crítica, poesia

o canto pop de campilho

campilho

os poemas dos outros são tão direitinhos, tão justamente metidos no interior das linhas de separação, canções tão perfeitas, que em nada remetem para o nível real do acontecimento.
(MC)

não se define pop, fácil. então, claro, vou deixar isso de lado. entrego pra vocês, certo? direto ao ponto. a poesia de matilde campilho veio como uma pancada inesperada nos ares discretos da poesia portuguesa & brasileira. a edição de jóquei, pela ed. tinta-da-china, já se esgotou & reimprimiu sei lá quantas vezes, enquanto a edição nacional, pela ed. 34, foi o livro mais vendido na última flip & parece já estar na beira de esgotar sua primeira tiragem. é coisa rara & merece reflexão. porque há algo pop — já digo, aqui não haverá pejorativo na expressão — como houve muito pop na poesia de um leminski nos anos 80 e na sua reedição há pouco tempo.

assim num tempo em que a prática de leitura está muitas vezes associada ao deslizar incessante da internet — de uma notícia a outra, um site a outro, com possibilidades de baixar nesse caminho pdfs, ebooks, músicas, vídeos, topar com frases  atribuídas a (verdadeiramente ou não) c. lispector, f. pessoa, saramago, shakespeare &c. — seria ingênuo não achar que a mídia muda a escrita. não precisa mudar drasticamente no seu modo midiático (ou seja, não precisamos sonhar com poetas online apenas, mas vemos também guinadas para práticas do corpo, performance, dança, etc.: as coisas são simultâneas & muitas vezes contraditórias, felizmente), mas muda o modo como a escrita se dá & como ela se entrega ao possível leitor. quando nossas práticas de leitura deslizam é possível esperar escritas cada vez mais deslizantes, & talvez esse seja o grande trunfo da poética de matilde campilho. certamente não estamos diante de uma poeta que busca a perfeição, ou a descrição objetiva de qualquer coisa (adiós pound, mano velho). certamente não estamos diante de uma virtuose da melopeia ou da fanopeia ou da logopeia (adiós, adiós). certamente longe da síntese concisa. longe da paronomásia generalizada de jakobson. mas não se trata disso num caso avaliativo, porque uma poética pode passar muito longe dessas formas mais consagradas de poesia para dialogar com o mundo do pop contemporâneo.

assim, há na poesia de campilho um quê de leminski, pelo recurso ao pop. um quê todo diverso, já que o pop da época do leminski era a canção da mpb que tocava na globo, o renascimento do cinema americano com influências do cinema de vanguarda europeu & latino americano. o pop agora é mediado pela internet, pelo deslizar constante, o pop no mundo do indie, que muitas vezes mistura música de elevador com glamour & platitude, embora recuse o velho estatuto de popularidade generalizada.

no fundo, ela escreve de um modo que não precisamos muito prestar atenção (por vezes como zapear na tv ou clicar clicar clicar), em que vamos como que divagando junto com o poema — não tanto por causa do poema, muito menos contra o poema num ágon difícil. é bem o que vemos neste vídeo-poema “31 de Outubro”:

mas o efeito se dá porque, para além de fluxos mais ou menos longos de perda referencial, por excesso ou vagueza, de vez em quando campilho lança uma ilha de sentido, até mesmo um senso comum exposto em forma poética (reflexões sobre amor, desejo, amizade, dor, ou seja os temas da literatura ocidental), e isso traz como efeito um conforto, em que o poema passa a fazer sentido em plena divagação. as ilhas de sentido são como aportes em sites que nos tocaram mais imediatamente enquanto pulamos sem prestar tanta atenção. nos poemas de campilho, como na internet, o excesso de atenção derivado de uma poética pound-jakobsoniana, levará, em última instância, à não leitura, à quebra da atenção & talvez ao tédio: os projetos deixam de comunicar. aqui tudo se mistura e o poema parece tornar-se parte da paisagem, algo como música de elevador, mas muito diferentemente que pode captar nossa atenção algumas vezes e noutras nos liberar de volta aos nossos devaneios próprios. vejamos dois trechos. “fur”, o primeiro poema de jóquei:

