poesia

“A coroa de João”, de Leonardo Antunes

11088274_10152855063457861_4761602841431150782_n C. Leonardo B. Antunes (Sâo Paulo, 1983) trabalha como professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. É poeta, tradutor e crítico. Fez sua formação acadêmica (bacharelado, mestrado e doutorado) na USP. Publicou, em 2011, o livro Ritmo e Sonoridade na Poesia Grega Antiga: Uma tradução comentada de 23 poemas, fruto de seu mestrado, em que fez reconstruções rítmicas da lírica grega. Tem se dedicado à tradução integral de Anacreonte, das Anacreônticas e dos Hinos Homéricos. Suas traduções (e criações próprias) podem ser vistas em seu blog e ouvidas em seu canal do youtube nas versões musicadas.

* * *

A coroa de João

Ninguém soube o motivo ou a razão
No dia em que João chegou cansado,
Depois de um turno duplo e um baseado,
Trazendo um trinta-e-oito em sua mão.

Não era o que esperassem de João,
Um moço sempre tão bem-comportado,
Avesso aos maus costumes e ao pecado,
Assim como se espera de um cristão.

Entrando em casa, foi de sala em sala,
A fim de despedir-se dos parentes –
Da mãe, da avó e da irmã recém-nascida.

Então, depois dos beijos, veio a bala:
Cravou-a à própria testa, penitente,
João com seu revólver suicida.

§

I

Ninguém soube o motivo ou a razão:
Por mais que investigassem sua vida,
Nenhuma das pessoas envolvidas
Sabia o que ocorrera com João.

Os jornais transmitiram a questão –
Por noite e dia, muito foi ouvida.
A gente toda, toda entristecida,
Lamentava o destino de João.

Existe alguma coisa que se abala,
Alguma coisa fundamentalmente
Humana posta à luz num desgraçado,

Que grita mesmo quando a boca cala.
Nenhum silêncio assim se fez presente
No dia em que João chegou cansado.

§

II

No dia em que João chegou cansado,
Segundo consta em laudo oficial,
Não lhe notaram nada especial
Exceto porventura ter fumado

E segurar na mão, já carregado,
O trinta-e-oito que ele, por final,
Disparou contra o lobo temporal
Às dez horas, conforme registrado.

A análise post-mortem simplesmente
Confirmou a suspeita da família
De tudo estar correto, nada errado,

Com o jovem João de Sá Clemente,
Que aos vinte e dois findou sua vigília
Depois de um turno duplo e um baseado.

§

III

Depois de um turno duplo e um baseado,
João chegou em casa do serviço
Mais tarde que o normal, pois antes disso
O jovem nunca tinha se atrasado.

Às vezes, na iminência de um feriado,
Voltava, sim, mais tarde, mas por isso
A todos avisava, que de omisso
João não poderia ser culpado.

Porém, o que chocou a todos mais
Do que esse atraso fora da rotina,
Foi ver chegar em casa o bom João

Drogado, tropeçando nas vogais,
Mas pleno de certeza e de endorfina,
Trazendo um trinta-e-oito em sua mão.

§

IV

Trazendo um trinta-e-oito em sua mão,
Desde a boca em que foi para comprá-lo,
João foi caminhando com regalo,
Oculto pela imensa solidão.

À noite, ali, naquela escuridão,
Era impossível de outro alguém notá-lo
Senão pela fumaça que, num halo,
Marcava a apoteose de João.

Que se sentisse quase sobre-humano
Apenas por saber-se inteiramente
Humano em seu destino ao rés do chão,

Que quisesse voar sobre o oceano,
Viver, amar, gritar como um demente,
Não era o que esperassem de João.

§

V

Não era o que esperassem de João,
Que sempre fora calmo e benfazejo,
Sem nunca demonstrar algum lampejo
De gênio destrutivo ou de paixão.

Em tudo era tão tímido que não
Lhe vinha voz exceto num gaguejo
Apesar das promessas e desejos
Da mãe devota a São Sebastião.

Por isso e pelo tanto que se havia,
Durante a vida toda do menino,
Lhe dispensado todos os cuidados,

A todos era inclaro o que teria
Levado a cometer tal desatino
Um moço sempre tão bem-comportado.

§

VI

Um moço sempre tão bem-comportado
Faria o que João se havia feito?
Que falta de temor ou de respeito
A Deus motivaria tal pecado?

Os líderes da igreja, consternados,
Apontavam inúmeros preceitos
Segundo os quais não há nenhum direito
De um homem se furtar ao tempo dado.

À luz da sacrossanta liturgia,
Alguém que se mostrasse tão descrente
Devia ser chorado ou condenado?

Assim se questionava noite e dia:
“João havia sido realmente
Avesso aos maus costumes e ao pecado?”

§

VII

Avesso aos maus costumes e ao pecado,
O povo se ocupava, com intento,
De definir um fim ao julgamento
De quem morrera sem se ter julgado.

