to Rags the Heavens tear
The Soldier armd with Sword & Gun
Palsied strikes the Summers Sun
The poor Mans Farthing is worth more
Than all the Gold on Africs Shore
One Mite wrung from the Labrers hands
Shall buy & sell the Misers Lands
Or if protected from on high
Does that whole Nation sell & buy
He who mocks the Infants Faith
Shall be mockd in Age & Death
He who shall teach the Child to Doubt
The rotting Grave shall neer get out
He who respects the Infants faith
Triumphs over Hell & Death
The Childs Toys & the Old Mans Reasons
Are the Fruits of the Two seasons
The Questioner who sits so sly
Shall never know how to Reply
He who replies to words of Doubt
Doth put the Light of Knowledge out
The Strongest Poison ever known
Came from Caesars Laurel Crown
Nought can Deform the Human Race
Like to the Armours iron brace
When Gold & Gems adorn the Plow
To peaceful Arts shall Envy Bow
A Riddle or the Crickets Cry
Is to Doubt a fit Reply
The Emmets Inch & Eagles Mile
Make Lame Philosophy to smile
He who Doubts from what he sees
Will neer Believe do what you Please
If the Sun & Moon should Doubt
Theyd immediately Go out
To be in a Passion you Good may Do
But no Good if a Passion is in you
The Whore & Gambler by the State
Licencd build that Nations Fate
The Harlots cry from Street to Street
Shall weave Old Englands winding Sheet
The Winners Shout the Losers Curse
Dance before dead Englands Hearse
Every Night & every Morn
Some to Misery are Born
Every Morn and every Night
Some are Born to sweet delight
Some are Born to sweet delight
Some are Born to Endless Night
We are led to Believe a Lie
When we see not Thro the Eye
Which was Born in a Night to perish in a Night
When the Soul Slept in Beams of Light
God Appears & God is Light
To those poor Souls who dwell in Night
But does a Human Form Display
To those who Dwell in Realms of day

§§§

blake spring 1 blake spring 2

PRIMAVERA.

Soe a flauta!
Silencia.
A ave salta
Noite e dia;
Rouxinol
Sob o sol
Pia, pia
Co’ alegria,
Alegria, alegria, pra saudar o ano!

Ó menino,
Exultante;
Ó menina,
Cativante;
Cante o galo,
É imitá-lo;
Voz contente
E inocente
Co’ alegria, alegria, pra saudar o ano!

Sou eu,
Cordeirinho!
Lamba meu
Colarinho;
E que, após, eu
Te tose
E acarinhe o
Teu rostinho;
Co’ alegria, alegria, pra saudarmos o ano!

*

SPRING.

Sound the flute!
Now it’s mute.
Birds delight
Day and night;
Nightingale
In the dale,
Lark in sky,
Merrily,
Merrily, merrily, to welcome in the year.

Little boy,
Full of joy;
Little girl,
Sweet and small;
Cock does crow,
So do you;
Merry voice,
Infant noise,
Merrily, merrily, to welcome in the year.

Little lamb,
Here I am;
Come and lick
My white neck;
Let me pull
Your soft wool;
Let me kiss
Your soft face;
Merrily, merrily, we welcome in the year.

(william blake, trad. de matheus mavericco)

Padrão
crítica, poesia, tradução

“A descida de Inana ao mundo dos mortos”

Relevo mesopotâmio em terracota,em exposição no British Museum conhecido como "Rainha da Noite", que, acredita-se, seria uma representação da deusa Inana/Ishtar

Relevo mesopotâmio em terracota,em exposição no British Museum conhecido como “Rainha da Noite”, que, acredita-se, seria uma representação da deusa Inana/Ištar, ou, possivelmente, sua irmã Ereškigal

“A descida de Inana ao mundo dos mortos” é o principal texto por trás de um dos mitos mais célebres do Oriente Médio: a narrativa de Tâmuz e Ištar. Como se sabe, Tâmuz era um deus da vegetação, consorte da deusa do amor, do sexo, da fertilidade e da guerra, e a cada ano, ao chegar o solstício de verão, quando ele morre e renasce, seus ritos envolveriam lamentos pela sua morte, e as águas do rio Adônis (hoje chamado Ibrahim), no Líbano, próxima à cidade antiga de Biblos (hoje Jubayl), avermelhadas por causa da lama, seriam manchadas por seu sangue. Essa é a narrativa padrão que temos e que, não por acaso, encontra ecos depois no mito grego de Vênus e Adônis (segundo o qual, o deus seria partilhado, durante meses diferentes, por Vênus e por Prosérpina, passando metade do ano no mundo dos vivos e metade no mundo dos mortos, segundo o ciclo das estações), um mito muito possivelmente importado através dos fenícios, considerando como Adônis, como o nome clássico do rio Ibrahim, é uma palavra de origem semítica, partilhando da mesma raiz ‘A-D-N que Adonai, com o sentido de “senhor”. Em todo caso, porém, se formos olhar bem o mapa do Oriente Médio, podemos observar que a Mesopotâmia fica a alguns bons quilômetros de distância de Biblos, e, uma vez que o mito de Tâmuz é originalmente sumério, observa-se que ele deve ter feito uma bela viagem para sair das margens dos rios Tigre e Eufrates e chegar ao rio Adônis. Mas há mais algumas coisas curiosas ainda em torno dessa história, que pretendo comentar aqui como introdução para a minha tradução do poema.