Fur

                                           com cara de Whitman
foi assim que você pensou que eu viria ao mundo
foi assim que que você me viu na floresta
foi assim que você me viu pendurado no poste elétrico
sempre pendurado num ramo qualquer,
sempre usando o verão.
você se lembra daquele verão no Brooklin
em que ficámos perseguindo os bombeiros
durante todo o dia apenas para ver
uma vez e depois outra vez
o leque aquático que se abria sobre o fogo?
você citava poetas húngaros mas nesse tempo
eu só queria saber de inventar uma língua
que não existisse.
você se lembra do concierge que nos recebia
na pensão do Brooklin como se nunca
nos houvesse visto antes?
e não havia semana que passasse
em que nós não dormíssemos
pelo menos uma madrugada
na pensão do Brooklin.
me lembro dos dólares amassados
que eu semanalmente tirava do bolso
para pagar a Doug
eu sabia o nome de Doug
o Doug nos tratava disfarçadamente
por menina e menino.
você falava que os dólares vinham
sempre com uma forma diferente
eu adoro como você consegue tirar um coelho do bolso
eu adoro como você consegue tirar uma lâmpada do bolso
eu adoro como você consegue tirar a Beretta 92fs do bolso

foi assim que você pensou que eu ficaria
no mundo
com corpo de besta vestida
usando um lápis pousado na orelha

foi assim que você me viu
pedindo três ovos para Miss Elsie
a senhora da mercearia na Court Street
ela me deu oito ovos
porque ela sempre dava alguma coisa
ela me achava uma graça e ela não acreditava
em números ímpares. eu também não.
me lembro de você na mercearia
do Brooklyn
você costumava ficar lá atrás
brincando na secção das ferramentas.
se eu tivesse mais do que um coelho,
uma lâmpada ou uma pistola
eu teria te comprado um Black & Decker
eu acho que você seria a pessoa mais feliz da ilha
com um Black & Decker enfiado no cinto.

foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem. Deus não dorme
e você também não.
(pp. 9-11)

o poema abre como uma conversa entre duas pessoas íntimas, quase in medias res, e ficamos ao mesmo tempo dentro e fora da conversa: situações curiosas em florestas, postes elétricos, no brooklyn (como correr atrás de bombeiros, citar poetas húngaros, inventar língua que não existe), tudo isso tem o gosto arbitrário do inverossimilhante que, sabemos, só pode acontecer na vida real. então algo também está dentro e fora da vida real, seja o texto ficção total ou criação a partir da biografia, e é esse efeito de multiplicação do estranho que vai se cumulando com a presença de doug (que doug?) de miss elsie da mercearia (qual?). tudo soa como uma carta que encontramos, talvez numa garrafa, entremeadas de cartolas, lâmpadas, pistolas, &c. mas é também um poema de amor, embora não saibamos bem quem se ama. e tudo se encerra numa espécie de chave de ouro pós-moderna, num tom quase menor, porém com gosto de adágio: “você dedicava as noites / à contagem. Deus não dorme / e você também não”. a atenção amorosa do interlocutor contando flores na cabeça da poeta reamarra a série poética & finda por dar um gosto de diálogo de filme amoroso (lembra as loucuras que a gente fez? lembra aqueles amigos aquelas conversas? lembra tudo que a gente prometeu? eu lembro de você olhando pra mim) ou com tom de canção amorosa do ivan lins (“Lembra de mim / Dos beijos que escrevi nos muros a giz / Os mais bonitos continuam por lá / Documentando que alguém foi feliz /Lembra de mim / Nós dois nas ruas provocando os casais / Amando mais do que o amor é capaz.”). entre filme & canção de amor, mas num deslize contínuo, com referências que se mostram indecifráveis para o leitor, embora permitam sua entrada. tudo é dentro & fora.