Havia os mais modestos, por um lado,
Que criam no mais nobre fundamento
De serem todos, desde o nascimento,
Em tudo que falharem, perdoados.

Outros, mais moderados, sustentavam
Que falha involuntária se difere
Daquilo que em que falhara o vil João.

Por fim, havia os que se limitavam
A repetir tementes “miserere”,
Assim como se espera de um cristão.

§

VIII

Assim como se espera de um cristão,
João teve a memória de seus atos
Julgada no concílio dos beatos,
Que iria averiguar-lhe a salvação.

Por sete dias, dentro do salão,
Foi sopesado fato sobre fato,
Mas igualaram-se, por fim, os pratos
Na balança dos feitos de João.

Sem outra alternativa, o Vaticano,
Enviou, após múltiplos atrasos,
Um emissário idoso, de bengala,

A fim de investigar o crime arcano.
Determinado a resolver o caso,
Entrando em casa, foi de sala em sala.

§

IX

Entrando em casa, foi de sala em sala
O augusto inquiridor beneditino,
Analisando os passos do assassino,
Que recriava ao toque da bengala.

Depois, principiou, com branda fala,
Porém sonora e clara como um sino,
A interrogar acerca do menino
Com notas que trouxera em sua mala.

Desejava saber com precisão
Que tipo de pessoa João era,
Se tinha algum amigo ou confidente,

Se trazia Jesus no coração,
E o que naquele dia então dissera
A fim de despedir-se dos parentes.

§

X

“A fim de despedir-se dos parentes”,
A mãe lhe respondeu, amargurada,
“João, naquela noite malfadada,
Disse que nos amava eternamente.

Falou-nos isso e isso tão somente.
Em seu olhar, contudo, eu vi, marcada,
Alguma dor secreta, de que nada
Havia percebido anteriormente.

Depois, beijou-me a testa com ternura,
Da avó também, também da irmã pequena,
E súbito privou-se então da vida –

Horrífica visão! Pior tortura!
Assim agiu e assim falou, sem pena
Da mãe, da avó e da irmã recém-nascida.”

§

XI

“Da mãe, da avó e da irmã recém-nascida,
João se despediu tal qual te expus.
Quão caro lhe era ao coração Jesus
Irei contar-te às claras em seguida.

Peregrinava para Aparecida
Desde pequeno e para Santa Cruz
Dos Milagres, que enfim fizesse jus
De receber a dádiva pedida.

Assim eu lhe ensinei e assim fazia
Com súplicas sinceras para Deus
Firmar-lhe a boca e endireitar-lhe a fala.

Mesmo no dia em que se mataria,
Beijou-nos sob a cruz os beijos seus.
Então, depois dos beijos, veio a bala.”

§

XII

“Então, depois dos beijos, veio a bala:
Inútil descrever-te tal castigo,
Mas, como perguntaste dos amigos
De João, não irei negar-te a fala

Ainda que vivesse ele a negá-la –
Por gaguejar ao mínimo perigo,
João passava o tempo só consigo,
Como um potro que à torto se encurrala.

Não tinha amigos minha pobre cria.
Ninguém lhe ouvia os torpes pensamentos,
Que a si guardava e para si somente.”

Chorando sobre uma fotografia
Do filho, após o seu depoimento,
Cravou-a à própria testa, penitente.

§

XIII

Cravou-a à própria testa, penitente,
Qual coroa de mêmores espinhos,
Lembrando de seu filho, tão sozinho,
A mãe, que prosseguiu depois, gemente:

“Se queres, por final, ficar ciente
De que caráter tinha o meu filhinho,
Anota que acordava bem cedinho
A fim de trabalhar zelosamente

Seis dias por semana em dois trabalhos,
Que trabalhando um homem se agracia.
Com a carteira às vezes assinada,

Limpava pias, vasos e assoalhos
Até chegar em casa aquele dia
João com seu revólver suicida.”

§

XIV

João com seu revólver suicida,
Ao término do inquérito papal,
Julgou-se um homem santo, sem igual,
Por ter se dedicado em sua vida –

Tão curta, tão tristonha e tão sofrida –
A Deus e aos seus, renunciando o mal,
E tendo perecido por final
Perante a cruz do lar, envelhecida.

Tornou-se assim um símbolo de tudo
Que em vida lhe configurara a morte,
Ainda que morresse por opção.

De seu inesperado fim, contudo,
Por mais que lhe julgassem sua sorte,
Ninguém soube o motivo ou a razão.

§§§

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4 comentários sobre ““A coroa de João”, de Leonardo Antunes

  1. Ricardo Cunha disse:

    Parabéns pela realização. A coroa de sonetos, inclusive pelas singularidades da forma, tende antes a enredar historietas épicas que compendiar canções líricas. É uma interessante forma de renovação da poesia de forma fixa. Felicidades, RicardoC.

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