poesia

Urmuz, por Luciano R. Mendes

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Urmuz é o pseudônimo usado por Demetru Dem. Demetrescu-Buzău, escritor romeno nascido em Curtea de Argeș, em 17 de março de 1883 e falecido em Bucareste, em 23 de novembro de 1923, quando atirou na própria cabeça em público. Sabe-se muito pouco de sua biografia nos anos entre a excentricidade que apresentava na escola e o seu suicídio. Deixou uma obra curta e bastante curiosa: seu principal trabalho é o volume denominado Páginas Bizarras, uma coletânea textos em prosa e versos, sempre carregados com non-sense, niilismo e humor negro, além de uma tendência por explorar o inconsciente da mente humana. Hoje é tido como um herói literário em sua terra natal, um precursor das vanguardas – em especial do dadaísmo, do surrealismo e do teatro do absurdo.

* * *

Ismael e Turnavit

1. 

 

Ismael é composto de olhos, bigode e vestido e hoje é encontrado com grande dificuldade.

Antes criado no Jardim Botânico, depois, graças aos progressos da ciência moderna, conseguiu-se produzir um pela via química, por síntese.

Ismael nunca anda sozinho. Pode ser encontrado ao redor das 5 horas e ½ da manhã, errando em ziguezague pela rua Arionoaiei, acompanhado de um texugo ao qual está atado com um cabo náutico e que à noite ele come, cru e vivo, depois de arrancar-lhe as orelhas e espremer um limãozinho em cima. Ismael cultiva outros texugos num viveiro situado no fundo de um buraco em Dobrogea, onde ele os mantém até alcançarem a idade de 16 anos e adquirirem uma forma mais cheia, quando, isento de toda responsabilidade penal, ele os estupra sem quaisquer freios morais.

Na maior parte do ano, não se sabe onde Ismael reside. Acredita-se que permaneça preservado numa jarra localizada no sótão de seu adorado pai, um velho gentil cujo nariz é afinado em uma prensa e circundado por uma pequena cerca viva. A história é que é por excessivo cuidado paternal que o velho  prende Ismael, para protege-lo de ferroadas de abelhas e da corrupção de nossas eleições. Mas Ismael consegue escapar durante três meses do ano, no inverno, quando seu maior prazer é usar um vestido longo de gala, feito de uma colcha com grandes flores cor-de-tijolo, e, então, escalar vários andaimes no dia em que se comemora a aplicação do reboco, só para ser oferecido pelo empregador para ser dividido entre os trabalhadores, como recompensa. Ele espera que, dessa forma, vá contribuir efetivamente para resolver a questão operária. Ele também dá entrevistas, mas apenas no topo do vale perto de seu viveiro de texugos. Centenas de  candidatos  buscando uma vaga de emprego, ajuda financeira e lenha são introduzidos sob um gigantesco abajur onde cada um deles é obrigado a chocar quatro ovos. São então colocados num carrinho de lixo do município e empurrados em velocidade vertiginosa até Ismael por um amigo dele – que também lhe serve como salame – chamado Turnavit, uma personagem estranha que, durante a subida, costuma forçar os candidatos a trocarem cartas de amor com ele, sob ameaça de virar o carrinho.

Turnavit não era mais do que um simples ventilador de cafés gregos sujos, como os da rua Covaci e Gabroveni. Sem aguentar mais os cheiros que era forçado a aspirar, Turnavit meteu-se na política e tornou-se um ventilador estadual, na cozinha do quartel do corpo de bombeiros “Radu-Vodă”.

Foi em um baile dançante que ele conheceu Ismael. Ao ficar sabendo da situação miserável à qual as rotações velozes o haviam reduzido, Ismael, de coração caridoso, o tomou sob sua proteção. Ele prometeu 50 bani e uma refeição diária, sua única obrigação seria servir de camareiro para os texugos; além disso cruzaria por Ismael a cada manhã na rua Arionoalei, fingindo não enxerga-lo, apenas para pedir mil desculpas por sua distração e embelezar seu vestido com um pincel de barbear embebido de óleo de canola, desejando prosperidade e felicidade.

Por amor ao bem estar de seu amigo e protetor, uma vez por ano Turnavit assume a forma de uma garrafa, enche-se de gás até o topo e faz uma viagem para longe, geralmente para as ilhas de Maiorca e Minorca: a maioria dessas viagens consiste da ida, dependurar um lagarto na porta do chefe da Capitania dos Portos e do retorno à pátria.

Em uma dessas viagens Turnavit contraiu um resfriado bastante desagradável, que ao voltar acabou contaminando todos os texugos, de modo que Ismael não podia mais aproveitá-los quando quisesse. Foi imediatamente demitido do serviço.

Sendo bastante sensível e não podendo aguentar a humilhação e o desespero, Turnavit põe em ação seu funesto plano de suicídio, não sem antes lembrar-se de retirar os quatro caninos de sua boca.

Antes de morrer vinga-se de Ismael de modo terrível, fazendo com que alguém lhe roube todos os vestidos e os taque fogo em um buraco no chão repleto de gás. Reduzido à miserável situação de ter se tornado apenas olhos e bigode, Ismael nem mesmo tinha forças para se arrastar até a borda do viveiro dos texugos, lá ficando e  sendo reduzido a um estado de tremenda decrepitude, no qual permanece até os dias de hoje.

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