Antes de mais nada, alguns detalhes sobre nomes: Tâmuz é o nome que chega a nós pelo viés hebraico (תמוז). Até hoje ele é o nome do mês do calendário judaico equivalente a junho/julho – pleno verão, portanto – que os judeus derivaram a partir de um mês chamado Du’uzu do calendário babilônico, que homenageava o deus. Como se sabe, porém, a língua falada na Babilônia, especialmente à época do exílio dos judeus, não era o sumério, mas uma língua semítica, como o hebraico e o aramaico, que era o acádio (em que foi escrita a versão mais completa que temos do Épico de Gilgámeš), e Du’uzu seria um empréstimo de Dumuzi/Dumuzid – do sumério significando “filho (dumu) legítimo (zid)”. Além de uma divindade, Dumuzid também teria sido um rei do período pré-dinástico da Suméria, assim como Gilgámeš (conhecido em sumério como Bilgameš). O nome Ištar é também um nome acádio, e, assim como Vênus é um sincretismo feito pelos latinos com base na Afrodite grega, ela se baseia na deusa Inana dos sumérios, que residia em Úruk e que também estava associada ao planeta que hoje chamamos Vênus e que era conhecido entre os babilônios pelo nome Dilbat.

Dito isso, imagino que o mais surpreendente seja descobrir que o que parece ser um dos principais elementos do mito à primeira vista (a morte e renascimento do deus), é, na verdade, um elemento secundário que quase não aparece nas tabuletas que chegaram a nós. A situação é tão confusa que, quando traduziram pela primeira vez a tabuleta contendo “A descida de Inana ao mundo dos mortos”, o consenso inicial era que a deusa Inana estaria indo buscar o seu amado nos infernos, como faz o Orfeu grego. Porém, muito pelo contrário, ocorre é que Inana estava na verdade indo ao submundo por outros motivos – em sua maior parte desconhecidos, mas há autores que presumem que fosse uma tentativa de ampliar sua esfera de influência – e que, ao fracassar em sua empreitada, morrendo no caminho (por pouco não permanentemente), ela acaba era causando a morte do marido. Para dar mais detalhes, o problema é que não é permitido a ninguém (nem mesmo a uma deusa consideravelmente poderosa como Inana) voltar dos infernos, ou pelo menos não sem mandar alguém no seu lugar – e esse alguém acaba sendo Dumuzid, por ele não ter chorado a morte dela. Esse é o principal assunto do poema: a preparação de Inana para descer ao mundo dos mortos, sua morte ao tentar sentar no trono de sua irmã, Ereškigal, rainha dos mortos, e seu renascimento com Dumuzid sendo escolhido como substituto.

estrela-de-Inana

A estrela de Inana, um dos símbolos da deusa

Outras tabuletas – como “O sonho de Dumuzid” e “Dumuzid e Ĝeštinana” – relatam outros episódios do ciclo do mito, como a premonição de Dumuzid antes de os demônios aparecerem para buscá-lo e a perseguição que se deu, mas não consegui encontrar fontes sumérias que tratem mais longamente da parte posterior, sobre seu retorno, em que sua irmã Ĝeštinana, deusa do vinho (“Ĝešti” (diz-se Nheshti) é “videira” em sumério), acompanhada por uma Inana bastante arrependida, faz um acordo com Ereškigal, de modo que os dois irmãos passariam a se revezar no inferno ao longo do ano, introduzindo o aspecto de ciclos sazonais no mito, pelo qual ele viria a ser conhecido. Esse acordo está presente nos versos 404-410 da tabuleta, onde há menção a cada um passar uma metade do ano entre os mortos, mas, diferente de outras obras literárias que tratam de deuses de vegetação e ciclos sazonais, como, por exemplo, em grego, o “Hino Homérico a Deméter” (do século VII ou VI a.C.), a relação disso com o revezamento dos deuses não está bem explícita, e o papel exato de Dumuzid, que a princípio era um deus pastor, também fica obscuro.

