poesia, tradução

Um poema de Robert Creeley por Thiago Ponce de Moraes

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Robert Creeley foi um poeta e professor universitário estadunidense nascido em 1926, amplamente reconhecido por sua associação ao grupo chamado Black Mountain Poets, que gerou grande impacto sobre as gerações e movimentos de poesia posteriores, a exemplo da Geração Beat e do movimento L=A=N=G=U=A=G=E. Apesar de seu grande alcance junto aos poetas e leitores, Creeley nunca ganhou prêmios e por muito tempo teve sua obra diminuída pelos críticos – que a consideravam simplória por conta dos jogos de linguagem “primitivos”.

Enquanto editor da Black Mountain Review, Creeley desenvolveu um diálogo muito próximo com o também poeta e então reitor do Black Mountain College – universidade experimental da Carolina do Norte –, Charles Olson. Juntos, desenvolveram o conceito de “verso projetivo”, em que se propunha abandonar as formas tradicionais em favor de um verso construído livremente ao longo do processo de composição. Um dos princípios básicos desse conceito é o de que “a forma não é mais que uma extensão do conteúdo”.

Robert Creeley publicou diversos livros de poesia, com destaque para o livro de estreia For Love (1962), além dos livros Words (1965), Mirrors (1983) e Life & Death (1994), entre outros. Creeley também publicou um romance e alguns volumes de prosa, bem como livros de ensaios.

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Thiago Ponce de Moraes é poeta e tradutor. Publicou os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006) e De gestos lassos ou nenhuns (Lumme Editor, 2010), além do livro de ensaios Remos e Versões (Multifoco, 2012) e Agora sim… talvez seja eu e mais alguém: específica experiência da leitura de Paul Celan e Ricardo Reis (NEA, 2014). Faz parte do Conselho Editorial da Revista de Poesia e Debates – Zunái e foi editor da Revista Confraria de Literatura e Arte. Atualmente, é doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Prepara, em lento progresso, seu terceiro volume de poemas: Dobres sobre a luz. No ano de 2015, participa de dois festivais: 31º Festival Internacional de Poesia de Tróis-Rivières (Canadá) e XX Encontro Internacional de Escritores (México).

* * *

MUDADO
           para Bobbie

Você mesmo entrou na sala ontem
e não era você. Seu modo de
estar aqui não é o modo de outro.
É tudo o mesmo talvez a esmo,
e a mesma coisa velha não é você.
Todas as negativas na existência
do mesmo modo não mudam nada.

As pessoas me contam histórias tristes às vezes,
e eu trato de contá-las de volta a elas.

Venha pra casa. É onde você está de todo modo.
De todo modo eu queria que você não estivesse em casa.
Onde é casa de todo modo sem mim.

Esse lugar poderia ser embrulhado
e acomodado. Alguém
poderia avisar às assim chamadas pessoas.

Eu queria que eu pudesse falar com as pessoas
sem me mudar. Casa,
onde quer que seja, é onde o coração está.

Eu não quero falar com as pessoas,
onde o coração está. É casa
Você e eu a falar por horas.

Por horas eu não pensei em você
E então pensei e não pude mudar.

Seu aniversário é aqui
sem você, aquele dia em que
você nasceu para estar aqui.

O dia mais adorável em que vi você
comprar seu primeiro carro
com uma presença de espírito adorável.

Não funciona sem você.
Eu sim, isso não. Engraçado
ou não, não é bom.

Estarei em casa, de todos os modos –
você que diz. Vou colocar um laço
nisso. Você é meu amor.

Atravesse o meu sopro, carente,
carente, pra chegar em casa novamente.
Um tipo de estrada estranha
presa no meio.

O que mais quer que isso seja,
o amor é o meio
com você e eu
bem no meio.

O meio da meia-noite
é o tempo que é,
duas horas mais cedo que você,
e eu indo a lugar algum.

Só o mesmo tempo,
seu aniversário. Você e eu
ao mesmo tempo no
mesmo lugar, imutáveis.

AWAY
for Bobbie

Yourself walked in the room tonight
and it wasn’t you. Your way of
being here isn’t another’s way.
It’s all the same somewhere maybe,
and the same old thing isn’t you.
All the negatives in existence
don’t change anything anyway.

The people tell me a sad story sometimes,
and I tend to tell it back to them.

Come home. It’s where you are anyway.
Anyway I wish you weren’t home.
Where is home anyway without me.

This place could be rolled up
and put away. Somebody
could warn the so-called people.

I wish I could talk to the people
without going away. Home,
wherever, is where the heart is.

I don’t want to talk to the people,
where the heart is. It’s home
you and me talk for hours.

For hours I didn’t think of you
and then I did and can’t stop.

Your birthday is here
without you, that day
you were born to be here.

The loveliest day I saw you
buying your first car
with such a lovely presence of mind.

It doesn’t work without you.
I do, it doesn’t. Funny
or not, it’s no good.

I’ll be home, all ways–
you name it. I’ll put a ribbon
on it. You’re my love.

Cross in my wind, wanting,
wanting, to get home again.
A kind of weird road
stuck in the middle.

Whatever else it is,
love is the middle
with you and me
right in the middle.

The middle of midnight
is what time it is,
two hours earlier than you,
and me going nowhere.

Only the same time,
your birthday. You and me
at the same time in
the same place, always.

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Um comentário sobre “Um poema de Robert Creeley por Thiago Ponce de Moraes

  1. a versão que eu tenho usa uma bola preta entre as estrofes, o que aumenta, pelo menos para mim, a sensação de algo fragmentário e para ser lido solto, cada estrofe como um poema.

    que delícia ler traduzido um dos textos que mais gosto!

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