poesia, tradução

Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin (1799-1837)

Aleksandr Pushkin por Vasily Tropinin

Aleksandr Pushkin por Vasily Tropinin

Alexandr Serguêievitch Pushkin, ou também grafado Aleksandr Púchkin (1799 -1837), é daquelas figuras fundadoras de um povo pelo encontro da língua. é o poeta-romancista moderno, romântico, insano da rússia pré-futurista; foi a figura que conseguiu fazer o vernáculo russo entrar no escalão da literatura de elite, com um gosto pela sátira, a ironia &, por que não?, o sentimentalismo. &, como quase todo tipo de romântico insano & moderno, ele anda em baixa aos olhos dos leitores contemporâneos. aqui no escamandro, temos tentado revigorar esse olhar sobre poetas como goethe, heine, shelley, byron, keats, wordsworth, coleridge, victor hugo, &c.

Pushkin nasceu em Moscou, em 26 de maio de 1799, numa família abastada & com um pé bem posicionado na aristocracia russa, com ascendência materna que dava no czar Pedro, o Grande. Graças a isso, o jovem Alexandr foi estudar no estrangeiro, o que certamente afetou sua visão literária de modo irreversível: a literatura francesa já invadia a biblioteca de seu pai antes mesmo de seu nascimento, & sabemos que o garoto aprendeu a língua francesa ainda muito novo, já que a nobreza russa, no início do séc. XIX, costumava utilizar essa língua & reservar o russo para o contato com os servos da casa. Quando passou a estudar no Liceu imperial, Pushkin passou pela invasão napoleônica (aquele tremendo fracasso bélico!) sobre a Rússia, & também começou a dedicar-se mais ao verso, & é dessa fase que surgem poemas já notáveis como “A janela”, ou “Aspiração”, ambos de 1816 (o poeta tinha 17 anos), com o gosto óbvio pelo romantismo francês, mais sentimental & diluído do que o que encontramos entre os alemães & ingleses. Depois de se formar no Liceu, Pushkin passa a trabalhar como tradutor do francês no Departamento de Assuntos Estrangeiros, em Petersburgo, & a frequentar – com sucesso literário – os salões da nobreza, com essa poesia mais sentimental. No entanto, na mesma época, já surge a verve satírica & o peso da crítica social, que acabam criando uma indisposição do czar contra o jovem, que quase foi exilado na Sibéria. Resultado, partiu para o sul do país, Ekaterinoslav. É nesse período que começa, de fato, sua vida boêmia, no ambiente provinciano, o que também revelará uma influência grande da poesia de Byron em poemas como “Os ciganos” & “Os irmãos salteadores”. É também nesse período, a partir de 1823, que ele começa a escrever Евгений Онегин (Eugênio Oneguin ou Eugene Oneguin), que é considerada por muitos a sua obra mais importante & lhe tomaria cerca de 8 anos, para só ter sua primeira versão completa em 1833: aqui a fusão entre gosto sentimentalista, inversões byronianas e cuidado realista forjam um processo literário impressionante, numa escrita marcada pelo uso do soneto como estrofe. A grande artimanha narrativa do poema é a figura de um narrador irônico, capaz de longos devaneios & intervenções inesperadas (algo de do Tristam Shandy de Sterne com a condensação da poesia), de sugerir sua falta de onisciência ao mesmo tempo em que parece – por assumir a figura pública do próprio Pushkin — identificar-se com o herói Oneguin. Tal como seu herói, Pushkin também teve de ir para Odessa; lá, por ter tido um caso com a esposa do general-governador Vorontsov, acabou sendo novamente afastado tanto da cidade como do funcionalismo público, além de ser proibido de receber visitas; exilado em Mikháilovskoie, ele escreve a tragédia Bóris Godunov.

