crítica, poesia

Luís Aranha, por Matheus José Mineiro

luís aranha

E não sinto meu peso sobre a terra
Porque meu corpo é um jato de luz! . . .”
A poesia de Luís Aranha

Em 15 de junho de 1922 os aviadores portgueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral chegam ao Rio de Janeiro num hidroavião, realizando a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Em 10 de junho de 2015 saio do interior da Zona da Mata Mineira e retorno para o estômago claudicante da metrópole fluminense, sentindo, atônito, a estranheza de êxodo rural, vendo arranha–céus, rodovias empapuçadas de automóveis, os moinhos e içadores da região portuária, a alta velocidade e etc. É com esta mesma ebulição da ciência, da indústria, das grandes máquinas, do automóvel, das corporações, do cinematógrafo, da teoria da relatividade à fase embrionária da metrópole paulistana que surgem os 26 poemas escritos por Luís Aranha e entregues ao seu amigo Mário de Andrade no ano de 1922. Trabalho que sugeriu, com expressividade tônica, este entrechoque e esta aproximação entre as transformações tecnológicas com o poema, este material místico.

Trecho do Poema Pneumático pág – 70

Não há mais 75 cavalos
Nem velocidade cor de vidro
Os roncos do motor
O vento estortega
E desmancha meu cabelo .

*

Trecho de Poema Pneumático pág – 70

O sorriso feliz dos transeuntes
Letreiros luminosos
Anúncios luminosos

*

Trecho do poema Minha Amada pág – 72

teu rosto é um disco de Newton
Teu rosto um quadrante
Uma roda
Uma hélice
Um ventilador
Fui um discóbolo

*

Trecho do poema Paulicéia desvairada pág – 97 

nem o sismógrafo de Pachwitz mede os tremores do teu coração

*

Trechos do poema Crepúsculo pág – 99

andar com a força de todos os automóveis
Com a força de todas as usinas
Com a força de todas as associações comerciais e industriais
Com a força de todas as empresas agrícolas e as explorações de linhas férreas
Os capitais amontoados em pilhas elétricas

Assim como há o caso Rimbaud, há também o caso Luís Aranha. Nascido em São Paulo em 17 de maio de 1901, entre 1920 e 1922 travou amizade com Ronald, Mário, Oswald, Anitta e Tarsila, participando também das atividades da Semana de Arte Moderna. Neste mesmo ano, na revista Klaxon, publica apenas quatro poemas, são eles: “Aeroplano”, “Paulicéia Desvairada”, “Crepúsculo” e “Projetos”. O restante de sua obra só era conhecida através de um longo ensaio que lhe dedicou seu amigo Mário de Andrade, dez anos após o poeta abandonar a poesia. É bem típico na historiografia da produção poética brasileira autores e autoras caírem no esquecimento, na penumbra e na esclerose que tange a atividade , absolvição e levantamentos de material poético. Exemplos não cessam ao longo do panorama tipográfico do Brasil.

O poeta numa das clássicas fotos da Semana de Arte Moderna – Luís Aranha está sentado na cadeira do centro, acima de Oswald de Andrade.

O poeta numa das clássicas fotos da Semana de Arte Moderna – Luís Aranha está sentado na cadeira do centro, acima de Oswald de Andrade.

Certa vez, pesquisando diversas antologias de poesia ibero-americana, latino-americana e hispano-americana, me deparei com a antologia Aviones  Plateados – 15 Poetas Futuristas Hispanoamericanos com seleção e prólogo de Juan Bonilla. Foi uma experiência apetitosa e ímpar  ler este diamante de poetas, entre eles, Alfredo Ferreiro, Juan Marín, Oquendo de Amat, porém o que mais me instigou foi a seleção de apenas dois poetas brasileiros: Mário de Andrade e Luís Aranha. A partir de então, alucinado e satisfeitíssimo com as leituras, que pareciam nutrientes e alucinógenos, parti para uma escavação na vida e obra deste cometa que passou pela produção poética sem ter, em vida, publicado livro.

Vale ressaltar as ferramentas, até então de raro uso,  usadas por Luís Aranha na construção dos seus poemas, como os dados que se articulam, como as notícias num jornal ou seqüência de cenas num filme. A justaposição com poucos conectivos. Recursos gráficos, diagramação e espaçamento. Incorporação de técnicas fílmicas, como planos variados, fusões e flash backs.

Diante deste século 21, carregando esta mesma sensação de sobrevivência diante de um período de transição – com a aproximação e sofisticação da cibernética, da aceleração da massa energética escura, das novas tecnologias implantadas tanto no campo quanto nas cidades –, bem como minha experiência de deslocamento do interior  para a metrópole fluminense que absorvi o livro Cocktails, organizado por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite, em 1981, pela Editora Brasiliense, onde foram publicados estes 26 poemas  que Luís Aranha materializou  para o universo das letras, pois o autor, pós Semana a de 22, foi aventurar-se na diplomacia, como diplomata no Ceilão.

Cocktails, na edição feita pela ed. Brasiliense, com desenho de capa do próprio Aranha.

Cocktails, na edição feita pela ed. Brasiliense, com desenho de capa do próprio Aranha.

O autor trabalha como um artífice, citando o trecho de “Profissão de Fé” de Olavo Bilac “Torce, aprimora, alteia, lima a frase’’, Luís Aranha faz uso de  palavras justapostas por critério de proximidade e semelhança, há muitos exemplos do verso melopaico, muito valorizado pelo concretismo. Preza expressões fônicas, enumerações caóticas, a rapidez e simultaneidade de idéias que retratam bem a relação, ás vezes tumultuosa e contemplativa, de um jovem com o clima de efervescência  de uma  metrópole, tendo em vista que Luís Aranha tinha 20 anos quando escreveu os poemas que conhecemos.  Ressalta-se também a questão visual e acústica dos poemas, que alcançam patamares  de expressão e beleza impactantes.

