poesia, tradução

várias canções em “another man done gone”

Dois varredores de rua em chain gang, Washington, D.C., 1909. Fotógrafo desconhecido.

Dois varredores de rua em chain gang, Washington, D.C., 1909. Fotógrafo desconhecido.

nós damos pouquíssima importância à poesia oral, ainda, acreditando apenas em textos. por tolice, claro. porque estamos cercados de poesia oral no dia a dia, em canções, raps, vocalizações, leituras, saraus, etc. sabemos que a poesia oral ocupou e ocupa a maior parte da história humana, mas deixamos o problema de lado, na maior parte das vezes, e seguimos com nossos papéis na mão.

acho que a maior causa disso é que não sabemos lidar bem com a fluidez das poéticas orais, porque nelas não temos um texto único, não há ponto final na interpretação (como também nos textos escritos) até porque não há exatamente um original, e cada performance renova e altera o texto, dá-lhe uma sequência e uma modificação, tanto pela capacidade performática do intérprete quanto pelo fato de que os textos de fato não permanecem iguais. então interpretar um poema oral é dialogar diretamente com sua performance, com o texto que aparece ali, naquele momento, e que pode nunca mais reaparecer.

mas piora. nesse caso, o que é que se traduz? a que se traduz quando se dá voz a um texto? ou quando se quer dar à voz, permitir que seja novamente cantável? abaixo fiz um experimento. traduzi três versões gravadas de “another man done gone”, uma canção poderosíssima do repertório negro norte-americano. a versão de vera hall (anos 40,  primeira a ser gravada), a de odetta (de 1956, embora haja uma versão de 1954 mais similar à de vera hall) e a de johnny cash (1963). o leitor poderá perceber que a letra, em sua primeira gravação, na voz de vera hall, é muito menor e mais vaga do que a de johnny cash, que já parece expor muito mais a cena de um assassinato; em vera hall é “ele” quem matou (talvez “eles” numa só frase), em cash e odetta são certamente “eles” que “o” mataram; em hall, a referência às correntes pode indicar as de um presidiário  membro de uma chain gang  (o que explica a última frase, porque o cantor terá que carregar o fardo que estaria sobrando nos trabalhos forçados da prisão, já que um companheiro teria sido liberto ou morrido de tanto trabalhar, ou executado — não sabemos a causa “por que se foi mais um?”). em odetta, as ambiguidades são minimizadas, e a letra volta para o assassinato de um homem, que logo imaginamos negro, morto numa sociedade racista. a de cash já cria uma narrativa, com filhos, um possível linchamento público com enforcamento, etc.

mas não é só isso que está em questão. vera hall canta com uma voz delicada, ainda que sofrida, desacompanhada de qualquer instrumento, é verdadeiramente uma gravação de pesquisa feita por alan lomax nos anos 40, de modo que é difícil saber de onde hall tirou sua própria versão ou quanto ela estava interferindo deliberadamente (na poesia oral do blues essa questão parece se dissolver em outras mais importantes). já odetta se acompanha de batidas, com uma interpretação mais vigorosa, capaz de causar comoção mais imediata que a singeleza de vera hall, assim a música em leitura política também se enche de pathos. por fim, a de cash é acompanhada pela voz de june carter, numa espécie de diálogo, a construção fica mais enrijecida, enquanto a voz firme de cash se contrapõe aos agudos de june; o enrijecimento, aliado à narratividade e ao seu alongamento, acaba por dar um ar mais pop à canção, que pode ganhar sentidos mais imediatos para um ouvinte desatento.

seja qual for a favorita de qualquer um, não se deve postular uma origem, ou uma originalidade maior na mais antiga. é esse processo constante de alterações que constitui uma tradição oral como a do blues. performar é ressignificar. se procurarmos possíveis origens, veremos que essa canção é, por sua vez, muito próxima de “baby, please don’t go”, gravada por big joe williams em 1935:

e o próprio big joe a gravou mais algumas vezes. em cada uma delas, com algumas variantes melódicas, instrumentais, vocais & textuais; tal como odetta fez duas versões com textos razoavelmente diferentes para a nossa canção. mas há similaridades entre “baby, please don’t go” e “another man done gone”, já que ambas têm uma estrutura melódica muito similar e uma série de frases muito próximas, tais como “done gone”, “county farm”, “walk the log”. o que é certo é que quando essas canções chegam a (ou se transformam em) vera hall e big joe williams, elas já estão criando dois temas bem diversos: a perda amorosa (big joe) ou a perda da vida/vida no presídio (hall).

diante disso, 3 versões, 3 traduções, todas cantáveis segundo a melodia apresentada. diante da multiplicação dos originais, imagino que o sonho da diferença é ver diferentes versões tradutórias que, por sua vez, convidem a diferentes interpretações musicais que as alterem, numa sequência sem origem ou fim determináveis.

guilherme gontijo flores

* * *

por vera hall (gravada na década de 40)

Another man done gone
Another man done gone
From the county farm
Another man done gone

I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name

He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on

He killed another man
He killed another man
They killed another man
He killed another man

I don’t know why he gone
I don’t know why he gone
I don’t know why he’s gone
I don’t know why he’s gone

I’m gonna walk your log
I’m gonna walk your log
I’m gonna walk your log
I’m gonna walk your log

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Veio do interior
Hoje se foi mais um

Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi

Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos

Ele matou alguém
Ele matou alguém
Eles matar’ alguém
Ele matou alguém

Por que se foi mais um?
Por que se foi mais um?
Por que se foi mais um?
Por que se foi mais um?

Teu tronco eu vou levar
Teu tronco eu vou levar
Teu tronco eu vou levar
Teu tronco eu vou levar

§

por odetta (de odetta sings ballads and blues, 1956)

Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone
From the county farm
Another man done gone

I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name

He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on

They killed another man
They killed another man
They killed another man
They killed another man

Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone
From the county farm
Another man done gone

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Veio do interior
Hoje se foi mais um

Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi

Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos

Eles matar’ alguém
Ele matar’ alguém
Eles matar’ alguém
Ele matar’ alguém
Ele matar’ alguém

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Ele era agricultor
Hoje se foi mais um

§

por johnny cash (de blood sweat & tears, 1963)

Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone

He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on
He had a long chain on

They hung him in a tree
They hung him in a tree
They let his children see
They let his children see

When he was hangin’ dead
When he was hangin’ dead
The captain turn his head
The captain turn his head

He’s from the county farm
He’s from the county farm
He’s from the county farm
He’s from the county farm

I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name
I didn’t know his name

Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone
Another man done gone

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um

Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos
Correntes junto às mãos

Vieram pra enforcar
Vieram pra enforcar
Seu filho estava lá
Seu filho estava lá

Quando morreu de vez
Quando morreu de vez
O chefe não quis ver
O chefe não quis ver

Veio do interior
Veio do interior
Veio do interior
Veio do interior

Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi
Seu nome eu nunca ouvi

Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um
Hoje se foi mais um

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