Em 1825 houve a famos sublevação dos dezembristas, que tentou em vão derrubar o czar; Pushkin, exilado, apoiava mas não participada do movimento; por isso, acabou sendo perdoado por Nicolau I, enquanto vários outros foram para a forca. Ainda nesse ano sai sua primeira grande antologia de poemas (Bóris Godunov demoraria mais cinco anos, por censura do czar), que teve sucesso imediato. Mas a vida do poeta continuou atribulada: no período subsequente ele faz poemas para os dezembristas,  viaja a Petrogrado, é inquirido pela polícia a respeito do poema “André Chenier” (que, apesar de ter trechos censurados, circulou em versão completa com o título de “Ao 14 de dezembro”, a data da sublevação fracassada), passa por Petersburgo, pede a mão de uma jovem em casamento (mão recusada pelo pai da moça, já que o poeta andava com problemas políticos recorrentes), volta a Moscou, escreve a epopeia Poltav, dentre várias outras coisas, ruma para o Cáucaso, Malínniki, Petersburgo, para enfim voltar a Moscou & pedir, com sucesso, a mão de Natália Gontcharova (ou Goncharova, a quem ele dedica o soneto “Madona” & com quem teve 4 filhos), em 1831, mesmo ano que que encerra seu Oneguin. Depois disso ainda vai escrever muito, como Novelas do finado Ivan Petróvitch Bélkin, ou a série das Cenas dramáticas. De volta a uma vida de corte, agora casado com uma mulher belíssima & cortejada, Pushkin então faz dívidas exorbitantes para manter um padrão de vida além de suas capacidade, além de pedir mais & mais empréstimos. Escreve A história da rebelião de Pugachov, que foi um fiasco entre os leitores, além de lhe render uma acusação de subversivo. Em seguida, por bater de frente com o czar (recusou um cargo oferecido exatamente para humilhá-lo), Pushkin quase foi novamente exilado, porém voltou atrás. Na falta de dinheiro, voltou sozinho para Mikháilovskoie & deixou Natália na corte. Na ausência do marido, o oficial francês George Dantès, então membro da guarda czarista, passou a tentar seduzir a jovem; ao saber que o caso era de conhecimento geral, Pushkin o desafiou para um duelo; esse primeiro duelo foi cancelado com o anúncio de que Dantès se casaria com uma irmã de Natália; porém o assédio continuou; Pushkin fez graves acusações; & dessa vez foi Dantès que o desafiou. Em 8 de fevereiro de 1837, tal como o poeta Lensky do seu Oneguin, Pushkin sofreu um tiro que lhe pegou no estômago, embora ainda tenha feito um disparo que atingiu seu adversário na mão, para então agonizar ao longo de dois dias. Como não poderia deixar de ser, seu funeral foi vigiado pela polícia, que receava algum tipo de insurreição vinculada às posições políticas de Pushkin; tudo foi feito com razoável sigilo; o enterro foi noturno; uma peça sua que estava em cartaz foi encerrada; apenas Turguiêniev pôde participar do ritual.

Para este post, escolhi dois trechos de Eugênio Oneguin: uma passagem do capítulo 5, com o sonho de Tatiana (também apelidada Tânia), que anuncia simbolicamente todo o horror do duelo entre amigos, que resultará na morte de Lensky pelas mãos de Oneguin no capítulo 6; outra do capítulo 8, em que vemos o herói depois de ler a recusa de Tatiana, quando depois de dois anos ele se apaixona por ela, agora já casada, até que ele decide sair para vê-la pessoalmente.

guilherme gontijo flores

ps: eis as duas traduções brasileiras que conheço para a poesia de Pushkin

PÚCHKIN, Aleksandr Sergueievitch. Poesias escolhidas. Organização e tradução de José Casado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

PUSHKIN, Alexandr. Eugênio Oneguin: romance em versos. tradução do russo para o português por Dário Moreira de Castro Alves. Moscou: Azbooka-Atticus, 2008.

* * *

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898.

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898.

Capítulo 5

XI

Tânia tem sonho atormentado.
Sonha que está a percorrer
Um campo frígido, nevado,
Que a escuridão vem envolver.
E na nevasca, logo à frente,
Em fúria aturde uma torrente
Túrbida, crespa, enegrecida,
Pelo inverno não contida;
Eis que dois paus, que o gelo prende
(Qual perigosa pontezinha),
Cruzam o rio que ao fundo vinha;
E ao ver o abismo que se estende,
Perplexidade a dominou,
E foi então que ela estacou.

XII

Como em separação sofrida,
Vem Tânia ao rio a murmurar:
Não vê uma só mão estendida
Que lhe auxilie a atravessar.
Em meio à neve algo mexeu,
E o que de novo apareceu?
Um urso, o pelo arrepiado;
Com medo Tânia solta um brado!
Urrando, a fera as garras tende.
Tânia tremeu mas dominou-se,
Contra o animal ela apoiou-se
E a passo trépido, se entende,
Que o ribeirão atravessou;
E agora? O urso a não largou.

