poesia, tradução

Um soneto sacro de John Donne, por Matheus Mavericco

John Donne, por  Martin Droeshout, 1633

John Donne, por Martin Droeshout, 1633

John Donne (1572 – 1631) faz parte daquele grupo de poetas ingleses que posteriormente recebeu a imprecisa alcunha de “poetas metafísicos”. Após uma juventude boêmia, da qual resultaram alguns dos poemas mais tesos da língua inglesa, Donne entrou numa carreira clerical e foi ordenado pastor pela Igreja Anglicana em 1615. É dessa fase, não necessariamente após sua conversão ao anglicanismo, que datam os chamados “Sonetos Sacros”. Junto ao conjunto também de sonetos “La Corona”, são exemplares acerca não só da faceta sacra que a poesia de Donne assumiria a partir de então, como também exemplares no contexto geral da poesia barroca inglesa (vide, por exemplo, a poesia de George Herbert e Richard Crashaw) e da poesia barroca de modo geral (basta lembrar as dualidades profanas e sacras de Gregório de Mattos).

O soneto aqui traduzido é o décimo da sequência dos dezenove “Sonetos Sacros”. Dizem que Donne se adoentou por essa época e quase morreu. Mas sua fé era maior e a própria concepção de morte havia mudado o suficiente para que ele não se amedrontasse. Seu temor e sua devoção eram a Deus tão somente: outros sonetos da sequência, por exemplo o décimo quarto (que guarda a infeliz efeméride de ter batizado a experiência Trinity, o primeiro teste nuclear da história…), se inscrevem numa postura de flagelamento em prol da fé. A um poeta que em poemas anteriores havia conseguido poetizar o impoetizável, como ao falar de uma pulga, ou unir elucubração de matizes filosóficos e strip-tease, como na sua décima elegia (que foi parcialmente musicada por Caetano Veloso tendo como base a tradução de Augusto de Campos), Donne adota uma espécie de postura sacro-sadomasoquista. Veja-se a primeira estrofe do soneto XIV:

Meu coração, Trindade Santa, sova
Pra que o abata, abrande, brilhe e emende
E eu de novo levante; e então distende
E vergue e quebre e queime e me renova.

Houve quem dissesse que na sua poesia religiosa Donne quietou o faixo, se comparada com a poesia da juventude, mas não é bem por aí. Frank Kermode já mostrou que o famoso “wit” (algo parecido com o conceito de “engenho” na poesia ibérica) não havia abandonado o poeta nestes seus sonetos. É impossível não observar a inventividade metafórica, imagética e argumentativa que os poemas continuam ostentando, por exemplo. No caso do décimo soneto sacro, é só observar o terceiro quarteto, que, valendo-se de um esquema enumerativo nos dois primeiros versos que remetem à ideia certo modo onipresente que a Morte assumia no medievo, cai, nos dois restantes, no tom geral de desafio do soneto, mesclando inclusive uma referência a ervas que fazem dormir. Não é o tipo de coisa que se espera encontrar num poema religioso…

Pois a respeito disso que me referi sobre a mudança de concepção acerca da Morte, é salutar se compararmos o soneto de Donne com o poema “Os Versos da Morte”, de Hélinand de Froidmont. Escrito durante o século XIII, o poema é um dos primeiros a personificar a morte e a descrevê-la em seus tons implacáveis ainda hoje correntes. A Morte vem e acaba com tudo, é o que o poema quer nos dizer, sem deixar, claro, de manter um poderoso fundo religioso (Froidmont foi monge e também teve um passado libertino). Valendo-me da tradução de Heitor Megale para a edição da Ateliê, bastaria olharmos o começo da estrofe 28: “O que vale o que o século faz? / A morte logo tudo desfaz.” A sobreposição do poder temporal sobre o poder secular é visível, e, embora na estrofe 14 denuncie os falsos clérigos, na estrofe 46 diz: “A Igreja sabe, há muito tempo, / Qual é o bom, qual é o mau”. A concepção da morte, sendo assim, espelha uma maneira de manter a ordem na Cidade de Deus, cada um no seu quadrado e se preocupando, acima de tudo, em manter a fé (visto em especial na estrofe 26). A outra via, a de se aproveitar a vida partindo do princípio que, como não há como escapar da morte mesmo!…, característica do “carpe diem” (apregoado à exaustão por Robert Herrick, por exemplo, contemporâneo de Donne), é tratado no poema de Froidmont de maneira caricatural (estrofes 34 a 39).

O que muda com Donne é em grande parte uma mudança histórica. O homem barroco, frente ao infinito, ao fausto advindo das Grandes Navegações, ao nascedouro das ciências e das nações (e a Inglaterra, sem dúvidas, era ponta de lança em todo este processo, embora não tenha se lançado direta ou ostensivamente na predação colonial), adotava uma postura dúbia em relação à religião. A poesia dos “metafísicos” é rica em exemplos acerca disto; mas, para me limitar ao soneto em questão, posso muito bem apontar a já aludida valentia com que o eu lírico desafia a Morte, chegando até mesmo a dizer que a Morte morrerá. Quantos de nós, mesmo hoje, teríamos a audácia de dizer algo assim?! Em Froidmont, a fé era, como em Donne, fortaleza; mas Froidmont não chega a negar o poderio da Morte, mesmo considerando que você seja uma pessoa de fé inabalável. No caso de Donne é diferente, pois, mesmo na sua poesia religiosa, ele ressalta caracteres humanos. Se no soneto XIV, como creio que o leitor possa ter percebido só na primeira estrofe, o desejo era de que o corpo estraçalhado ao infinito como que refletisse o influxo da Santa Trindade no corpo da pessoa, aqui é a Morte corporificada que é levada a suas tensões mais basilares. Donne, como de certo modo todo barroco, é um poeta exagerado, e, do mesmo modo que sua postura penitencial no soneto XIV chegou às raias do masoquismo, sua compreensão da morte em sua dimensão humana, no soneto X, chegou às raias do pé de igualdade. Não quer dizer que, de todo, Donne tenha realmente menosprezado a morte. Na verdade, ele tem confiança pois está ao lado de Deus, e essa confiança de estar ao lado de Deus o permite menosprezar a morte: a morte morrerá depois do Juízo Final.

