crítica, poesia, tradução

Alfredo Mario Ferreiro, por Matheus José Mineiro

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Vôo tão rasante
que necessito mais de rodas
que de asas.

Alfredo Mario Ferreiro nasceu em Montevidéu, em 1 de março de 1899. No meio da década de 1920 começou a destacar-se como um dos mais ativos agitadores de vanguarda no Uruguai. Seus dois livros de poemas, O homem que comeu um ônibus (poemas com odor de NAFTA) (1927) e Por favor não apertar as mãos (poemas profiláticas com base em imagens de chão) (1930), são exemplos de uma partícula estética latino-americana que nutriu-se do futurismo de Marinetti e Verhaeren bem como do surrealismo de Breton e Soupault.

Meu primeiro contato com a produção poética do Alfredo foi através da antologia AVIONES PLATEADOS: 15 POETAS FUTURISTAS LATINOAMERICANOS, organizada por Juan Bonilla, onde figuram excelentes manejos de poesia que traçam um panorama até então “novo” na América ao qual retrata esta relação de aproximação do poema com a novidade urbana, a tecnologia e a densidade demográfica e social.

AMF quebra regras tradicionais, exalta a máquina e a novidade. Está em contato com outros escritores dessa linhagem na América Latina como Alberto Hidalgo, Saralengui, Huidobro, José Sucre, Cardoza y Aragon como seus conterrâneos Herrera y Reissig, Delmira Augustini, Juana de Ibarbourou e Juan Parra Del Riego. A seguir, abrangendo uma característica peculiar desta safra produzida nos meados do século vinte pela America Latina, exponho em espanhol os últimos versos do poema “Perifonico ” :

mí timpano está allá arriba.
es una hamacã paraguaya
que se balancea em el aire.
velocidades espantosas
me traen las palabras.
un tísico me habla desde del Brasil.
La Tierra entra las ondas
con un estrecemecimiento de espanto.

E segue a imagem de mais um poema:

Poema sin obstáculo del trânsito ligero

Poema sin obstáculo del trânsito ligero

AMF valoriza o fonema e a espacialidade da palavra no papel, maneja a cotidianidade inédita que a metrópole propunha, como um êxodo sofisticado, fazendo uso de imagens urbanas com a proposta do concreto e do aço na arquitetura. No poema Trem em marcha, ele ressalta o uso de uma ferramenta pouco explorada, sendo o poema totalmente construído a partir onomatopeias. E carrega consigo toda destreza no manejo de diversas figuras de sintaxe que lhe propiciam fertilidade nesta produção de imagens correlacionadas ao tempo-espaço em que se encontra o autor.

11824263_1014745811898700_1839749828_nInteressante frisar e citar os títulos dos poemas que compõe  El hombre que se comió um autobus como; “Radiador”, “ Radiotelefonia”, “ El dolor de ser Ford”, “Carburador”, ilustrando bem esta sensação a qual poema foi submetido a partir da aproximação das figuras de linguagem com a automação e o ineditismo industrial que o século configurava em alta escala, conduta similar a de um Jeremias Sem Chorar na obra do Cassiano Ricardo. Este choque, esta surpresa, este novo olhar que foi instalado diante do poema mediante as novidades das metrópoles e da era industrial se estende ate nossos dias, com os avanços tecnológicos e eficientes que o século anuncia e que a produção poética, desde as vanguardas do século xx vem acompanhando e, sobretudo, segue experimentando novas expressões com mesmo semblante estupefato, irônico, contestador e contemplativo.

Como foi São Paulo para Mário e Luis Aranha, Buenos Aires para Olivero Girondo e Aldo Pellegrino, Lima para Oquendo de Amat; Alfredo foi mais um destes poetas que se deparou com a cidade, o automóvel, o concreto armado, o tráfego aéreo, a urbanização, a arquitetura, a futura metrópole, ainda em fase embrionária, num alto grau de efervescência e novidade. Nas palavras de José María Bon:

Su producción no cuida las formas, no tiene borradores, no se esconde detrás del traje y la corbata. Por el contrario, recorre las calles llenas de novedad, sube a un autobús en pijama sin importarle el “qué dirán” y se arriesga a lo diferente. La división entre lo público y privado no existe en este escritor, la diferencia entre alta y baja cultura no es de importancia porque las fronteras se difuminan y se pierden detrás del humo que emana el caño de escape de algún automóvil en marcha.

Capa do livro O homem que comeu um ônibus – poemas com cheiro de nafta - 1927

Capa do livro O homem que comeu um ônibus – poemas com cheiro de nafta – 192

Ao longo de sua vida, ele manteve contato com outros escritores nacionais e internacionais, como Gervasio Guillot Muñoz, Nicholas Olivari, Jules Supervielle, Oliver Girondo, e Raul Gonzalez Tunon. Em alguns poemas que foram escritos no Uruguai dos anos vinte usou procedimentos formais para aliar humor, ironia e contemplação diante dos avanços que a cidade oferecia  para tentar apanhar com paradigmas europeus e em alguns casos procurando a soprar a poesia modernista. O primeiro fator foi o uso do verso livre, lendo Mallarmé, Verhaeren, Whitman, Apollinaire e Marinetti.. Em suma, um desconto para a solenidade das palavras e os temas de prestígio (morte, amor, angústia) muitas vezes ao longo do humor corrosivo e juvenil.

