poesia, tradução

Abraham Sutzkever (1913-2010), por Luciano Ramos Mendes

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In khuter: um poema de Abraham Sutzkever em português

por Luciano Ramos Mendes

Abraham Sutzkever foi um dos mais importantes poetas de língua iídiche do século XX. Sua vida confunde-se, em muitos momentos, com a experiência judaica da Europa Centro-Oriental: Nascido a 15 de julho de 1913, em Smorgon (na época parte do Império Russo, hoje Bielorússia), sua família fugiu para a Sibéria durante a Primeira Guerra Mundial, após os judeus da cidade serem acusados pelo governo russo de serem espiões alemães. Lá Sutzkever passaria sua infância, brincando com as crianças quirguizes. Em 1922, o pai de Sutzkever falece de um ataque cardíaco, e a mãe e três filhos voltam para o que agora era a Polônia independente. Smorgon estava em ruínas, a família acaba indo para Shnipeshok, um subúrbio proletário de Vilna.

Três anos depois, em 1925, a irmã de Abraham, Etl Sutzkever – também poeta – morre de meningite. Dentro em breve, seu irmão, Moyshe, iria para Paris para estudar. Abraham e sua mãe, então, mudariam-se para uma casa menor, onde, para combater a solidão, o menino começa a organizar performances dramáticas e monta uma pequena biblioteca para as crianças da vizinhança.

Apesar de existirem várias escolas de língua iídiche na cidade, Sutzkever não frequentou nenhuma delas: sofria de dores de cabeça constantes, o que levou sua mãe a contratar um professor particular, para que recebesse aulas em casa. Mais tarde, ele frequentaria a Talmud-Torah – uma espécie de escola primária judaica para garotos pobres, com aulas de hebraico, estudos bíblicos e sobre a lei religiosa  –   e, depois, o colégio Polonês-Hebraico. Ainda bastante novo, aos 13 anos, e ignorando a cultura literária e secular de língua iídiche, Sutzkever escreve seus primeiros poemas em hebraico. O ambiente cultural de língua iídiche que prevalecia em Vilna, no entanto, não deixaria que esse desconhecimento se prolongasse e logo o jovem poeta estudaria com afinco tanto os clássicos quanto o que havia de mais moderno na literatura iídiche, e assumiria o idioma como língua de sua produção poética. Pouco depois ele lançaria seus poemas em hebraico ao fogo, em uma espécie de rito de passagem que marcaria o início de sua relação com a arte como um chamado proto-religios (CAMMY, 1996, p. 305).

Os anos 1930 serão seminais para a vida e carreira do poeta. Estreitam-se seus laços com Freydke Levitan, uma jovem estudiosa da língua e literatura iídiche que tornaria-se bibliotecária do Yidish Visnshaftlekher Institut (YIVO, o Instituto Científico Judaico) – e com quem Sutzkever casar-se-ia um dia antes do início da Segunda Guerra Mundial. Em 1930, também, ele uniria-se ao Bin (A Abelha)– uma organização escoteira iídiche de tendências folquistas-socialistas. Em 1932, num livro de canções do Bin, que seu primeiro poema foi publicado.

Ainda nessa época, Sutzkever travaria amizade com Leyzer Volf, seu vizinho e poeta iídiche expressionista, que utilizava elementos da sátira e do grotesco. Foi Volf que, pela primeira vez, incentivou Sutzkever a tentar tornar-se membro do Yung Vilne (Jovem Vilna), um grupo artístico e poético de vanguarda, que reunia alguns dos mais importantes nomes da poesia iídiche da época. Seria, no entanto, rejeitado por sua poesia esteticamente complexa, sobre a natureza, e dúvidas quanto a orientação política do grupo.

Em 1934, publica alguns poemas em revistas literárias de Varsóvia e Vilna e é, finalmente, aceito no Yung Vilne. Ainda assim, porém, seus colegas o enxergam com certa reserva, pois sua poesia celebrava a natureza, ao apontava uma uma revolução da arte, mais do que da sociedade. Em 1935, publica seus primeiros poemas na revista do grupo, e começa também a publicar em revistas como Haynt (Hoje), de Varsóvia, e In zikh (Em si), do grupo avant-garde norte-americano Inzikh (introspectivismo). Tudo isso tornaria Sutzkever famoso nos círculos iidichistas de todo o mundo.

Em 1939, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, publica seu segundo livro, Valdiks, e se casa com Freydke. Com a invasão alemã da Lituânia, acaba aprisionado e é mandado ao Gueto de Vilna, onde perdeu sua mãe e um filho recém-nascido. Poucos dias antes da liquidação do gueto ele foge com sua esposa, une-se aos partisans e é resgatado pelo Comite Judaico de Luta Antifacista da URSS, sob as ordens de Iliyá Ehrenburg. Depois da guerra testemunhou em Nuremberg e, com ajuda de Golda Meir, acabou migrando para o que viria a tornar-se o Estado de Israel. Lá ele viveu até o fim de seus dias, escrevendo em iídiche e editando a di goldene keyt (A corrente dourada), uma das mais importantes revistas literárias de língua iídiche da história, que foi publicada ao longo de 46 anos (entre 1949 e 1995).