Esse mesmo mito é recontado depois no poema em acádio “A descida de Ištar ao mundo dos mortos”, uma releitura contendo menos da metade dos versos do original sumério, que encurta consideravelmente a narrativa. “A descida de Ištar” também introduz alguns elementos importantes para a caracterização dos deuses, um dos quais é o de que nele a morte de Ištar faz com que todo tipo de fertilidade e desejo sexual cessem enquanto ela estiver no inferno, assim como, no mito grego, o tempo que Perséfone/Prosérpina passa no Hades faz com que venha o inverno. Ao que tudo indica, porém, há vários séculos que separam um poema do outro. “A descida de Ištar” foi escrito no período neo-assírio (entre 911 e 612 a.C., aproximadamente), ao passo que o original sumério teria algo entre sete e quatorze séculos a mais. E, falando em datas, como expõe Marie-Louise Thomsen em The Sumerian Language, há três períodos de história da produção textual suméria: o período do Antigo Sumério (2600 – 2200 a.C.), cujos textos são quase ilegíveis, porque o cuneiforme era usado apenas como auxílio mnemônico (o que faz com que detalhes gramaticais sejam ausentes nesses textos); o período Neossumério (2200-2000 a.C.), do qual faz parte a 3ª dinastia de Ur, que produziu textos como “A canção de amor de Šu-sin” e os poemas de Enheduana; e, por fim, o chamado Pós-sumério ou Paleobabilônico (2000 – 1600 a.C.), do qual datam a maioria dos textos do corpus poético que temos à disposição. É por causa de elementos gramaticais que Thomsen identifica que “A descida de Inana” só poderia ter sido escrito no período Paleobabilônico – e, de fato, é notável como os textos dessa época são mais complexos do que os das épocas anteriores.

Considerando então os comentários do profeta bíblico Ezequiel (que viveu em torno do século VI a.C.), condenando o culto idólatra a Tâmuz (Ez. 8:14-15), que já incorporava os elementos rituais de lamento pelo deus morto, temos aí, entre os anos 2000/1600 e 600 a.C., uns bons mil anos para o culto se disseminar e se desenvolver. Outra data importante é o ano de 1750 a.C., quando é instituído o calendário babilônico, como uma tentativa de aperfeiçoar o calendário sumério (que era lunar e no qual faltavam alguns dias para bater a contagem dos dias com a órbita da Terra), dividindo um ano de 354 dias em 12 meses, começando a partir da primavera, com um 13º mês sendo eventualmente decretado pelo rei para compensar as disparidades e corrigir o calendário. O fato de que Tâmuz ganha um mês dedicado a ele – e justo o mês em que se passariam os ritos relacionados ao lamento por sua morte – parece significativo, portanto, visto que outros deuses importantes do panteão babilônico – como Ánu, Ea, Sin, Šámaš e Ištar – também têm um mês dedicado a cada um.

inanna-dumuzi

Inana e Dumuzid

A coisa toda fica ainda mais complicada quando lembramos que existia um outro deus, chamado Damu, que também morre e renasce e que, diferente de Dumuzid, que era um pastor, seria um deus da vegetação propriamente. Ele é mencionado no poema “Jornada de Niĝišzida ao mundo dos mortos”, que, ao que parece, a julgar pela complexidade do texto, deve datar do mesmo período que “A descida de Inana”. Segundo diversos autores, Damu e Dumuzid poderiam ser identificados um com o outro, de modo a representar diferentes aspectos – opostos-complementares, inclusive, vide a relação Caim e Abel, que parece encarnada de forma mais harmônica em Damu/Dumuzid – de uma mesma divindade. Enfim, é provavelmente impossível dizer como o mito de Inana e Dumuzid se desenvolveu até assumir a forma que viria a ser associada ao culto de Tâmuz. Fora “A descida” e os poemas em torno de sua narrativa, há 33 outros poemas sobreviventes sobre o casal, em estados diversos de conservação, tematizando o amor ou os jogos de sedução entre os dois deuses. Um deles (4.08.16 no ETCSL, o balbale a Inana (Dumuzid-Inana P), acessível clicando aqui), aliás, é particularmente digno de nota, ao representar um diálogo bastante pitoresco em que a deusa descreve seu sexo como um “campo úmido e bem regado”, pedindo para que Dumuzid venha lavrá-lo. Por isso é estranho que, com tantos poemas (e tão variados), nenhum deles que tenha sobrevivido trate mais longamente do trecho final do mito. Pode parecer um pouco obsessivo de minha parte (e, de fato, é), mas, para traçarmos uma comparação, o que acontece com o culto de Tâmuz/Dumuzid parece ser mais ou menos como se Jesus viesse a ser conhecido não pelo episódio da sua morte na cruz e ressurreição, descritos em todos os quatro evangelhos, mas pelo milagre mais obscuro da moeda na boca de um peixe para pagar o imposto do templo (Mateus 17:24-27) e se tornasse então o deus do pagamento de imposto. De quebra ainda, “A descida de Inana” termina com um verso dedicado não a Inana, heroína do poema, ou a Dumuzid, sua vítima, ou mesmo Ĝeštinana, por ter se sacrificado pelo irmão, mas a Ereškigal, que é quase a vilã da história: “Divina Ereškigal / doce é louvar-te”. Pois é.

Agora, sobre o poema em si: a história que ele narra, como é comum entre poemas de mitos, é bastante esquemática e apresentada segundo as convenções que parecem típicas da literatura suméria, como as fórmulas e repetições. Ele começa dizendo:

“Do vasto céu, voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, a deusa voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, Inana voltou-se à terra vasta.”

