poesia, tradução

dois poemas de william blake, por matheus mavericco

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A primeira vez que tive contato com “Auguries of Innocence” foi lendo o prefácio de Otto Maria Carpeaux para o notável Apresentação da Poesia Brasileira, de Manuel Bandeira. Lá, Carpeaux comenta o fato de que Bandeira, por uma questão de humildade simples, não havia incluso a si mesmo, no que o mestre austríaco buscara tentar mitigar o mal. Pois é em certo momento que Carpeaux diz que os versos iniciais do “Auguries of Innocence” poderiam servir como descrição da poesia de Bandeira como um todo, o que me intrigou na época pela misteriosa beleza dos versos e hoje me intriga pela leitura, pelo menos a princípio me pareceu, parcial de Carpeaux.

Seria assim mesmo? Vejamos. “Auguries of Innocence” pode ser lido como uma espécie de fusão das canções da inocência e as canções da experiência, só que num todo poético que consegue manter uma altíssima voltagem por um tempo notadamente prolongado. Poucos poemas, creio, conseguem o feito de Blake… (Penso, por exemplo, no “Howl” de Ginsberg.) Só que o choque é constante, e se na fenda criada pelo paralelo entre o Cordeiro e o Tygre tínhamos um livro que literalmente os apartava, é comum que em “Auguries” tenhamos não só a fusão, como o contato entre uma esfera e outra quase que de maneira concomitante. Pense-se, a esse respeito, nos versos em que Blake nos diz que o Cordeiro é capaz de gerar a discórdia entre as pessoas e, ao mesmo tempo, a misericórdia para com a faca do açougueiro (em minha tradução, esta faca literalmente desapareceu). Ou então quando diz que o bebê que teme o castigo escreve o nome da morte nos reinos da morte. O “Auguries”, é, basicamente, um poema escrito de maneira aforismática que reúne paradoxos acerca da inocência, como que pra provar que, se não nos encasularmos nessa mesma inocência, nós vamos perder o siso. O mundo é brutal demais. O choque entre as duas esferas antitéticas que Blake havia delineado em suas canções gera esse clima surreal e impactante que o poema apresenta.
Mas onde entraria Bandeira?
Difícil dizer. Se seguirmos a lógica do prolongamento da tensão poética, me parece que só “Vou-me embora pra Pasárgada” apresentaria algo parelho, em especial pelo recurso às enumerações, às espécies de tiras poéticas convivendo juntas, fazendo com que a máxima de Edgar Allan Poe, de que um poema longo é uma contradição de termos, visto existirem apenas poemas curtos como que colados num todo maior, se valide graças ao fato de que temos poemas pequeninos dentro de uma estrutura maior. Mas ainda assim, reconheço, estaria forçando a barra. Bandeira não apresenta nem de longe a intrincada teia simbólica de Blake. Muito mais direto no trato poético, ou então muito mais esfumaçado em suas fases primeiras, o universo poético de Bandeira ou é o do Amor como chama e depois fumaça, ou então o daquela lúgubre maçã meio murcha num hotel. O máximo de simbólico que pode ser rastreado estaria num poema como “Aerisphinx”, que, de resto, acaba aparecendo como um algo à parte na obra, sem aquela pertença e posicionamento num universo simbólico.
Mas aqui eis que me lembro dos versos de “Ubiquidade”:
Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Não seria isto? É só comparar tal estrofe com o começo de Blake. Não seria isto?
Tentador dizer que sim. Mas é de se perguntar se o contraponto entre o céu, o horizonte, o universo, as estrelas etc etc e o grão pequenino não seria um lugar comum. Pode realmente ser. Mas nos aponta para a principal ligação entre Blake e Bandeira, o que acaba nos levando, por linhas tortas, à afirmação de Carpeaux: um e outro sempre deram importância crucial à infância. À inocência. A uma visão de mundo mais pura, sem implicar com isso que voltemos ao tema da deificação da infância, como em Wordsworth. É, antes, o reconhecimento da importância de que se lance um olhar mais lúcido a tudo o que nos cerca, o que não quer dizer que por conseguinte o poeta se expresse de maneira clara e direta, mais ou menos como boa parte da obra bandeiriana ou no caso do Blake de “Spring”. Para fecharmos o arco com mais uma citação de Bandeira que se aproxima sobremaneira de Blake, é o caso do poema “Céu”:
A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.
Matheus Mavericco

§§§

AUGÚRIOS DE INOCÊNCIA.

