poesia, tradução

Alaíde Foppa (1914 – ?1980), por Luciano R. Mendes

alaíde foppa

Alaíde Foppa foi poeta, crítica de arte, professora, tradutora & ativista feminista, nasceu 1914, em Barcelona, porém tinha ascendência guatemalteca por parte de mãe e argentina por parte de pai. Ela também viveu na Argentina e na Itália, antes de se radicar na Guatemala (onde teve um caso com o então presidente Juan José Arévalo, donde nasceu seu primeiro filho) e depois seguir para o México, ainda nos anos 1940. Passou boa parte de sua vida exilada no México, com sérios problemas com a política da Guatemala, no México também se casou com o guatemalteca Alfonso Solorzano,  teve mais dois filhos e escreveu a maior parte da sua obra. Foi nesse período que ela fundou a revista FEM. Publicou as poesias de: Las palabras y el tiempoLa sin ventura, Elogio de mi cuerpoLos dedos de mi manoAuque es de noche Guirnalda de primavera.

No dia 19 de dezembro de 1980, quando estava na Guatemala renovando seu visto, foi sequestrada & desapareceu sem deixar rastros. É provável que, pelas suas posições políticas, ela tenha sido assassinada a mando do governo do general Fernando Romeo Lucas Garcia, então presidente da Guatemala.

Agradecemos a Ricardo Domeneck, que nos apresentou esse ciclo impressionante de poemas & a Luciano R. Mendes, que de pronto o traduziu.

escamandro

Elogio ao meu corpo

1. Os olhos

Mínimos lagos tranquilos
onde tremula o fulgor
de minhas pupilas
e cabe todo
o esplendor do dia.
Espelhos límpidos
que acendem a alegria
das cores.
Janelas abertas
frente a lenta passagem
do tempo.
Lagos por lágrimas alimentados
e por naufrágios remotos.
Lagos noturnos adormecidos
habitados pelos sonhos
ainda brilhantes
sob as pálpebras fechadas.

2. As sobrancelhas

Asas curtas
estendidas sobre minhas pálpebras
apenas guardam
o escasso espaço
em que flutua
uma interrogação latente,
ao que assoma
assombro permanente.

3. O nariz

Quase um apéndice
na serena geometria
de meu rosto,
única reta
na gama de curvas suaves
o instrumento sutil
que me une ao ar.
Odores cândidos
aromas acres
fragrâncias densas
de flores e especiarias
– desde o anís até o jasmín-
inala trêmulo
meu nariz.

4. A boca

Entre lábio e lábio
quanta doçura guarda
minha boca aberta ao beijo
estojo em que os dentes
mordem frutos vívidos
bacia que se enche
de sucos intensos
de vinhos ágeis
de água fresca
onde a língua
leve serpente de delícias
ondula com brandura
e se aninha o milagre
da palavra.

5. As orelhas

Como duas folhas
de árvore alheia
nascem dos lados
da minha cabeça.
Pelo tronco escondido
desliza
a opulência
dos sons
me alcançam
as vozes vivas
que me chamam.

6. O cabelo

Doce serpentina de trepadeira
única vegetação
na terra terna de meu corpo
erva fina
que segue crescendo
sensível à primavera
sombria asa
contra minha têmpora
suave abrigo sobre a nuca.
Para minha nostalgia de ave
meu penacho de plumas.

7. As mãos

As mãos
débeis, incertas
parecem
objetos vãos
para o brilho dos anéis,
só as preenche
o que foi perdido,
se esticam para a árvore
que não alcançam
mas me dão a água
da manhã
e até o rosado
contorno das minhas unhas
chega o batimento.

8. Os pés

Já que não tenho asas
bastam-me
meus pés que dançam
e que não cessam
de correr pelo mundo.
Pelos campos floridos
correu meu pé ligeiro
deixou seu rastro
na areia úmida
buscou caminhos esquecidos,
trilhou as duras calçadas
das cidades
e sobe pelas escadas
que não sabe onde chegam.

9. Os seios

São duas plácidas colinas
que apenas
são dois frutos delicados
de pálidas enervações
foram duas taças cheias
providentes e nutritivas
em plena estação
e seguem alimentando
duas flores em botão.