…onde se observa a mesma estrutura dos versos que abrem “O sonho de Dumuzid”:

“Ia ao campo, com o peito cheio de pesares.
O jovem ia ao campo, com o peito cheio de pesares.
Dumuzid ia ao campo, com o peito cheio de pesares.”

O primeiro verso anuncia o mote dos poemas (Inana, que rege os céus, se interessa pela terra, Dumuzid sai perturbado porque teve um sonho profético sobre sua morte), mas sem anunciar quem é o seu protagonista. O segundo alude ao protagonista por um título (diĝir, “divindade”, e ĝereš, “jovem”) e só no terceiro vemos o seu nome completo.

Enki

Enki, deus da criação, da sabedoria, da água e do logro

Depois desses versos de abertura, temos uma sequência enumerando todos os locais com templos dedicados à deusa onde ela abandonou o ofício divino para seguir ao mundo dos mortos, que optei por traduzir como “abismo” para manter algo do tom topológico da palavra kur, que em sumério também quer dizer “montanha”, além de “inferno”. Inana se prepara, então, e para isso prepara os sete me para acompanhá-la. Um me é um decreto universal de autoridade divina e é parte da concepção de mundo dos mesopotâmios, que é distribuído aos deuses pelo Pai Enki no poema “Enki e a Ordem do Mundo”. Aqui, porém, eles assumem a forma de peças de roupa, com as quais Inana se veste. A palavra é mencionada também em outros momentos do poema, como quando Enlil e Nana afirmam que “os me do abismo não são me que se deseje”.  Na tradução, para tentar captar esse sentido e evitar salpicar o poema de palavras sem tradução, optei por verter consistentemente a palavra me por “dom”/”dons”, que, acredito, capta algo dessa conotação religiosa do termo.

Na sequência, Inana se vira para Ninšubur, sua sukkal (algo como “cortesã”, “mensageira”), e lhe dá as instruções para o que ela deve fazer em sua ausência. Primeiro temos os atos de luto, depois o pedido de que Ninšubur visite Enlil, um dos deuses supremos, e Nana, deus da lua, pai de Inana e de seu irmão Utu, deus do sol (Šámaš em acádio), e, caso eles não possam ajudar, por fim, Enki, que conhece a erva da vida e a água da vida e poderá trazer Inana do mundo dos mortos, caso ela não retorne. Dito isso, ela parte e vem bater na porta de Ganzir, o palácio do mundo dos mortos, sendo atendida pelo porteiro Neti. Ela diz que vem visitar Ereškigal, sua irmã, que está de luto pela morte de seu marido Gugalana – literalmente “Grande Touro do Céu”. No Épico de Gilgámeš, como vimos na tábua 6 na tradução de Jacyntho Lins Brandão (clique aqui), Gugalana tem um papel importante, pois Ištar, após ser recusada pelo herói por causa do que aconteceu com Dumuzid e a outros heróis, pede a Ánu para que solte a imensa besta para vingá-la, mas o animal é morto por Gilgámeš e seu parceiro Enkídu. O Épico de Gilgámeš, porém, é um poema acádio, organizado primeiramente no período Paleobabilônico a partir de tabuletas anteriores individuais, que não formavam um todo coeso, mas um ciclo de episódios em torno do herói sumério, só depois ainda (1200 a.C.) assumindo a forma que conhecemos como definitiva. Na tabuleta original que trata do episódio de Gugalana, Inana está furiosa com Gilgámeš, mas o motivo é desconhecido e pode ter se perdido nas avarias sofridas pela argila. Em todo caso, não parece haver menção a Dumuzid – o que criaria um paradoxo curioso, pois Dumuzid morre porque Inana desce aos infernos, mas Inana só desce aos infernos após a morte de Gugalana, morto por Gilgámeš após Inana soltá-lo, porque Gilgámeš a recusou por não querer que lhe acontecesse… o que aconteceu (aliás, acontecerá!) com Dumuzid, amante de Inana!

Mas estou digredindo… em todo caso, Gugalana é só a desculpa dada por Inana, e uma desculpa que Ereškigal não engole. Suspeitando da irmã, ela manda Neti preparar sete portões, com cada um só se abrindo para ela após ela se despir de uma de suas sete peças de roupa (seus me, portanto). Passados todos os portões, ela chega aos infernos nua – e, mais do que isso, desprotegida. Ao tentar sentar-se sobre o trono de sua irmã, porém, Inana é julgada pelos juízes infernais, os Anuna, ou Anunaki (como os 3 juízes do Hades grego, só que 7 em vez de 3), e se transforma imediatamente num cadáver, pendurado num gancho.