Fiquemos com o soneto. Quem quiser um excelente texto a respeito dos Sonetos Sacros de Donne poderá ler a dissertação de mestrado (UFSM, 2005) de Marcus De Martini, O sacro e o oblíquo: para uma tradução dos Sonetos Sacros de John Donne. É de Martini, em conjunto com Lawrence Flores Pereira, Traduzindo La Corona, de John Donne (2009). A tradução da faceta sacra da poesia de Donne é um fruto do terceiro momento de Donne no Brasil, conforme a divisão de José Garcez Ghirardi (John Donne e a crítica brasileira, editora AGE). Enquanto o primeiro foi representado pelas traduções de Augusto de Campos (primeiro em Verso, Reverso, Controverso, editora Perspectiva, e depois, expandido, em O Anticrítico, editora Cia das Letras), o segundo é representado por Paulo Vizioli (John Donne, poeta do amor e da morte, editora JC Ismael), o qual, apesar de ter traduzido alguns dos sonetos sacros, deu um enfoque muito maior à poesia juvenil do autor barroco. Já o terceiro, representado por Afonso Félix de Sousa, foi o que realmente se interessou de forma mais intensiva pela faceta sacra de Donne, o que a tradução do ciclo completo, mais La Coronna, facilmente o atesta. Seguem-se nomes como o de Aíla de Oliveira Gomes (Poesia Metafísica, editora Cia das Letras), Marcus de Martini, Paulo Henriques Britto (volume 4 da revista Inimigo Rumor) e, há um mês atrás, André Vallias (aqui).

A tradução de Afonso Félix de Sousa aparece aqui de forma parcial pois não tive acesso à obra (Sonetos de Meditação, editora Villa Rica). Cito com base no trecho analisado da dissertação de Marcus De Martini.

Matheus Mavericco

§

trad. Matheus “Mavericco”.

Morte, não te enalteças. Quem chamar-te
Forte e terrível, erra, pois não és,
E quem pensas matar, Morte, ao invés,
Não morre, nem matar-me é tua arte.
Descanso e sono, que de ti são parte,
Aprazem ― mais aprazem através
De ti, e os homens curvam-se a teus pés
Logo que o espírito do corpo aparte.
Serva da aflição, reis, destino e sorte,
Tu moras no veneno, guerra e doença;
Porém se ervas nos dão a sonolência,
Então por quê intumesces tanto, ó Morte?
Na vida eterna acorda ele que jaz:
Morte não é mais. Morte, morrerás.

§

trad. Jorge de Sena.

Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado
Poderosa e terrível, porque tal não és,
Já que quantos tu julgas ter pisado aos pés,
Não morrem, nem de ti eu posso ser tocado.
Do sono e paz que sempre a teu retrato é dado
Muito maior prazer se tira em teu revés,
Pois que o justo ao deitar-se com tua nudez
Ossos te deita e não seu esprito libertado.
Escrava és de suicidas, e de Reis, da Sorte;
Venenos, guerras, doenças são teus companheiros;
Magias nos dão sonos bem mais verdadeiros,
Melhores do que o teu golpe. Porque te inchas, Morte?
Despertamos no Eterno um breve adormecer,
E a morte não será, que Morte hás-de morrer.

§

trad. Paulo Vizioli.

Oh, Morte, não te orgulhes, pois ruim
Como dizem não és, medonha e forte;
Quem pensas que abateste, pobre Morte,
Não morre; nem matar podes a mim.
Se o sono, o teu retrato, agrada assim,
Contigo fluirá melhor a sorte;
E o bom, ao conhecer o teu transporte,
Descansa o corpo e se liberta enfim.
Serva de reis, destino, acasos e ânsia,
À droga, à peste e à guerra te associas;
E adormecem-nos ópios e magias
Mais que teu golpe. Então, por que a jactância?
Um breve sono a vida eterna traz,
E, vai-se a morte. Morte, morrerás.

§

trad. Afonso Félix de Sousa.

Orgulhosa não sejas, morte, embora te pensem
Poderosa e medonha, porque não és assim;
Porque esses, a quem pensas ter dado um fim,
Não morrem, pobre morte, e nem a mim tu vences.
Se do repouso e sono, tua imagem de calma,
Vem prazer, muito mais de ti deve fluir,
E contigo os melhores se aprontam para ir
Descansar dos seus ossos, e libertar sua alma.
(…)
E a morte sumirá. Morte, tu morrerás.

§

trad. André Vallias.

Donne Vallias

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