poesia, tradução

momtchílo nastassíevitch (1894-1938)

MomciloNastasijevic1a

momtchílo nastassíevitch (no original, Момчило Настасијевић, nascido em gornji milanovac, 1894 – morto em belgrado, 1938), foi um importante poeta, ensaísta, dramaturgo & contista de vanguarda sérvio. trabalhou a vida inteira como professor de de francês no ensino médio, na cidade de belgrado; mas também se dedicou à música como amador. apesar da sua importância, hoje, sobretudo pela influência na obra de vasko popa, nastássievitch permaneceu isolado, sem reconhecimento público para além de um pequeno grupo de admiradores; como aidna por cima viveu pouco, publicou apenas três obras em vida, & foi só apenas após a sua morte que o baú foi aberto.

segundo aleksandar javanovic, “Montchílo é autor de uma obra única, uma espécie de não-língua, minimalista, ainda não valorizada à altura pela crítica”. o que se pode notar nos poemas abaixo é uma concisão aliada a uma imagética inusitada, uma espécie de uso muito apropriativo da linguagem comum, que parece recrudescer ao silêncio, algo que também pode apontar para o hermetismo italiano, bem como para a poesia de paul celan, contemporâneo de vasko popa.

só encontrei dois poemas traduzidos para a língua portuguesa: “mágoa de pedra”, em tradução poética de aleksandar jovanović, presente na coletânea céu vazio: 63 poetas eslavos, que saiu nos anos 90 pela editora hucitec; e “enterro”, em trad. de josé alberto de oliveira, que encontrei num blog. assim, me aventurei a traduzir mais dois poemas: “ideia”, a partir de uma tradução francesa, e “pedinte, a partir do inglês.

peço encarecidamente aos falantes de sérvio que vertam mais dessa figura impressionante para o português. nós merecemos.

guilherme gontijo flores

* * *

Mágoa em pedra

1

Nem verbo, nem verso, nem ruído
narram minha mágoa;

e arco-íris fátuo
céu e terra
o arco ata e ata.

2

Parto e a fortuna
fundo me arraiga.

E grito
e no peito feito faca
um grito se finca.

3

Aqui com sangue aqui
com a mãe em volta.

Desperto auroras
e no triste entardecer
sumo além-serras.

4

Da matéria mudo
triste amigo emerge.

E triste ave pia
e o bosque verdeja.

5

E machado irado
carvalho corta;

e lobo ao cordeiro — ossos que o dente mói;
mudo é tudo mudo
amigo fiel da mágoa.

6

Liberdade ao escravo — fujo longe
e mais fundo aqui.

E bênção ao túmulo
ao berço e maldição —
dívida prorrogada.

7

Tudo chama —
e fico.

Raiz na pedra,
tranco o arco da mágoa.

8

Ao sofredor de coração manso
o estrondo da aurora soa estranho.

no próprio ombro,
seu vulto luzido fixa.

9

Nem verbo, nem verso, nem ruído
narram minha mágoa;

e arco-íris fátuo
céu e terra
o arco ata e ata.

Туга у камену

1

Ни реч, ни стих, ни звук
тугу моју не каза;

А дуге свеудиљ неке
небо и земљу
спаја и спаја лук.

2

И кренем, и родна коб
све дубље ме корени.

И крикнем,
и у срце као нож рођени зарије се крик.

3

И крвљу ту па ту
матером у круг.

А свићем са зорама,
а с вечери сетно
нестаје ме за горама.

4

И немо из твари тугом
објави се друг.

И тугом зацвркуће тица
и зазелени луг.

5

И секира кад љуто
засече дуб;

и јагњету вук, – кости кад млави зуб;
немо све свему тугом
верни остане друг.

6

Слобода робу, – одбегнем далеко,
а све дубље ту.

И благослов што гробу
колевци проклетство неко, –
одужити дуг.

7

Све зове, –
остајем.

Кореном у камену
тузи затварам круг.

8

Патнику из тиха срца
то чудно пукне зоре цик.

И чудно,
на рамену себи,
светли свој сагледа лик.

9

Ни реч, ни стих, ни звук
тугу моју не каза.

А дуге свеудиљ неке
небо и земљу
спаја и спаја лук.

(trad. de aleksandar jovanović)

§

Enterro

1.

O toque é para ele:
deitado num caixão –
com a cara amarela.

Os seus companheiros da tropa –
a roupa rude que vestem,
e os dedos tamborilam.