Enquanto isso, Ninšubur suspeita que algo tenha dado errado e vai consultar os deuses. O único que a ajuda, como esperado, é Enki, criando da terra debaixo das suas unhas duas criaturas, que manda atrás de Inana, chamadas gala-tura e kur-ĝara, levando a erva da vida e a água da vida até ela. Os dois nomes são termos também para tipos de sacerdotes que aparentemente deviam cantar e dançar durante os ritos religiosos sumérios. De novo, para evitar cobrir o poema de termos não traduzidos, eu decidi arriscar uma tradução (meio à moda de Haroldo de Campos, quando verte o nome Qohélet, o Eclesiastes, como O-que-sabe) para eles, de modo que gala-tura se tornou “chora-miúdo” (gala é um tipo de sacerdote de lamentações, tur é pequeno) e kur-ĝara, “deita-abismo” (kur, como dito, é a palavra para “montanha” ou “abismo”, ĝar é mais ou menos o verbo “pôr”, presente em outros verbos compostos como a ĝar, “irrigar” (literalmente pôr água), igi ĝar (deitar os olhos), etc).

O plano de Enki dá certo, mas Inana descobre que não poderá fugir assim tão fácil do submundo e que precisa escolher alguém para morrer em seu lugar. Ela é escoltada por um bando de demônios chamados gala, e eles primeiro querem levar Ninšubur, mas Inana não deixa, porque ela cumpriu suas instruções e seria desleal recompensá-la assim. Depois eles se voltam para Šara e Lulal, mas ela também não quer que eles os levem. Por fim, eles flagram Dumuzid que não só não estava de luto como ainda parecia estar aproveitando que Inana tinha morrido. Dumuzid faz uma prece a Utu para que o transforme numa cobra e possa fugir, e o deus o concede, mas mesmo assim ele acaba capturado (esse trecho está descrito com mais detalhes no poema “O sonho de Dumuzid”). E então o restante da tabuleta está danificado demais para podermos entender direito o que se passa. Vemos que Inana chora a morte do marido, depois conta com a ajuda de uma mosca para reencontrá-lo. Então tem o acordo e o verso final de louvor a Ereškigal. E isso é uma das coisas frustrantes de se trabalhar com poemas dessa época.

A disparidade entre o que se sabe do culto de Tâmuz e a matéria do poema faz com que ele seja um tanto complicado de interpretar. Há algumas leituras junguianas do mito que o interpretam como aquela coisa de morte e renascimento pessoais (simbolizados pela passagem no inferno) e a necessidade de desapego do passado (simbolizada pelo despir-se da deusa), mas essa leitura beirando a auto-ajuda não parece se sustentar diante do texto em si, além de ser problemática por projetar como o “verdadeiro” sentido “por trás” do mito uma mensagem que é essencialmente burguesa, no sentido de que só é possível numa sociedade individualista (que não era o caso dos sumérios). Em vez disso, eu arriscaria dizer, parece que o foco principal do poema é a morte. Antes de partir, Inana explica a Ninšubur os atos adequados do luto (vestir-se como “alguém que nada possui”, carpir-se, bater tambor) e, quando conversa com Neti, comenta os ritos fúnebres de Ereškigal em honra a Gugalana. Quando ela retorna do inferno, consegue impedir que aqueles que estão de luto por ela sejam afligidos pelos demônios, mas não Dumuzid, que não respeitou esses ritos sagrados. As coisas que são levadas a ela para trazê-la de volta à vida são uma comida e água, duas coisas completamente ausentes na concepção suméria de inferno (os mortos só recebem o que comer e beber através das oferendas fúnebres). Até a presença da mosca parece simbólica nesse sentido, por ser um inseto ligado à morte e à putrefação. E, de quebra, podemos enxergar no poema um eco, séculos antes, da noção que virá a aparecer na Eneida (livro VI, v. 126-30) de Virgílio, na boca da Sibila que fala com Eneias, de que ir ao mundo dos mortos é fácil, difícil é sair (e ninguém melhor que Inana aqui para expor isso). O verso final de louvor a Ereškigal também parece corroborar essa possibilidade de leitura.

A minha tradução, como na outra vez com “A canção de amor de Šu-Sin”, se orienta na tradução disponível no Electronic Text Corpus of Sumerian Literature (clique aqui), mas, com o que eu pude aprender até agora de vocabulário e gramática do sumério, prestando atenção no original, também disponível no site, de modo a atentar para a estrutura dos versos e as possíveis nuances das palavras. Porque o final do poema está bastante danificado, eu pulei as partes que seriam difíceis de traduzir de modo satisfatório (as lacunas estão marcadas com (…)), dado o grau de ilegilibilade dos fragmentos, mas o restante está consideravelmente bem conservado e permite uma leitura ininterrupta.

Adriano Scandolara

Inana

 A descida de Inana ao mundo dos mortos

 

Do vasto céu, voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, a deusa voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, Inana voltou-se à terra vasta.
Minha senhora precipitou-se do céu e da terra, descendo ao abismo,
Inana precipitou-se do céu e da terra, descendo ao abismo.

