crítica, poesia

Gramiro de Matos, por Leonardo D’Avila

ramiro

Para além da experimentação, o Gramiro de Matos da combatividade
Por Leonardo D’Avila

A poesia e a prosa de Gramiro de Matos posterior aos livros Urubu-rei, de 1972, e Os morcegos estão comendo os mamãos maduros, de 1973, permanece praticamente desconhecida ao leitor brasileiro. Até a atualidade, o autor é facilmente reconhecido como um dos maiores escritores da contracultura do país ao lado de outros amigos seus, como Torquato Neto ou Waly Salomão. Mas pouco se conhece do rumo posterior do autor, quando passou a apresentar um maior engajamento em seus textos, mesmo tendo mantido um pouco do estranhamento que marcou suas primeiras experiências literárias.

Uma das (im)possíveis explicações à menor divulgação desses textos pode estar na ausência de Gramirão no Brasil em função de sua partida rumo à África e Portugal, entre 1974 e 1978, a fim de estudar as relações entre a poesia brasileira e a poesia que surgia em outros países lusófonos. Não era raro entre os artistas brasileiros ligados a uma proposta contracultural a partida rumo à África na busca por alguma experiência singular de vida. O maior exemplo dessa saga africana se encontra nas cenas dançantes de Maria Esther Stockler registradas por José Agrippino de Paula, em 1972.

Gramiro, por sua vez, esteve na África em um momento de lutas anticoloniais. Mesmo que não se possa afirmar que seus textos sejam biográficos ou que tenham alguma diretriz conceitual evidente, sua grafia no papel durante esses anos condiz com uma maior belicosidade na escrita. Ganha fôlego na poesia de Gramiro a tendência em tornar a língua um lompo de batalhas, de modo que o Quimbundo em Angola, o Crioulo em Cabo Verde ou o nheengatu — a quase desaparecida língua-geral do Brasil — são trazidos à escrita diretamente de maneira abrupta e, por diversas vezes, sem mediação tradutória. Fragmentos de línguas de resistência ou de outras perdidas convivem com um português que perdeu a completamente majestade. Esse combate em línguas chega a ser um motivo estudado em sua tese de doutorado intitulada A influência da literatura brasileira nas literaturas africanas de língua portuguesa, defendida em 1978, tendo financiada pela fundação Calouste Gulbenkian. Mesmo assim, o combate verbal não consiste em um motivo acadêmico imposto à força à sua poesia. Muito mais plausível é acreditar no contrário. O combate em línguas, isto é, a emergência de um idioma estranho arranhado pela rebeldia ou pela falta (sugestiva) de revisão editorial dos textos, já se mostrava em poemas como sua lírica um, que saiu no Suplemento Literário de Minas de 12 de abril de 1973, portanto, anteriormente à sua partida à África e à ida sem volta para uma poesia mais engajada.

 lirica-1-gramiro

A direção rumo a um engajamento não retirou o trabalho formal com a linguagem que deu fama rápida ao autor, cujos textos muitas vezes beiram o ponto da ilegibilidade. De uma maneira completamente barroca, o poeta aproxima um poema Quechua em honra à morte de Ataualpa com sua tradução ao castelhano por José Maria Arguedas em 1955. Os fragmentos do poema do século XVI e do trabalho tradutório do escritor peruano do século XX encontram-se reordenados em uma composição que traz uma ilustração do artista plástico Humberto Guimarães e que distorce os fragmentos originais e procura traduzi-los por palavras em inglês e português em uma imagética do preto, branco e vermelho: asfalto, espelho e sangue.

capa-conspiracaoO romance histórico-experimental A Conspiração dos Búzios (no prelo, a ser publicado pela editora Cultura e Barbárie nos próximos meses) escrito entre 1975 e 1977, por sua vez, também traz novas questões para uma compreensão mais abrangente do poeta. A “narrativa” parte do tema da Inconfidência Baiana, mas dispõe personagens históricos fora de uma história oficial ou iconografia padrão, haja vista que são retratados enquanto componentes de um plano arquitetado por Orixás. Tem-se no conflito baiano anticolonialista e antiescravista, uma determinada batalha dentro de uma guerra anticolonial muito maior, que apenas se completaria séculos mais tarde com a Revolução dos Cravos em Portugal e na consequente descolonização da África. A obra, mesmo que seja em prosa, não deixa de trazer uma sintaxe não convencional, passagens altamente poéticas e apresenta certa dose de experimentalismo. O livro é organizado à maneira de um roteiro cinematográfico com sete cenas de enforcamento dos revoltosos e traz ao leitor jogos de adivinhações no meio do texto. E, se não bastasse o ecletismo, Gramirão, ão, ão, desenvolve suas cenas, seus lamentos e suas brincadeiras em um misto de tempo histórico real, tempo mítico e tempo psicológico.

No Pelourinho, onde vivem muitos vagabundos, “os seres humanos mais livres” como dizia LUCAS DANTAS, na Praça de Quinze Mistérios, porque entre outras singularidades houve uma tremenda guerra de santos entre encantados nagôs, jejês, indígenas e espíritas liderados por Oxóssi, Caboclo Malembá e Cobra Cauã contra os decifradores, adivinhos, astrólogos e alquimistas estrangeiros que tentavam descobrir os mistérios para o Império continuasse dono do poder absoluto da cidade, ameaçada pelos orixás, que teriam elaborado e escondido os enigmas, onde estariam informações da grande conspiração anticolonial em curso. Entre os mistérios a serem descobertos estariam principalmente as fórmulas de fazer e desaparecer o dia, de matar o sol e da conquista do fogo, além de fabricar a chuva, armas consideradas perigosíssimas nas mãos dos encantados. (A Conspiração dos Búzios, Rio-Lisboa-Paris, 1975-1977)

De qualquer maneira, o maior legado dos poemas e da prosa de Gramiro de Matos posterior a Os morcegos estão comendo os mamãos maduros, consiste em estabelecer uma escrita que não se resume a um puro formalismo da linguagem, tendo em vista seu engajamento, sua luta em línguas, muitas vezes até demasiadamente explícitos. O empenho de sua letra apenas se realiza e em concomitância com uma expressão de anarquia que se dá na superficialidade do texto. E a ilegilibidade, característica tão própria de Gramiro, nesses seus textos produzidos após 1973, ganha uma nova roupagem de combate, que evita que as opiniões políticas apresentem-se como mero panfleto na medida em que se mostram uma indominância, quase animal, da disposição das palavras: sin-taxe.

Sin-Taxe-o-Utro

Homem Que Indomina
…………………………………Semânticas/Sintaxe
S/infor-ma ……………….Sin-taxi
…………………………………Outr-o lad-o-utro
K/om-lingua-gens Kom-sema
Animal Que Rumina
………………………………………….Lisboa, 78

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s