XIII

Olhando só para diante
Estuga o tímido pisar;
Mas do peludo acompanhante
Não pode Tânia se esquivar;
Camba e já grunhe o bicho odioso.
O pinheiral silencioso,
De uma beleza tão sombria,
Deixa pender a ramaria
Que a neve fez ficar pesada;
Ao choupo, à bétula e à tília
Clareiam astros em vigília;
Sem rumo tudo é a derrocada
Ante o nevão que desabou
E muita coisa soterrou.

XIV

Ei-la no bosque, o urso ao lado;
Ao seu joelho a neve alcança;
Pelo pescoço entrelaçado,
Um galho longo que balança
De um golpe arranca-lhe um brinquinho;
Na neve o esplêndido pezinho
Perde o sapato lá metido;
Vendo o seu lenço ao chão caído,
Não quer pegá-lo, por temer
O grande urso que está perto,
Treme-lhe a mão, pudor de certo
Tem, pois, de a saia suspender;
Corre; o animal mantém o passo;
E ela então vence o cansaço.

XV

Na neve Tânia lá tombou;
Com jeito o urso a vai levar;
Inerte, dócil ela se achou,
Sem se mover nem respirar;
Com ela vai por um caminho;
Até que chega a um ranchozinho,
Em denso bosque inabitado,
Todo de neve acobertado,
Tendo à janela luz brilhante;
Dentro, conversa está em curso,
“É meu compadre” — diz o urso,
“Entra e aquece-te um instante!”
E porta adentro vai passando
E Tânia ao chão já vai deixando.

XVI

Tânia recobra; e procurando
Urso, não o vê; ouve do umbral
Gritos e copos tilintando
Como em grandioso funeral
Sem perceber o que escutou,
Por uma fresta ela enxergou,
Estranhos monstros lá sentados
Em torno à mesa e congraçados:
Tem chifre um, fuça de cão;
Crista de galo outros, porém;
Barba caprina uma bruxa tem;
Com cauda à vista eis um anão;
Cá, esqueleto sem ornato,
Lá, meio grou e meio gato.

XVII

Ainda mais tira o bom descanso:
Crustáceo aranha vê montar,
Crânio em pescoço nu dum ganso
Com rubro gorro voltas dar;
Moinho a vento que dançando
As velas faz tremer, guinchando;
Latidos, cantos, risos, chascos,
Humanos sons, bater de cascos![31]
Mas que haverá pensado ela
Quando entre o bando divisou
O homem que teme, e a quem amou —
Ele, o herói dessa novela!
Eugênio à mesa está sentado,
E a porta espreita disfarçado.

XVIII

E a sinal seu — tudo a agitar;
Se ele beber — já beberão;
Se ele sorrir — vão gargalhar;
Se franze o cenho — calarão;
La manda ele, com certeza;
Tânia, passada a sua surpresa,
E mais curiosa se sentindo
Um tanto a porta vai abrindo…
Soprava o vento e em instantes
Já os tocheiros se apagaram;
Então os monstros recuaram,
Eugênio, os olhos chamejantes,
Com estridor já faz que sai;
Todos de pé, e à porta vai.

XIX

Tânia tem medo; e prontamente
Tudo ela faz por escapar;
Mas sem poder, já impaciente
Ela se agita e quer gritar;
Não pode; Eugênio a porta abriu
E o olhar da malta recaiu
Sobre Tatiana; e ela escutou
Um feroz riso que atroou;
A ela, olhares se voltaram —
Cascos, e trombas recurvadas,
Línguas em sangue, mãos secadas,
Caudas e presas se mostraram,
E cornos; veem a mocinha
E forte gritam: “É minha! É minha!”

XX

“É minha!” — Irado, Eugênio brada,
E logo os monstros se sumiram;
Na noite escura e enregelada,
A sós os dois então se viram.
A Tânia, Oneguin gentilmente
Coloca em frágil banco à frente,[32]
Deixa a cabeça mergulhar
No ombro dela, a repousar.
Eis Olga entra num instante,
Lenski também; há um clarão,
Recua Eugênio e eleva a mão,
Com o fero olhar, um tanto errante,
Critica quem não esperava;
Quase a morrer Tatiana estava.