Apresento aqui um poema de Sutzkever, em tradução comentada para a língua portuguesa. É a primeira vez que tais versos são apresentados em nosso idioma.

In khuter

O poema in khuter é a primeira parte de sibir, um longo poeme – termo em iídiche utilizado para designar obras longas e de natureza narrativa. A temática de sibir é a infância do poeta, na sibéria, mas também a criatividade e o processo de criação poética (VALENCIA, 1991).

O poema é altamente descritivo e é bastante demonstrativo de algumas das características que costumeiramente se creditam à fase inicial da obra de Sutzkever, a saber: a exatidão formal, a admiração pela natureza e o predomínio do estético sobre o ético. É um poema carregado de nostalgia por um mundo perdido e mágico, em que a criança que tornaria-se poeta, habita.

São três partes, cada uma delas com uma única estrofe de doze versos de rimas alternadas. Todos os versos são pentameros trocaicos, sendo que os versos ímpares possuem cinco pés trocaicos perfeitos e os versos pares sofrem a queda da última sílaba do último pé, ficando com rimas masculinas. Demonstro com o primeiro trecho:

ZUN/far/ GANG/ oyf/ AY/zik/ BLO/e/ VEG/n.
ZI/se/ DREM/l/ FARB/n/ IN/ ge/MIT.
S’LAYKHT/ fun/ TOL/ a/ SHTI/be/LE ant/KEG/n
MIT/ a/ SHNEY/ fun/ ZUN/far/GANG/ ba/SHIT
VUN/der/VEL/der/ HOY/den/ ZIKH/ oyf/ SHOYB/n,
TSOY/ber-SHLIT/ns/ KLIN/gen IN/ a/ KRAYZ.
OYF/n/ PITS/l/ BOY/dem/ VOR/ken/ TOYB/n,
VOR/ken/ OYS/ mayn/ PO/nem/ UN/ter/ AYZ,
DURKH/geshTRAYFT/ mit/ BLI/tsi/KE/ krish/TOL/n
TSAP/lt/ DER/ ir/TISH/ in/ HAL/ber/ VOR.
UN/ter/ OYS/gesh/VI/ge/NE/ ku/POL/n
BLIT/ a/ VELT/ – a/ KIND/ fun/ ZIB/n/ YOR.

Parece-me importante ressaltar algumas especificidades da metrificação do iídiche. As consoantes ‘l’ e ‘n’, em muitos casos, podem assumir valor de vogal, funcionando como núcleo silábico. Muitas palavras, especialmente quando são compostas não apenas por uma raiz, mas também por um sufixo ou prefixo, vão apresentar acentos secundários, como é o caso de ‘shtibele’, em que a raiz ‘shtub’ (casa, moradia’) recebe a terminação do diminutivo -le. Além da alternância vocálica (u->i), essa terminação também força um acento secundário sobre si – o acento primário fica em ‘shti’. As preposições e artigos, como ‘oyf’ e ‘in’, podem ou não ser acentuadas, dependendo basicamente da tonicidade das palavras que as acompanham e do intento do falante (JACOBS, 2009).

Na tradução procurei manter as imagens utilizadas por Sutzkever – que são importantes não apenas nesse poema, pois se tornam recorrentes em grande parte de sua obra – e encontrar uma forma satisfatória, que fosse rígida mas, ainda assim, mantivesse a musicalidade do poema em iídiche. Acabei por utilizar versos dodecassílabos, sem, no entanto, obedecer a métrica estrita dos alexandrinos clássicos – a décima segunda sílaba é, naturalmente acentuada, mas as outras tônicas variam ligeiramente ao longo dos versos. Mantive as rimas alternadas sem, no entanto, a alternância entre rimas masculinas e femininas.

Num lugarejo

1.
O por-do-Sol numa estrada da cor do gelo.
Doces colorações oníricas em tu’alma.
Uma choça cintila no vale tão belo
brilha no crepúsculo com hibernal calma.
Lenha-maravilha que pende das janelas,
trenós mágicos ressoam incansavelmente.
No ático turturinam as pombas singelas,
cantam em minha face. Gelo transparente
atravessado pelo brilho cristalino
o Irtich semi-real, serpenteante rio invernal.
Debaixo dum domo de silente fascínio
uma criança conhece o mundo primordial.

2.
No claro-escuro do vilarejo enevoado,
lá donde foi minha infância, na Sibéria,
das pupilas-de-sombra flores hão floreado,
infinitas flores de mercúria matéria.
Pelas frestas de ângulos gastos e pálidos
a lua sopra em nós seu hálito radiante.
Meu pai, branco como a lua, semblante cálido
em suas mãos – um níveo silêncio congelante.
Ele corta o pão preto com iluminada
faca piedosa. Seu rosto torna azulino.
Eu, agora com ideia recém-cortada
dou ao pão de meu pai um manto salino.