10. A cintura

É a ponte vibrante
que reúne
duas metades diferentes,
é o caule flexível
que mantém
o torso erguido
inclina meu peito
cansado
e governa o macio
balanço dos quadris.
Agradecida
adorno minha cintura
com um laço de seda.

11. O sexo

Oculta rosa palpitante
no sulco escuro,
poço de estremecida alegria
que incendeia em um instante
o turvo curso de minha vida,
secreto, sempre inviolado,
ferida fecunda.

12. A pele

É tão frágil a trama
que um espinho a rompe,
tão vulnerável,
que o Sol a queima,
tão suscetível
que o frio a arrepia.
Mas também percebe,
minha pele fina,
a doce gama
das carícias
e meu corpo sem ela
seria nua ferida.

13. Os ossos

Louvo
a roupagem débil
a aparência
o semblante fugidio.
E quase que esqueço
a obediente armação
que me sustenta,
O engenhoso manequim,
o ágil esqueleto
que me carrega.

14. O coração

Dizem que é do tamanho
de meu punho fechado.
Pequeno, então,
mas basta
para por em movimento
tudo isso.
É um operário
que trabalha bem,
ainda que anseie descansar,
e é um prisioneiro
que espera vagamente
escapar.

15. As veias

A floração azulada
das veias
desenha labirintos
misteriosos
sob a cera de minha pele.
Suave hidrografia
apenas visível,
ágeis vias que levam
desejos e venenos
e íntimo alimento.

16. O sangue

Flui em segredo a corrente
de meu sangue veloz.
Imenso é o rio
que em subterrâneos meandros
amadurece
e alimenta o âmbito
de minha vida profunda.
A corrente cálida
que me inunda
na flor da ferida
se derrama.

17. O sonho

Em ninho tão suave
meu coração descansa,
não o assombram
os fantasmas perdidos
que assomam.
Passa por meu sonho
a calma onda
de meu hálito.
Em meio ao esquecimento
o tempo do amanhã
se prepara,
enquanto vivo
efêmera morte.

18. O fôlego

Não sei de onde vem
o vento que me leva,
o suspiro que me consola,
o ar que compassadamente
move meu peito
e alenta
meu voo invisível.
Eu sou apenas
a planta que estremece
com a brisa,
submisso instrumento
a flauta graciosa
que ressoa
com um sopro de vento.

(trad. Luciano R. Mendes)

Elogio de mi cuerpo

1. Los ojos

Mínimos lagos tranquilos 
donde tiembla la chispa 
de mis pupilas 
y cabe todo 
el esplendor del día. 
Límpidos espejos 
que enciende la alegría 
de los colores. 
Ventanas abiertas 
ante el lento paisaje 
del tiempo. 
Lagos de lágrimas nutridos 
y de remotos naufragios. 
Nocturnos lagos dormidos 
habitados por los sueños, 
aún fulgurantes 
bajo los párpados cerrados.

2. Las cejas

Las breves alas 
tendidas sobre mis párpados 
sólo abrigan 
el espacio escaso 
en el que flota 
una interrogación latente, 
al que asoma 
un permanente asombro.

3. La nariz

Casi un apéndice 
en la serena geometría 
de mi rostro, 
única recta 
en la gama de curvas suaves, 
el sutil instrumento 
que me une al aire. 
Cándidos olores 
acres aromas 
densas fragancias 
de flores y de especias 
-desde el anís hasta el jazmín- 
aspira trepidante 
mi nariz.

4. La boca

Entre labio y labio 
cuánta dulzura guarda 
mi boca abierta al beso, 
estuche en que los dientes 
muerden vívidos frutos, 
cuenca que se llena 
de jugos intensos 
de ágiles vinos 
de agua fresca, 
donde la lengua 
leve serpiente de delicias 
blandamente ondula, 
y se anida el milagro 
de la palabra.

5. Las orejas

Como dos hojas 
de un árbol ajeno 
nacen a los lados 
de mi cabeza. 
Por el tallo escondido 
se desliza 
la opulencia 
de los sonidos, 
me alcanzan 
las vivas voces 
que me llaman.