Precipitou-se do sacerdócio em En e em Lagar, descendo ao abismo,
precipitou-se de Unug, em E-ana, descendo ao abismo,
precipitou-se de E-muš-kalama, em Bad-tibira, descendo ao abismo,
precipitou-se de Giguna, em Zabalam, descendo ao abismo,
precipitou-se de Barag-dur-ĝara, em Nibru, descendo ao abismo,
precipitou-se de Hursang-kalama, em Kiš, descendo ao abismo,
precipitou-se de E-Ulmaš, em Agade, descendo ao abismo.

Ela atou os sete dons,
uniu os dons e os atou com a mão,
com auspiciosos dons pôs o pé na estrada,
pôs um turbante cobrindo a cabeça ao ar livre,
com a mão ajeitou a cabeleira cobrindo a testa,
ao pescoço atou um pingente de lápis-lazúli.

Carregou o peito com um par de contas,
trajou sobre os ombros a pala, vestes régias,
passou kohl nos olhos, que a todos diz “vem, vem”,
prendeu o alfinete ao peito, que a todos diz “vem, vem”,
pôs na mão um anel de ouro,
empunhou a linha e bastão de lápis-lazúli.

Prosseguiu Inana ao abismo,
seguiu-a sua cortesã Ninšubur.

Divina Inana diz a Ninšubur:
“Vem, cortesã leal de E-ana,
minha cortesã das belas palavras,
minha emissária das fiéis palavras.
Agora devo descer ao abismo,
agora, quando chegar ao abismo,
vai, lança nas ruínas um lamento por mim.
Vai, bate no sacrário o tambor por mim.
Vai, faz na casa dos deuses vigílias por mim.
Carpe teu rosto, carpe o nariz,
carpe, em público, tuas orelhas,
carpe as coxas sem que vejam.
Como quem nada possui, veste um único andrajo,
e sozinha pisa em Ekur, casa de Enlil.

Ao entrares em Ekur, casa de Enlil,
chora diante de Enlil:
‘Pai Enlil, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

Se então Enlil não for de ajuda, vai para Urim:
em Emudkura, em Urim,
ao entrares em Ekišnuĝal, de Nana,
chora diante de Nana:
‘Pai Nana, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

Se então Nana não ajudar, vai para Eridug:
ao entrares em Eridug, casa de Enki,
chora diante de Enki:
‘Pai Enki, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

O Pai Enki, senhor de largo entendimento,
conhece a erva-da-vida, conhece a água-da-vida.
Que ele à vida me traga.

No que Inana seguiu ao abismo,
Ninšubur, sua cortesã, a seguia atrás.
Diz ela à sua cortesã Ninšubur:
“Vai, Ninšubur, me dá ouvidos,
não te descuides das palavras que eu te disse”.

Quando Inana chega a Ganzir, grão palácio,
golpeia os umbrais, em fúria, frente ao abismo,
grita aos portões, em fúria, do abismo:
“Abre as portas, Ó porteiro, abre as portas!
Abre as portas, Neti, abre as portas! Venho só e quero entrar”.

Neti, grão guardião do abismo,
diz à divina Inana, diz em resposta:
“Tu, quem és?”
“Sou Inana e sigo o rumo do Sol nascente”.
“Se és Inana e segues o rumo do Sol nascente,
o que te trazes ao abismo sem retorno?
por que então puseste no juízo esta via de onde ninguém retorna?”

Divina Inana lhe retorna:
“Morrera o marido de minha irmã mais velha,
divina Ereškigal, o senhor Gugalana.
Dou oferendas de suas honras fúnebres,
e ela tanta cerveja liba em sua honra – é por isso”.

Neti, grão guardião do abismo,
diz à divina Inana, diz em resposta:
“Espera, Inana, que direi à minha senhora,
direi à minha senhora Ereškigal, direi a ela tuas palavras”.

Neti, grão guardião do abismo,
vai à sua senhora Ereškigal,
e, ao entrar em sua casa, diz:
“Minha senhora, tem uma jovem aqui.
Tua irmã, Inana, chegou às portas de Ganzir, grão palácio.
Golpeou os umbrais, em fúria, frente ao abismo,
gritou aos portões, em fúria, do abismo,
precipitou-se de E-ana, descendo ao abismo.

“Ela atou os sete dons,
uniu os dons e os atou com a mão,
com auspiciosos dons pôs o pé na estrada,
pôs um turbante cobrindo a cabeça ao ar livre,
com a mão ajeitou a cabeleira cobrindo a testa,
ao pescoço atou um pingente de lápis-lazúli,

“Carregou o peito com um par de contas,
trajou sobre os ombros a pala, vestes régias,
passou kohl nos olhos, que a todos diz ‘vem, vem’,
prendeu o alfinete ao peito, que a todos diz ‘vem, vem’,
pôs na mão um anel de ouro,
empunhou a linha e bastão de lápis-lazúli”.