3.
A faca. Papai. Uma tocha fumarenta.
Infância. Criança. A sombra pega o violino
da parede. Sobre mia cabeça rebenta
o som da neve, fino, cada vez mais fino.
Silêncio. O pai está tocando. E no vento
ele inscreve sua música. Como o prateado
espelho, pende cianótico alento
por todo lado, na neve luar esmaltado.
Por detrás da janela de gelo vestida
um lobo fareja a carne musical.
Silêncio. Bica uma pomba recém-nascida,
rompe a casca de ovo, em nosso pombal.

 

אין כוטער

א
זונפארגאנג אויף אײזיק בלאע וועגן
זיסע דרעמלפארבן אין געמיט
ס׳לײכט פון טאל א שטיבעלע אנטקעגן
מיט א שניי פון זונפארגאנג באשיט
וווּ נדערוועלדער הוידען זיך אויף שויבן
צויבער־שליטנס קלינגען אין א קרײז
אויפן פיצל בוידעם ווארקען טויבן
ווארקען אויס מײן פנים. אונטער אײז
דורכגעשטרײפט מיט בליציקע קרישטאלן
צאפלט דער אירטיש אין האלבער וואר
אונטער אויסגעשוויגענע קופאלן
בליט א וועלט – א קינד פון זיבן יאר

ב
אינעם ליכטיק־טונקעלן, פארשנייטן
כוטער פון מײן קינדהייט אין סיביר
בליען פון די שאטן־אפלען – קווייטן
קוועקזילבערנע קווייטן אן א שיעור
אין די ווינקלען אפגעלאשן מאטע
בלאזט ארײן לבנה איר געבלענד
ווײס ווי די לבנה איז דער טאטע
שטילקייט פונעם שניי – אויף זײנע הענט
ער צעשנײדט דאס שווארצע ברויט מיט בלאנקן
רחמימדיקן מעסער. ס׳פנים בלויט
און מיט נײ צעשניטענע געדאנקען
טונק איך אינעם זאלץ דעם טאטנס ברויט

ג
מעסער. טאַטע. רויכיקע לוטשינע
קינדהייט. קינד. אַ שאָטן נעמט אַראָפּ
ס׳פֿידעלע פֿון וואַנט. און דין־דין־דינע
שנייענקלאַנגען פֿאַלן אויף מײַן קאָפּ
-שטיל. דאָס שפּילט דער טאַטע. און די קלאַנגען
אויסגראַווירט אין לופֿטן, ווי אין פֿראָסט
זילבערלעך פֿון אָטעם בלאָ צעהאַנגען
איבער שניי לבֿנהדיק באַגלאָזט
דורך אַן אײַזיק אָנגעפּעלצטן שײַבל
שמעקט אַ וואָלף צום פֿלייש פֿון דער מוזי
שטיל. אין אונדזער טויבנשלאַק אַ טײַבל
.פּיקט זיך פֿון אַן אייעלע, פּיק־פּיק

REFERÊNCIAS:

CAMMY, Justin Daniel. Abraham Sutzkever (Avrom Sutzkever). In: SHERMAN, Joseph (Ed.). Writers in Yiddish. Columbia: Bruccoli Clark Layman Publishing, 1996. p. 303-313. (Dictionary of Literary Biography).
GOLDSMITH, Emanuel S. The poetry of beauty and jewish eternity. In: SUTZKEVER, Abraham. Laughter Beneath the Forest: poems from old an recent notebooks. Hoboken: Ktav Publishing House, 1996. p. 11-19. Tradução do iídiche de Barnet Zumoff.

HARSHAV, Benjamin. Sutzkever: Life and Poetry. In: SUTZKEVER, Abraham. Selected poetry and prose. Berkeley: University Of California Press, 1991. p. 3-32. (1991). Tradução do iídiche por Barbara e Benjamin Harshav.
JACOBS, Neil G.. Yiddish: a linguistic introduction. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. 348 p.

KAC, Daniel. Wilno Jerozolimą było: Rzecz o Abrahamie Sutzkeverze. Sejny: Fundacja Pogranicze, 2003. 397 p. (Ex oriente).

LITVINE, Mordkhe. Der driter period in Avrom Sutzkevers poezie. In: DOV, Sadan. Yikhes fun lid lekoved Avraham Sutzkever. Tel Aviv: Yoivl Komitet, 1983. p. 122-146.

SUTZKEVER, Abraham. Sibir: poeme. Jerusalem: Yerusholaim, 1951. 42 p. Ilustrações de Marc Chagall.

VALENCIA, Heather M. ‘Bashtendikayt’ and ‘banayung’: themes and imagery in the early poetry of Abraham Sutzkever. 1991. 236 f. Tese (Doutorado) – Curso de Literaturas e Línguas Estrangeiras, Germanística, Universidade de Stirling, Stirling, 1991.

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