6. El pelo

Dulce enredadera serpentina, 
única vegetación 
en la tierra tierna de mi cuerpo, 
hierba fina 
que sigue creciendo 
sensible a la primavera, 
ala de sombra 
contra mi sien, 
leve abrigo sobre la nuca. 
Para mi nostalgia de ave 
mi penacho de plumas.

7. Las manos

Las manos 
débiles, inciertas, 
parecen 
vanos objetos 
para el brillo de los anillos, 
sólo las llena 
lo perdido, 
se tienden al árbol 
que no alcanzan, 
pero me dan el agua 
de la mañana, 
y hasta el rosado 
retoño de mis uñas 
llega el latido.

8. Los pies

Ya que no tengo alas, 
me bastan 
mis pies que danzan 
y que no acaban 
de recorrer el mundo. 
Por praderas en flor 
corrió mi pie ligero, 
dejó su huella 
en la húmeda arena, 
buscó perdidos senderos, 
holló las duras aceras 
de las ciudades 
y sube por escaleras 
que no sabe a donde llegan.

9. Los senos

Son dos plácidas colinas 
que apenas mece mi aliento, 
son dos frutos delicados 
de pálidas venaduras, 
fueron dos copas llenas 
próvidas y nutricias 
en la plena estación 
y siguen alimentando 
dos flores en botón.

10. La cintura

Es el puente cimbreante 
que reune 
dos mitades diferentes, 
es el tallo flexible 
que mantiene 
el torso erguido, 
inclina mi pecho 
rendido 
y gobierna el muelle 
oscilar de la cadera. 
Agradecida 
adorno mi cintura 
con un lazo de seda.

11. El sexo

Oculta rosa palpitante 
en el oscuro surco, 
pozo de estremecida alegría 
que incendia en un instante 
el turbio curso de mi vida, 
secreto siempre inviolado, 
fecunda herida.

12. La piel

Es tan frágil la trama 
que la rasga una espina, 
tan vulnerable 
que la quema el sol, 
tan susceptible 
que la eriza el frío. 
Pero también percibe 
mi piel delgada 
la dulce gama 
de las caricias, 
y mi cuerpo sin ella 
sería una llaga desnuda.

13. Los huesos

Alabo 
el tibio ropaje 
la apariencia 
el fugitivo semblante. 
Y casi olvido 
la obediente armazón 
que me sostiene, 
el maniquí ingenioso, 
el ágil esqueleto 
que me lleva.

14. El corazón

Dicen que es del tamaño 
de mi puño cerrado. 
Pequeño, entonces, 
pero basta 
para poner en marcha 
todo esto. 
Es un obrero 
que trabaja bien, 
aunque anhele el descanso, 
y es un prisionero 
que espera vagamente 
escaparse.

15. Las venas

La floración azulada 
de las venas 
dibuja laberintos 
misteriosos 
bajo la cera de mi piel. 
Tenue hidrografía 
apenas aparente, 
ágiles cauces que conducen 
deseos y venenos 
y entrañable alimento.

16. La sangre

Secreto corre el torrente 
de mi sangre rápida. 
Inmenso es el río 
que en subterráneos meandros 
madura 
y nutre el ámbito 
de mi vida profunda. 
La cálida corriente 
que me inunda 
en la flor de la herida 
se derrama.

17. El sueño

En tan blando nido 
mi corazón descansa, 
ni lo asombran 
los perdidos fantasmas 
que se asoman. 
Pasa por mi sueño 
la ola calma 
de mi respiro. 
En tanto olvido 
el tiempo de mañana 
se prepara, 
mientras estoy viviendo 
efímera muerte.

18. El aliento

No se de donde viene 
el viento que me lleva, 
el suspiro que me consuela, 
el aire que acompasadamente 
mueve mi pecho 
y alienta 
mi invisible vuelo. 
Yo soy apenas 
la planta que se estremece 
por la brisa, 
el sumiso instrumento, 
la grácil flauta 
que resuena 
por un soplo de viento.

Anúncios
Padrão

Um comentário sobre “Alaíde Foppa (1914 – ?1980), por Luciano R. Mendes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s