Alfredo Mario Ferreiro foi um dos poetas esquecidos da avant-garde  do Uruguai. Sua figura começou a se destacar nos últimos anos. Em 1999 o livro O Homem que Comeu um ônibus foi reeditado. Uma vanguarda que não desiste, que reúne textos inéditos em livro do autor e artigos sobre sua poesia e jornalismo. Além disso, o Presidente da Secção Uruguaio de Literatura e o Arquivo e Documentação do Instituto de Artes da Faculdade de Humanidades e Educação, organizou seminários chamados de “Abordagens para a arte latino-americana (Alfredo Mario Ferreiro de 1899 à 1959).

Ele morreu em Montevidéu, em 24 de junho de 1959.

Arquivo do livro EL HOMBRE QUE SE COMIO UM AUTOBUS, em espanhol:

http://www.archivodeprensa.edu.uy/biblioteca/alfredo_mario_ferreiro/textos/bibliografia/elhombreque.pdf

Matheus José Mineiro

* * *

Poemas de Alfredo Mario Ferreiro

Traduções de Antonio Miranda

POEMA DO ARRANHA-CÉU DE SALVO

O arranha-céu é uma girafa de cimento armado
com a pele manchada de janelas.

Uma girafa estacionada em Andes y 18,
incapaz de atravessar a rua,
com medo de que os automóveis
se metam entre as patas e a derrubem

Que idéia de repouso daria um arranha-céu
deitado no chão!

Com quase todas as janelas
olhando para o céu.
E sangrando pelas tubulações
da água quente
e da refrigeração.
O arranha-céu de Salvo
é a girafa de cimento
que completa o zoológico edifício
de Montevidéu.

POEMA DEL RASCACIELOS DE SALVO

El rascacielos es una jirafa de cemento armado
con la piel manchada de ventanas.

Una jirafa un poco aburrida 
porque no han brotado palmeras de 100 metros.

Una jirafa empantanada en Andes y 18,
incapaz de cruzar la calle,
por miedo de que los autos
se le metan entre las patas y le hagan caer.

¡Qué idea de reposo daría un rascacielos 
acostado en el suelo!

Con casi todas las ventanas
mirando cara al cielo.

Y desangrándose por las tuberías
del agua caliente
y de la refrigeración.

El rascacielos de Salvo
es la jirafa de cemento
que completa el zoológico edifício
de Montevideo.

§

AVIADOR

Protótipo de homem.

Na aurora da Morte
Eu vi tuas quedas
Para o outro lado.

De um golpe de timão
Afugentaste os cães calados

Do Mais Além.

Protótipo de homem.

Odor de civilização
Encontrei nas válvulas
de teu motor.

Moedor de sol
Com moinho vertiginoso
Da hélice,
Para fazer pão de luz.

Ventilador do céu.
Perfurador do ar.
Assombro dos pássaros.

Inveja das árvores
Que estendem, por via das dúvidas,
Seus ramos.

Moedor do sol,
Punching-ball dos ventos,
Acoitador de nuvens,
Alisador de nuvens.

Tua cabeça, aviador,
É o ponto necessário
Para o i latino de teu avião.

AVIADOR

Prototipo del hombre.

En la aurora de la Muerte
He visto tus caídas
Hacia el otro lado.

De un golpe de timón
Ahuyentaste los perros callados
Del Más Allá.

Prototipo del hombre.

Olor a civilización
Encontré dentro de las válvulas
De tu motor.

Moledor de sol
Con el molino vertiginoso
De la hélice,
Para hacer pan de luz.

Abanicador del cíelo.
Horador del aire.
Asombro de los pájaros.

Envidia de los árboles
Que tienden, por las dudas,
Sus ramas.

Moledor de sol,
Punching-ball de los vientos,
Azotador de nubes,
Alisador de miedos.

Tu cabeza, aviador,
Es el punto necessário
Para la i latina de tu avión.

§

POEMA AVIÔNICO DO TÉRMINO DE RAID

Aterrizo com extrema força,
Os hangares em prontidão.
Cheiro de gasolina de carícia queimada.
E, em seguida, silenciador de beijos.

Ah, a áspera dinâmica
de querer-te em mecânica!

Loura maquinaria,
com tantos quilômetros de ação
dentro do território da ternura.

Viajo só.
“Águia solitária.”
sobre o mar de teus sentimentos.
Desejos de aquatizar…
mas estas rodas!

A imantação de teus desejos
torce os lemes de profundidade.

Vôo tão rasante
que necessito mais de rodas
que de asas.

POEMA AVIóNICO DEL TÉRMINO DE RAID

Aterrizo con demasiada fuerza.
Hay premura en los hangares.
Olor a nafta de caricia quemada.
Y, en seguida, silenciador de besos.

¡Ah, la dinámica áspera
de quererte en mecánica!

Maquinita rubia,
con tantos kilómetros de acción
dentro del territorio de la ternura.

Viajo solo.
«Águila solitaria»
sobre el mar de tus sentimientos.
Deseos de acuatizar…
¡pero estas ruedas!

La imantación de tus deseos
vuelca los timones de profundida,

Vuelo tan bajo
que necesito más las ruedas
que las alas.

 

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