poesia

um poema inédito de william zeytounlian

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William Zeytounlian (São Paulo, 1988) é mestre em História e desenvolve pesquisas sobre os usos dos comportamentos silenciosos, práticas de escrita, pornografia e anticlericalismo nos séculos XVII e XVIII. Ainda inédito, seu livro Diáspora tem lançamento previsto para agosto. Também é atleta da seleção brasileira de esgrima.

* * *

FUIT HIC

I.
eu falo a esta terra:
abra-te ao dia;
ousa mostrar-te em face
ao sol que nasce
e se avizinha –

pois o que é o fim,
senão o aço dos prédios
retorcido no horizonte?
…………..é lindo, eu sei
…………..mas o que dizer
…………..das mães procurando os bebês
…………..nas caçambas incontáveis pelas ruas?

e o que dizer-lhes?

se esconder é tua sina,
desmente a nuvem
que arroja contra ti,
e teme antes
o covarde sombrear-se
ao tentar inutilmente:

– tenta-te.

pois o que é o fim,
senão o soldado que entra na cela,
aponta os prisioneiros
e em poucas horas
não são homens,
…………..nem detentos,
…………..nem soldados,
……………………mas pilhas ?

II.
desavergonha tua luta
e sejamos cúmplices:
amanhã não contaremos a ninguém
que um dia se garimpou o lixo
para comprar crack;
………………..amanhã não contaremos a ninguém
………………..que um dia trocamos a audácia de viver
………………..pela senha do wifi de um shopping.

desavergonha tua luta
e sejamos cúmplices:
amanhã não contaremos a ninguém
que foram precisos três dias para colher 75 latinhas,
que isso equivalia a 1kg,
que equivalia a 15 reais
e que essa era a nossa vida indo embora,
escorrendo por entre os dedos.

teu segredo está seguro em nossas mãos,
ninguém saberá da neve falsa no natal da paulista,
ninguém saberá dos vídeos da polícia no youtube,
ninguém saberá das manifestações do dia 15 de março,
ninguém saberá da Folha de São Paulo
ou do batalhão de babás negras em clubes de luxo:
teu segredo está seguro em nossas mãos.

aliás, afortunadamente,
alguém saberá de nós.

III.
caminhamos sobre os escombros de uma escola;
eu tomo nas mãos um pedaço de ruína – nele se lê: fuit hic.

caminhamos sobre os escombros de uma prisão;
eu tomo nas mãos um punhado de terra – nele se lê: fuit hic.

uma gota de água escorre pelo toldo
e cai certeira em minha testa – nela se lê: fuit hic.

aqui era o palácio de governo,
nesse mastro ficava a bandeira já morta – nela se lia: fuit hic.

nas biqueiras de chopp da Augusta: fuit hic.
nas calçadas do centro velho: fuit hic.
nos cortiços da Luz: fuit hic.
na moça estuprada brutalmente na República: fuit hic.
no sapato na vitrine do Shopping JK: fuit hic.
na marca de borracha no asfalto da Raposo: fuit hic.

em cada esperança espoliada por um punhado de votos
em cada corpo carbonizado entre pneus de caminhão
em cada vogal ou consoante num rap do Racionais
em cada sorriso ao ver que o carnaval renascia
em cada sílaba de nossa vida conjugada na procela dessa contradição

precisamente ali, em letras minúsculas, mas bem gravadas

fuit hic fuit hic fuit hic
fuit hic fuit hic
fuit hic

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