Manuel Bandeira também publica Luís Aranha na Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos, onde mais uma vez sobressaem seus três poemas longos: “Poema Giratório”, “Poema Pitágoras”, “Drogaria do éter e da Sombra”, que, usando palavras de José Lino Grünewald “incluem-se com facilidade entre os melhores que o nosso modernismo, de imediato, proporcionou’’.

Abaixo seleciono trechos dos poemas de Luís Aranha, a fim de traçar um perfil semântico da construção deste poeta, lâmina que passou pela carne desta literatura cevada que aguarda o óbito dos seus autores, e os seus respectivos trabalhos, como Lázaros marginais, perpetuam-se e cumprem a mesma função mística de reencarnação, longevidade e eternidade.

Matheus José Mineiro

§§§

Trechos de DROGARIA DO ÉTER E DA SOMBRA

A drogaria era uma gruta de sombra …
Como na Itália
A gruta do cão
Cheia de ácido carbônico
[…]

salol
Mentol
Fenol
Ictiol
Tiocol
Lisol
Tornesol …
Quanta canção de amor cheia de sol!…
Arte fóssil, rima rica…
[…]

incêndio na minha Biblioteca de Alexandrinos!…
[…]

A Bolsa é uma arena
Alta do dólar, baixa do café
Mercadorias alemãs
O céu está cheio de aeroplanos que voejam como corvos
[…]

foi numa noite sem luz elétrica,
Interrupção da força de Parnaíba
Que te escrevi este poema elétrico
Á luz trêmula do luar
[…]

meu corpo é o pólo positivo que pede
Teu corpo é o pólo negativo que recusa…
[…]

mas poeta queria provar o suco da papaverácea como Quincey e Coleridge!
[…]

o mundo é estreito para minha instalação industrial!
[…]

e o bonde pesado como um elefante cambaleia…
[…]

Kimono cheio de crisântemos
[…]

teus belos olhos pardos estavam rasgados à feição de amêndoa
[…]

e todos os barulhos não valem a ressonância do meu crânio
[…]

vidros que partem no cimento como risos de mulher histérica
[…]

uma partitura de Stravinsky
Executada por quinhentos homens numa estação ao partir o trem
[…]

***

Trechos de POEMA PITÁGORAS

somos os primitivos de uma era nova
Egito arte sintética
Movimento
Exagero de linhas
[…]
o céu é um grande quadro-negro
Para crianças e poetas
[…]
ao redor de mim giram as estrelas e volteiam os celestes
[…]
como as estrelas cadentes, mudo de lugar freqüentemente
[…]
a lua por auréola
Estou crucificado no Cruzeiro
No coração
O amor universal
[…]
a abóbada celeste é barracão de zinco de uma fábrica imensa
[…]
e a lã das nuvens passa na engrenagem
Trepidações
[…]
meu cérebro e coração pilhas elétricas
Arcos voltaicos
Estalos
[…]
quando a biblioteca de Alexandria era uma fogueira iluminando o mundo
[…]
não vejo mais a lua nem minha pirotécnica planetária
Uma grande pálpebra azul treme no céu e pisca
Corisco arisco risca no céu
O barômetro anuncia chuva’

***

CREPÚSCULO

Pantheon de cimento armado
A luz tomba
Refluxo de cores
Mel e âmbar
Há liras de Orfeu em todos os automóveis
Reses das nuvens em tropel
Céu matadouros da Continental
Todas as mulheres são translúcidas
Ando
Músculos elásticos
Andar com a força de todos os automóveis
Com a força de todas as usinas
Com a força de todas as associações comerciais e
industriais
Com a força de todos os bancos
Com a força de todas as empresas agrícolas e as
explorações de linhas férreas
Os capitais amontoados em pilhas elétricas
Forças presidenciais e forças diplomáticas
A força do horizonte vulcânico
As forças violentas as forças tumultuosas de Verhaeren
Sou um trem
Um navio
Um aeroplano
Sou a força centrífuga e centrípeta
Todas as forças da terra
Todas as distensões e todas as liberdades
Sinto a vida cantar em mim uma alvorada de metal
O meu corpo é um clarim
Muita luz
Muito ouro
Muito rubro
Meu sangue
Eu sou a tinta que colore a tarde!

*

PAULICÉIA DESVAIRADA

Convulsões telúricas
Estésia
Fendas
Mário de Andrade escreve Paulicéia
Nem o siamógafo de Pachwitz mede os tremores do teu coração
Ebulição
Sarcasmo
Ódio vulcânico
Tua piedade
Escreveste com um raio de sol
No Brasil
Aurora de arte século XX
Como na pintura Anna Malfatti que pintou o teu retrato
Catodografia
Um momento de tua vida estampado no teu livro
Roentgem
Raios X
Mas há todos os brilhos
Ar rarefeito de poesia
Kilômetrops quadrados 9 milhões
Tubo de Crookes
Os raios catódicos de teu lirismo colorem as materialidades incolores
Aquecimento
Todas as distensões e todas as liberdades
Sinto a vida cantar em mim uma alvorada de metal
O meu corpo é um clarim
Muita luz
Muito ouro
Muito rubro
Meu sangue
Eu sou a tinta que colore a tarde!

(poemas de Luís Aranha)

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