crítica de tradução, poesia, tradução

Emily Dickinson e suas traduções – parte V

[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte II (a tradução de Ivo Bender), parte III (Isa Mara Lando), parte IV (Augusto de Campos)]

Retrato tipográfico de Emily Dickinson, por Kenneth Rougeau

Retrato tipográfico de Emily Dickinson, por Kenneth Rougeau (fonte). E, sim, caso ninguém tenha reparado, meio que acho que já usei todos os retratos de época da poeta que eu tinha à disposição.

Para quem ainda lembra, já passou e muito da hora, creio, de retomar esse ciclo de postagens. Depois de vermos uma breve introdução, a tradução de Ivo Bender, a de Isa Mara Lando e de Augusto de Campos, a 4ª que eu tinha ficado de ver era a tradução de José Lira, no volume A Branca Voz da Solidão, publicado pela editora Iluminuras em 2011.

A Branca Voz da Solidão é especial e – aliás, foi isso que me fez demorar mais para enfim tratar dele – é o volume mais longo das traduções da Dickinson, pelo menos de que tenho notícia: são 351 páginas, com 245 poemas. Eles estão divididos em três seções, sobre as quais irei me demorar mais abaixo (é um pouco complicado). É, de fato, um trabalho braçal muito chato o de listar tudo, mas sinto que é preciso, e, sim, eu sei que a lista completa está também no site da UNESP, mas, de novo, tem o problema das seções em que cada poema entra, o que determinou a técnica tradutória utilizada por Lira e que não faz parte da lista da UNESP, porque a análise deles é quantitativa e óbvio esse dado mais detalhado nem é dever deles computar. Diferente das outras vezes, porém, agora eu não vou listar esses poemas aqui, no corpo da postagem, porque são muitos e ia ocupar um espaço considerável, dificultando muito a leitura casual. Em vez disso, organizei a lista (que espero que esteja correta… infelizmente sempre há a possibilidade de erro humano nessas transcrições) num arquivo .pdf que pode ser conferido clicando aqui.

Com isso fora do caminho, podemos agora falar das escolhas tomadas pelo tradutor. Como ele comenta no texto introdutório, essa divisão tripartida deriva, ainda que não necessariamente aderindo de forma estrita às concepções originais, da clássica divisão dos elementos retórico-poéticos determinada por Ezra Pound no ensaio “How to Read” (1927), retomada depois no seu famoso ABC da Literatura (1934), sendo esses elementos: a melopeia (o aspecto sonoro do poema, sua prosódia, ritmo, etc), a fanopeia (as imagens poéticas) e a logopeia (um pouco mais difícil de explicar, mas é “a dança das palavras no intelecto”, algo sobre o que o poeta faz com o sentido). Como aponta o Gontijo num post antigo daqui do blog com várias traduções para o poema do carrinho de mão de William Carlos Williams, podemos pensar a tradução como uma foto (2D, portanto) de uma estátua tridimensional, de modo que “todo original pede um número infinito de traduções”, porque a tradução é feita de escolhas e cada escolha vai priorizar um ou outro aspecto. José Lira entende bem isso e por esse motivo em cada seção de A Branca Voz… ele seleciona e traduz os poemas com base no aspecto que será priorizado neles, pensando dentro da triangulação de Pound.

branca_voz_capaDesta forma, na primeira seção, batizada de “Uma casa lá no alto”, a prática tradutória empregada é a que Lira chamou de recriação, privilegiando a melopeia. Ou seja, nesses poemas ele tenta recriar a dicção dickinsoniana e, me parece, fica mais próximo do metro, além da sintaxe do original, também buscando reproduzir aliterações e outros efeitos. Para sermos minuciosos nesse aspecto, ao que me parece, as recriações de Lira tendem a manter o mesmo número de sílabas por verso (8 no primeiro verso dos dísticos, 6 no segundo, e assim por diante), se valendo das variações e irregularidades de que já comentamos que se pode observar no original. Quanto às rimas, às vezes são perfeitas, mas com frequência ele emprega uma forma de rima toante, que chama de “abreviada”, em que bate a mesma vogal da tônica das palavras finais (e.g. “vela” e “fé”). Depois, na seção seguinte, “Algo detrás da porta”, Lira faz o que ele mesmo chamou de imitações, i.e. traduções que se afastam mais da forma (apesar de ainda manter os travessões e algo das rimas) para priorizar o discurso de Dickinson, os argumentos propostos pelos poemas, sua lógica própria e tal, enfim o que ele tratou por logopeia (apesar de que, como disse e como é exposto no texto introdutório do volume, os termos poundianos são usados de forma algo frouxa, e o Pound, para variar, era um pouco mais severo com o que julgava que caracterizava ao certo a logopeia). Por fim, a última seção, “O coração assíduo”, é a mais breve e trabalha com invenções (creio que vale lembrar que a terminologia recriação-imitação-invenção é própria do tradutor e não derivada de nenhuma teoria específica pré-fabricada), agora descartando por completo a forma original dos poemas para se concentrar na sua imagética (fanopeia, portanto). Nós já vimos um pouco disso no volume de traduções de Lando, que termina com o que ela chama de “faixas bônus”, onde, por exemplo, chega a fazer uma tradução, muito divertida, em versão de fado de “As if the sea should part”. Mas agora Lira faz isso de forma sistemática e visando aplicar um viés mais explicitamente moderno e modernizante sobre as imagens de Dickinson, o que envolve estrofes mais frouxas, uso de verso livre, fragmentação e muitas vezes citações alheias que cortam os poemas, a fim de dar-lhes um aspecto de poesia que poderia ter sido escrita recentemente (pense no trabalho de algumas das traduções mais radicais de Pound, como a sua Homenagem a Sexto Propércio, por exemplo).

