poesia

3 poemas inéditos de Sergio Cohn

sergio cohn sinuca

Sergio Cohn é poeta e editor. Nasceu em São Paulo, em 1974, e mora no Rio de Janeiro desde 2000. Criou em 1994 a revista de poesia Azougue, e em 2001 a Azougue Editorial. Como poeta, publicou Lábio dos afogados (1999), Horizonte de eventos (2002), O sonhador insone (2006) e O sonhador insone – poesia 1994-2012 (com o inédito “Poemas atuais”, 2012). Organizou diversos livros, de autores como Roberto Piva, Vinicius de Moraes, Antonio Risério, Boris Schnaiderman, Gary Snyder, Michael McClure e Jerome Rothenberg.

* * *

3 poemas inéditos:

BALDIO

a poesia é a linguagem não-comunitária

que deriva, erra, espraia

desocupa o fascio da identidade

 

não é aqui nem selvagem

é o baldio de relações

sempre renovadas

§

a concha que se agarra à pedra
contra a fúria das ondas.
o dente que se cerra na carne
dura da maçã. o azul que resta
entre nuvens, entre folhas,
a primeira luz da manhã.
o pulsar, gesto
e jenipapo, orla de fogo
no mato, mancha
no dorso da onça.

ESTAR EM VOCÊ COMO

§

CONVERSA NO JARDIM

“Sempre que acreditei
que não havia nada acontecendo
descobri que era eu
que estava no lugar errado”

sentamo-nos no chão ressequido
como suas mãos
a enrolar um fumo

“veja, aqui é silêncio
mas se olharmos com mais calma
ali no canto há uma luta de morte
entre um besouro e as formigas.
num jardim, assim como no mundo,
sempre tem coisas acontecendo”

o fósforo era brasa sob brasa
tudo era brasa às duas horas
da tarde.

ele fumou em silêncio, os olhos quietos,
a boca lutando contra a secura
do arredor e de dentro.

ao seu lado, observava as plantas
até me fixar uma mirrada, no esforço
para crescer à margem das graminhas.
perguntei que erva era aquela.

“não sei, nunca a vi.
nem sei se é boa ou daninha.
mas, na dúvida, melhor deixar germinar”.

§

e 1 não-inédito:

UM CONTRAPROGRAMA

1
esta montanha invade a cidade
e à sua margem penso
não no silêncio, na astúcia
e no exílio (que já foram
tentados a contento) mas
do lado de dentro
mesmo que impossível
extraviar-me no alheio

2
o alheio: não o outro
do morro ou o rosto
da rua, mas o que
ainda despercebido pulsa
e sobreviverá ao tempo
porque o fim disto
– desta cidade – não é
o de todas as coisas.

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Um comentário sobre “3 poemas inéditos de Sergio Cohn

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