Ver o Mundo inteiro num Grão
Ver o Céu numa Flor Bravia
É ter o Infinito na mão
E a Eternidade num dia
Tordo preso numa Gaiola
E o Céu inteiro se Desola
Pombal com Rolinhas & Pombos
Leva todo o Inferno a escombros
Cão faminto às Portas de Casa
Prevê que o Estado se defasa
Cavalo largado na Pista
Quer Sangue & quer que o Céu o assista
Lebre que grita por ajuda
A nosso Cérebro desnuda
Rouxinol que no solo jaz
Querubim que não canta mais
Galo de Briga em pé de guerra
A todo Sol Nascente aterra
Todo Lobo & Leão uivando
Salvam do Inferno um Ser Humano
Este cervo que vaga ao léu
Leva o Ser Humano ao Céu
Cordeiro gera a Discórdia
Mas também a Misericórdia
Morcego plana no Poente
E larga o Cérebro Descrente
Coruja que convoca a Treva
Diz o que ao Incrédulo entreva
Ele que fere o Passarinho
Não saberá o que é o Carinho
Ele que o Touro trouxe à fúria
Só saberá o que é a Injúria
Moleque que mata um Mosquito
As Aranhas têm por maldito
Ele que atormenta o Besouro
Esconde do Escuro imorredouro
Larva-de-Inseto inda precoce
Te rediz que tua Mãe sofre
Não mate nunca a Borboleta
O Juízo Final se espreita
Ele aguerrido em Menoscabo
Não ultrapassará o Cabo
Gato de Velha & Cão de Pobre
Alimente-os & serás nobre
Inseto com Canções de Estio
No veneno do Ultraje caiu
Veneno de Lagarto & Cobra
Que do suor da Inveja sobra
Veneno vindo da Colmeia
É o que o Gozo Artístico ideia
Tesouro Imperial & Esmola
São Cogumelos na Sacola
Verdade dita como ofensa
Vence as Mentiras que se pensa
Ser assim é muito melhor
Só nos cabe Alegria & Dor
E tão logo sabemos disto
O Mundo é um lugar mais bem quisto
Alegria & Dor são tecidas
Vestes d’Almas enaltecidas
Sob cada pinheiro & desgraça
A sedosa alegria passa
Todo Bebê é mais que o Berço
Por todo este Humano Universo
Criadas mãos & Instrumentais
Cada Roceiro Entende mais
Cada Pranto de Cada Face
É um Bebê que no Eterno nasce
Isto é pego por Fêmeas rútilas
E torna de volta a seus júbilos
O Uivo o Balido & Rosnado
São Brisa no Celeste Prado
Bebê que teme o seu Castigo
Nutre Ódio e Massacre consigo
Andrajo adejando Ar afora
Age no Céu e o deteriora
Soldado armado com Baioneta
Assalta o Sol mesmo perneta
Trocados valem no total
Mais que todo Ouro oriental
Ácaro nas Mãos calejadas
Terras vendidas & compradas
Ou se acaso o alto o defenda
Faz que a Nação compre & revenda
Quem escarnece a Fé da Infância
A Morte trata co’ Arrogância
Quem ao Questionamento educa
Não sairá da Cova nunca
Quem respeita a Fé da Infância
Vence a Morte & sua Substância
Brincadeiras & Alegações
Frutos de duas Estações
Questionador que diz-se astuto
Não Discute nem um minuto
Quem contesta o Questionamento
Ganha o Dom do Discernimento
Veneno mais Eficiente
Vem do Soberano regente
Nada deforma a Raça Humana
Como a Armadura em Filigrana
Quando o Ouro adorna a Enxada
Faz-se às Artes Cara Fechada
Charada ou Chore o Gafanhoto
É boa Resposta ao Ignoto
Voo de Condor & Voo de Mosca
Distraem a Filosofia Tosca
Quem Questiona o que vê não Crê
Faça o que é melhor pra você
Se Sol & Lua Questionarem
Irão se Pôr sem aguardarem
Conter Paixão é sempre um Bem
Mas não se a Paixão te contém
O Estado ao Jogador & à Puta
Permita & a Nação é corrupta
Rua a Rua a Meretriz berra
Páginas de Velha Inglaterra
Vencedor que Ri de Quem Perde
Zomba Inglaterra estar inerte
Toda Noite & toda Manhã
A Existência de alguns é Vã
Toda Manhã & toda Noite
Alguns nasceram pro deleite
Alguns nasceram pro deleite
Outros pro Infinito da Noite
Tendemos a crer numa Farsa
Se só Olhar não Satisfaça
Quem nasce à Noite pra morrer na Noite
Dorme a Alma em Raios de Luz
Deus Aparece & Deus é Luz
Aos Pobres que moram na Noite
Na Forma Humana se anuncia
A quem Morar na Luz do Dia

*

AUGURIES OF INNOCENCE.