Nisso, Ereškigal bateu nas próprias coxas,
mordeu os lábios e guardou as palavras no peito,
disse a Neti, grão guardião:
“Vai, Neti, meu grão guardião do abismo,
não te descuides das palavras que te digo,
aldrava os 7 portões do abismo
e abre uma a uma as portas do palácio Ganzir
e então, quando ela entrar,
e agachar-se e despir-se das roupas, alguém irá levá-las”.

Neti, grão guardião do abismo,
dando ouvidos às palavras de sua senhora,
aldrava os 7 portões do abismo
e abre uma a uma as portas do palácio Ganzir
e diz à divina Inana:
“Vem, Inana, e faz tua entrada”.

Quando Inana entrou,
tiraram seu turbante, que cobria a cabeça ao ar livre:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo segundo portão,
tiraram do seu pescoço o pingente de lápis-lazúli:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo terceiro portão,
tiraram do seu peito o par de contas:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo quarto portão,
tiraram o alfinete do peito, que a todos diz “vem, vem”,
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo quarto portão,
tiraram de sua mão o anel de ouro:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo sexto portão,
tiraram de sua mão a linha e bastão de lápis-lazúli:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo sétimo portão,
tiraram de seu ombro a pala, as vestes régias:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Após agachar-se e após despir-se das roupas, alguém as levou.
Quando sua irmã se ergueu do trono,
ela se assentou ao trono dela.
Os Anuna, os 7 juízes, passaram juízo contra sua presença:
deitaram olhos sobre ela: o olhar da morte,
pronunciaram-lhe palavras: as palavras da peste,
pesava nela a voz: a voz do sacrilégio.
Abalada, ela se fez numa carcaça,
e a carcaça foi suspensa num gancho.

3 dias e 3 noites se passaram,
mas sua cortesã Ninšubur
guardava à memória as palavras de sua senhora:
lançou nas ruínas lamento e mais lamento por ela,
por ela bateu no sacrário o tambor,
por ela na casa dos deuses fez vigília e mais vigília,
carpiu o rosto e carpiu o nariz,
carpiu as coxas sem que ninguém visse,
como quem nada possui trajou um só andrajo
e sozinha pisou em Ekur, casa de Enlil.

Ao entrar em Ekur, casa de Enlil,
ela chorou diante de Enlil:
“Pai Enlil, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”

Pai Enlil, de estômago revirado, responde, responde a Ninšubur:
“Minha filha desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Inana desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Dons do abismo não são dons que se deseje: quem os alcança o abismo detém.
Quem, ao chegar lá, desejará subir de volta?”

Pai Enlil não foi de ajuda, e ela foi a Urim,
em Urim, em Emud-kura,
entrar em Ekišnuĝal, casa de Nana,
chorou diante de Nana:
“Pai Nana, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”

Pai Nana, de estômago revirado, responde, responde a Ninšubur:
“Minha filha desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Inana desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Dons do abismo não são dons que se deseje: quem os alcança o abismo detém.
Quem, ao chegar lá, desejará subir de volta?”

Pai Nana não foi de ajuda, e ela foi a Eridug,
entrar em Eridug, casa de Enki,
chorou diante de Enki:
“Pai Enki, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”

Pai Enki responde, responde a Ninšubur:
“O que fez minha filha? Isto me aflige.
O que fez Inana? Isto me aflige.
O que fez a senhora de toda terra? Isto me aflige.
O que fez a rainha do céu? Isto me aflige”.
Ele apanhou o pó de sob a unha e criou o deita-abismo,
apanhou o pó de sob a outra unha e criou o chora-miúdo,
e ao deita-abismo deu a erva-da-vida,
e ao chora-miúdo deu a água-da-vida.

Diz o Pai Enki ao deita-abismo e ao chora-miúdo:
“Ide, conduzi vossos passos à terra dos que repousam,
voai, voai como moscas pela porta,
passai, passai como espírito pelas dobradiças.
Lá, por seus filhos,
repousa Ereškigal, mãe que dera a luz:
seus ombros sacros nenhum linho cobre,
seus seios não aleitam como um jarro,
seus dedos lhe são como machados,
seus cabelos como alho-poró na cabeça se enroscam.

“Quando ela disser, ‘ui, meu peito’,
dizei, ‘pronto, pronto, senhora, teu peito!’
Quando disser, ‘ui, minha costela’,
dizei, ‘pronto, pronto, senhora, tua costela!’
‘Quem sois?’, ela dirá,
‘Vos falo do peito ao peito, costela à costela,
se sois deuses, deixai-me falar convosco,
se mortais, que um destino por dom vos seja decretado’,
que ela jure pelo alento do céu e o alento da terra.

“Toda a água de um rio vos será ofertada – não aceiteis.
Todo o grão de uma gleba vos será ofertado – não aceiteis.
‘Entrega-nos a carcaça que pende no gancho’, dizei, e ela dirá:
‘esta carcaça é vossa rainha’,
‘seja ela nosso rei, seja nossa rainha, entrega-a’, dizei,
e a carcaça que pende no gancho será entregue.
Dentre vós um sobre ela lançará a erva-da-vida, o outro, a água-da-vida.
E Inana levantará”.