XXI

Na altercação que sucedeu,
Com faca Eugênio, num instante,
A Lenski pronto ele abateu;
No escuro, grito lancinante,
Tânia em terror já despertava…
O quarto dela claro estava;
Pela janela inda embaçada
Vê o carmesim da madrugada;
Abriu-se a porta. Olga assomou,
Leve andorinha era ela agora
Mais rósea que a boreal aurora;
A Tânia, Olga perguntou:
“Uma questão eu te proponho,
A quem tu viste no teu sonho?”

XII

Tânia, na irmã não atentando,
Fica na cama, livro à mão,
Folha após folha vai passando,
E nada diz, nem mesmo um não.
Embora o livro não mostrasse
Um só poema, o mais fugace,
Nem preleções de doce idílio,
Ou de Racine, ou de Virgílio,
Nem Byron, Sêneca ou Scott;
Nada de moda ou de gravura,
Presa ela estava à sua leitura:
Era isso, amigos, que se anote,
Martin Zadeck, mago caldeu,[33]
A interpretar o sonho seu.

§

Capítulo 8

XXXV

E assim ele releu, sem escolher,
Obras de Gibbon e Rousseau,
Manzoni, Herder, por prazer,
Leu Staël, Bichat, Tissot,
A Bayle, o cético, já leu,
A Fontenelle não temeu,
E a Chamfort; russos reviu
Certo é que nada ele excluiu —
Nem almanaques nem jornais
Onde sermões são repisados
Em que hoje estou entre os visados,
Mas vejo às vezes madrigais,
Feitos a mim, talvez certeiros,
E sempre bene, cavalheiros.

XXXVI

E eis que seus olhos então liam,
Mas longe iam os pensamentos;
No cavo d’alma revolviam
Sonhos desejos e tormentos.
Por entre as linhas lá riscadas
Sua alma via as não traçadas.
Mas era nestas tão-somente
Que se engolfava sua mente:
Eram arcanas tradições,
Espectros que a nada são ligados:
Medos, rumores, predições;
Ou banais lendas de novela,
Ou mesmo cartas de donzela.

XXXVII

E aos poucos cai em letargia,
Quer no sentir, quer no pensar,
No sonho então, do faro via
Cartas diversas, ao azar.
Vê sobre a neve já desfeita,
Um moço ao qual de longe espreita,
Deitado em abrigo adormecido,
E ouve uma voz “— Foi abatido!”
Ou vê rivais ora olvidados,
Caluniadores e poltrões,
Traidoras jovens aos montões,
Círculos que são despudorados,
Ou uma quinta, em que à janela
Se senta ela… e sempre ela!…

XXXVIII

E tanto disso se ocupou,
Que quase perde a sua mente,
Ou quase poeta se tornou
(Seria uma bênção, francamente!).
Mas em verdade: o magnetismo
Do verso russo — o mecanismo
Inda não tinha em sua mão
O meu aluno um falastrão.
Como ao poeta semelhava
Quando, num canto se encolhia,
Frente à lareira que fulgia,
A Benedetta trauteava
Ou Idol mio, deitando nela
Ora revista, ora chinela.

XXXIX

Os dias vão. Com a tepidez
Do ar, o inverno está por pouco;
Poeta, Eugênio não se fez
E não morreu, não ficou louco.
Na primavera se animou;
Dos aposentos que lacrou,
Onde hibernou como marmota,
Sai ele agora em alva rota,
Com seu trenó vai deslizando
Pelo Neva, por vez primeira.
Brincando ao sol, no gelo à beira,
Blocos azuis vai escavando.
Nas ruas sulcos sobre a neve;
Mas para onde, em passo breve

XL

Avança Oneguin?

§

Notas do Autor

[31] Comentaristas condenaram as palavras blop (chascos), molv (sons) e top (bater) como neologismos indiferentes. Essas palavras são fundamentalmente russas. “Bova saiu da tenda para apanhar algum ar fresco e ouviu em campo aberto os sons do homem e o bater do corcel” (O conto de Bova, o príncipe). Hlop é usado na fala simples do povo em vez de blópanie (batição), como ship no lugar de shipénie (chiar):
Ele emitiu um chiado como um silvo de uma cobra
(Antigos poemas russos)
Não se deve interferir com a liberdade da nossa rica e bela língua.
[32] Um dos nossos críticos, assim parece, encontra nessas linhas uma indecência incompreensível a nós.
[33] Livros divinatórios em nosso país saem com a impressão de Martin Zadeck — uma pessoa de valor que nunca escreveu livros divinatórios, como observa B. M. Fiodorov.

(trad. de Dário Moreira de Castro Alves)

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