vejamos agora “A volta no Cadillac de Billy J.” (também um vídeo, porque sua poesia é de uma oralidade realmente rara nestes tempos & porque matilde sabe produzir muito com uma leitura):

[…] Desta janela eu vejo a esposa do mouro indeciso e vejo como ela fica bordando os nomes dos profetas no manto encardido — tudo para esquecer o caminho das possibilidades na cabeça de seu amor. Vejo as notas crípticas deixadas à sorte nas margens do Corão, recados de paixão há muito tempo abandonados. Vejo grafias escritas a vapor no muro que um dia dividiu Berlim, e nalgumas horas me pergunto sobre o cachorro que foi deixado do lado de lá. Penso na canção que diz que a saudade é o revés de um parto, ó metade amputada de mim. Haverá tempo, haverá tempo.  O fumo amarelo de janeiro fica esfregando suas costas nas janelas desta casa. Haverá tempo para cometer um crime, haverá tempo para a procriação. Tempo para lembrar a rede onde descansou o índio apaixonado, aquele que ficava arrancando o pó das entranhas das unhas do leopardo. Tempo para encher a taça do filho de Deus e tempo para discernir o amor do que já é costume. Da janela eu vejo as ondas rebentando no olho do Vesúvio. Peço a meus filhos que se preparem para a estalada na cara, para o fechar brutíssimo da porta do automóvel, para o vômito que vem do fígado, para o rosto escancarado na decepção. O que importa é ouvir a voz que vem do coração — seja o que vier, venha o que vier. Meus queridos filhos com cara de curumins, essa cicatriz que se enterrou em vossas testas é um fogo que não para de brotar. […] (pp. 84-5)

na série, uma visão da janela dá para o mundo inteiro: esposas de mouros saudosas com mensagens no corão, grafites no muro de berlim, um cão abandonado, uma canção de chico buarque, reflexões sobre o tempo, citações de t.s. eliot (que ja aparece desde o início do poema), a morte, a vida, índios apaixonados em atividades, o vesúvio; disso passamos para relações com os filhos, para o movimento de náusea de decepção. ao fim dessa série, uma quase-platitude “o que importa é ouvir a voz do coração”, que parece coroar o eixo de reflexões amorosas da janela que dá para o mundo, para em seguida vermos uma construção poderosa sobre o crescimento dos jovens, a paixão e o pensar que os toma “filhos com cara de curumins, essa cicatriz que se enterrou em vossas testas é um fogo que não para de brotar.”

então não é só canção & filme de amor, mas um diálogo com tradições poéticas mais antigas, como a poesia de john ashbery ou de parte da produção de frank o’hara (eles já deslizavam muito com a difusão do rádio & da tv, que noticiavam tudo numa velocidade sem precedentes que hoje nos parece lerdíssima), ou como parte da produção mais recente de carlito azevedo, de marília garcia ou de ricardo domeneck; por isso, soa exagero pensar que ela seja “vento de pura selvageria”, como escreveu gustavo rubim. talvez até seja o caso em portugal, onde vemos uma tradição forte com pés no surrealismo ou escritas por vezes muito palacianas — lá a obra de matilde campilho deve ter um impacto muito diferente & soar verdadeiramente renovados. em nossas plagas, como já disse, esse gosto pop literário enrolado num diálogo constante pode soar mais como uma brisa marinha — & penso que, sobretudo pra quem mora na beira da praia, isso possa fazer todo o sentido. a questão passa a ser o que faremos com o que essa poesia faz conosco. o melhor caminho parece ser o de entregar-se, ainda que por pouco tempo, ao devaneio.

guilherme gontijo flores

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3 comentários sobre “o canto pop de campilho

  1. Leonardo Almeida Filho disse:

    Gostaria de enviar alguns poemas meus. Ando publicando em meu blog “Poesia nos dentes”. Possível?

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