E o céu azul –
e as sombras
tornam a estrada bela.

2.

Enterraram-no com decoro.
Pregaram uma cruz de madeira,
depois um nome: Subotic Stano,
escrito legivelmente

para que a mãe ou a esposa
o possam encontrar
e quem quer que o ame.

3.

O toque é para ele:
deitado num caixão –
com a cara amarela.

E o céu azul –
e as sombras
tornam a estrada bela.

ПогреБ

1

Зàпева му труба,
у ковчегу опружен он,
и жут.

И другара војника
чохом по кожи рука груба
добује лагано.

А небо плаво,
и сенке шарају пут.

2

И погребли га ваљано:
Крстачу поболи,
па име, Суботић Станко,
читко по њој—

мајка да га нађе
или љуба,
или ко га воли.

3

Зàпева му труба.
у ковчегу опружен он,
и жут.

А небо плаво,
и сенке шарају пут.

(Tradução de José Alberto Oliveira)

Ideia

1

Silente, estranhamente,
súbito deslumbra, —
e alada me busca, ela.

Auroras nonatas
que o galo me canta;
o fundo do mar arcaico
escuto o sino que interpela.

2

Alegre-se,
o que você atrela
vive mundano.

E a alma
ainda gela;

e o vazio
que costura os dias, —
quem te visita é ela.

3

E por milagre
me deslindo em matas
a endireitar veredas.

E lágrima de alegria
me orvalha a sobrancelha.

4

E pela terra estéril, súbito,
sinto a lufada de abril.

Nesta solidão
não vou sozinho.

Em meio a meus refúgios sei
seus passos mil.

5

E inquietação,
ao fim tudo se anima.

Com o abismo, com a fonte,
água sagrada.

E voa de peito a peito
aliviada.
6

A teia e a aranha
que sinistra a tece
velam pela seda.

E na alma,
luz em seu voo,
cresce uma asa leda.

7

Silente, estranhamente,
súbito deslumbra, —
e alada me busca, ela.

Auroras nonatas
o galo me canta;
o fundo do mar arcaico
escuto o sino que interpela.

Мисао

1

Tишином чудно
све ми засветли —
крилата походи ме она.

Нерођених зора
запоју ми петли;
са дна искон-мора
потонула, чујем, брује звона.

2

Радуј се,
свему си спона,
покоји у теби сви живе.

И душа
тузи што склона;
и празнином што
дани засиве —
у походе то спрема ти се она.

3

И чудом,
у непроход ме сплету,

путање исправе се криве;
и радосница суза
ороси ме кам.

4

И кроз голет ме, у маху,
дах заструји априла.

У самоћи то
не остадох сам:
тајно је кроз потаје моје, знам,
нога њена била.

5

И неспокоји
у покој сви оживе.

Са бездан са извора
потеку воде свете.
Благе од срца срцу
вести полете.

6

Мрежи то, и пауку,
злослуто што је плете,
приснива се свила.

Души то,
светли за лет,
тајно израстају крила.

7

Тишином чудно

све ми засветли —
крилата походи ме она.

Нерођених зора
запоју ми петли;
са дна искон-мора
потонула, чујем, брује звона.

(trad. guilherme gontijo flores, com consulta da versão francesa de jean-marc bordier)

§

Pedinte

É recuperação,
que empesta a noite.
Terra meu corpo,
caminha.
O horror assola
umbrais de deus onde ficaram.

Muito te afligi, mãe,
pela recuperação tranquila.
Ah, é pouco
para dor do teu ventre.

Assim, pedinte
sem filhos gerados
neste horror primevo,
quando caminha.

Pois não há luz
ao brilho da pupila.
nem canto de consol,
o horror inato que não venço é a peste.

Me oferecem doença, mãe,
pra cada sussurro de Deus,
meu presente pra eles,
eu, pedinte, cantante.

Божјак

Пребол је.
Кужи ова ноћ.
Земља ми тело.
Ходи он.
Залапи гроза
на стопе Богу где остале.

Много те, мајко, болело
рад ово тиха пребола.
О, мало ли је
за муку твоје утробе.

То божјак
да не родим сина
у овој грози од искони,
кад ходи он.

Јер нема зоре,
на зенице ил не заплави,
ни блага поја не,
радну ли ову грозу не прекужим.

Обол ми пруже, мајко,
по дрхтај Бога
ја њима на дар,
божјак ја распевани.

(trad. guilherme gontijo flores, a partir da versão inglesa de edward goy)

 

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s