No geral, achei que é um modo bastante engenhoso de estruturar o volume e oferecer mais de uma perspectiva sobre a poeta em questão. Talvez tivesse sido interessante, imagino, o exercício de se traduzir um mesmo poema qualquer através dos três enfoques diferentes para demonstrar como cada abordagem afeta as decisões tradutórias tomadas, o que, por sua vez, afeta também a seleção feita, porque se imagina que o tradutor vai incluir cada poema na seção que o favoreça mais, e um poema que fosse altamente melopaico, logopaico e fanopaico (que certamente há de ser encontrado no corpus da poeta), traduzido das três formas, deixaria isso bem claro. Mas óbvio que esse meu comentário é só um “e se…?”, longe de mim criticar aquilo que não está no volume, mas acredito que isso poderia deixar mais fácil para o leitor entender o que está sendo feito aqui. O trabalho de Lira é louvável: como um tradutor mais do que competente, empenhado e de fôlego (é fácil traduzir um ou dois poemas da Dickinson… agora quando alguém traduz mais de 200, há de se tirar o chapéu) e um cara que pensou a fundo sobre a tradução, o seu A Branca Voz da Solidão enriquece e muito a fortuna tradutória de Dickinson em português. Isso é inquestionável, acredito.

No entanto, apesar de ser o volume mais completo, não sei se posso indicá-lo tranquilamente para alguém que nunca leu Dickinson na vida, ao tal leitor médio de poesia, especialmente o que não domina o inglês (pois é, e aqui eu talvez esteja fazendo um mea culpa também, porque às vezes a gente esquece que, a princípio, quando traduzimos algo, temos em mente alguém que não lê o idioma do original, pois, do contrário, ele leria o original) e que não é especialista em matéria de literatura, que não sabe de cor os conceitos de elementos de poesia de Ezra Pound (ninguém é obrigado, afinal). Não dá para saber o quanto essa figura hipotética – o leitor médio, não acadêmico, que nunca leu nada de Dickinson e que não sabe o suficiente de inglês oitocentista para lê-la no original – vai absorver das invenções, por exemplo. A introdução do volume também parece direcionada a alunos de estudos da tradução, discutindo não tanto os temas da poesia de Dickinson ou mesmo sua biografia, mas mais coisas como as minúcias dos problemas textuais (a não-fixação do que seria a versão final de alguns poemas) e as justificativas para as escolhas tradutórias. Mesmo o Ivo Barroso, em comentário para a Folha de 2007 (aqui), resenhando uma versão anterior dessa edição, intitulada Alguns Poemas, parece afirmar algo parecido quando a descreve como “tradução para tradutores”. Não que isso seja uma falha fatal no livro ou qualquer coisa assim, mas, para quem não sabe quem é a Emily Dickinson (como eu mesmo, para dar um exemplo, não sendo leitor do alemão, não tinha lá muita noção de quem era o Heine antes de ler a tradução do André Vallias), talvez fosse mais conveniente começar com uma edição como a do Augusto (e acho que o post inicial deste ciclo de postagens deve ser útil também). Para quem é da área, porém, toda a questão sobre tradução e transcriação e melopeia-fanopeia-logopeia em torno da Dickinson provavelmente renderia um belo trabalho de monografia/dissertação/tese, considerando o quanto essa discussão dá pano para manga.

Dito isso, selecionei 6 poemas (2 recriações, 2 imitações e 2 invenções) engenhosamente traduzidos, a fim de ilustrar o que disse aqui. E, por fim, acho que isso conclui (de forma vergonhosamente tardia, eu sei) a proposta inicial deste ciclo de postagens. Há algumas outras edições de traduções da Dickinson, menos conhecidas, acredito, e que planejo ir comentando também conforme for tendo acesso a elas.

