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2 contos de Nescio, por Daniel Dago

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Principal contista holandês do século XX, Nescio (“não sei”, em latim), pseudônimo de Jan Hendrik Frederik Grönloh (1882-1961), teve uma vida totalmente à parte do meio literário. Trabalhou a vida inteira em uma empresa de importação/exportação e escreveu muito pouco. Apenas três livros curtos, todos de contos, foram publicados durante sua vida. Pouquíssimo conhecido, somente meses antes de sua morte ganhou um prêmio. Desde então sua fama cresce e hoje é tido como figura incontornável da literatura holandesa, considerado o introdutor do coloquialismo nas letras de seu país, com personagem icônicos e estudados nas escolas e universidades. A abertura de seu principal conto, “O parasita”, é considerada o começo mais famoso da literatura holandesa. O autor frequentemente é comparado a Anton Tchékhov e Robert Walser.

Citado por dez entre dez escritores holandeses como sua principal influência, nos últimos anos, Nescio tem ganhado cada vez mais traduções mundo afora. Especula-se que um dos motivos da demora de sua divulgação no estrangeiro deve-se ao fato de que é extremamente difícil de traduzir seu coloquialismo. Até agora constam versões ao alemão, inglês, francês, húngaro, indonésio, italiano, polonês, eslovaco, sueco. Ainda este ano sairá na Espanha e Turquia. No Brasil, Daniel Dago traduziu dois de seus livros, que na Holanda sempre são lançados num único volume, considerado a edição padrão de sua obra. Os contos aqui presentes, cada um de um livro de Nescio, não apresentam o estilo coloquial tão característico de sua obra, mas demonstram a concisão e beleza de sua escrita.

Daniel Dago

* * *

O VALE DAS OBRIGAÇÕES

Sento na montanha e olho para o vale das obrigações. Ele é árido, não há água, o vale não tem flores ou árvores. Há muitas pessoas andando nele. A maioria está disforme e esmorecida, olham continuamente para o chão. De vez em quando alguns olham para cima e depois gritam. Após algum tempo, todos morrem, mas eu não vejo diminuir a quantidade, o vale sempre aparenta o mesmo. Mereciam coisa melhor?

Estico-me e vejo diante de meus braços o céu azul.

Permaneço no vale, em um aterro de entulhos com brasas pretas, junto à uma pequena pilha de tábuas quebradas e uma chaleira inutilizável. Olho e vejo a mim mesmo ali, naquele lugar, e uivo como um cão na noite.

Novembro 1922   

§ 

ESTE ANO

Este ano estou novamente em Kortenhoef e permaneço no cemitério ao lado da igreja, vendo a terra à beira de Het Gooi e a torre de Hilversum. Uma última papoula se foi na semana passada, junto com um leve vento. Em uma curva e pequena pereira, as diminutas peras já têm cor. É o começo de um novo século. A vida, graças a Deus, não me ensinou quase nada.

“A vida me ensinou muito”, disse o pateta.

3 Agosto 1943

* *  *

Daniel Dago nasceu em São Paulo, em 1987. É tradutor e escritor. Apesar de falar vários idiomas, especializou-se na tradução de literatura clássica holandesa, sendo o mais ativo divulgador da área no país, a ponto de ser considerado, na Holanda, o “embaixador da literatura holandesa no Brasil”. Traduziu os romances Uma confissão póstuma, de Marcellus Emants; Sobre pessoas velhas e coisas que passam…, de Louis Couperus; Caráter, de Ferdinand Bordewijk; O jardim de cobre, de Simon Vestdijk; Urug, de Hella Haasse; e organizou e traduziu a primeira antologia do conto holandês feita no Brasil, Os holandeses – contos (1839-1938) (Hedra, 2015).

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