To see a World in a Grain of Sand
And a Heaven in a Wild Flower
Hold Infinity in the palm of your hand
And Eternity in an hour
A Robin Red breast in a Cage
Puts all Heaven in a Rage
A Dove house filld with Doves & Pigeons
Shudders Hell thr’ all its regions
A dog starvd at his Masters Gate
Predicts the ruin of the State
A Horse misusd upon the Road
Calls to Heaven for Human blood
Each outcry of the hunted Hare
A fibre from the Brain does tear
A Skylark wounded in the wing
A Cherubim does cease to sing
The Game Cock clipd & armd for fight
Does the Rising Sun affright
Every Wolfs & Lions howl
Raises from Hell a Human Soul
The wild deer, wandring here & there
Keeps the Human Soul from Care
The Lamb misusd breeds Public Strife
And yet forgives the Butchers knife
The Bat that flits at close of Eve
Has left the Brain that wont Believe
The Owl that calls upon the Night
Speaks the Unbelievers fright
He who shall hurt the little Wren
Shall never be belovd by Men
He who the Ox to wrath has movd
Shall never be by Woman lovd
The wanton Boy that kills the Fly
Shall feel the Spiders enmity
He who torments the Chafers Sprite
Weaves a Bower in endless Night
The Catterpiller on the Leaf
Repeats to thee thy Mothers grief
Kill not the Moth nor Butterfly
For the Last Judgment draweth nigh
He who shall train the Horse to War
Shall never pass the Polar Bar
The Beggars Dog & Widows Cat
Feed them & thou wilt grow fat
The Gnat that sings his Summers Song
Poison gets from Slanders tongue
The poison of the Snake & Newt
Is the sweat of Envys Foot
The poison of the Honey Bee
Is the Artists Jealousy
The Princes Robes & Beggars Rags
Are Toadstools on the Misers Bags
A Truth thats told with bad intent
Beats all the Lies you can invent
It is right it should be so
Man was made for Joy & Woe
And when this we rightly know
Thro the World we safely go
Joy & Woe are woven fine
A Clothing for the soul divine
Under every grief & pine
Runs a joy with silken twine
The Babe is more than swadling Bands
Throughout all these Human Lands
Tools were made & Born were hands
Every Farmer Understands
Every Tear from Every Eye
Becomes a Babe in Eternity
This is caught by Females bright
And returnd to its own delight
The Bleat the Bark Bellow & Roar
Are Waves that Beat on Heavens Shore
The Babe that weeps the Rod beneath
Writes Revenge in realms of Death
The Beggars Rags fluttering in Air
Does to Rags the Heavens tear
The Soldier armd with Sword & Gun
Palsied strikes the Summers Sun
The poor Mans Farthing is worth more
Than all the Gold on Africs Shore
One Mite wrung from the Labrers hands
Shall buy & sell the Misers Lands
Or if protected from on high
Does that whole Nation sell & buy
He who mocks the Infants Faith
Shall be mockd in Age & Death
He who shall teach the Child to Doubt
The rotting Grave shall neer get out
He who respects the Infants faith
Triumphs over Hell & Death
The Childs Toys & the Old Mans Reasons
Are the Fruits of the Two seasons
The Questioner who sits so sly
Shall never know how to Reply
He who replies to words of Doubt
Doth put the Light of Knowledge out
The Strongest Poison ever known
Came from Caesars Laurel Crown
Nought can Deform the Human Race
Like to the Armours iron brace
When Gold & Gems adorn the Plow
To peaceful Arts shall Envy Bow
A Riddle or the Crickets Cry
Is to Doubt a fit Reply
The Emmets Inch & Eagles Mile
Make Lame Philosophy to smile
He who Doubts from what he sees
Will neer Believe do what you Please
If the Sun & Moon should Doubt
Theyd immediately Go out
To be in a Passion you Good may Do
But no Good if a Passion is in you
The Whore & Gambler by the State
Licencd build that Nations Fate
The Harlots cry from Street to Street
Shall weave Old Englands winding Sheet
The Winners Shout the Losers Curse
Dance before dead Englands Hearse
Every Night & every Morn
Some to Misery are Born
Every Morn and every Night
Some are Born to sweet delight
Some are Born to sweet delight
Some are Born to Endless Night
We are led to Believe a Lie
When we see not Thro the Eye
Which was Born in a Night to perish in a Night
When the Soul Slept in Beams of Light
God Appears & God is Light
To those poor Souls who dwell in Night
But does a Human Form Display
To those who Dwell in Realms of day

§§§

blake spring 1 blake spring 2

PRIMAVERA.

Soe a flauta!
Silencia.
A ave salta
Noite e dia;
Rouxinol
Sob o sol
Pia, pia
Co’ alegria,
Alegria, alegria, pra saudar o ano!

Ó menino,
Exultante;
Ó menina,
Cativante;
Cante o galo,
É imitá-lo;
Voz contente
E inocente
Co’ alegria, alegria, pra saudar o ano!

Sou eu,
Cordeirinho!
Lamba meu
Colarinho;
E que, após, eu
Te tose
E acarinhe o
Teu rostinho;
Co’ alegria, alegria, pra saudarmos o ano!

*

SPRING.

Sound the flute!
Now it’s mute.
Birds delight
Day and night;
Nightingale
In the dale,
Lark in sky,
Merrily,
Merrily, merrily, to welcome in the year.

Little boy,
Full of joy;
Little girl,
Sweet and small;
Cock does crow,
So do you;
Merry voice,
Infant noise,
Merrily, merrily, to welcome in the year.

Little lamb,
Here I am;
Come and lick
My white neck;
Let me pull
Your soft wool;
Let me kiss
Your soft face;
Merrily, merrily, we welcome in the year.

(william blake, trad. de matheus mavericco)

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