Adriano Scandolara

 

                                    Recriações

 

A luz tem certa Obliquidade
Nas Tardes Hibernais
Que nos oprime, como o peso
De Sons de Catedrais –

Fere com Celeste Chaga –
Não se vê cicatriz –
Mas onde estão os Sentidos
Um íntimo matiz –

É o Selo do Desespero –
Não o explica – Ninguém –
Uma imperial angústia
Que pelo Ar nos vem –

Chega – a Paisagem fica à escuta –
As Sombras – a arquejar –
Parte – é assim como na Distância –
A Morte nos mirar –

 

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons –
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes –

Heavenly Hurt, it gives us –
We can find no scar,
But internal difference –
Where the Meanings, are –

None may teach it – Any –
‘Tis the seal Despair –
An imperial affliction
Sent us of the Air –

When it comes, the Landscape listens –
Shadows – hold their breath –
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death –

 

O Éden é aquela velha Casa
Que ocupamos na vida
E não se dá por residência
Até nossa partida.

Tão belo o Dia, na lembrança,
Que da Porta nos vamos –
Sem darmos conta do retorno
Nunca mais a achamos.

 

Eden is that old-fashioned House
We dwell in every day,
Without suspecting our abode
Until we drive away.

How fair, on looking back, the Day
We sauntered from the door,
Unconscious our returning    
Discover it no more.

 

                                    Imitações

A Incerteza – é mais Cruel que a Morte –
A Morte – por mais ampla –
É a Morte só, não há como aumentá-la –
Incerteza – não cansa –

Mas morre – e volta à vida novamente –
E morre – e outra vez nasce –
Um Aniquilamento – arraigado
À Imortalidade –

 

Suspense – is Hostiler than Death –
Death – tho’soever Broad,
Is Just Death, and cannot increase –
Suspense – does not conclude –

But perishes – to live anew –
But just anew to die –
Annihilation – plated fresh
With Immortality –

 

Lá fora as coisas não são diferentes –
As Estações – se escoam –
Enfloram-se as Manhãs no Meio Dia
E abrem Botões de Fogo –

Flores selvagens iluminam Bosques –
Não sossega o Riacho –
O Sabiá não baixa o som do Banjo
Ao Calvário que passa –

O Auto da Fé e o Dia do Juízo
Nada são para a Abelha –
É a separação da sua Rosa
Que na Miséria a deixa –

 

It makes no difference abroad –
The Seasons – fit – the same –
The Mornings blossom into Noons –
And split their Pods of Flame –

Wild-flowers – kindle in the Woods –
The Brooks slam – all the Day;
No Black bird bates his Banjo –
For passing Calvary –

Auto da Fe – and Judgment –
Are nothing to the Bee –
His separation from His Rose –
To Him – sums Misery –

 

                                    Invenções

É claro que rezei
mas Deus não me prestou
a menor atenção

  (Deus ó Deus
    onde estás)

Foi como se um passarinho
batesse o pé no céu
  e gritasse
  “ME DÁ”

  Minha vida a razão
eu só devo essas coisas a você
  mais consideração
era repor meus átomos no pó
um mudo nada mas feliz
  não esta aguda
  aflição

 

Of Course – I prayed –
And did God Care?
He cared as much as on the Air
A Bird – had stamped her foot –
And cried “Give Me” –
My Reason – Life –
I had not had – but for Yourself –
‘Twere better Charity
To leave me in the Atom’s Tomb –
Merry, and Nought, and gay, and numb –
Than this smart Misery.

 

Ato I
    o encontro
Ato II
    a perda
Ato III
    a expedição em busca
    do Tosão de Ouro
Ato IV
    nada é descoberto
Ato V
    nada de argonautas
    nada de Tosão
    nada de Jasão
        (The End)

Finding is the first Act
The second, loss,
Third, Expedition for
The “Golden Fleece”

Fourth, no Discovery –
Fifth, no Crew –
Finally, no Golden Fleece –
Jason – sham – too.

(poemas de Emily Dickinson, tradução de José Lira)

Padrão

2 comentários sobre “Emily Dickinson e suas traduções – parte V

  1. Carlos Daghlian disse:

    Adriano, gostei muito dos seus comentários sobre as traduções de poemas de Emily Dickinson por José Lira.

    Entretanto, gostaria de fazer duas observações: 1. Você não deixou claro que José Lira publicou dois livros diferentes, ALGUNS POEMAS (2006) e A BRANCA VOZ DA SOLIDÃO (2011), com um total de mais de quinhentos poemas traduzidos. 2. José Lira fez algumas traduções em mais de um formato: o último poema que você cita, extraído das Invenções, é um exemplo, pois está nas recriações no primeiro livro.

    Tudo de bom.

    Carlos Daghlian, responsável pelo site

    http://www.ibilce.unesp.br/emilydickinsoninbrazil

    • Opa, Carlos! Desculpa a demora p/ responder, mas gostaria de dizer que é uma grande honra receber um comentário seu aqui no nosso blogue, o trabalho que vocês fazem nesse site é importantíssimo e muito admirável. Obrigado pelas observações. Realmente me equivoquei aqui. Acabei só tendo acesso ao “Branca voz” e imaginei que o “Alguns poemas” fosse uma edição anterior, agora vou ter que ir atrás p/ poder comparar melhor ahaha.

      Tudo de bom p/ você também, e obrigado!
      Um abraço,
      A.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s