poesia

Bruno Nascimento de Abreu (1992-)

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Bruno Nascimento de Abreu nasceu em 1992, em Ribeirão Preto, SP. Morou por 18 anos em Piracicaba e atualmente reside em São Paulo. É artista plástico e cursa o segundo ano de filosofia na Faculdade de São Bento.

* * *

No fim da tarde o céu se ensona
feito um gato nas alturas
da despensa do mundo.

Tudo tenta voltar pra casa
num alvoroço,
e meu silêncio busca abrigo
nesse poço entre edifícios
junto às vozes ecoando sem caminho.

§

I

O silêncio após o almoço,
após a fome e a exaustão do gosto
é uma espécie de surdez,
zunido estanque
do que está perto demais.

A satisfação embrigada busca abrigo
na distância dos carros sorvendo
a lonjura da avenida.

Agora o que há é entremeio.
Não miramos, nem nada
nos mira, mas é algo
que nos usa pra mirar
mal.

Grogues cobaias da gula, a memória
nao a retemos mais, esgarça
até que adquira sua trôpega autonomia:
a de um irmãozinho de velotrol
indo e vindo
pela sala até cansar
– a esse fenômeno chamamos sono.

Nessas horas até acreditamos
que seja possivel viver numa só tarde,
grande e inevitável como essa.

Como uma vaca escondida na imensidão verde
e rasteira do seu próprio alimento,

ou,
sou um gramado incontornável
e a tarde me rumina, vesga.

A satisfação, essa coisa
tão finita e tão cheia,
agora se confunde
com a abundância mais mirrada
e rasteira do futuro

que, tão gratuito e fora de mim,
me abriga,
pasto infinito.

II

O silêncio agora é essa carteira que jaz aberta
em cima da mesa
como se pedisse esmola
como se pedisse uma mão
como se não pedisse nada
em sua magreza misteriosa
sua desdenhosa auto-suficiência.

Como se pudesse comprar tudo
como se pudesse
se perder como a outra
sem que lembremos
quantas notas tinhamos botado lá,

tamanha a bebedeira.

III

Como sempre, tínhamos prometido
que não iríamos mais
fazer isso.

IV

Porém, basta ter dedos para uma mão embrenhar-se
em si mesma

e esquecer de segurar
coisas.

V

O futuro é a maior das consolações,
mão que ainda não segura nada,
não nos segura ainda o braço.

VI

A cesura e o hermético caminham juntos
feito o curto cabo do guarda-chuva
e a cobertura negra que finalmente
se levanta feito uma gruta
um eclipse particular
a levar a chuva, a ausência de sol
sempre mais para longe.

Vamos nos protegendo até ficarmos ensopados,
longa a caminhada.

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