O chora-miúdo e o deita-abismo deram ouvidos às palavras de Enki,
voaram, voaram como moscas pela porta,
passaram, passaram como espírito pelas dobradiças.
Lá, por seus filhos,
repousava Ereškigal, mãe que dera a luz:
seus ombros sacros nenhum linho cobria,
seus seios não aleitavam como um jarro,
seus dedos lhe eram como machados,
seus cabelos como alho-poró na cabeça se enroscavam.

Ela disse, “ui, meu peito”,
e eles disseram, “pronto, pronto, senhora, teu peito!”
Ela disse, “ui, minha costela”,
e eles disseram, “pronto, pronto, senhora, tua costela!”
“Quem sois?”
“Vos falo do peito ao peito, costela à costela,
se sois deuses, deixai-me falar convosco,
se mortais, um destino por dom vos seja decretado”,
jurou pelo alento do céu e o alento da terra. (…)

Toda a água de um rio lhes foi ofertada – não aceitaram.
Todo o grão de uma gleba lhes foi ofertado – não aceitaram.
“Entrega-nos a carcaça que pende no gancho”, disseram.
Divina Ereškigal respondeu ao chora-miúdo e ao deita-abismo:
“Esta carcaça é vossa rainha”,
“seja ela nosso rei, seja nossa rainha, entrega-a”, disseram,
e a carcaça que pende no gancho foi entregue.
Deles um sobre ela lançou a erva-da-vida, o outro, a água-da-vida.
E Inana levantou.

(…)
Pelas palavras de Enki, Inana voltava do abismo,
Inana voltava do abismo,
quando os Anuna a detêm:
“Quem já voltou do abismo? voltou vivo do abismo?
se Inana quer voltar do abismo,
que outra cabeça seja dada pela sua”.

Inana voltava do abismo.
À frente alguém, sem ser cortesão, empunhava um cetro,
atrás alguém, sem ser emissário, levava um porrete no cinto,
os demônios pequenos, como uma cerca,
e os grandes demônios, como um matagal, a detinham de todos os lados.

Aqueles que iam com ela,
aqueles que iam com Inana,
desconhecem erva, desconhecem água,
não comem a farinha ofertada,
não bebem a água libada,
não aceitam belas dádivas,
não gozam das belas carícias do amor,
filho nenhum docemente os beija.

Eles separam o marido da esposa,
carregam o filho do colo dos pais,
expulsam a noiva da casa dos sogros.

Voltando Inana do abismo,
nas portas de Ganzir, Ninšubur cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós a levaremos”.

Divina Inana responde, responde aos demônios:
“Ela é minha cortesã das belas palavras,
minha emissária das fiéis palavras,
ela deu ouvidos aos meus conselhos,
não se descuidou das minhas palavras,
lançou nas ruínas lamento e mais lamento por mim,
por mim bateu no sacrário o tambor,
por mim na casa dos deuses fez vigília e mais vigília,
carpiu o rosto e carpiu o nariz,
carpiu as coxas sem que ninguém visse.

“Na casa de Enlil, em E-kur,
na casa de Nana, em Urim,
na casa de Enki, em Eridug,
ela pisou, sozinha,
e me trouxe à vida:
como poderia entregá-la?
Vamos, vamos a Šeg-kuršaga, em Umma”.

Em Šeg-kuršaga, em Umma,
Šara, em sua cidade, cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós o levaremos”.

Divina Inana responde, responde aos demônios:
“Šara é quem canta para mim
e faz minhas unhas e meu cabelo:
como poderia entregá-lo?
Vamos, vamos a E-muškalama, em Bad-tibira”.

E-muškalama, em Bad-tibira,
Lulal, em sua cidade, cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós o levaremos”.

Divina Inana responde, responde aos demônios:
“Lulal me segue aqui e acolá, aonde for:
como poderia entregá-lo?
Vamos, vamos às campinas de Kulaba, onde brota a macieira”.

Eles seguiram seus passos até as campinas de Kulaba, onde brota a macieira.
Lá Dumuzid ostentava vestes majestosas, sentado majestoso sobre o trono.
Os demônios o agarram pelas coxas,
os 7 despejam seu leite do manteigueiro,
(…)

Deitou olhos sobre ele: o olhar da morte,
pronunciou-lhe palavras: as palavras da peste,
pesava nele a voz: a voz do sacrilégio.
“Vós demorais. Levai-no!”
Divina Inana entrega assim Dumuzid nas mãos deles.
(…)

Divina Inana chorou lágrimas aflitas por seu esposo.
(…)

“Você metade do ano, e sua irmã metade do ano:
o dia em que fores convocado é o dia em que ficarás,
o dia em que sua irmã for convocada é o dia em que serás liberto”.
Divina Inana deu Dumuzid em seu lugar.

(…)
Divina Ereškigal,
doce é louvar-te.

(comentário e tradução de Adriano Scandolara)

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