poesia

Júlia Hansen (1984-)

júlia hansen

Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo em 1984. É formada em Letras pela USP e mestre em Estudos Portugueses pela Universidade nova de Lisboa. Tem três livros publicados: cantos de estima (São Paulo, Selo de Estimas e Grama, 2009); alforria blues ou Poemas do Destino do Mar (Belo Horizonte, Chão da Feira, 2013) e O túnel e o acordeom (Lisboa, não edições, 2013). É uma das editoras das Edições Chão da Feira. Dos poemas abaixo, os dois primeiros são inéditos.

* * *

Milênios seja! pela via
da massagem, da poesia ou da faxina,
através da fumaça, do tabaco
& da bruta flor do querer
cantofalamos
nos sonhos pisando
na lâmina e descansando
na lama dos pensamentos
meditados, dos atos
percebidos ou atormentados
pela dança da presença
com uma criança ter contato
por palavra, respiração e pele
abrir o botão de uma rosa
com os dedos
é como aceitar os dons
mágicos afinando
as cordas vocais
dos analistas
de geometrias
da família
lavando os armários com água
forte irrompe rochas, cadeados
feito logins abrindo, rompendo
rolando cascalhos e léguas!
subindo escadarias e montanhas
de empecilhos, aos solavancos
na estrada abaixo
do esquecimento e do desgaste
que a reza dos gramáticos encerra
o inconsciente se move
O tempo todo.

§

Da palavra sair
habitar outros mundos
a espinha dorsal do peixe
lamber até limar os dígitos.
Dar os tímpanos
ao vibrar dos grilos
reconhecer a chegada do trovão
no deslocar do sangue
e ao anteceder terremotos
subir! No alto da árvore
e cair com o rabo
enovelando um galho
se dependurar na abobada celeste
soprar o rumo dos pólos
e das marés que vem dos pólos.
Não conhecer despedida
viagem ou remorso,
código, símbolo ou faca.
Nunca alterar a rota do fogo.
Ser seiva, veneno. Ou fruto.

§

Minha vida foi parar em outra galáxia
e eu escrevo para resgatá-la.
Mas entre mim e a vida
havia quem acreditasse
que as coisas que pensa
pensa por si próprio.

Seria um obstáculo.
Não falasse eu que ninguém pensa
por si próprio
não tinha que me fazer explicar
com minhas calças vermelhas
meu casaco monogramado
R. de ressentimento
esburacando a minha língua.

É a explicação a origem
do buraco negro
em que estamos.
No buraco negro
deslizam as paredes
se as tentamos agarrar
quando chegamos nisso
que não há.

Como chegamos lá?
Ao morrer. Você morre
e sua matéria
fica na terra, certo?
Ou se dissipa no fogo
a matéria do teu corpo.
Aquilo em ti que te anima
o cão da tua respiração
a faca que são teus olhos,
teus cabelos, teus corvos
aquilo que morde a tua dentição
e vibra fibra músculo enfim
a tua alma mesmo
e tudo aquilo que é invisível em você
é tragado (invisivelmente)
para o buraco negro.
As cáries, os pergaminhos egípcios,
as colheres que você entortou abrindo latas,
não. Isso definha na terra.
Sete palmos.

§

Estou sempre a espera de ver a pulsação
vou na frutaria de olhos muito abertos
vez em quando meus ombros se fecham
quando muito chama a ver. Temem o fogo
que se alastra entre estalos nas estruturas.

Preciso dissolver um pouco dos vigiantes olhos
para encontrar todos os olhares que tenho por onde.
É assim que vejo também a confusão.
A confusão tem algumas coisas para me ensinar.
Essa pouca relação é a nossa.
Meu esteio é claro quando estou pisando
meu chão diamantado de dentes
de cada animal que comi para me tornar
humana. E assim poder dizer.

Mas eu sei
sou tão pontual
nasci para esperar
os deuses não.
Dia desses
ganharei outra velocidade.
Serei planta.
E hei de continuar
iluminada
pela água.

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